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"Quente e Frio" na Rádio Observador, como sempre com a Filomena Martins, olá Filó. Vamos lá para mais uma edição. E vamos começar com a nossa previsão. Quando é que acaba o calor? Atenção, não me quero queixar, porque já sabes, já tens vindo a perceber que eu gosto muito do bom tempo e do calor, mas efetivamente já estamos quase em novembro. Quando é que acaba o calor e quando é que volta a chuva?
São provavelmente as duas perguntas que mais os portugueses fazem neste momento.
Certeza.
Tu sabes que sou do teu time, mas de facto estamos no tempo dele.
Exato, tem de ser.
A primeira pergunta tem uma resposta mais ou menos clara. Quando é que acaba o calor? O calor deverá começar a perder força na próxima terça-feira, dia 3 de novembro. Portanto, é aproveitar esta semana de calor ainda. E vai haver uma descida mais evidente das temperaturas depois na quarta e na quinta-feira.
Ok.
Quanto à chuva, a resposta exige mais cautela, porque os primeiros sinais de regresso da precipitação surgem só na sexta-feira da próxima semana, 6 de novembro, e ainda não é possível garantir que vá chover em todo o país, nem que vá chover muito. E talvez até que não chova ainda, porque a tendência para uma mudança mais significativa e para uma tendência de chuva só aparece nos modelos, para já, porque modelos são probabilidades.
Claro.
Na semana seguinte, entre 9 e 16 de novembro. Até lá, o calor continua e há uma particularidade no estado do tempo que merece atenção.
Então qual é? É alguma novidade?
Sim, esta sexta-feira, dia 30, grande parte do continente poderá acordar com neblina, nevoeiro ou nuvens muito baixas. Não significa que o dia inteiro vá ser cinzento, mas durante a noite o ar fica muito frio, arrefece muito junto ao solo e se houver humidade suficiente, formam-se pequenas gotículas de água em suspensão e é assim que aparece o nevoeiro. Com o aquecimento do sol, depois, a tendência é que essas gotículas se evaporem, o nevoeiro desapareça e deixará o céu mais aberto. E o contraste vai ser surpreendente, porque uma manhã com nevoeiro e uma tarde com temperaturas próximas dos 30 °C.
Pois, era isso que eu estava aqui a pensar, não faz nenhum sentido.
Mas vai acontecer, porque em Grândola, por exemplo, o IPMA prevê 29 °C para sexta-feira, em Setúbal o máximo poderá chegar aos 28, Santarém e Évora aos 27.
Mas que bem, então e esta quinta-feira, amanhã, como é que vai ser?
Também vai ser quente, o calor vai sentir-se sobretudo no Ribatejo e no Alentejo. Chaves pode atingir os 30 °C, a temperatura mais elevada entre as localidades todas que estive a analisar. Depois, Santarém, Mora e Grândola poderão chegar aos 29, Évora aos 28, Beja, Larissa e Setúbal aos 27 e Lisboa aos 26. E não se trata de um único dia quente, porque, por exemplo, Grândola, a previsão aponta para 29 °C durante três dias consecutivos, de quinta a sábado. Portanto, o fim de semana, incluindo o dia de Todos os Santos, deverá continuar com muito sol e temperaturas elevadas para a época, tal como o dia de Halloween, na sexta-feira, só que a noite, para quem queira brincar depois às bruxas, vai estar fria. Mas aquela coisa que há do meu tempo, não do vosso, de ir pedir o pão-por-Deus, aquela amarinha, que me faz desligar a campainha agora. Essa será uma manhã ainda quente. É um início de novembro mais parecido com o prolongamento de outubro do que com a chegada do frio. Outubro acaba da mesma forma que começa novembro.
Ok, muito bem. Então vamos falar aqui de uma mudança que começa esta terça-feira.
Sim, a partir de terça-feira os termômetros começam finalmente a descer e na quinta, 5 de novembro, o contraste já deverá ser bastante evidente, porque grande parte do país já estará ou abaixo de 20 ou pouco acima dos 20 °C. Já é uma diferença significativa.
Pois.
Por exemplo, na Guarda, as máximas deverão ter só 14 °C, Bragança, Vila Real e Viseu também ficarão pelos 16, 17 °C, Portalegre e Viana do Castelo pelos 18 °C. No Sul e no Vale do Tejo as temperaturas são mais amenas. Évora e Santarém ainda podem chegar aos 23 °C, Beja e Lisboa aos 22 °C, Lisboa aos 21 °C. Mas isso já são temperaturas mais adequadas do outono. Não é uma vaga de frio, é o fim do período destas temperaturas mais altas para esta altura.
Até já fazer jus à estação.
Ao outono. Depois de tantos dias de tempo seco, fica então a expectativa em relação à chuva, que há de regressar ou no fim da semana ou na semana a seguir. Uma nota só para os Açores, onde o tempo será bastante diferente, porque em Ponta Delgada a quinta-feira deverá ser marcada por chuva. A instabilidade poderá prolongar-se durante o fim de semana. Estão várias ilhas sob aviso amarelo por causa desta chuva, porque está a passar uma frente fria por lá.
Pronto, este alerta aqui para os Açores. Filomena, vamos passar ao fenômeno.
Vamos.
E se nem todas as danas tiverem sido danas?
É isso.
O que é isto?
