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Bem-vindos ao Nota 20, programa da Rádio Observador, em parceria com a Iniciativa Educação, programa onde a ciência fala com a educação. Como é hábito, com o professor Nuno Crato. Viva, professor.

Ora viva, João Miguel.

Professor, esta semana vamos olhar para os mais recentes números sobre o chamado prosseguimento de estudos, ou seja, que caminhos tomam as carreiras acadêmicas dos alunos dos chamados TESP, Cursos Técnicos Superiores Profissionais, dos alunos de licenciatura em universidade e dos alunos de licenciatura nos politécnicos. O que revelam os dados e que significado lhes podemos atribuir é o que vamos saber com o convidado desta semana. José Ferreira Gomes é professor catedrático da Universidade do Porto. Professor José Ferreira Gomes, bem-vindo ao Nota 20.

Muito boa noite, é um prazer.

Professor, vamos começar pelos cursos TESP. O que são estes cursos?

Os cursos TESP são uns cursos de dois anos que foram criados em 2014, para funcionar em politécnicos com a intenção de dar uma formação mais rápida a um jovem que pretenda entrar no mercado de trabalho. E de fato, são cursos que têm uma duração de dois anos. Dentro da escola, tem uma duração de ano e meio, portanto, metade da duração de uma licenciatura. Ano e meio a que se segue um estágio profissional já numa empresa, que se pretenda muito próxima da área de trabalho, da área de especialização do estudante, de modo que ele desenvolva competências, primeiro genéricas na instituição e depois na empresa, competências próprias para o desempenho imediato de um posto de direção intermédio.

Portanto, é já um curso orientado para uma profissão.

É um curso estritamente orientado para uma profissão e a instituição que o propõe, o instituto politécnico que o propõe, está obrigado a propor um estágio, juntamente com a proposta inicial de currículo, a propor um estágio numa empresa, com o acordo da empresa, como forma de garantir essa ligação íntima entre o que é a estrutura curricular, a estratégia da instituição de ensino superior e as necessidades da empresa.

Ora, para nós de Iniciativa Educação, se me dá licença, isto é interessante por várias razões. A Iniciativa Educação, como sabem, tem essencialmente dois programas: um programa de apoio à leitura, portanto, os jovens que estão a começar no primeiro ciclo, que estão a começar a ler, que é uma questão essencial, que aprendam a ler rapidamente, porque disso depende todo o estudo posterior. E os jovens que estão naquela fase de transição do básico para o secundário, portanto, pelos 15 anos, e que têm escolhas a fazer. E desse ponto de vista, a oferta que nós estamos a apoiar, com consultoria, catalisando diversas vontades, é uma oferta de cursos profissionais, nível secundário, e cursos que têm ligações com a empresa. Ora, os TESP, por isto tudo que nós tivemos a ouvir, podem ser uma continuidade desses cursos, portanto, dão um seguimento aos jovens que querem ter um curso técnico, de nível secundário, mas que abrem esta perspectiva, em seguida, de poderem continuar os seus estudos e alcançar um nível superior, embora do ponto de vista técnico. Deixem-me dizer uma coisa: os cursos profissionais, ao contrário dos cursos de científico humanísticos, são cursos que dão ao jovem imediatamente uma qualificação para entrar no mercado de trabalho, o que é interessante para muitos jovens e é uma saída que interessa a muitos jovens, mas não fecham aí as suas possibilidades de estudar, ou seja, eles podem estudar mais e os TESP são uma saída natural para esses jovens. Não sei se o professor Ferreira Gomes está de acordo com esta visão.

Estou inteiramente de acordo.

O professor Ferreira Gomes é verdadeiramente um especialista nestas áreas.

Com o ensino obrigatório até aos 18 anos, temos que todos os jovens vão permanecer na escola e tendencialmente vão completar o ensino secundário. O problema que se põe é que proposta de ensino secundário se faz a esse jovem. E nem todos têm a mesma vontade, a mesma aptidão, os mesmos objetivos de vida. E, portanto, o que estamos aqui com o ensino profissional e o que se fez ao longo dos últimos 20 e poucos anos com o ensino profissional nas escolas, particularmente nas escolas públicas, foi de o generalizar, de o tornar acessível à totalidade dos jovens como opção. E hoje temos uma fração, uma porcentagem significativa de jovens do ensino secundário, a terminar essa base de formação, essa base educativa obrigatória, a terminá-la por uma via que, como o professor Nuno Crato dizia, é uma via que dá uma qualificação imediata de uma profissão. Enquanto que a via científica humanística supostamente faz uma preparação genérica, muito focada na prática, na entrada no ensino superior, na licenciatura.

É importante ter alguma perspectiva sobre isto pelo seguinte: porque os cursos profissionais existem há bastantes anos, mas a extensão da escolaridade obrigatória do nono ano de escolaridade ou 15 anos de idade para o 12º ano de escolaridade ou 18 anos de idade, essa extensão foi feita entre 2012 e 2015, e os cursos profissionais enquadram-se nessa extensão, ou seja, um jovem que siga um curso profissional cumpre com isso a escolaridade obrigatória. Portanto, eles ganharam uma dimensão nova com esta extensão da escolaridade obrigatória.

