O telemóvel é encostado às grades da escola, voltado para as três alunas. Uma delas carrega no botão vermelho no ecrã para começar o vídeo e afasta-se, colocando-se no meio das amigas. Sem trocarem uma palavra, começam a dançar, em sintonia. A gravação, para o TikTok, só dura uns segundos, mas não é aprovada à primeira pelo grupo. É repetida e aperfeiçoada. Passa pouco das 13h30 de quinta-feira e os estudantes das turmas da manhã da António Damásio, em Lisboa, vão-se cruzando à saída com os colegas da tarde, que chegam para mais um dia de aulas. Antes de cruzarem o portão, têm de guardar os smartphones. Por decisão do Governo, alunos até ao 3.º ciclo estão proibidos de os usar nos espaços escolares. Mas este agrupamento foi mais além. A medida também abrange os alunos do secundário e pelo segundo ano consecutivo.
Tudo começou com um teste de três meses na escola dos Olivais, em 2024, meses antes de o Governo aprovar em Conselho de Ministros a recomendação da proibição do uso e da entrada de telemóveis nas escolas para o 1.º e 2.º ciclos. No final do último período de aulas, a direção do agrupamento António Damásio decidiu proibir a sua utilização a todos os 1.800 alunos, do 7.º ao 12.º ano. A medida gerou desconforto entre alunos e alguns esperavam que fosse apenas uma experiência provisória.
“Pelo menos eu e a minha turma na altura não pensávamos que seria assim uma coisa que vinha definitivamente. Tipo, apareceu, pronto, pode ser uma experiência”, recorda Vasco, de uma das turmas de 11.º ano de Economia. Mas depois das férias de verão o teste alargou-se por todo o ano letivo. Numa altura em que a proibição só está prevista por lei até ao 3.º ciclo, e só a começar a partir de 1 de janeiro de 2027, é já definitiva para todos os estudantes do agrupamento.
Governo recomenda proibição do uso e entrada de telemóveis em escolas do 1.º e 2.º ciclos
A mudança foi implementada depois de seis meses de recolha de inquéritos para ouvir alunos, pais, professores e assistentes operacionais, explica o diretor Alberto Veronesi. Depois chegaram os primeiros meses de teste e, com eles, um “burburinho”, “sobretudo entre os alunos do secundário”. “Quando no ano a seguir, 2025/2026, as regras entraram mesmo em vigor, as coisas pacificaram totalmente”, refere.
A comunidade escolar rapidamente começou a notar diferenças, principalmente na socialização entre os estudantes. “Eu entrei em 2024 e via-os todos sentados em modo corcunda nos telemóveis e agora isso não se vê. Veem-se os miúdos a jogar às cartas, têm outro tipo de convívios que não havia quando eu cheguei aqui”, descreve o responsável.
As mudanças convenceram até quem estava mais reticente com a proposta. “Eu era uma das pessoas que não achava esta ideia tão boa assim, porque pensei na minha cabeça: ‘Adolescentes vão tentar contrariar esta regra porque é típico de um adolescente'”, reconhece a professora Susana Pedro.
Alguns alunos ouvidos pelo Observador ainda estranham as medidas, propondo outras mais ligeiras pelo menos no caso das turmas do secundário. Outros aceitam com tranquilidade e antecipam que o caminho é universalizar a regra a todas as escolas.
Do “choque” inicial à aceitação. “Às vezes sentimos falta, mas pronto, habituamo-nos”
Os cartazes estão espalhados por toda a escola. “Respeite o ambiente escolar. É proibido o uso de telemóveis”, lê-se. Mais abaixo um aviso sobre as consequências de não obedecer: “O não cumprimento resultará na apreensão do aparelho”. Não há um aluno que desconheça as regras, depois de mais de um mês de aulas. No entanto, há alguns que ainda entram de smartphone na mão. Parece mais a força do hábito, já que os ecrãs vêm desligados.
“Às vezes ainda sentimos falta, mas pronto, habituamo-nos”, reconhece Miguel, do 9.º, o último ano que, por lei, está proibido de usar telemóveis nos espaços escolares. O aluno admite que, por vezes, lá espreitam para os ecrãs quando ninguém está a olhar, mas que isso está a tornar-se mais raro.
Vindo de uma escola privada onde os smartphones eram proibidos até ao 2.º ciclo, Miguel esperava uma maior liberdade quando chegou à Escola António Damásio. Só durou um ano. Depois veio a proibição geral. “Eu acho que foi desconfortável, especialmente para aqueles que não têm tanta facilidade em socializar e que o telemóvel acabava um bocado por ser um refúgio”, completa João, colega de turma que veio da mesma escola.
