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Bem-vindos ao Nota 20, esta semana dedicado ao ensino profissional. Olá, professor Nuno Crato.
Piva, como está?
Daqui a instantes vamos conversar com a Isabel Hormigo, coordenadora do programa Ser Pro, da Iniciativa Educação. Mas antes vamos olhar para os resultados da sondagem. A pergunta que colocamos na última semana na rede social Twitter foi a seguinte: qual a vantagem do ensino profissional? As opções eram as seguintes: a formação é mais prática ou obter certificação profissional. 73,5% das pessoas que responderam, disseram que a formação é mais prática. Professor Nuno Crato, ficou surpreendido com o resultado da sondagem ou nem por isso?
Não, não fiquei surpreendido, mas percebe-se que a maioria das pessoas acha que a formação é mais prática, portanto, naturalmente pensam com isso, mais adaptada às necessidades de trabalho futuro dos jovens. Mas também é verdade que ela fornece uma certificação profissional. Os jovens que tiram um curso profissional, no fim desse curso, têm não só o diploma do 12º ano, como também uma certificação profissional, que lhes dá acesso imediato a um local de trabalho.
Como dizia no início deste programa, o ensino profissional é o tema do Nota 20 desta semana. A nossa convidada, Isabel Hormigo, coordenadora do programa Ser Pro, da Iniciativa Educação, um programa criado para desenvolver o ensino profissional através do diálogo entre empresas, poder local, escolas e comunidade. A Isabel Hormigo é professora de Matemática, começou a lecionar ainda a licenciatura e amei, e nasceu logo ali uma paixão. Isabel Hormigo, obrigado, antes de mais.
Obrigada eu.
Por se ter juntado a nós no Nota 20 esta semana. Começava por lhe perguntar por que ainda não atingimos a meta de ter metade dos alunos portugueses no ensino profissional?
Talvez porque exista o estigma no ensino profissional. E talvez a resposta esteja em perguntas que às vezes fazem para fazer estudos. Do universo dos alunos que pretendem ir para o profissional, 54% não vão. Por isso paira que o ensino científico-humanístico dá melhores oportunidades, o que pode ser um equívoco.
E esse estigma acontece por quê? Existe por quê?
Porque em Portugal vivemos que as grandes carreiras se fazem no ensino superior, o que talvez seja um erro. Se os alunos, e a propósito até da sondagem, 73,5% respondem que gostam do ensino prático, mais prático. E com certeza existe a noção correta, porque na parte técnica, qualquer indivíduo para trabalhar precisa de ter alguma experiência prática. E quem vê ou quem pensa ir rapidamente para o mundo do trabalho, talvez esta seja uma experiência válida e que os alunos podem ficar com melhor experiência e melhor formação para começar a entrar no mundo do trabalho.
Isabel Hormigo, o facto de Portugal ser um país com uma economia muito dependente dos serviços, ao contrário de outros países, como por exemplo, Alemanha ou Áustria, ou países até muito mais industrializados, poderá explicar o facto de ainda não haver consciencialização para a existência do ensino profissional como uma opção válida para os jovens portugueses?
Vamos devagar. Mas eu acho que quanto mais se souber e existirem programas destes em que se comece a falar neste assunto, talvez, isso chame a atenção. Por exemplo, países muito mais ricos do que nós, que apostam muito mais do que nós no ensino profissional, se se começa a ver algum resultado, talvez exista algum progresso. O exemplo da Suíça, que 2/3 dos alunos tiram o ensino profissional e consideram que isso os põe à frente até dos licenciados, porque têm três anos de avanço de experiência prática. Pronto, quanto mais se souber sobre este assunto e se despertar os alunos para isto, melhor.
Isso é uma realidade que se verifica já em Portugal ou não?
De quê?
De os alunos do ensino profissional já terem vantagem sobre os restantes alunos que seguem para o ensino superior.
Talvez não. Se existisse essa noção, os outros 44%, ou os 54% que não vão, iriam, daquele universo dos alunos que preferem o profissional, que têm a noção que lhes dá alguma prática. Mas isso também depende da vocação.
Peço desculpa interromper. Deve depender também das empresas. Deve haver empresas que estão mais despertas para este tipo de necessidades e que podem recorrer mais a alunos que têm uma formação de ensino profissional, desde que essa formação corresponda àquilo que a empresa necessita.
Sim. Nos estudos que se fazem no âmbito até do desemprego jovem, indica-se que 30% das empresas têm vagas e não conseguem empregar ou encontrar perfis adequados praquela área profissional. E também que a noção que as empresas têm e as escolas, não é a mesma. Pensam que 85% das escolas acreditam que a formação é boa e as empresas dizem que não, que apenas 30% referem que essa formação atualmente é correta. Isso há aqui ainda um desencontro entre aquilo que é necessário para combater o desemprego e para sermos mais prósperos na economia.
O que está a dizer é que o mercado, a economia, as empresas, querem alunos formados no ensino profissional.
