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Está no ar o Bom, o Mau e o Vilão, sempre com Miguel Pinheiro. Fala, Miguel, bom dia.

Bom dia.

Bom dia. Quem é o bom nesta última quinta-feira de março?

Sabes, Maria João, quem me tira as últimas quintas-feiras de março tira-me tudo.

Eu sei como estás a sentir.

É um prazer e um gosto, como diz alguém, poder estar aqui convosco a partilhar a alegria desta última quinta-feira de março. Então, o bom são dois grandes vencedores.

São bombons então.

São bombons. Ora nem mais. É isso mesmo. Para nos mantermos neste tom fofinho do dia de Páscoa.

Neste registo de última quinta-feira de março.

Nomes de Páscoa.

Isso. Então quem são os bombons? Os bombons são o PS e o Chega. Primeiro, vamos falar aqui dos socialistas. Ao fim de longuíssimas horas de balbúrdia e de confusão, o PS conseguiu ganhar nos gabinetes o que não ganhou nas eleições. Apesar de não ser o partido mais votado e apesar de o seu líder ter admitido que não lhe restava outra saída que não fosse ir para a oposição, o PS conseguiu em poucas horas conquistar o direito a ocupar a presidência do Parlamento durante a segunda metade da legislatura.

E vamos chegar lá.

Esquece, Bruno. Aqui para os nossos bombons, o que interessa é, agora, neste momento, a perceção que fica sobre o eleitorado. E a perceção que fica é que o PS continua a ter esta extraordinária capacidade de continuar a mandar, mesmo quando lhe faltam os votos para isso. As pessoas podem votar como entenderem. É como aquela frase célebre do futebol: são 11 contra 11 e no fim ganha a Alemanha. E que a política portuguesa, pelos vistos, são 11 contra 11 e no fim ganha o PS, porque consegue sempre arranjar uma forma de chegar a algum tipo de poder. Em 2015 foi derrubando muros e agora, este ano, foi inventando uma nova fórmula no Parlamento, que é da divisão de mandatos do Presidente da Assembleia da República. Por isso, o primeiro bom. O segundo bom: o Chega. O Chega, de facto, conseguiu esta incrível proeza que foi chumbar o PSD, mas não ser chumbado pelo PSD. Conseguiu forçar Luís Montenegro a esta suprema humilhação de se submeter a Pedro Nuno Santos e, no final, ainda elegeu Diogo Pacheco de Amorim para a vice-presidência da Assembleia da República. Conseguiu fazer aquilo que queria há anos e, como brinde, este bombom tem brinde, vai conseguir ter a possibilidade de passar os próximos meses a berrar a quem o quiser ouvir, e há muita gente que o quer ouvir, que o PSD e o PS se entendem sempre que está em causa aquilo a que André Ventura chama, com o seu instinto poético, tachos.

Eu ainda pensei que o Chega não apresentasse um candidato à vice-presidência, que depois de todo este filme, no final optasse-

Disse assim: "Adico. Não participo nisto."

Sim. Desconfiei disso, mas afinal de contas, não foi isso que aconteceu.

A tua ingenuidade só é igualada pela minha, Bruno. Somos dois ingénuos aqui na última quinta-feira de março a falar com os nossos ouvintes.

Vamos ao mau, Miguel?

O mau é Luís Montenegro, que ontem teve de comer o bombom de que falava o Bruno. O PSD ganhou as eleições, convém. Sempre que o PSD fica à frente em eleições, nós temos que reafirmar. Em 2015, ficou à frente das eleições, mas não serviu de muito. Agora também ficou à frente nas eleições, vamos ver se lhe serve de muito. Mas enfim, o PSD ganhou as eleições, o PSD neste processo todo escolheu um candidato a presidente da Assembleia da República que é reconhecidamente um exemplo de moderação. O PSD falou previamente com os partidos que iriam ocupar os lugares na mesa do Parlamento a informá-los do que pretendia fazer e o PSD cumpriu rigorosamente o que está na Constituição, recusando alinhar em vetos, por exemplo, ao Chega. Mesmo assim, mesmo tendo feito isto, ficamos num impasse e, estando nós num impasse, alguém tinha que ceder. Não havia hipótese. Hoje, amanhã, depois de amanhã, daqui a um mês, havia alguém que tinha que ceder. Ou cedia André Ventura, ou cedia Pedro Nuno Santos, ou cedia Luís Montenegro. E a verdade, dessas voltas que se der, é que cedeu Luís Montenegro, por isso cedeu aquele que tinha a legitimidade do voto, a legitimidade do precedente e a legitimidade de quem seguiu os passos corretos.

E o Pedro Nuno Santos não cedeu um bocadinho, Miguel?

Pedro Nuno Santos conseguiu o que jamais passaria pela cabeça de alguém, conseguiu inventar um cargo novo, conseguiu inventar uma forma nova de conseguir estar à frente da presidência da Assembleia da República. Eu acho que ele teve aqui um grande taticismo. Ele disse que o taticismo tinha acabado, mas não. Conseguiu fazer aqui uma grande manobra tática e E conseguiu ganhar poder. Eu ontem realmente tinha dito que no final desta crise nós tínhamos que ficar a saber quem manda, quem é que tem poder, quem é que manda aqui. E hoje sabemos que, para já, neste momento, quem manda não é Luís Montenegro. E eu espero que ele reflita muito bem sobre aquilo que aconteceu, porque se ele acha que vai de cedência em cedência até à vitória final, pode lhe acontecer ir de cedência em cedência até à derrota final.

Portanto, o mau é Luís Montenegro, e quem é o vilão?

O vilão é António Costa, eu não sei se sabem quem é.

Uma vaga ideia.

Não sei se o nome vos diz alguma coisa. É um senhor de óculos que foi primeiro-ministro durante uns anos. Ele nos últimos tempos tem andado a falar sozinho. Ninguém lhe liga muito. A dada altura vamos nos todos esquecendo dos nomes. António Costa está a tentar que o ouçam a dizer que o governo dele foi extraordinário. Ele está a tentar dizer isto a toda a gente, mas está difícil. Primeiro foi na segunda-feira, era suposto que no final do último Conselho de Ministros deste governo, António Costa respondesse a perguntas dos jornalistas, falasse sobre o seu incrível legado, mas Marcelo Rebelo de Sousa tinha outros planos e foi mais cedo pra casa. Por isso, esta cerimônia ficou adiada. E ontem António Costa teve outra vez azar, porque a conferência de imprensa que estava marcada desde segunda caiu mesmo em cima da crise política no Parlamento e ninguém quis saber dos autoelogios do ainda primeiro-ministro. Eu tenho a certeza que António Costa já sabia disto. De qualquer forma, fica a lição para os próximos. Quando não há poder, não há palco e não vale a pena ter ilusões sobre isso.