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Sejam bem-vindos ao Nota 20, programa da Rádio Observador, em parceria com a Iniciativa Educação, programa onde a ciência fala com a educação e, como é hábito, com o professor Nuno Crato. Olá, professor.

Ora viva, como estás, João Miguel?

Professor, nos Estados Unidos, Joe Biden anunciou há poucas semanas a intenção de criar ensino pré-escolar universal e gratuito, e anunciou ainda um conjunto de medidas de apoio às famílias para que estas possam acompanhar os filhos. A ideia é aumentar o capital humano no país a partir de uma premissa: cada dólar investido nos primeiros anos de vida nas famílias mais pobres tem um retorno de sete dólares na economia, através da subida de salários, redução do crime e até a melhoria da saúde. Quão importante é reforçar a atenção de todos nos primeiros anos de vida e o que diz a ciência sobre isso é o tema deste programa. Vamos começar pela pergunta que colocámos no Twitter: o envolvimento dos pais pode ajudar a melhorar o desempenho escolar dos alunos? 90% respondeu sim. Professor, parece não haver dúvidas, o importante é saber como. Está de acordo?

Estou completamente de acordo. Eu até, em certa medida, fico espantado por haver 10% que dizem que não. Eu quase que estaria à espera que 100% dissesse que sim. Mas percebe-se, claro, que haja pessoas que pensam que é melhor os pais estarem um pouco longe, mas são muito poucas. E há estudos mais recentes, de há umas dezenas de anos a esta parte, que têm sido feitos. Uma das pessoas que têm feito esse estudo é o nosso convidado de hoje e eu julgo que era bom passar-lhe a palavra.

Muito bem, vamos apresentá-lo. Chama-se Flávio Cunha, professor de Economia da Universidade Rice, nos Estados Unidos, Texas. Tem estudado os fatores que contribuem para o aumento de capital humano. Professor Flávio Cunha, obrigado por estar conosco a partir dos Estados Unidos.

O prazer é todo meu. Muito obrigado, João Miguel. Muito obrigado, professor Nuno Crato, pelo convite.

Ora essa. Flávio Cunha, eu começava pela pergunta que colocámos aos nossos ouvintes com uma interrogação adicional minha: o envolvimento dos pais pode ajudar a melhorar o desempenho escolar dos alunos, a partir de quando? Quando é que os pais se devem envolver e de que forma é que isso pode ajudar o desempenho escolar dos seus filhos?

Eu diria que não só o desempenho escolar, mas toda a trajetória de vida. E aí começa já no pré-natal. Começa com o acompanhamento pré-natal, que tenha regularidade, que os pais sigam as recomendações, uma dieta balanceada, pouco estresse, etc. Tudo aquilo que os médicos dizem. Depois passa, a partir da primeira infância, desenvolvimento das ligações, dos vínculos efetivos entre pais e filhos, desenvolvimento da linguagem. Tudo isso começa muito cedo e terá repercussão não só na escolarização daquela criança, como que ela irá na escola, mas terá repercussão para muitas coisas além da escola, pro resto da vida.

Eu perguntava ao professor Nuno Crato no início: como? Que o segredo é como. É isso?

Sim.

Também partilha dessa opinião, Flávio. Como é que os pais se devem envolver com os filhos no sentido de aumentar o desempenho escolar dos seus filhos?

No sentido de vir a aumentar o desempenho escolar. Porque muitas vezes é algo que não tem nada ou quase nada a ver com a escola, ou que aparentemente não tem nada a ver com a escola, mas que depois se repercute mais tarde na entrada na escola, que os filhos vão mais bem preparados, vão mais bem socializados, etc. Mas temos aqui um especialista, o professor Flávio Cunha é um grande especialista internacional destas matérias.