Sim. Algumas preferem alunos mais jovens e até os incentivam, depois de os empregar, a subir na carreira, sabendo mais, por isso frequentando e tirando uma licenciatura. Por isso, muitas vezes, este ensino faz uma orientação adequada, porque existem os que têm a ambição de ir para o ensino superior logo, imediatamente. Não sei se têm todos eles a noção que este é um percurso em que também mais tarde podem ir, mas aqueles que vão para o ensino profissional muitas vezes não têm a ambição de ir para o ensino superior e depois é a própria empresa que os incentiva a prosseguir.
O mercado português nesta altura tem déficit de profissionais em que áreas?
Em muitas áreas. Tem déficit na agricultura, numa agricultura mais de vanguarda, numa agricultura mais atual. Tudo que seja automação, tudo que seja informática, existe grande déficit de técnicos. E depois existem as indústrias alimentares com um déficit enorme de técnicos. E isto, lá está, há áreas profissionais que têm do passado uma carga tão negativa, que é necessário mesmo atualizar, dizer aos jovens que essa carga não existe hoje, porque existem outros métodos.
Vamos pegar na agricultura, sobre o qual pesa um grande preconceito, não é? Que são pessoas e profissionais de galochas e enxada na mão, passo a imagem, mas hoje em dia não é assim. Há jovens formados no ensino profissional que estão nos antípodas desta imagem.
Exatamente. São jovens, muitas vezes, que tiram até áreas de informática com uma especialização em agricultura, em automação, por exemplo.
Para desempenhar as funções.
Por exemplo, nós temos um curso em Salvaterra de Magos, o Ser Pro, um curso Ser Pro, metido no programa Ser Pro, que dá como formação geral, específica, precisamente a parte da automação, programação, e depois fornece aos alunos componentes de agricultura, por exemplo, regas automáticas. Por exemplo, Salvaterra de Magos, na Lezíria do Tejo, do Ribatejo, aposta neste curso.
E é isso que algumas das empresas de rega automática, não é?
São várias empresas de rega automática que aderiram muito bem a este curso e a fazer parceria ativa, com grande diálogo com a escola. E aqui está um encontro de vontades que Portugal tinha, ao fim e ao cabo, que os empregadores notam que existe muito pouco diálogo entre as empresas e as escolas. E aqui está um bom exemplo, no ensino profissional, pode ganhar imenso e os alunos podem ganhar imenso, não só por terem um emprego e por estarem em contato com as empresas, mas também porque as empresas vão dar ali muita atualidade ao curso. E será, sem dúvida, um curso com maior qualidade e com maior empregabilidade.
Portanto, estes são cursos que são cursos normais, oferecidos pelas escolas, mas que têm a grande vantagem de ter uma associação desde o início com empresas que se comprometem voluntariamente a ajudar a formação dos jovens.
Exato. Este exemplo de Salvaterra é um bom exemplo, mas também temos exemplos de cursos que não têm tanta empregabilidade e que a escola, em conjunto com outras instituições, pode fornecer essa empregabilidade. Por exemplo, um curso de desporto. Um curso de desporto, nem sempre os alunos conseguem ter emprego. Há outro curso que dou o exemplo, por exemplo, Setúbal, com curso de desporto, com componentes do mar, consegue fornecer um currículo extraordinário aos alunos. E os alunos, está claro que aderiram, aderiram de tal forma que até tiveram que formar outra turma e alunos em lista de espera. Por isso, há componentes que nós conseguimos dar a cursos que abrem os horizontes e, ao mesmo tempo, especializam em determinadas áreas que são necessárias à zona.
As empresas percebem, sabem muito bem quais são as necessidades que existem.
E eu aqui vou só referir, por exemplo-
Sim, sim. Não, por favor.
A parceria com a Formar. Por isso, estes alunos, em Setúbal, a escola fez uma parceria com a Formar E vão ter um currículo melhor, muito mais rico, vão ter carta de marinheiro, podem ir trabalhar para o mar e patrão de costa. Por isso, vai permitir que estes alunos façam muito mais do que aquilo que os outros fazem nesta área.
Isabel Alorminho, falou há pouco de um aparente divórcio que existe entre as empresas e o ensino profissional. A expressão não foi esta.
Não foi.
Falou na necessidade de se apostar mais no ensino profissional e de aprofundar a relação entre as escolas, as empresas e a comunidade. O que eu lhe pergunto é: o que é necessário fazer para acabar com este fosso, para pôr toda a gente a dialogar, a falar a mesma linguagem e conseguir o mesmo objetivo, que é formar jovens qualificados para satisfazer empresas em um país que precisa?
E para eles próprios, porque esses jovens, quando entram nesses cursos, têm a perspectiva de emprego, portanto, têm esse entusiasmo adicional e mesmo que na altura estejam a pensar em ficar-se pelo 12º ano e com emprego, isso é uma adição que estão a ver à frente e que mais tarde podem completar através de cursos superiores, teses, por exemplo, os cursos de curta duração ou licenciaturas. Isto é bom para as empresas, é bom para as escolas e é bom para os jovens, acima de tudo, porque esses jovens conseguem ter uma perspectiva de futuro e ter uma formação que eles sabem que vai ser diretamente útil e que não lhes fecha a porta a estudos posteriores.