Para Pedro, do 11.º ano de Economia, foi também um choque. “Não vou mentir que não. Claro que senti um bocado de revolta, mas depois por certa parte também percebi que era para o bem dos alunos que o diretor fez isto, porque ele sentiu que as pessoas andavam tão agarradas aos telemóveis e que não socializavam”, começa por dizer. “As pessoas ficavam muito isoladas e depois não comunicavam. E acho que é bom falarmos com as pessoas, discutirmos as ideias, argumentos, e não estar só agarrado a um ecrã”, sublinha.
Afonso estava no 10.º ano quando a escola começou a testar a proibição de telemóveis. Recorda que antes disso muitos colegas “nem sequer iam comer” por estarem vidrados nos ecrãs. “Logo quando foi a proibição havia bué malta que não entrou mesmo na cabeça. Havia malta que continuava a pegar no telemóvel, até começarmos a ter medidas mais fortes para que isso não acontecesse. Mas até haver essas medidas, a malta nem ligava a essa regra“, relata o estudante, já no último ano da escola.
▲ Cartazes como este estão espalhados pela diferentes divisões da escola.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
“Uns amigos meus, assim que viviam mais do mundo dos telemóveis, não aceitaram tão bem, mas depois foi tranquilo”, explica também Guilherme. O aluno do 10.º ano de Ciências e Tecnologias garante que na maior parte do tempo não sente falta. “Este ano entrou muita gente que eu conheço, muita gente nova e quase que nem temos tempo para pegar no telemóvel, nem para pensar nisso”. Ainda assim, para mensagens mais urgentes, tem uma alternativa, diz, apontando para o smartwatch no pulso esquerdo. “Tenho o relógio e consigo ver aqui as mensagens, mas não incomoda muito não ter o telemóvel”.
Quando, ao final das aulas, voltam a cruzar os portões da escola a tentação torna-se maior. “O primeiro instinto de chegar lá fora é sair do meio da confusão e responder às mensagens. Se forem coisas urgentes, claro, senão também não é por aí”, ressalva Afonso.
O aluno estima que, num dia de semana normal, passa cerca de sete horas ao telemóvel. “Eish, puto, eu passo tipo três horas ou três horas e meia”, interrompe Salvador, do 5.º ano. “Mas eu tenho coisas para tratar da lista e da viagem de finalistas. Estou à frente disso, acabo sempre por passar um bocado mais tempo”, justifica. A maior parte dos estudantes ouvidos pelo Observador fala numa média de tempo de ecrã de duas a sete horas, sendo os valores mais elevados ao fim de semana.
E se dependesse dos alunos? “Se calhar voltaria atrás, mas impunha algumas regras”
As regras são simples: quem for apanhado a usar o telemóvel fica sem ele até ao final do dia. Dina Cruz, assistente operacional na António Damásio desde 2021, prefere dar sempre um primeiro aviso. “Eu tento dizer: ‘Não quero o telemóvel’. Eles pedem desculpa e guardam-no”. Mas se voltam a incumprir, é tempo de os confiscar.
Esta quinta-feira a funcionária ainda não teve de apreender nenhum telemóvel. Durante a manhã e início da tarde, outra colega retirou os smartphones a dois alunos — um dos quais já foi devolvido —, num total de 1.800. Os smartphones foram guardados na sala dos professores, numa caixa com espaço para 36 apreensões. Ao lado está o dossiê com as folhas onde é escrito o nome e turma dos alunos quando entregam os equipamentos. As primeiras páginas do ano estão mais preenchidas, fruto do esquecimento durante as férias de verão. Requer sempre uma reaprendizagem no novo ano escolar, enquadram os docentes.
▲ Quando os smartphones são apreendidos ficam nesta caixa que tem espaço para 36 equipamentos em simultâneo.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
A docente de Educação Especial e coordenadora da Equipa Multidisciplinar de Apoio à Educação Inclusiva (EMAEI) recorda que foi uma adaptação difícil para muitos alunos. “O telemóvel ocupava o lugar do amigo. Ter que criar relações e gerir tudo o que compõe gerir uma amizade foi também uma aprendizagem”, aponta. Mas, mais do que desagrado, começou a ver sinais positivos. “O ano passado ainda havia muitos que iam ao bolso. Neste momento — só começámos há um mês — parece que se interiorizou”. Agora jogam ao jogo dos países, vão buscar jogos de tabuleiro, uma bola de vólei ou de basket. “Vejo muito o puro prazer de estarem a conversar com os amigos. É como se diz: ‘Primeiro estranha-se, mas depois entranha-se’. E eu acho que os miúdos tiveram de estranhar”.
