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Sejam bem-vindos ao Nota 20, programa da Rádio Observador, em parceria com a Iniciativa Educação. Viva, professor Nuno Crato.

Ora viva.

Professor, hoje vamos aprender a estudar melhor para obtermos bons resultados nos nossos exames e nos nossos testes. Será que há por aí uma estratégia escondida que nos pode ajudar? Vamos começar pela nossa pergunta habitual aos nossos ouvintes na rede social Twitter. A pergunta que deixamos foi a seguinte: quando estudamos, qual é a melhor forma de aprender, testar ou reler? 75% dos nossos ouvintes respondeu testar. Professor Nuno Crato, está surpreendido com a resposta e com o pensamento dos nossos ouvintes?

Eu não sei se estarei surpreendido, mas acho que têm razão. Acho que têm toda a razão. E muitas vezes comete-se o erro contrário. Muitas vezes o que os jovens fazem é: estudam a matéria, leem, releem, leem, releem, em vez de se testarem a si próprios. E é por isso que nós temos hoje este tema precisamente para discutir, na sequência desse inquérito e outros temas relacionados. E o João Miguel tem toda a razão. Nós hoje vamos falar de estratégias para estudar, aquilo a que nós chamamos estudo 100% ou estuda 100%, que são algumas estratégias que as ciências cognitivas modernas têm vindo a mostrar, que são mais eficazes do que as estratégias habitualmente usadas para aprender. E nós, na Iniciativa Educação, lançamos, a partir de amanhã, quarta-feira, um conjunto de vídeos. São quatro vídeos sobre quatro estratégias de aprendizagem destacadas pela ciência moderna. E esses quatro vídeos vão falar dessas quatro estratégias, que são a estratégia de recuperação, a estratégia de elaboração, de espaçamento e de estudo intercalado. E essas quatro estratégias vão ser nos explicadas nestas duas sessões agora, duas pela nossa convidada de hoje e duas pela nossa convidada da próxima semana. Eu julgo que isto é muito útil e muito interessante, mas é sobretudo muito útil para os jovens que agora estão na fase de estudos finais e que estão a pensar: "Mas como é que eu vou preparar-me para o exame?" A resposta certa é sempre: preparar para o exame é saber. Agora, qual é a melhor maneira de saber? E é sobre isso que nós temos aqui esta discussão, que é muito interessante. Estes vídeos que nós vamos ter disponíveis já a partir de amanhã, quarta-feira, no nosso site, são vídeos que podem ser descarregados, têm também fichas que vão explicar essas estratégias e eu acho que isto é muito interessante para os jovens. Quem quiser pode, por exemplo, inscrever-se no nosso site, indo ao site iniciativaeeducação.org e vindo cá abaixo, encontra "Subscreva as novidades". Subscreve as novidades, põe o seu e-mail e começa a receber informação sobre essas estratégias, sobre os locais onde estão os vídeos, etc.

"Share" que vem aí, Nota 20. Vamos dar as boas-vindas à nossa convidada, é a Ludimila Nunes, investigadora em psicologia cognitiva. Ludimila, muito obrigado por ter vindo ao Nota 20 esta semana.

Obrigada eu. Olá a todos.

Ludimila, afinal, como diz o professor Nuno Crato, pode desmenti-lo se quiser.

À vontade.

É a testar que se aprende melhor?

É. É a testar que se aprende melhor.

E como?

Como? Há várias formas que os alunos podem usar para se testarem a si próprios, mas uma muito simples é apenas depois de lerem o material que têm de estudar uma vez, tentarem reproduzir esse material. Em vez de voltar a ler, apenas sentarem-se e começarem a escrever e tentar recuperar a maior parte da informação que leram. Esta é talvez a forma mais imediata, mais fácil.

Ou seja, na verdade, é responder a uma pergunta: será que eu sei o que acabei de ler? Vamos provar. E desatar a escrever, é isso?

Exato. Mas sem voltar a consultar, só no final. E esta parte também é importante, que é no final verificar se aquilo que escreveu, de fato, foi aquilo que tinha estudado ou não.

Pronto, e depois vêm os amargos de boca, não é? Porque não bate uma com a outra.

Mas assim consegue corrigir e depois, em vez de voltar a ler tudo, voltar a testar. E consegue-se ver que ao fim de dois, três testes, já se aprendeu muito mais do que se apenas tivesse tentado reler e reler.