A outra parte engraçada, boa e muito saudável é o diálogo. As escolas estão muito habituadas a estar em monólogos ou então têm pequenos diálogos com o ministério. E isto não, isso abre portas a um diálogo que é fantástico, que não existe, realmente, não é tradição na educação. E o engraçado é que as escolas gostam. Isto dá imenso trabalho. Eu trabalhar sozinha dá muito menos trabalho do que trabalhar com imensa gente.
É trabalho de ligar a escola à comunidade, não é? É isso que está a fazer.
Exatamente. Um curso destes, para ser formado, tem imenso diálogo. Tem o diálogo com a autarquia, para conseguir perceber quais são os técnicos e as profissões que são necessárias para desenvolver a economia regional. Depois tem que arranjar parceiros que gostem e que achem que é um benefício fazer estas parcerias. E tem o permanente diálogo com os alunos, tem o acerto de matrizes que tem que ser coordenado com as empresas, para conseguir colher mais-valias. E tem que, permanentemente, estar em coordenação com as empresas, arranjar atividades em conjunto para dar a experiência prática aos alunos. Nós estamos sempre aqui a falar da experiência prática da parte técnica. Está claro que toda a outra parte é uma parte que é importantíssima, porque é aquilo que vai, ao fim ao cabo, fornecer aos alunos a bagagem para, no futuro, conseguirem mudar de ramos. Nós aqui estamos a falar da parte técnica destes cursos, quando falamos de formação prática, não estamos a dizer que vamos dar matemática com a prática nas empresas. Não. Estamos a falar na parte técnica, sempre. Devido à articulação possível.
Mas estes alunos também têm uma formação geral noutras áreas, como matemática, português, etc.
Exatamente. Sim.
Mais ou menos a mesma que os alunos em geral têm, não é?
Exatamente. O que eu queria dizer era que o curso tem uma parte técnica, formação prática, em contexto de trabalho, e depois tem a parte da formação geral e científica. Aqui quando se fala ligação às empresas, está claro que depois há sempre ligação nas outras partes, mas as outras partes são na escola, com os professores a cumprir o programa, que foi, a nível nacional, estipulado que seria melhor para estas idades. Está claro que conta-se também com atualizações dessa parte.
Muito bem. Isabel Alorminho, tenho uma última pergunta. Um aluno que esteja por estes dias a terminar o nono ano, que argumentos é que lhe podem ser apresentados para ele escolher esta via de ensino?
Eu acho que não é forçado. Eu acho que é ver muito bem, e se existem especialistas para o fazer, que é todo o aluno que na transição está muito indeciso, acho que vale a pena mostrar que existem mais hipóteses e que não é pela maioria dos alunos ou dos colegas irem para os científico-humanísticos e terem a ambição de irem para o ensino superior, que ele não vai para o ensino superior por esta via. Ele pode ir por pequenos passos, ver se gosta de uma área tal como pensa e apostar nessa área através de uma maior ligação às empresas e depois ou decide, vai para o mundo do trabalho ou vai continuar, e pode percorrer por pequenos passos. Se está indeciso, deve-se mostrar, e existem especialistas para o fazer.
Portanto, o ensino profissional, é essa a nota que quer deixar, não é o fim da escolaridade.
De maneira nenhuma, não. Quem quiser ver o fim, é um fim que tem aposta, que dá uma certificação, mas não é o fim. Hoje em dia não é mesmo o fim. Hoje em dia os alunos podem progredir até para outras áreas.
Muito bem, Isabel Alorminho, muito obrigado por ter vindo à Nota vinte esta semana.
Obrigada eu.
Professor Nuno Crato, duas ou três notas sobre o ensino profissional, numa altura em que estamos a dois minutos do fim.
O ensino profissional é uma boa alternativa para muitos jovens. Esta é a primeira coisa fundamental. É uma boa alternativa porque lhes permite ter acesso a um ensino mais prático e, ao mesmo tempo, terminarem o ensino obrigatório com um diploma profissional, portanto, com algo que lhes dá acesso ao emprego. E é também bom para o país e para as regiões, porque ajuda o desenvolvimento regional, desde que esses cursos profissionais correspondam às necessidades das regiões. E tudo isto sem impedir que os jovens, mais tarde, se o quiserem, não possam completar os seus estudos.
E o próximo Nota vinte é com o professor José Ferreira Gomes. Vamos falar sobre as estatísticas do acesso ao ensino superior. E a pergunta que colocamos aos nossos ouvintes na rede social Twitter, e que fica disponível daqui a minutos, é a seguinte: os exames nacionais introduzem equidade no acesso ao ensino superior? Sim ou não? Professor Nuno Crato, até para a semana.
Até para a semana.