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Começa agora uma nova edição do Bom, o Mau e o Vilão, da Rádio Observador. Olá, Miguel Pinheiro, bom dia.

Bom dia.

Estás a respirar fundo?

Eu?

Sim.

É essa pontada no peito, não é?

Não.

O hipocondríaco está sempre com pontadas.

Estou muito bem, muito obrigado.

Miguel, o teu Bom é um repetente. Tu não me digas!

É verdade. O Bom é outra vez a justiça. Vamos aproveitar enquanto isto dá, porque ontem a juíza da Operação Marquês continuou a ouvir o arguido Gonçalo Trindade Ferreira, que como se sabe, trabalhou como advogado de Carlos Santos Silva, que é o melhor amigo de José Sócrates. Aquilo é unha com carne. Ele falou sobre várias coisas muito importantes, mas não vamos querer saber disso agora. Vamos concentrar-nos na parte cômica, porque nós merecemos. Se bem se lembram, em 2013, José Sócrates publicou, eu não disse escreveu, eu disse publicou o livro "A Confiança no Mundo", com o subtítulo "Sobre a Tortura em Democracia". E se nós sabemos coisas sobre tortura em democracia, de facto. Era um livro tão bom, vendeu uns astronômicos 20 mil exemplares. Não sei se as pessoas têm noção, mas vender 20 mil exemplares é muito bom em Portugal. Agora, o problema não está em quem vendeu, o problema está em quem comprou, porque como Gonçalo Trindade Ferreira confirmou ontem em tribunal, o amigo Carlos Santos Silva organizou brigadas de pessoas que foram em massa comprar esta obra maravilhosa. Gonçalo Trindade Ferreira lembrou até a frase do benfeitor de José Sócrates, e eu vou citar: "Toma e vai lá comprar livros." Parece um dos mandamentos, não é? A pessoa até quase está a imaginar Moisés a descer e a dizer: "Toma e vai lá comprar livros." Só Gonçalo Trindade Ferreira comprou 2374 exemplares, ou seja, se estou a fazer bem as contas, Paulo, ajuda-me, só isto é mais de 10% do total vendido, não é?

Sem dúvida, 10% eram 2000. Claro, 2300 é mais 10%.

Atenção, impressionante.

Está auditado esse número.

Muito bem, muito obrigado. Sendo que atenção, por falar em auditorias, isto também não era só gastar. Não fiquem aqui a pensar que isto era desperdiçar dinheiro assim à maluca. Nada disso, porque Gonçalo Trindade Ferreira explicou em tribunal que, sempre que possível, usou cartões de desconto e até de outras pessoas em livrarias Bertrand e FNAC. Portanto, aquilo ia acumulando pontos. Acumulava pontos e ia usando os cartões de desconto.

Ah, bom, então está bem.

Não, Paulo, uma pessoa tem que ter atenção ao dinheiro que entra, ao dinheiro que sai.

Claro, são gestores responsáveis, como é evidente.

Como é óbvio, porque o dinheiro não dá pra tudo. Pra ser possível comprar uma casa em Paris, é preciso poupar um bocadinho nos livros, não é?

Exatamente.

Onde é que nós andávamos? Como as pessoas se lembram, Gonçalo Trindade Ferreira justificou-se no primeiro dia de interrogatório, dizendo que na altura dos factos era apenas um miúdo, apesar de ter ali entre 35 e 38 anos. E ontem, lembrando que de repente havia livros por todo lado, lá no escritório, explicou as coisas assim, vou citá-lo. Mostra aqui, de facto, a inocência da infância. As crianças são inocentes. E então, o que ele disse ao tribunal? "Eu achei que um amigo estava a fazer um favor a outro amigo, pra ele ficar com o livro em primeiro lugar, com muita amizade. Ou então, haveria algo por detrás que eu desconhecia." A sério, Gonçalo, acho que já posso tratar pelo primeiro nome.

Já estão íntimos.

Sinto que já o conheço. A sério, Gonçalo, acha mesmo que haveria algo que desconhecia? Será possível que não fosse normal e habitual comprar 2374 exemplares de um livro, mesmo recorrendo a cartões de desconto da FNAC e da Bertrand? De facto, se calhar havia aqui qualquer coisa. Eu acho que o importante nesta história, e convém não nos desfocarmos do essencial, é o seguinte: eu não sei se José Sócrates vai ser condenado ou não, não sei. Mas há uma coisa que ninguém nos tira e que ninguém lhe tira a ele. Ninguém nos tira, graças a Deus, nosso Senhor Jesus Cristo, a exposição pública destas cabeças ridículas. Eu acho que José Sócrates não vai poder sair à rua sem as pessoas se lembrarem, pelo menos, se não se lembrarem de mais nada, ao menos que se lembrem dos 2374 exemplares. Atenção, eu estou a falar que foi só uma pessoa a comprar 2374, porque as pessoas podem estar a pensar: "Ora, foram 20 mil. Vinte mil menos 2 mil, apesar de tudo, bom, o homem vendeu 18 mil. Atenção, nada mal." Não. Pois havia mais gente a comprar. Só pra não ficar aqui nenhum equívoco.

Miguel, havia toda uma organização, isto não era feito à balda.

Claro, com certeza. E também só pra lembrar qual era a grande ambição de José Sócrates: era estar à frente do José Rodrigues dos Santos no top livros, porque acho que na altura José Rodrigues dos Santos também estava a lançar. Também é normal, ele está sempre a lançar livros, e muito bem, legitimamente. E ele queria poder dizer que estava à frente do José Rodrigues dos Santos. Eu tenho ideia disso.