Ludimila, isto é o chamado efeito teste, é um dos nomes que se utilizam, em que teste aqui é uma coisa genérica, não quer dizer que o aluno faça um exame, mas é uma coisa relativamente moderna, não é? Há estudos muito conclusivos e todos a apontarem na mesma direção, apontarem para a grande importância de o jovem se testar a si próprio ou alguém o testar como forma de aprender. Mas é algo que a psicologia cognitiva tem vindo a descobrir e a reforçar modernamente, certo? Desde quando é que isto começou a ser conhecido e estudado desta forma sistemática?

Bem, isto já é uma ideia antiga, mas que se encontrava sobretudo em estudos de memória básica, com listas de palavras, com estímulos que não tinham significado, ou seja, tinham significado, porque eram palavras, mas não, por exemplo, a compreensão de um texto ou materiais usados em educação. Portanto, é uma ideia já muito antiga, desde 1800 e tal já se sabia que os testes poderiam ajudar.

Deixe-me perceber. Portanto, era usado pelos professores para ver se o aluno conseguia

Diga.

Era usada a investigação. Portanto, em memória básica já se tinha esta ideia que testar ajudava a aprender. Mas sim, é sobretudo depois dos artigos de cerca de 2006, que o Roddy Roediger e o Jeff Karpicke escreveram e que estudaram isto mais aprofundadamente e utilizaram materiais mais complexos, textos sobre o sol, vamos usar este exemplo. O sol, o tipo de estrela que é, isso tudo. Portanto, não apenas memorizar palavras, mas memorizar e aprender conceitos mais complexos. Semelhantes àquilo que se utiliza em educação e que nós queremos que os nossos alunos aprendam. E então o que os investigadores encontraram foi que quando os alunos estudavam quatro vezes, ou seja, apenas reliam este texto quatro vezes, versus quando estudavam três vezes e eram testados uma vez, havia um benefício deste teste que eles faziam. Agora, este benefício não acontecia imediatamente passados cinco minutos. Quando eram testados cinco minutos após este ciclo de aprendizagem, que era apenas leitura ou leitura mais teste, aí havia um benefício de apenas ler. E por que isso acontecia? Isso acontecia porque para responder a esse teste de avaliação, neste caso, no final, os alunos estavam a basear-se apenas na sua memória recente, ou seja, tinham acabado de reler tudo, conseguiam recuperar esta informação toda. Mas quando eram testados após uma semana, aquilo que se verificava era que havia muito mais esquecimento quando não tinham sido testados uma única vez na sessão de estudo, quando tinham apenas relido o material.

Ou seja, só ler e reler dá uma ilusão de conhecimento. É mesmo este o termo que se utiliza, não é verdade?

Exatamente esse o termo. É uma ilusão de conhecimento que ocorre porque se está a recuperar informação de memória recente e não existiu uma consolidação, uma verdadeira aprendizagem do material.

Eu julgo que isto é uma coisa muito comum nos jovens, que é: leem um texto, vão ler outra vez e como reconhecem aquilo que acabaram de ler, dizem: "Eu já percebi isso tudo." Não, não é verdade. E depois quando se fazem perguntas a si próprios, é que percebem que afinal não perceberam, não é? E por isso é que isto é importante, para acabar com a ilusão do conhecimento, ou seja, para combater a ilusão do conhecimento, mas também de acordo com este exemplo que a Ludmila acabou de dizer, para que as coisas fiquem mais consolidadas no médio e longo prazo. Ou seja, desculpem eu usar aqui uma expressão um bocadinho vulgar, que é colado com cuspe, que é como os estudantes dizem: "Isto ficou tudo colado com cuspe". Ou seja, eu estudei a correr pro teste e cheguei a seguir ao teste e não ficou nada. Não, para as coisas ficarem consolidadas, é muito importante o teste, porque esse efeito de teste é um efeito que provoca uma solidificação do próprio conhecimento. É isso, não é, Ludmila?

Mas deixe-me só aqui apelar à sua experiência pedagógica, professor Nuno Crato. É isso também que um professor deve fazer nas aulas, por exemplo, quando dá aulas, no final de uma determinada unidade, de uma determinada matéria, chamar os alunos, convocá-los a um pequenino teste. Às vezes isso também ajuda?