Muito bem, então vamos pensar numa situação muito concreta. Por exemplo, que a gente pensa sobre a capacidade de leitura de uma criança. Em países desenvolvidos como Portugal, como Estados Unidos, como os países da OCDE em geral, o problema de leitura não é mais o problema de decodificação, é um problema de compreensão do que a criança está lendo. E esse problema passa por algumas falhas. A principal falha, por exemplo, é ter um vocabulário que não é rico. Isso é decorrência da interação que a criança começa a ter lá na primeira infância. O outro aspecto é a capacidade de compreensão linguística, de reflexo linguístico. A história que eu digo é: moro há 20 anos nos Estados Unidos, quando eu vou assistir a um filme desses, por exemplo, do James Bond no cinema, sempre tem uma cena de perseguição de carro e o James Bond conversando com o seu parceiro. E nessas cenas, eu não consigo compreender. Não quando falam em inglês, porque o meu cérebro não foi desenvolvido para compreensão do inglês, foi desenvolvido para compreensão do português do Brasil. Então as mesmas cenas, quando elas passam em português, eu consigo compreender perfeitamente, mas não em inglês. E isso vem da qualidade do ambiente linguístico que a criança experimenta lá na primeira infância, a partir mesmo dos seis, sete, oito meses de idade. Quer dizer, vem muito cedo e vai determinar lá na frente, a criança vai conseguir compreender um texto, ou então quando ela vai pra universidade e tem um professor falando a uma velocidade que é uma velocidade um pouco maior. É a mesma situação que a minha, quando estou assistindo filme em inglês com muitas coisas competindo pela minha atenção. Se não tiver uma capacidade de compreensão linguística, ela não consegue compreender na velocidade que o professor está falando e, portanto, não consegue aprender o material que está sendo apresentado na sala de aula.

Flávio, é interessante você estar a falar nisso pelo seguinte, porque o Flávio é professor nos Estados Unidos e, portanto, ensina inglês

Pois é.

Muitas vezes ensinará inglês e está perfeitamente à vontade no ensino do inglês, que é um ambiente um pouco mais formalizado, mas no dia a dia ainda tem dificuldades pelo que está a dizer. Eu diria que está exagerando um pouco, mas ainda tem algumas dificuldades, eu também tenho, porque nós não nascemos naquela língua. Nascemos e fomos criados noutra. Flávio, você foi muito simpático conosco em dizer que Portugal é um país desenvolvido e que os países da OCDE, em geral, já não têm problemas de decodificação. Deixe-me só ser um bocadinho mais cético pelo seguinte: nós temos ainda jovens, talvez não tanto como outros países, nomeadamente a América do Sul, que os problemas são muito graves. Mas nós ainda temos uma percentagem grande de jovens que têm dificuldade na alfabetização na idade certa, ou seja, nos cinco, seis, sete anos, temos uma percentagem de jovens em que a alfabetização, a leitura, a fluência de leitura se atrasa bastante. Mas claro que não é nada comparado com outros países, onde muitas vezes os jovens são, na realidade, alfabetizados já com 10 anos e mesmo assim com dificuldades.

Sem dúvida. E não quero dizer que não tenha esse problema de decodificação. Nos Estados Unidos também temos, mas ele não é mais a maior parte do problema de leitura. Como o senhor está falando, é importante que a gente faça essa correção, sim.

Flávio, e essa capacidade de compreensão do que se está a dizer tem a ver com o vocabulário, com a riqueza das construções gramaticais a que os jovens estão habituados e nesse aspecto a família pode ser muito importante, ou não? Se tiver que fazer um esforço nesse sentido.

Sem dúvida, porque o que acontece é que certas partes do desenvolvimento cerebral são plásticas por alguns períodos da vida da pessoa. Então temos plasticidade, por exemplo, para algumas partes do cérebro que regulam a nossa capacidade linguística na primeira infância. Exatamente.

Todo o investimento que os pais possam fazer nestas idades será mais tarde compensado.

Exatamente. E esse fator esponja começa a se fechar ao longo do tempo para algumas habilidades. Para outras habilidades, o nosso cérebro só vai começar a desenvolver na adolescência e aí outros aspectos do desenvolvimento humano são importantes, que a família tem que fazer na adolescência. Mas, por exemplo, na primeira infância, formação de vínculo, desenvolvimento de linguagem, o começar a aprender a aprender, tudo isso já se sabe que tem um período muito sensível de desenvolvimento na primeira infância. E aí a gente tem que entender como que a gente pode promover o desenvolvimento dessas habilidades na primeira infância.

