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Passamos agora a uma nova edição do Bom, o Mau e o Vilão. Olá, Miguel Pinheiro, bom dia.

Bom dia, boa tarde.

Bom dia, Miguel. Quem é o bom desta segunda-feira?

Olha, o bom são os populares. É uma expressão que se usa muito nas notícias.

Pois é.

Um popular fez isto, um popular fez aquilo. E no caso daquele casal que abandonou duas crianças em Alcácer do Sal e que tem tomado estes dias nas notícias. Neste caso, dois populares fizeram coisas extraordinárias. Primeiro, o popular Alexandre Quintas percebeu que havia um problema com as duas crianças, acolheu-as e chamou as autoridades. E dias mais tarde, outra popular, cujo nome acho que não conhecemos, uma senhora achou muito estranho o comportamento da mãe e do padrasto das crianças num café em Fátima, já depois do abandono das crianças, meteu conversa com eles. A senhora falava francês, tirou os dados da matrícula porque achou tudo aquilo muito estranho e chamou a GNR, que os deteve. E são dois exemplos de empatia, de inteligência e de cidadania. Como se costuma dizer, é a sociedade portuguesa no seu melhor e o Estado português entrega condecorações a tanta gente que não tem nada para mostrar, que se calhar o Presidente da República podia chamar estes populares ao Palácio de Belém.

Olha, sem dúvida, estes são daqueles que depois não se apresentavam para as condecorações e mais tarde tinham que cancelá-las ou algo do género, certamente.

Pois, também acho que não.

Miguel, o teu mau são os nossos ativistas.

É ativista. Tem que ser com aquelas aspas. É ativistas. Então, o Observador deu ontem detalhes sobre a estratégia de defesa de Nelson Vassalo, aquele ativista que há tempos lançou um cocktail Molotov frente ao Parlamento, cuja gasolina atingiu manifestantes pró-vida que ali se encontravam. E a tese da defesa é a de que ele não pode ser condenado por atuar com inspiração terrorista, porque ele não tinha aquelas pessoas como alvo e, por isso, não havia qualquer motivação ideológica contra eles. Ele tinha estado numa outra manifestação sobre habitação e, portanto, não foi para ali como uma espécie de contramanifestante da manifestação pró-vida. Ora, eu não sou juiz, nem quero ser juiz, por isso não me pronuncio sobre a qualificação jurídica daquilo que foi feito naquele dia, mas há alguns factos que são reconhecidos pela própria defesa. A própria defesa reconhece. Primeiro facto: naquela manhã, ele comprou gasolina com o objetivo de fazer um cocktail Molotov. Segundo facto: naquela manhã, ele foi à internet aprender como é que se faz um coquetel Molotov. Terceiro facto: ele fez o cocktailMolotov. Quarto facto: ele andou o dia todo com o cocktail Molotov na mochila. Quinto facto: ele levou o cocktail Molotov para o pé do Parlamento. Sexto facto: ele viu que estavam ali manifestantes pró-vida. Sétimo facto: mesmo vendo os manifestantes, atirou o coquetel Molotov. Segundo a defesa, ele atirou o coquetel Molotov em arco para atingir a escadaria do Parlamento sem atingir os manifestantes. Mas a verdade é que atirou o coquetel Molotov e tinha este plano de atirar um coquetel Molotov contra o Parlamento para chamar a atenção para uma causa. Atenção, isto é a defesa dele a falar. Isto é a defesa! Todos estes factos são a defesa que os reconhece. Isto mostra que em alguns dos nossos ativistas, a fronteira entre uma manifestação pacífica em relação a uma causa e pegar num coquetel Molotov, aprender na internet como aquilo se faz e atirá-lo contra um órgão de soberania, contra a escadaria do Parlamento, acho que é preciso ter muito cuidado para não ultrapassar essa fronteira. Esta ideia de que para chamar a atenção para uma causa é preciso fazer algo mais, porque as pessoas não estão a ver bem. Nós temos toda a razão, mas as pessoas não estão a perceber. As pessoas não estão a perceber que estão erradas e nós temos que fazer mais qualquer coisa. Temos que fazer um coquetel Molotov e atirá-lo contra a escadaria do Parlamento. Mesmo que lá estejam pessoas, vamos atirar em arco. Pronto, para rezar para que não aconteça nada a ninguém, mas vamos atirar. Passar esta fronteira quando as pessoas ficam cegas das suas próprias certezas, de facto, é muito perigoso e eu acho que as pessoas devem lutar pelas suas ideias, mas devem ter uma fronteira muito clara na cabeça.

