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Começa agora uma nova edição do "O Bom, o Mau e o Vilão". Olá, Miguel Pinheiro, bom dia. Bom dia. Bom dia, Miguel. O teu bom de hoje é Francisco Pinto Balsemão. Claro, só podia ser Francisco Pinto Balsemão, que morreu ontem aos 88 anos. E a imagem que muita gente tem de Balsemão, eu diria quase toda a gente tem de Balsemão, é a imagem de um filho de famílias ricas, a quem tudo foi entregue de mão beijada. Não é verdade. No jornalismo, Balsemão construiu o jornal Expresso contra o Estado Novo e contra a censura e anos mais tarde construiu a SIC contra os partidos de esquerda, que não queriam de maneira nenhuma que houvesse televisões privadas em Portugal, e contra uma parte da direita que não queria que fosse ele a ficar com um dos canais que iriam existir, porque tinham planos políticos próprios pra televisão privada, sabiam bem o que queriam fazer com aquilo. Na política, ele começou como deputado ainda durante o Estado Novo, na ala liberal, contra os interesses de Marcelo Caetano, que não queria que se falasse em liberdade de imprensa, nem em presos políticos. Mais tarde, foi líder do PSD contra uma parte substancial do partido, que sempre o tentou derrubar, e em 1982 fez uma das duas revisões constitucionais mais importantes da democracia contra um presidente da República cheio de poder e contra uma parte das Forças Armadas que queria continuar a mandar no regime. Francisco Pinto Balsemão precisou sempre de lutar a sério pra conseguir tudo o que queria e convém que tenhamos isso claro quando olhamos pra vida dele. Podia ter escolhido o tal caminho de, sendo filho de famílias ricas, enfim, dedicar-se a gerir e a explorar esse berço de nascimento. Teria sido muito mais fácil. Teria sido muito mais fácil pra ele e muito pior pra nós, claro.

O bom é Francisco Pinto Balsemão. Quem é o mau, Miguel?

É Carlos Moedas. Ontem a Câmara de Lisboa admitiu finalmente, e vou citar, que é bastante grave o conjunto de falhas técnicas detectadas ao longo de vários anos e processos que envolvem essencialmente as duas últimas administrações da Carris. De facto, é mesmo bastante grave. O relatório preliminar sobre o Elevador da Glória, que foi conhecido esta semana, mostra uma empresa onde não há nenhum controle sobre aquilo que é feito, mas reconhecendo que aconteceram coisas bastante graves. O que fez Carlos Moedas? Fez o mínimo possível. Ele anunciou apenas que não vai reconduzir a atual administração da Carris. O mandato dos gestores coincide com o do presidente da Câmara, por isso vai acabar agora e o autarca vai limitar-se a não nomear novamente esta administração. É um erro. A vida política e a vida pública vivem de gestos simbólicos. Se se passaram coisas bastante graves na Carris, então tem que haver uma demissão. Quer dizer, a demissão até poderia ocorrer três dias, dois dias, um dia antes do fim do mandato da administração, mas teria de ser uma demissão. Se de facto Carlos Moedas quer, como prometeu ontem, recuperar o mais depressa possível a confiança e a credibilidade da empresa, então esse precisava de ser o primeiro passo. Até porque se não estão aptos para o cargo, não vão ficar mais alguns meses a exercê-lo, não é? É pouco tempo, acaba agora. Não necessariamente agora, provavelmente com a apresentação do relatório e contas deste ano, mas enfim. Sim, mas dá sempre a ideia de que Carlos Moedas protege a administração da Carris pra se proteger a si próprio. É sempre essa a ideia com que eu fico e por isso está sempre ali a meio caminho, porque teme que se responsabilizar efetivamente a administração da Carris, alguém vai dizer: "Alto lá, então e o senhor?" Mas quer dizer, um político não se pode guiar por estas coisas. Claro. Miguel, o teu vilão sente-se roubado como o Luvo? Pois é. Coitado, coitadinho. O senhor roubado é os utilizadores do metro. É José Sócrates. Ontem foi a vez da gestora de conta do arguido falar em tribunal e ouviram-se algumas escutas entre os dois. E numa delas, José Sócrates diz isto: "Tenho de pagar o meu IRS e fiquei um bocado boquiaberto. Acho que começo a passar pro outro lado. Acho que o Estado nos rouba de forma violenta. Tenho de pagar 40 e tal mil euros." José Sócrates, que pelos vistos está a passar pro outro lado, já nos tinha dito uma vez, pra justificar o fato de andar sempre com pequenas fortunas em notas, que não confiava no sistema bancário e por isso preferia dinheiro vivo. Era só por causa disso. Não confiava no sistema bancário. E agora ficamos a saber que o ex-primeiro-ministro do Partido Socialista, o defensor dos pobres e dos deserdados, que queria pôr o governo a mandar em todo lado, esse ex-primeiro-ministro acha que o Estado rouba os cidadãos de forma violenta de cada vez que lhes cobra IRS. Eu nem quero imaginar, pra ser €40 mil de IRS. Eu não percebo nada de IRS. Quanto serão os rendimentos declarados. Com certeza. Mas enfim, uma pessoa ouve estas coisas e só se lembra daquela frase do antigo selecionador nacional Luís Felipe Scolari, que dizia: "E o burro sou eu?" E de repente uma pessoa sente que é o burro. A pessoa ouve isto e pensa: "De facto, pronto, nós somos os burros que andamos por aqui a carregar com isto."

Miguel, hoje regressas depois do meio-dia pra mais um Realpolitik com o Sérgio Sousa Pinto. Do que vão falar esta semana?

Olha, vamos falar, obviamente, da importância de Francisco Pinto Balsemão, mas também da polêmica à volta da proibição da burca e das novidades nas eleições presidenciais. Esta semana aconteceu muita coisa. Muita coisa e vamos falar um pouquinho sobre isso também.

Realpolitik pra ouvir como sempre, à quarta, depois do jornal do meio-dia. Quanto ao bom, o mau e o vilão. O bom de hoje é Francisco Pinto Balsemão, que morreu ontem aos 88 anos. O mau é Carlos Moedas, o vilão é José Sócrates.