Sendo que depois, como dizia o professor José Ferreira Gomes, apareceram os cursos TESP, os tais cursos técnicos superiores profissionais. Que nível de qualificação é que atribuem a estes cursos, professor José Ferreira Gomes?

Esses cursos de técnico superior profissional são cursos de ensino superior, são uma forma de ensino superior, e uma forma de ensino superior mais curta para permitir ao jovem que mais rapidamente possa aceder ao mercado de trabalho.

Os tais dois anos, não é?

Os tais dois anos, que de fato é ano e meio na escola, no Instituto Politécnico, mais meio ano de estágio, é metade de uma licenciatura nessa perspectiva, e que resolvam em parte, que deem um contributo para resolver, um problema que é reconhecido em toda a Europa, não só entre nós, que é a frequente dificuldade de emprego dos licenciados. À medida que aumentou o número de jovens que chega ao ensino superior tradicional, à licenciatura, verifica-se em todos os países que há muitas vezes uma dificuldade de emprego. Há um desajuste entre o objetivo definido na prática, no currículo, na licenciatura, e a realidade do mercado de trabalho, a realidade da economia. E esses TESP procuram fazer essa sintonização de uma forma muito mais estreita. E são cursos que têm uma grande popularidade, que têm muitos alunos nos países mais vizinhos, nos nossos países mais diretamente competidores, que são a Espanha e França. Quer um, quer outro, têm números de estudantes neste tipo de curso muito elevado e com uma empregabilidade muito alta, enquanto que as queixas que se mantêm também nesses países é em relação aos licenciados. Não ouvimos em Espanha, por exemplo, uma queixa de desemprego destes cursos mais curtos.

Professor, há aqui um dado interessante, 56% dos alunos TESP, portanto, dos alunos que frequentam ou que terminam estes cursos técnicos superiores profissionais, prosseguem depois a sua vida académica em contexto de licenciatura. Esta necessidade de prosseguir a sua vida académica significa que as empresas portuguesas estão pouco sensibilizadas para a existência destes alunos com este tipo de formação? O que é que nos pode dizer sobre isso?

Isto é uma formação inicial, como foi dito. Os cursos foram aprovados, foram criados em 2014. A primeira geração terá saído em 2016 e, portanto, é um perfil educativo que tem de fazer o seu caminho no mercado de trabalho. O número de estudantes tem vindo a crescer de uma forma sustentada. O último número divulgado pela Direção Geral de Estatísticas do Ministério da Educação dá já 15 mil, o que é, considerando a relativa novidade dos cursos, um número bom, mas muito pequeno em relação ao número total, por exemplo, de estudantes da licenciatura, que é 200 mil. É 7% a 8% do número, o que em Espanha ou França são quase 50%, é quase ela por ela. Portanto, há aqui um caminho a fazer. Do ponto de vista das empresas, sim, há um caminho a fazer, e esse caminho também vai ser feito através desses estágios. Ao garantirmos que para criar um curso, todos os estudantes no seu segundo ano vão fazer um estágio numa empresa, não só o estudante se adapta ao posto de trabalho, como a empresa fica a conhecer a competência e o valor acrescentado que esse estudante pode vir a criar na empresa se o contratar. E é essa seguramente a expectativa, e é essa a experiência em outros países, e vai ser seguramente também a nossa experiência em Portugal, isto é, a facilidade de integração de muitos desses estudantes a um nível intermédio em termos de direção, em termos de supervisão de uma equipe de trabalho, por exemplo, num estaleiro, numa empresa ou num escritório, porque os cursos são dos mais variados tipos.

Professor Leonardo, não sei se quer acrescentar algum dado.

Eu diria uma coisa, é que esta colaboração com as empresas é extremamente frutuosa, ou pode ser extremamente frutuosa, porque as empresas ajudam na própria formação dos jovens a assegurar que o jovem receba um complemento de formação que se adequa às necessidades do mercado de trabalho, e é por isso que as empresas colaboram. No profissional, a mesma coisa. Há cursos profissionais que têm imenso sucesso, por quê? Porque as próprias empresas colaboram, por vezes, no desenho desses cursos profissionais, mas depois mais tarde, na própria formação dos jovens, e com isto, esses jovens saem já com uma preparação não só teórica, mas com uma preparação prática. Agora, o que nós sabemos, em geral, em Portugal e em muitos outros países, é que há uma grande falta de técnicos e de técnicos intermédios, portanto, de técnicos, ou seja, pessoas formadas no ensino profissional e de técnicos intermédios ou superiores, ou seja, pessoas formadas com o TESP, e estas escolhas são escolhas que podem ser muito úteis a muitos jovens.

Muito bem. O tema do programa de hoje é o prosseguimento dos estudos. Já falamos sobre o prosseguimento no caso dos alunos dos TESP. Gostava de me focar aqui, nos últimos minutos que temos do programa desta semana, nas licenciaturas com origem na universidade e nos politécnicos. Portanto, os números o que nos dizem é que 71% dos licenciados em universidade transitam para o mestrado, 29% dos licenciados no politécnico transitam para o mestrado. O que significa, antes de mais, professor José Ferreira Gomes, esta disparidade de dados e no seu cômputo global, que leitura é que podemos fazer destes dados?