Se muitos alunos parecem aceitar com tranquilidade a proibição, as opiniões dividem-se sobre se as regras são necessárias, especialmente para as turmas do secundário. “Eu acho que, por certa parte, a escola tem uma boa ideia, mas acho que não devia ser tanto para todos os anos. No secundário estamos mais velhos, já temos mais cuidado”, diz Pedro, do 11.º ano, acrescentando que é útil para situações de emergência ou em que precisem de falar com os pais. “Acho que o telemóvel não é o ponto principal que nós devemos ter na escola, como é óbvio. Mas também é muito importante, é o nosso meio de comunicar com as nossas famílias”.
Vasco, da mesma turma, pensa da mesma maneira. “Do 10.º para cima, diria que já não era tão necessário. Acabamos por crescer um bocadinho também para não termos aquela necessidade de estar ao telemóvel 24 horas por dia”. “Não acho que a regra seja uma má regra, só que podia haver … também não vou dizer exceções, mas outras possibilidades“.
▲ Na escola António Damásio a medida de proibição também abrange os alunos do secundário.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
João reconhece que, se depende de si, voltaria atrás, pelo menos no que toca às turmas do secundário. Nota que muitas vezes a fila de alunos para telefonar aos pais na receção da escola se alonga. Acredita que “em alguns momentos o telemóvel acaba por ser necessário, mas tem que haver regras”.
Já Afonso concorda totalmente com a proibição. Por um lado, pelas mudanças que foi notando em muitos colegas. “Foi essencial para que os miúdos aproveitem mais o tempo que têm e, pronto, tenham aquela essência do que é a escola. Não é só aprender, é também conviver, fazer amigos, correr, gastar energia”, diz. Por outro lado, considera que é também uma questão de igualdade entre alunos. “Acho que ia ser muito mais tentador do que já é se uns pudessem usar e outros não”. Todos concordam, no entanto, que é uma medida que veio para ficar: “Vai ser muito difícil de reverter”.
Questionado pelo Observador sobre o número de instituições de ensino com medidas sobre o uso de telemóveis, o Ministério da Educação remete para um estudo de 2025 do Centro de Planeamento e Avaliação de Políticas Públicas. O PLANAPP destacava que mesmo antes das recomendações do Governo para regulação dos telemóveis já existia uma “proporção considerável” de agrupamentos com políticas formais, superior a 40% em todos os ciclos de ensino analisados. Depois disso verificou-se um aumento, com 62,8% e 77,7% dos agrupamentos e não agrupamentos dos diferentes ciclos. Estas medidas continuaram a ser menos comuns no ensino secundário. Segundo os dados, apenas 7,6% das escolas tinham implementada a proibição do uso de telemóveis no recinto escolar, enquanto 14,7% tinham medidas para uma utilização condicionada.
O diretor, Alberto Veronesi, acredita que em breve a proibição vai ser obrigatória em todos os ciclos das escolas do país. “Até vendo aquilo que é a evidência no estrangeiro, o que fazem nomeadamente os países nórdicos, percebemos que esse poderá também ser aqui o caminho, e parece-me que tem de ser”, destaca.
Para Susana Pedro os sinais positivos que já estão a ver são apenas o começo e os principais frutos ainda estão para vir, principalmente na relação com o outro, “que tem que ser conquistada e trabalhada todos os dias”. “Os nossos alunos vão conseguir aprender a gerir os seus conflitos, porque não há ninguém para intermediar, e vão conseguir aprender a ouvir o outro, a respeitar e também a dar a sua opinião.”
[Duarte Lima chega ao Brasil 45 horas antes de Rosalina Ribeiro ser assassinada. Tinha encontro marcado com a milionária no Rio de Janeiro mas aterra em Belo Horizonte. Na reconstituição dos movimentos dele, a polícia percebe que o advogado nunca usou o telemóvel pessoal no Brasil. Mas foram detetados contactos a partir de dois telefones portugueses e um suiço. Um deles liga várias vezes para a casa da milionária. Já pode ouvir o terceiro episódio de “As Sombras de Duarte Lima”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]