Exatamente.

Pronto, é isto, José Sócrates.

Era a glória.

Quem é o teu mau, Miguel?

O mau são as juntas de freguesia, porque ontem soube-se que o presidente da Junta de Freguesia de Vila do Conde, Isaac Braga, renunciou ao cargo depois de se saber que usou dinheiros públicos para pagar, por exemplo, não foram livros. Calma, não foi assim. Segundo parece, segundo li, €10 mil em tabaco, €9 mil em restaurantes, €2500 no supermercado, em roupas de marca, em perfumes e, claro, mas isto é a parte compreensível, numa massagem.

Depois de tantas compras, não é?

Sim, a pessoa fica cansada.

Claro. E os sacos, estar a carregar os sacos, claro que fica cansado. É evidente. Parece que também terá havido muito dinheiro em levantamentos, transferências por MBO para a mulher, enfim, muito dinheiro, especialmente para uma junta de freguesia. Mas tudo isto, segundo percebi, só se soube por causa de uma reportagem da RTP, e eu fiquei com a dúvida sobre se nas autarquias não há formas independentes de controlar a circulação do dinheiro. Não há nenhuma maneira de controlar isto? Nós, os contribuintes, temos todos de ficar à espera dos jornalistas? Ainda por cima essa raça horrível. Temos de estar à espera dos jornalistas para perceber se o dinheiro está a ser bem utilizado ou não?

Haveria tecnologia que já resolvia o assunto.

Achas que a inteligência artificial era capaz de detetar as massagens?

Claramente.

É? Então vamos pensar nisso.

Mas vamos pensar e esperar sentados.

Para quê?

Esperar sentados para que uma coisa dessa esteja no Estado a funcionar.

Queres esperar sentado enquanto fazem uma massagem?

Por exemplo.

Está bem, está combinado.

Miguel, o teu vilão quer mudar uma proposta de lei.

Pois é, parece que o PSD decidiu apresentar uma alteração a uma proposta de lei do governo que pretende combater as medidas dilatórias na Justiça. Enfim, para nos mantermos no tema. E uma das propostas passa por dar ao juiz o poder de aplicar multas a quem tente, e vou citar, entorpecer ou retardar o andamento da Justiça. Enfim, parece-me muito bem, mas o PSD ficou muito preocupado com uma coisa: é que a forma como a proposta do governo estava escrita permitia multar também os advogados de defesa que participassem dessas manobras dilatórias. E, pelos vistos, segundo o PSD, isso é que não pode ser. Não pode ser, os advogados, nem pensar. E então o partido quer excluir expressamente essa possibilidade. E parece-me que este é um dos problemas do nosso Parlamento, acho que já falei sobre isto aqui uma ou duas vezes, mas ninguém me ouve. É que há muitos deputados que são advogados e não há deputados que sejam magistrados do Ministério Público ou juízes. Claro, eu percebo porque é que os juízes e os magistrados do Ministério Público não podem ser deputados, mas mesmo assim nem há uma tradição grande de deixarem eventualmente a carreira e serem deputados. E por isso os deputados têm o quadro mental dos advogados. É também uma velha tradição portuguesa advogados serem deputados. Há várias razões para isso, mas são ao mesmo tempo advogados e deputados. E, portanto, todo aquele quadro mental, eu nem estou a dizer que isto seja feito com objetivos ocultos, não estou a dizer isso, estou a dizer que pensam como advogados, olham para a vida como advogados e olham para a Justiça como advogados. Ora, eu, graças a Deus, não sou advogado, não vejo nenhuma boa razão para proteger advogados infratores de multas. Quer dizer, se um advogado participa de uma manobra dilatória, se aceita levá-la a cabo, se eventualmente até se lembra dessa manobra dilatória, então está a contribuir para travar a Justiça. E isso até é mais grave nele, que tem especiais responsabilidades, do que num arguido, que o que quer é salvar-se. Eu acho que nós, olhando para julgamentos recentes, e não quero nomear nenhum em especial, acho que temos que cada vez mais concluir que na Justiça não pode valer tudo, nem para os advogados. Portanto, se um advogado decide empreender manobras dilatórias, por que carga d'água é que não há de poder? Eu bem sei que o argumento é: pode ter um processo disciplinar na Ordem. Muito bem, claro, com certeza. Por que não acumular? Nós acumulamos tantas coisas na vida, tem um processo disciplinar na Ordem e tem uma multa.

Claro.

Não consigo entender muito bem isto.

Por outro lado, as manobras dilatórias, muitas delas estão previstas na lei, que foi feita por advogados no Parlamento. Isto anda tudo ligado.

Isso então entraríamos em toda uma outra discussão. De qualquer maneira, só para notar, estas multas são decididas por um juiz. Não é propriamente uma coisa que cai do céu aos trambolhões. Não, um juiz olhará para o caso concreto e decidirá se aquela ação do advogado é um comportamento legítimo, tendo em conta o contexto e o processo, ou se já é uma manobra dilatória. Enfim, quer dizer, nós não confiamos nos juízes? Se não confiarmos, então não seria.

É melhor ficarmos por aqui.

Acho que sim.

Vamos então ao resumo. O ponto desta quinta-feira é a Justiça, o mau são as juntas de freguesia, o vilão é o PSD. Foram as escolhas do Miguel Pinheiro nas manhãs 360 e sempre em podcast.