Estes números são bastante compreensíveis se atendermos à história do sistema e à memória individual, à memória das instituições e à memória do mercado de trabalho. Qual era a realidade? Até à introdução do chamado Processo de Bolonha, por volta de 2006, 2007, as universidades tinham cursos, que então se chamavam licenciaturas, de quatro, cinco, seis anos, enquanto que os institutos politécnicos tinham cursos, que então se chamavam bacharelatos, de três anos, que podiam ser continuados por um segundo ciclo, mas que esse segundo ciclo não era demasiado popular. Portanto, o mercado de trabalho, os jovens, as famílias estavam habituados a, se entrassem num politécnico, ao fim de três anos, transitar para o mercado de trabalho. Podiam depois regressar a uma universidade, a um instituto politécnico, fazer uma especialização dentro da sua área de trabalho, mas a transição fazia-se maioritariamente ao fim de três anos. Enquanto que numa universidade sabiam que se estavam a mergulhar por um período mais longo. Na maioria dos cursos eram cinco anos, os cursos como medicina ou farmácia seis anos, alguns cursos mais raros, de quatro. E portanto, sabiam que iam permanecer ali esse tempo mais longo. E as instituições, as universidades desenhavam os cursos de modo que inicialmente, nos primeiros anos, tivessem cadeiras básicas, chamemos de teóricas, relacionadas com a disciplina, e na segunda parte da licenciatura, nos últimos anos, tivessem normalmente cadeiras, disciplinas mais adaptadas às atividades profissionais a que os alunos poderiam ingressar. Quando se deu o Processo de Bolonha, estes cursos grosseiramente foram partidos em dois: um primeiro ciclo de três anos e um segundo ciclo de um a dois anos. E, portanto, o primeiro ciclo, ainda que se faça um esforço para dizer aos estudantes que com a licenciatura podem entrar no mercado de trabalho, a verdade é que essa entrada, em termos de especialização profissional, é um pouco manca. As instituições, as universidades não tinham essa tradição. Por outro lado, tinham a tradição de ver a importância da parte teórica e continuam a dá-la. E, portanto, a maioria dos alunos também, por essa razão da instituição e do desenho do curso, mas também pela tradição familiar e das empresas, mantêm-se para completar a formação, pelo menos com a extensão antiga, isto é, depois da licenciatura universitária, fazem o mestrado universitário. Enquanto que nos politécnicos mantêm a tradição antiga. E por isso se compreende bem que nas universidades 71% dos alunos que terminam licenciaturas prossigam para um mestrado diretamente, imediatamente, enquanto que nos politécnicos só 29% prosseguem diretamente. E o curioso, por exemplo, é que em França o sistema é um pouco diferente, mas com a introdução de Bolonha, compreende-se a tradução e há uma licenciatura também de três anos e depois um segundo ciclo de um ou dois. Se em Portugal 71% dos estudantes que fazem uma licenciatura universitária passam para o mestrado diretamente, em França, curiosamente, 68%. Portanto, é praticamente a mesma percentagem, isto é, é igualmente comum que os estudantes que terminam a licenciatura, que estavam habituados a continuar os estudos, agora também continuem para ter uma formação adaptada às necessidades do mercado de trabalho, à tradição do mercado de trabalho.

Muito bem. Professor José Ferreira Gomes, estamos mesmo aqui na reta final. Muito obrigado por ter estado no "Nota 20" desta semana.

Foi um prazer. Muito obrigado, Léo.

Muito obrigado. Professor Nuno Crato, duas ou três notas habituais sobre esta questão do prosseguimento dos estudos.

Muito bem. Nota um: o professor Ferreira Gomes escreveu um artigo que está no site da Iniciativa Educação, onde descreve estes números e, portanto, quem queira ler este tema, tem aí informação. Nota dois: estamos num momento, ainda, onde muitos jovens estão a pensar as escolhas que vão fazer, seja as escolhas que vão fazer no fim do básico e na entrada no ensino secundário, seja as escolhas que vão fazer no fim do secundário e prosseguindo ou não prosseguindo os estudos. E desse ponto de vista, é interessante que eles tenham esta informação sobre estas outras escolhas, as escolhas profissionais e as escolhas de técnicos superiores.

Bem, na próxima semana vamos literalmente contar pelos dedos. Vamos analisar este gesto inocente que todas as crianças praticam quando estão a aprender a contar. Será nossa convidada a psicóloga Raquel Lemos, do Instituto Superior de Psicologia Aplicada e investigadora da Fundação Champalimaud. A fechar, desafiamos, como é hábito, os nossos ouvintes a responder a uma pergunta que vamos colocar daqui a um minuto no Twitter: contar pelos dedos ajuda as crianças a aprender aritmética, sim ou não? "Nota 20" regressa na próxima semana. Recordo que todas as edições do programa estão disponíveis nas plataformas podcast e também no YouTube. Professor Nuno Crato, até para a semana.

Até para a semana.