Que tipo de coisas é que os pais devem fazer em casa com os seus filhos, em geral? Pode dar exemplos para além da leitura, outros temas também que são importantes?

Pois, sim, tem muita coisa. Eu acho que o principal é os pais compreenderem o sinal que a criança está emitindo e aí reagir de forma consistente. São as duas características. Então, por exemplo, muitas vezes você quer ler um livro para uma criança e a criança não está tão interessada no que está dizendo o livro, no que está escrito no livro, ela está mais interessada nos personagens do livro. Então aproveita esse momento para começar a descrever os personagens do livro. "É um elefante, tem uma tromba, é cinza, está do lado dessa girafa que tem um pescoço longo, etc." E prestar atenção no que a criança está interessada em aprender e começar a reagir de maneira a promover o desenvolvimento e a curiosidade daquela criança naquele momento. Não é uma situação onde os pais têm que ficar 24 horas atrás da criança: "Está na hora de você aprender isso." Não, a criança tem uma curiosidade natural e o papel dos pais, nesse sentido, é atender essa curiosidade natural nos momentos que eles puderem atender.

E a linguagem que se deve ter com as crianças deve ser uma linguagem um pouco mais adulta. Quer dizer, não se vai ensinar teoria da relatividade ou falar da teoria da relatividade para os rapazes e raparigas que têm três anos, mas deve-se falar com uma linguagem mais rica do que a deles, propriamente.

Muitas vezes os pais se surpreendem com a capacidade de aprendizado da criança. Então, um exemplo, trabalho com uma colega minha. Aqui nos Estados Unidos, é muito comum as pessoas usarem um aplicativo que se chama Venmo para fazer pagamentos entre pessoas. E eu imagino que essa minha colega use o Venmo muito para fazer pagamentos e um dia a filha de três anos de idade vira para ela e fala: "Mamãe, eu vou te mandar um Venmo." É uma ideia extremamente abstrata, se a gente pensar, porque é um pagamento através de um meio eletrônico, e ainda assim ela tinha perfeita compreensão daquilo que significava aquela ação. Então as crianças estão prestando atenção. O que a gente fala é que não é que as crianças vivem num vazio, elas vivem num mundo de experiências. As experiências são negativas, o desenvolvimento será comprometido. As experiências são positivas, o desenvolvimento será positivo. Mas o principal, eu diria isso Preste atenção naquilo que o seu filho ou sua filha está querendo aprender e parta do nível deles. E ao longo do tempo, você vai conseguir fazer com que eles respondam da maneira que você gostaria que eles respondessem. Não é ficar 24 horas atrás do filho ou botar o filho pra escutar música clássica. Não é nada disso, é prestar atenção e reagir consistentemente.

Até porque depois há de chegar aquela altura da vida em que são os pais que têm que fazer o esforço pra acompanhar os filhos. Mas isso virá depois. Mas o professor Flávio Cunha estava a falar do envolvimento dos pais. Há aqui uma questão que tem a ver com as expectativas e com o ponto de partida de cada pai, dado o contexto em que cada pai ou cada mãe está inserido. Baixa escolaridade ainda significa baixas expectativas em relação à escola como motor do elevador social, ou não?

Não necessariamente nos Estados Unidos. Certamente tem uma diferença entre pais com mais e menos escolaridade. Certamente existe essa diferença média, mas eu diria que a diferença está caindo ao longo do tempo, e o que a gente começa a encontrar são muitos pais de baixa escolaridade que têm práticas de educar ou de relacionar com os filhos, que são similares a pais de alta escolaridade. E o contrário também é verdade. Então, boa parte dessa pesquisa que eu fiz sobre expectativas e como as expectativas tendem a explicar a prática dos pais no dia a dia, exatamente por causa dessa relação, do fato que dentro de classes sociais, existem muitas diferenças. Que as diferenças dentro de classes sociais são maiores do que as diferenças entre classes sociais.

Interessante. Flávio, há uma coisa que certamente está aqui no pensamento de alguns ouvintes, que é: o Flávio é professor de Economia, mas está a falar sobre questões que parecem ser de psicologia ou mesmo psicologia infantil. Como é que um economista estuda estes problemas?

