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Está no ar o Bom, o Mau e o Vilão da Rádio Observador, sempre com Miguel Pinheiro. Bom dia, Miguel.
Bom dia, Maria João.
Bom dia. Quem é o bom nesta quarta-feira, Miguel?
O bom desta quarta é a independência dos bancos centrais, mais especificamente, e no caso que nos diz diretamente respeito, do Banco Central Europeu. Nos últimos dias, o nosso Presidente da República, que apesar de estar a visitar a comunidade portuguesa nos Estados Unidos, quer continuar a aparecer nas notícias. Ele está a sentir-se muito longe do centro das coisas e quer sempre aparecer, mas tem se entretido a criticar a líder do Banco Central Europeu, que é Christine Lagarde. Primeiro, Marcelo, que até nos tinha revelado dias antes que o que vem aí é mau, agora decidiu atacar aquilo que disse ser um discurso dramático de Lagarde. Portanto, dizer que o que vem aí é mau não é dramático, mas o que Lagarde disse parece que já é dramático. E depois ontem, um dia depois, Marcelo veio avisar, eu até acho que foi esta madrugada, que o Banco Central Europeu tem de pensar muito bem na subida a introduzir nas taxas de juro e depois expandiu a sua teoria sobre o que é bom e o que é mau na subida das taxas de juro e o que devia estar na cabeça do Banco Central Europeu. O nosso Presidente da República adora o nacional porreirismo português, que lhe permite dizer o que quer e fazer o que quer, mas convinha que não se metesse com a independência do Banco Central Europeu e se calhar já são temas um bocadinho mais sérios que devia deixar para outros, porque se o Presidente da República português começa a pôr em causa a independência do Banco Central Europeu, depois não nos podemos queixar se outros líderes políticos, vamos imaginar, italianos, húngaros, se eles começarem a pôr em causa as instituições europeias que não lhes agradam. É surreal. Ontem estava a pensar nisso e imaginando um cenário em que os juros portugueses ou a dívida portuguesa fica sob ataque, como aconteceu há 12 anos. Imaginem um Presidente da República com comentários destes diários num contexto desses.
É. Eu acho que precisamos rapidamente de arranjar uma ocupação para o Presidente da República. Não sei, acho que temos que juntar os melhores crânios da sociedade portuguesa e arranjar qualquer coisa para Marcelo. Daqueles puzzles com 30 mil peças, por exemplo, uma coisa que dure uma semana a fazer, qualquer coisa que entretenha o nosso presidente.
Então e quem é o mau?
O mau são as queixas dos professores. Não são os professores, são as queixas dos professores. Há anos e anos que ouvimos os professores a queixarem-se dos problemas do nosso sistema de colocação nas escolas. Os professores queixam-se de serem colocados muitas vezes a centenas de quilómetros de casa, queixam-se de andarem uma carreira inteira de mochila às costas e queixam-se desta enorme instabilidade que os impede de terem até uma vida familiar tranquila. E têm toda a razão. Este sistema é incompreensível e já devia ter acabado há muito tempo. Mas depois, estes mesmíssimos professores permitem que seja Mário Nogueira a falar por eles e a impedir, ano após ano, que este sistema mude. Nós agora estamos a meio de mais uma maratona negocial sobre este tema e Mário Nogueira veio ontem revelar, de peito cheio e para ganhar força, os resultados de um inquérito do Sindicato dos Professores do Norte, que pelos vistos mostra que 94,6% dos docentes estão contra a possibilidade de as escolas poderem contratar professores e, portanto, estão contra a possibilidade de acabar com este sistema absurdo. Ora, se 94,6% dos professores apoiam as políticas de Mário Nogueira, depois não se podem queixar das consequências das políticas de Mário Nogueira. É assim, aquelas políticas levam a isto. Se querem estas políticas, as consequências são estas. O que é que eu lhes hei de fazer? Se eles querem mudar, então mexam-se, arranjem outra pessoa que os represente, deixem de se pôr atrás da FENPROF e pode ser que as coisas mudem. Pois, é preciso fazer escolhas, não é? De facto.
Precisamente. O que eu não entendo é: acham que estas políticas de Mário Nogueira vão conduzir a quê? Ainda não deu para entender no que é que isto dá?
Que aliás são reivindicações precisamente para deixar tudo como está.
Mário Nogueira só tem poder porque os professores o apoiam. Por isso, façam como entenderem. Agora, depois não venham é querer que alguém arranje uma solução que não existe e que vai contra Mário Nogueira.
Vamos então ao vilão?
Vamos ao vilão, que estamos fartos de temas tristes. O vilão é António Costa, que anda de cabeça perdida por causa do novo aeroporto. Ontem fez inúmeras declarações sobre este tema, todas elas suficientes para deixar qualquer pessoa perplexa, a começar por mim. Primeiro, voltou a um dos seus assuntos favoritos, que foi culpar os reguladores. Olha, cá está um ponto de contato aqui eventualmente com o nosso presidente. António Costa culpou o regulador da aviação civil pelo chumbo da solução Montijo e aproveitou, claro, para se queixar de todos os reguladores que na cabeça dele têm o desplante de limitar os poderes do governo. Como se os reguladores não tivessem sido inventados para isso. A seguir, António Costa avisou que seja qual for a solução para o novo aeroporto, ela terá a oposição de 80% das pessoas, portanto, está aqui científico, 80% das pessoas vão ser contra a solução do novo aeroporto, seja ela qual for. E por fim, depois de ter insistido nestes últimos meses que uma obra destas tem de ter o apoio dos dois principais partidos, António Costa veio ontem dizer esta frase incrível, que é: "Se não houver acordo com o PSD, é vida. Quem tem maioria, tem de a usar." Eu sinceramente, se era para isto, mais valia seguir a via de Pedro Nuno Santos. Usar a maioria absoluta, decidir já, fosse para um lado ou fosse para o outro, e avançar, seguirmos em frente para a próxima. Pedro Nuno Santos é que afinal tinha razão. Vamos acabar com António Costa a chamar Pedro Nuno Santos e a dizer-lhe: "Pedro Nuno", não sei se o trata por Pedro Nuno, por Pedro, não sei qual é a relação entre eles, "tinhas razão. Olha, peço desculpa daquela humilhação por que te fiz passar, porque tu é que tinhas toda a razão. Olha, toma lá o partido e diverte-te. Vai lá às eleições contra o Luís Montenegro."
Vamos então ao resumo. O bom desta quarta-feira é a independência dos bancos centrais, o mau são as queixas dos professores e o vilão de hoje é António Costa. Foram estas as escolhas do Miguel Pinheiro.