É importante, porque temos cada vez ouvido falar mais de danas por causa destes episódios que estão a acontecer aqui na Catalunha, com estas cheias, chuva torrencial, depois passa para as Ilhas Baleares. Parece que até que vem aí mais um episódio, já esta semana, no final da semana, pode acontecer outra vez, ali na Catalunha, em Valência, em Barcelona, vir mais uma dana. Mas será que todas elas foram danas?
Pois.
Esta interrogação começou a chegar a alguns cientistas, a alguns meteorologistas, porque pode ser que nem todas elas tenham sido danas e que o Mediterrâneo esteja a formar verdadeiros ciclones tropicais.
Uau.
Ou pelo menos a aproximar-se das condições necessárias para os formar, estes ciclones tropicais, como acontece nos oceanos tropicais. E essa hipótese já está a ser investigada por dois meteorologistas espanhóis conhecidos. O ponto de partida são as tempestades que atingiram a Catalunha nos dias 3 e 4 de outubro, aquelas maiores, aquelas grandes cheias, e os investigadores encontraram indícios de um processo muito pouco habitual, um sistema que não tem nada a ver com as danas e que poderá ter começado a desenvolver características tropicais diretamente sobre o Mediterrâneo.
E por que razão é que isto é tão importante, Filomena?
Porque o Mediterrâneo, na prática, já tem tempestades com algumas características semelhantes às dos ciclones tropicais. Têm um nome próprio, chamam-se Mediterranees. É uma palavra formada pela junção do Mediterrâneo e hurricanes, que é a furacões em inglês. Mas habitualmente estes sistemas começam por ser depressões de origem não tropical, que depois adquirem estas características tropicais. O que os investigadores estão agora a estudar é diferente, é a possibilidade da formação começar diretamente sobre as águas quentes do Mediterrâneo, sem esta fase inicial. Ser exatamente como acontece nas zonas tropicais. E é um dado especialmente importante, porque na altura destas tempestades, a temperatura da superfície do Mediterrâneo estava entre dois graus a três graus e meio superior aos valores habituais. E as simulações que eles realizaram sugerem que este calor adicional da água foi decisivo para o desenvolvimento do sistema. Ou seja, não teve nada a ver com uma DANA. Não veio lá uma gota de ar frio que saltou da corrente de ventos. Foi mesmo um sistema que se envolveu pelo calor. Quando simularam as condições da água mais fria, já não houve o tal fenômeno, não se reproduzia desta maneira. Isto não significa que tenha sido confirmado um ciclone tropical completo ali na zona da Catalunha. A classificação do fenômeno continua por investigar. Mas estão a perceber que talvez não tenha sido uma DANA estão, e pela primeira vez. Isto levanta uma questão importante, porque à medida que o Mediterrâneo aquece, ele cada vez está mais quente. Nós podemos estar a ficar mais favorável à formação destes sistemas meteorológicos que têm características tropicais. Eles estão a tentar perceber isto. Há uma distinção essencial, o estudo de um episódio não demonstra que as alterações do Mediterrâneo já estão a provocar os ciclones tropicais. Estamos a falar só de um episódio, mas mostra que o aquecimento das águas tem um papel fundamental na forma como algumas tempestades se desenvolvem. A questão já não é apenas saber se o Mediterrâneo pode ter tempestades semelhantes às tropicais, é perceber se poderá começar a formar algumas delas de uma maneira que agora associávamos apenas, sobretudo aos oceanos tropicais.
Sim. Muito bem, vamos à nossa curiosidade. Filomena, um coral doente pode recuperar graças ao seu vizinho saudável? Gosto sempre destas curiosidades que tu trazes, porque eu fico sempre bastante surpreendida.
É isso, porque os corais estão entre os organismos marinhos mais ameaçados pelo aquecimento dos oceanos. Estávamos ainda agora a falar do Mediterrâneo, onde também está a acontecer isto. E quando a água fica muito quente, eles podem perder as pequenas algas que vivem nos seus tecidos e lhes dão grande parte da energia. É o chamado branqueamento dos corais, estão quase todos a ficar assim. Só que agora uma investigação da Universidade de Stanford, que foi publicada na revista científica Science Advances, aponta para uma possibilidade surpreendente, que é os corais afetados por este branqueamento podem beneficiar do contato com os corais saudáveis que estão ao lado deles. Os investigadores observaram em condições, obviamente, ainda experimentais, que a proximidade de corais saudáveis pode favorecer a recuperação dos outros que sofreram com este estresse térmico.
Uau, incrível!
É uma descoberta incrível, realmente, porque sugere que a recuperação de um recife, por exemplo, não depende apenas das condições da água ou da resistência individual de cada coral, mas que as relações entre os organismos vizinhos também podem ter importância. Isto obviamente não significa que basta colocar um coral saudável ao lado do outro já doente e branqueado.
E por milagre aquilo fica tudo colorido.
Os resultados ainda precisam ser confirmados em diferentes espécies e em condições naturais. Mas a ideia fascinante é esta: num recife de coral, a sobrevivência de um organismo pode depender em parte da saúde dos vizinhos, porque eles colocaram um bom, todo colorido, e o outro doente, e ao fim dos dias, o doente começou a ganhar as cores naturais, porque aquelas algas foram para um e para o outro.
Portanto, é importante ter aqui uma boa vizinhança em qualquer sítio. Muito bem, "Quente e Frio" na Rádio Observador com a Filomena Martins.