Estudando muito do desenvolvimento infantil através dos psicólogos, que foram feitos pelos psicólogos e trabalhando com eles. Eu tenho parceiros que têm trabalhado muito com pessoas da área de psicologia, desenvolvimento infantil, e eu sou um leitor ávido daquela literatura, porque eu não acredito que eu possa ser um bom economista falando sobre desenvolvimento de capital humano, sem estudar o que os psicólogos disseram, mas também os antropólogos. Eu acho que é importante que a gente fale de áreas até mesmo fora da psicologia. Os antropólogos são muito importantes pra compreender a diferença cultural que existe entre como pais se relacionam com seus filhos. Os trabalhos que eles fizeram na África, os trabalhos que eles fizeram na América Latina, os trabalhos que eles fizeram na Ásia, foram realmente, pra mim, muito importantes pra começar a entender por que diferentes culturas se relacionam de forma tão diferente com os filhos. E também os sociólogos. Eles fizeram isso não em diferentes países, mas eles têm feito isso documentando essa evolução do que é parentalidade ao longo do tempo. É, por natureza, uma disciplina interdisciplinar, esse trabalho. Eu fiz trabalho com pessoas de saúde pública, de sociologia. Os únicos com quem eu não publiquei nada até hoje foram os antropólogos, e não porque eu não tentei, mas é porque não fui bem-sucedido.

Mas a contribuição do economista é uma contribuição, sobretudo, estatística, de design das experiências, ou não será assim?

Eu acho que o economista tem alguns aspectos que pode contribuir. Eu acho que existe na economia, como também existe na psicologia, uma busca por experimentos controlados que possam dar credibilidade ao que a gente chama de causalidade, relações de causalidade. Mas eu acho que também tem todo um aspecto que é realmente interdisciplinar, porque, no final das contas, o que a gente está falando é de inovação de política pública. E a política pública é multidimensional, porque ela tem um público-alvo, você tem que falar quanto que ela vai custar, de onde que vem o dinheiro, quem vai pagar, quem vai ser beneficiado, como será feito. Então tudo isso é impossível que apenas pessoas da disciplina de psicologia, ou de sociologia, ou de antropologia, ou de economia, tenham capacidade. E também eu diria, outros que são importantes são os cientistas políticos, que sem essa colaboração interdisciplinar, eu acho que não seria possível realizar esse tipo de pesquisa em inovação em política pública.

Fica, no entanto, essa nota de que os pais não se podem divorciar do meio onde estão inseridos e não se podem, sobretudo, divorciar, e devem, como se diz em português, chutar pra cima quando lidam com as suas crianças, não é? Portanto, tratá-las como criaturas que percebem mais do que aquilo que nós podemos imaginar. É isso, Flávio?

É isso, é exatamente isso. Os pais têm imenso poder de definir a trajetória de vida de uma criança, não só no que tange à escolaridade, mas também no que tange a muitos outros aspectos da sua vida.

Muito bem, professor Flávio Cunha, muito obrigado por ter estado no "Nota 20" esta semana.

Muito obrigado.

Professor Nuno Crato, a grande conclusão a reter do que ouvimos aqui, das ideias transmitidas pelo Flávio Cunha, é que investir cedo compensa sempre?

Sim, compensa o futuro da criança. Eu acho que isso foi uma conversa muito rica, mas o João Miguel já fez a síntese principal, e que eu acho que estou completamente de acordo.

Desculpa!

Que é puxar as crianças, ter uma conversa quase de adultos com elas e não estar só a falar ao nível delas e lhes dando informação, porque sem saber ou sem se notar, este tipo de convívio com adultos faz com que as crianças cresçam muito e estejam mais bem preparadas depois pra entrar na escola. O pré-escolar pode e tem aqui um papel importante também, e nós vamos ter que falar mais sobre isso no nosso próximo programa.

Exatamente. O tema do nosso próximo programa é precisamente o pré-escolar. A pergunta que vamos colocar na rede social Twitter é a seguinte: o ensino pré-escolar deveria ser obrigatório, sim ou não? Professor Nuno Crato, até pra semana.

Até pra semana.