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Não se fala de outra coisa. Se calhar, fala-se até de mais coisas.

Pronto, vou puxar a brinca.

Tem-se falado deste inquérito da APEL, a Associação Portuguesa de Editores e Livrários, sobre os hábitos de leitura e de compra de livros dos portugueses, que, como vamos ver, não são exatamente a mesma coisa. Um em cada cinco portugueses, segundo este inquérito, lê livros sem os comprar, uma percentagem que quase duplicou face a 2023, e a média de livros adquiridos por cada leitor também continua em queda. Passou de 7,5 livros em 2023 para 6,9 em 2025. A compra de obras para oferecer também está a cair, já que os portugueses compram livros sobretudo para consumo próprio. São uns egoístas estes portugueses. Há aqui uma preocupação por parte da APEL com a pirataria, porque isto significa que há leitores que leem livros sem os comprar ou vão às bibliotecas, que também é uma solução.

Sim, é possível.

É normal emprestar livros, não é? O problema é quando isto ganha uma dimensão quase industrial.

É.

Mas eu empresto muitos livros e emprestam-me muitos livros. Isso é normal.

Nesta percentagem de leitores haverá alguns que leem mais livros emprestados ou que vão às bibliotecas públicas, ou provavelmente até livros que já têm ou de bibliotecas que herdaram. Mas há aqui uma preocupação da APEL em relação à pirataria digital. Estamos a falar de um crescimento também verificado no volume total de vendas e de unidades, o que são bons indicadores para a APEL, que diz que a diversidade da oferta também cresceu, visto que foram comercializadas 150 mil referências e atribuídos mais 23 mil novos ISBN, que são as marcas dos livros, o que significa que existe uma maior variedade no mercado. A leitura está, de facto, a aumentar. Só que, e essa é a preocupação da APEL, uma parcela relevante desse crescimento ocorre fora da compra direta. A compra de livros digitais está a subir, quase duplicou desde 2023, passou de 10% para 19%. Um formato que é utilizado por cerca de 22% dos portugueses, um crescimento de 5% em relação a 2023. Os leitores continuam, regra geral, a preferir exemplares físicos. 95% dos compradores adquiriram livros impressos. Também as livrarias e lojas físicas preservam aqui uma posição central. Também está identificado neste inquérito que são utilizadas estas lojas por 86% dos compradores. As práticas de acesso gratuito a conteúdos digitais é que estão a preocupar mais a APEL, diz que estas tendências e práticas devem ser acompanhadas. Entre os leitores digitais, um número que, como vimos, está a crescer, 68% recorre a conteúdos gratuitos. Dos que descarregam livros gratuitamente, 64% utiliza plataformas de armazenamento em cloud, 30% recorre ao WhatsApp e 15% ao Telegram. Há aqui uma tendência.

E tu preferes o livro físico?

Eu continuo a preferir o livro físico, mesmo que as dimensões do livro sejam desaconselháveis para os transportes públicos, por exemplo. Mas continuo a preferir, ainda que de vez em quando compre algumas coisas digitalmente para ler, por exemplo, no Kindle. Quando um livro ainda não há edição portuguesa e o livro saiu, por exemplo, nos Estados Unidos, a edição original, por vezes compro, porque fica imediatamente disponível.

Compras pela rapidez e não por ser mais prático?

E não por gostar de ler.

Portanto, ainda não estás rendido.

Não estou rendido. Tem algumas vantagens.

Tem imensas vantagens.

A minha mulher, por exemplo, é super fan e lê praticamente tudo em digital, no Kobo, mas eu ainda não me rendi às vantagens do digital. Continuo a preferir o livro físico.

Muito bem. A música também tem a sua parte física.

São os concertos.

Que é parte da receita.

Também já não se compram CDs, não é?

Já não se compram CDs. Também se faz o download da música.

Mas o CD também está a voltar.

Sim, mas são fenómenos marginais. Não é isso que vai dar dinheiro a ganhar aos artistas. São os concertos. E a digressão do Ed Sheeran pelos Estados Unidos está envolvida, imaginem, mais uma enorme polêmica. E o tema é o mesmo, tem a ver com o conflito entre Israel e a Palestina. Todos os artistas convidados para abrir os concertos do cantor britânico decidiram abandonar a digressão. E o motivo deste abandono coletivo foi o afastamento do rapper Macklemore do alinhamento dos espetáculos. Macklemore foi retirado do cartaz inicial depois de ter feito declarações de apoio à Palestina durante um concerto. Ele gritou: "Palestina livre" no palco. E esta atitude levou também a uma forte reação de empresários, de proprietários de estádios, de financiadores, no fundo, de membros da comunidade judaica, que exigiram a sua saída do alinhamento dos espetáculos à promotora do evento. E como resposta a esta retirada, nomes como a banda Lucas Graham, o cantor Aaron Kell or o grupo P!nk anunciaram também a sua desistência. Os músicos afirmaram que não podiam aceitar que outros artistas fossem silenciados, no fundo, por darem a sua opinião pública, política, sobre um tema global. Nas redes sociais, Ed Sheeran reagiu para tentar acalmar os ânimos. Ele explica que a decisão de afastar Macklemore pertenceu exclusivamente aos promotores e aos donos das salas de espetáculos. Garantiu que tentou intervir para evitar a expulsão. Não conseguiu, como sabemos. Acrescenta também que prefere manter a sua carreira fora de debates políticos públicos. Ele explica que não quer desiludir os fãs, nem deixar sem trabalho as dezenas de técnicos e profissionais que dependem financeiramente desta digressão para viver e para as famílias. E com a saída em grupo, em cadeia, todos os artistas de abertura e até a sua banda de apoio, o Ed Sheeran enfrenta agora uma crise inédita nesta digressão americana. Resta saber como é que ele vai reorganizar os próximos concertos agendados em vários estados norte-americanos. Mas ele também se safa muito bem sozinho com uma guitarrinha. Já o vi sozinho em palco.

Sim.

Ed Sheeran unplugged.

E a maior parte das pessoas comprou bilhete para ir ver o Ed Sheeran.

Sim, não é para ver a banda.

Claro. E nem da banda que o acompanha. Portanto, mais um tema, mais um dano colateral aqui do conflito entre Israel e a Palestina.