É o que também nos pode levar a um oitavo facto. Há argumentos de defesas combinados entre advogados e os próprios que fazem das pessoas tontinhas.

Mas isso já não sei, Paulo.

Não sei. É o que eu te digo. Confio no juiz.

Miguel, o teu vilão também tem a ver com ativistas.

É, tem. Andamos com muitos ativistas. Este é o Luís Carneiro, porque se bem se recordam, há não muito tempo, o líder do PS foi a um encontro internacional em Espanha e fez um vídeo com o primeiro-ministro espanhol em que dizia que ele, Pedro Sánchez, é, vou citar: "Uma inspiração pela forma como tem liderado uma agenda progressista e é um exemplo para todos os socialistas democráticos". Ora, o PS português está maravilhado com a forma como o primeiro-ministro espanhol tem criticado os Estados Unidos e Israel. Pois bem, na semana passada, Pedro Sánchez voltou a ser duro com Israel depois de um inenarrável ministro daquele país ter publicado um vídeo condenável com os integrantes de mais uma flotilha que ia em direção a Gaza. Mas então, o que aconteceu este fim de semana? Os ativistas da flotilha começaram a chegar a casa. Uns vieram para Portugal, outros foram para Madrid, outros foram para Barcelona e também para outros países, claro. Além de Espanha, não estou a dizer que Barcelona é um país ou Madrid. Estava só a concentrar-me em Espanha, porque seis foram para Bilbao e lá aconteceram duas coisas em simultâneo. Por um lado, os ativistas puseram-se a posar para as fotos enquanto tapavam o portão do aeroporto por onde deveriam sair os outros passageiros, que também têm a vida deles, não é fazer teatro, também têm a vida deles, é uma vida legítima. Queriam sair do aeroporto para irem para a sua vida e não podiam, porque a saída estava bloqueada. E por outro lado, pelo menos uma das pessoas que esperava os ativistas tentou furar o cordão policial e a polícia sentiu que estava a ser alvo, vou citar a polícia, de provocações. A situação descontrolou-se, houve empurrões e a polícia começou a usar os bastões. E no final dos confrontos, quatro pessoas foram detidas, entre elas três ativistas da flotilha, pelos crimes de desobediência grave, resistência e agressão a um agente. E foram imagens muito violentas. Ora, se José Luís Carneiro elogia Pedro Sánchez quando ele critica a violência das autoridades israelitas, então o que dirá quando a violência vem das próprias autoridades espanholas? O que é feito do tal exemplo para todos os socialistas democráticos? Agora o PS já não quer saber dos ativistas da flotilha? Já não os vai defender contra tudo e contra todos e contra qualquer governo, seja ele qual for? Não quer impor sanções a Espanha, nada? Está tudo bem?

A irónica é que parece que Israel retirou a sua embaixadora para saber o que se passa.

Sim, Espanha já retirou o embaixador de Israel, então o governo israelita, o Ministério dos Negócios Estrangeiros, chamou a encarregada de negócios espanhola para pedir contas, para perceber que cenas violentas foram estas e como é que estão a pôr em causa a integridade física dos integrantes da flotilha.

Muito irónico tudo isto.

Acho que era um bocado inevitável. Mas ao resumo, o bom desta segunda-feira são os populares, o mau os nossos ativistas e o vilão de hoje é José Luís Carneiro. Foram as escolhas do Miguel Pinheiro nas manhãs T00 e que também pode ouvir em podcast.