Exatamente. Olhe, e há uma coisa que eu faço, que aliás me foi recomendada por uma amiga da Ludmila, que é a Pooja Agarwal, que é uma psicóloga cognitiva, que tem um livro muito interessante também sobre estes temas, e que é na aula seguinte, dizer aos alunos: "Então, o que é que nós discutimos na aula anterior? Digam lá duas ou três coisas. Pensem um bocadinho, escrevam aí no papel." Eu estou a falar de matemática avançada, que é os alunos que eu ensino neste momento, portanto, estatística avançada. E eles ficam ali: "Mas o que aprendemos?" Este esforço, de acordo com o que eu aprendi também com vocês, psicólogos, este esforço, esta dificuldade, faz com que se pense e que a coisa se solidifique. Eu utilizo isto, e não é uma coisa muito estranha, os chamados princípios de Rose and Shine, que dizem isto há não sei quanto tempo, que isto é preciso ser feito. Ludmila, desculpe, eu estou a falar muito, mas agora voltando aqui àquele assunto. Portanto, isto são coisas que são modernas deste ponto de vista. Todas as investigações mais modernas têm apontado pra grande importância desta técnica de testagem, deste efeito teste.

Sim, exatamente. Falando da Pooja Agarwal, eu tenho um artigo no qual eu, a Pooja e a nossa colega Janelle Blunt fizemos uma revisão, na qual tentamos pesquisar toda a investigação que foi feita em sala de aula, isto era a parte importante e que distinguiu esta revisão de outras, tudo o que foi feito em sala de aula para testar se de fato a prática de recuperação faz com que os alunos tenham melhores notas e aprendam mais.

O que é a prática de recuperação, Ludmila?

É este teste, é a testagem.

Que pode ser levado a cabo por um professor ou pelo próprio aluno, ou não?

Ou pelo próprio aluno.

Quando o aluno se interroga: "Bom, agora já leste isso tudo, faz aqui um pequenino questionário a ti mesmo." Isso é uma prática de recuperação, ou não?

É, é uma prática de recuperação. E é o que nós estamos a sugerir que os alunos façam quando estão a estudar por si próprios. Não tem que ser guiado pelo professor, não tem que ter uma nota final, deve ser corrigido no final Para dar a informação daquilo que se sabe e não se sabe, mas pode ser perfeitamente feito pelos alunos.

Isso é um grande exercício de humildade científica. Se calhar, a maior parte das crianças não está preparada para isso. Deve aprender a exercê-la.

Eu acho que se nós normalizarmos o que é o teste, e não apenas que é algo que os alunos devem estar assustados e a nota vai depender desse teste, mas sim como uma prática que os ajuda a aprender melhor, e se começarmos esta prática desde cedo, acho que vai ser normal para os alunos sentarem-se e estudarem sim. Eu lembro-me, na altura não sabia nada disto, mas quando andava na escola, o que eu fazia era sentava os meus pais, dava-lhes o livro e pedia para me fazerem perguntas. E é uma coisa que eu agora percebo o quanto me ajudava, porque eu não gostava de me sentar a ler e a estudar, isso não dava.

Desenvolveu a sua própria prática de recuperação.

Exatamente, que é uma coisa que os alunos podem fazer, por exemplo, com outros colegas, sentarem-se e fazer perguntas uns aos outros.

Ludmila, isto agora levanta um problema que eu acho que é importante para as pessoas em geral, que é vocês psicólogos falam da memória.

Sim.

E, portanto, dizem: "Não ficou na memória". E para as pessoas que não são psicólogas, a memória dá a impressão que é uma série de ficheiros e o memorizar até é mal visto, às vezes, porque é mal visto é no sentido: "Ah, vais decorar as coisas, mas não percebeste nada". Mas a memória é muito mais do que ficheiros, não é? Ou seja, esta ideia que nós temos de que vamos recordar factos não é verdadeira, porque a memória também é o conjunto de esquemas de pensamento, de coisas que se aprendem sobre a vida real, que são coisas complexas, não é só factos dispersos, certo?

Sim, a ideia é que a memória é construtiva, não é uma coisa estática como nós muitas vezes pensamos. Aqui há tempos usava-se muito a metáfora do computador, a nossa memória e o nosso cérebro como um computador no qual temos um input. Esse input cria um ficheirozinho na nossa memória que nós quando queremos recuperar, por exemplo, se somos um aluno e estamos a fazer um teste, vamos a esse input, recuperamos e respondemos ao teste. Não é assim que funciona. Nós sabemos que a memória é construtiva e, portanto, aquilo que nós temos são conceitos que estão associados, que podem ser recuperados através de diversas pistas. E uma das coisas que esta prática de recuperação, de testarmos a nós próprios faz, é exatamente aumentar o número de pistas que estão associadas a determinado conceito e isso vai facilitar com que em diversas situações consigamos aceder a esse conceito. E não só aumenta o número de pistas associadas, como fortalece as associações entre diversos conceitos. Portanto, acabamos por ter informação muito mais conectada, muito mais interligada, que facilita então a aprendizagem. Por isso, quando estamos a recuperar coisas da nossa memória num teste, não quer dizer que não somos capazes de as aplicar e termos um conhecimento mais aprofundado. E esta parte que é importante utilizar esta prática de recuperação, e depois, aliado a esta prática de recuperação, há também a técnica de elaboração.

