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Começa agora uma nova edição do Bom, o Mau e o Vilão da Rádio Observador, sempre com o Miguel Pinheiro. Fala, Miguel. Bom dia.
Bom dia.
Miguel, o teu bom é a justiça.
Sim, porque realmente o julgamento do processo Marquês está a ser muito instrutivo, e não só no que diz respeito a José Sócrates. Eu hoje não vou falar só de José Sócrates, mas é um julgamento que nos está a obrigar a ver-nos ao espelho. E isso de vez em quando é mesmo preciso. Ontem depôs em tribunal um antigo administrador de várias sociedades do Grupo Espírito Santo e o que ele disse foi isto, vou citá-lo: "Ricardo Salgado era o responsável formal da área financeira do grupo, mas na prática era responsável por tudo". Ou seja, ele mandava na área financeira e mandava na área não financeira, apesar de elas estarem supostamente separadas. Supostamente tinha que estar tudo separado pra não haver chatice, mas na realidade, era ele que mandava em tudo. Durante anos, Ricardo Salgado mandou mesmo em tudo. Mandou no banco, mandou nas empresas, lá está, não financeiras do grupo, mandou em muitas outras áreas da economia portuguesa, sempre com os objetivos que se conhecem. Nós já sabemos que Ricardo Salgado não pode ir pra cadeia, apesar de já ter sido condenado num processo. Já sabemos isso tudo, mas pelo menos podemos ter finalmente provas de que tudo que se sussurrava sobre ele era absolutamente verdade. Ao menos isso. Claro, o processo Marquês ainda está a ser julgado, ainda não há nenhuma decisão, como é evidente, todas as pessoas têm direito à presunção de inocência, já sabemos, com certeza. Mas ouvir as testemunhas falarem nestes processos é realmente uma coisa que nos leva a perceber como é que tudo se passava. Não é que não percebêssemos antes, mas pelo menos agora está ali dito em tribunal. É diferente o que fica ali dito, de fato.
É.
Claro, e depois se convinha tirar conclusões sobre isso, sobre supervisão e por aí fora, mas já são adultos suficientes. Sim, e também, Paulo, se calhar também pros distraídos da sociedade portuguesa, pros distraídos que durante aquele tempo todo não perceberam nada: "Meu Deus, mas como assim? Então afinal isto estava se a passar e eu não dei por nada?" São uns inocentes, coitados.
Miguel, qual é o teu mau?
O mau é o PS. Ontem os socialistas chegaram a acordo com o PSD pra se aprovar a prestação social única, até porque sem isso fechava-se a torneira de Bruxelas, era bonito. Eu acho muito bem. Agora fora de brincadeiras, acho que é mesmo suposto os partidos falarem e conseguirem concordar em coisas como esta. A mim só me fizeram impressão duas coisas. Por um lado, a retórica tremendista e, por outro lado, as exigências absurdas do PS. Por um lado, os socialistas passaram semanas a dizer-nos que o chamado trabalho social, que passaria a ser exigido a quem recebesse PSU, era uma forma de escravidão social. Atenção, aquilo não era apenas uma medida criticável. O PS não se limitava a dizer: "Olha, eu acho que isso não é eficaz". Não, era escravidão, era uma coisa moralmente repugnante o Estado estar a fazer isto às pessoas. Mas no final das contas, não só o PS aceitou que essa escravidão estivesse inscrita na lei, mesmo que diga que deixa de ser obrigatória. Nem vou entrar hoje nessa polêmica que opôs o PS e o PSD. Mas a verdade é que o PS aceita que isso esteja na lei e até reconheceu que essa escravidão já está prevista no RSI, no Rendimento Social de Inserção, que foi desenhado pelo próprio PS. No final das contas, o PS reconhece: "Pois, isto já existia, fomos nós que lá pusemos e vai continuar a existir. Nós só dizemos que isto não é obrigatório, mas há situações em que faz sentido haver escravidão social." OK. E depois tivemos a exigência absurda, o PS conseguiu mesmo fazer cair o canal de denúncias que o governo queria criar e que queria associar à PSU. E eu só gostava de saber se agora o PS vai exigir o fim dos canais de denúncias que a lei obriga que existam na Autoridade Tributária, na Autoridade pras Condições de Trabalho e, já agora, em todas as empresas do país que têm mais do que um número mínimo de funcionários. E também, já que estamos nisto, já que estamos a falar sobre isto, também gostava de saber se o PS vai desistir da ideia de José Luís Carneiro de criar um canal de denúncias dentro do próprio PS. Já agora, também vai deixar cair isso. Fica à espera. Não, claro, agora fica à espera da coerência legislativa. Estou a imaginar que amanhã o PS apresente uma iniciativa legislativa pra acabar com todos os canais de denúncias que existem no país. Acho que é o mínimo. Nós não queremos cá PIDs, pois não? Não queremos a PID. Então é isso. Já nos basta a escravidão. Também tirar uma PID. Claro. Então a escravidão, afinal, é ótima. E ainda vamos ter uma PID? Não pode ser. Portanto, hoje é quinta-feira, não é? Quinta-feira, eu estou à espera que até amanhã esteja resolvido. É muito fácil, basta a lei ter dois artigos. Artigo número um: acabam todos os canais de denúncias em Portugal. Artigo número dois: em caso de dúvidas, leia o artigo número um. Pronto, está feito, está aprovado. É seguir em frente.
Miguel, o que é que se passa com o teu vilão?
Boa pergunta, excelente pergunta, como é teu apanágio. O que se passa com o Chega? Eu não sei explicar bem, mas o que me parece é que o Chega anda a tropeçar nas próprias pernas. No código laboral, o Chega perdeu a oportunidade de poder reclamar pra si a responsabilidade pelo aumento dos dias de férias e várias outras medidas populares no eleitorado tradicional da esquerda. E agora, com a PSU, perdeu a oportunidade de poder reclamar pra si a responsabilidade pelo apertar das regras de acesso a subsídios e várias outras medidas populares no eleitorado tradicional da direita. Houve um tempo em que, acontecesse o que acontecesse, as pessoas diziam sempre: "Quem ganha com isto é o Chega". A pessoa acordava de manhã, estava a chover e havia alguém que dizia: " Depois admiram-se que o Chega tenha estes votos todos." Estava sol: "Com certeza, lá vai o André Ventura conseguir mais votos." Mas isso foi antes. Nestas semanas, o Chega não tem estado a ganhar nada e se calhar André Ventura precisa de tirar umas férias pra recuperar energia e clarividência.
Pois, senão pode criar a ideia de que o Chega não serve pra nada na prática. Nunca está do lado da solução pra nada.
E ao mesmo tempo, Paulo, eu até admitiria que André Ventura achasse que o que dá votos é ser um partido de protesto, mas ele também tem que conseguir exercer o poder. A partir do momento em que ele tem aquele número todo de deputados, tem que conseguir dizer: "Eu forcei-os a fazer isto, eles não queriam e eu forcei-os." Está ali de um lado pro outro, pelos corredores a dizer: "Eles é que vão aprovar isto", ou a mandar abaixo coisas que lhe fariam falta. Ainda não percebi muito bem qual é o objetivo.
Vamos ao resumo. O bom desta quinta-feira é a justiça, o mau o PS e o vilão de hoje é o Chega. Foram as escolhas do Miguel Pinheiro nas manhãs da Recente e Sempre em podcast.