Exato, que é um outro vídeo que nós temos também.

Exatamente.

Temos um vídeo que é este, que é da prática da recuperação, o teste, e temos um outro que é a prática da elaboração.

Ludmila, quer explicar-nos o que é a prática de elaboração num minuto, porque já estamos aqui na reta final do nosso programa.

Sim. A maneira mais fácil de fazer a prática da elaboração é com interrogações elaborativas, que consistem em fazer perguntas como, por quê, quando se está a estudar uma determinada matéria. E estas perguntas, tentar pensar mais aprofundadamente sobre o tema, sobre o tópico, e estas perguntas permitem com que se criem mais ligações entre os vários conceitos e se ganhe um conhecimento mais aprofundado. Ora, este conhecimento mais aprofundado vai fortalecer não só a aprendizagem dos detalhes sobre um conceito, mas também como os conceitos estão ligados e dar the larger picture, dar uma visão panorâmica daquilo que se pretende aprender.

Portanto, recapitulando, elaborar uma espécie de um autoteste ou convocar terceiros a fazerem-nos um autoteste. E durante o processo de estudo, como e por quê?

Sim.

Como e por quê? Como e por quê? Como e por quê? Diga, Ludmila.

Não são só os factos dispersos, mas são a interpretação desses factos, as razões disso acontecer, a pessoa pensar ela própria sobre isso. É isto, Ludmila?

É, em vez de estudar apenas uma definição, estudar o porquê. Por que esta coisa faz isto, por exemplo.

Desconstruir, não é?

Sim.

Pois, ou construir. Isto agora é uma piada, porque os literatos gostam muito da ideia da desconstrução. As duas coisas.

Ludmila, não temos mais tempo. Peço imensa desculpa. Muito interessante. Eu gostava que tivesse havido uma Ludmila na minha vida mais cedo, porque teria seguramente tido melhores resultados. Muito obrigado pelas ferramentas que nos demonstrou existirem à disposição dos nossos alunos. É fantástico, sobretudo nesta altura em que eles vivem embrulhados No meio dos exames, muito obrigado por ter vindo ao Nota 20, Ludimila.

Obrigada eu.

Professor, duas ou três notas que devemos reter do programa de hoje.

Eu volto a dizer aquilo que nós sempre começamos no princípio, que eu acho que é muito importante. Ler, reler e reler é uma técnica pouco eficaz para aprender. É muito melhor ler e questionar-se a si próprio ou alguém o questione, mas melhor ainda do que questionar-se a si próprio, é elaborar os conceitos, porque nós temos a ideia de que os testes, etc, são só questões de memorização. Não são nem devem ser. Os testes devem ser uma maneira de reelaborar o conhecimento que nós temos sobre as coisas. Eu acho que a Ludimila explicou isso muito bem, a nossa memória não é como um computador, que tem ali umas coisas guardadas que são buscar, mas cada vez que se vão buscar, elas vão sendo reelaboradas e vão sendo melhor percebidas. Portanto, a memória é um conjunto de esquemas, não é só um conjunto de factos dispersos. E para que as coisas não sejam factos dispersos e sejam compreendidas, então é necessário estudá-las. Mas não é só estudar e memorizar factos dispersos. É estudar, memorizar os conceitos, sim, com certeza, mas entendê-los, entender as conexões entre eles.

Muito bem, professor. Para a semana vamos continuar a conversar sobre este tema, como estudar com eficiência para obter bons resultados. Será nossa convidada a Célia Oliveira, que já conhecemos de outras edições do Nota 20, a professora Célia Oliveira, investigadora em psicologia cognitiva. Antes de fecharmos o programa, vamos deixar a pergunta aos nossos ouvintes. É a seguinte: qual é o melhor método para aprender? Estudar a mesma matéria ou intercalar matérias? Professor, até para a semana.

Até para a semana.