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Está no ar mais um episódio do "O Bom, O Mau e O Vilão" da Rádio Observador, e que também pode ouvir em podcast. Olá, Miguel Pinheiro, bom dia.

Bom dia.

Bom dia, Miguel. O teu bom recebeu notícias animadoras.

Sim, a Tracking Poll que a TVI e a CNN começaram ontem a divulgar tem dois dados que André Ventura deve estar a comemorar. O primeiro é que o Chega continua a estar ao lado do PS e da AD. O PS aparece com 27,9%, o Chega com 27,1% e a AD com 25,7%. Ou seja, há um empate técnico. E isto é mais significativo pro Chega do que pro PS, porque os socialistas e o PSD eram, até há pouco tempo, as alternativas naturais do governo, mas desde as eleições, o Chega tem conseguido manter-se perto do primeiro lugar, o que mostra que a votação do partido está a consolidar-se. E o outro ponto importante da sondagem é que 65% das pessoas que responderam às perguntas acham que Luís Neves não tem condições pra estar no governo. Ou seja, a pressão do Chega está a resultar e o que percebemos é que sempre que o PSD vacila, o Chega ganha. E o PSD tem vacilado muito.

Claro. Ou pelo menos isso mostra que o Chega está alinhado com o que é um sentimento maioritário da população.

É verdade. E, portanto, depois venham nos falar em normalização, que é uma expressão que se gosta de usar muito quando se fala do Chega. Pois, se os outros partidos se anormalizam, o que cá de acontecer? O Chega normaliza-se.

Miguel, e o que a sondagem diz sobre o teu mau?

O que a sondagem diz sobre o meu mau, que é Luís Neves, é que 65% das pessoas não o querem no governo, mas há mais. Ele é o segundo ministro mais impopular do governo, só atrás de Ana Paula Martins. A avaliação negativa da ministra da Saúde é de -37,7%, enquanto a avaliação negativa de Luís Neves é de -32,1%. E é difícil, é muito difícil, é mesmo complicado encontrar na história da democracia portuguesa, um ministro que tenha passado tão rapidamente das nuvens pra uma cave. E ainda por cima, daqui a nada, o Luís Neves volta a falar, e agora vai ser no Parlamento, o que quer dizer que não é ele a ditar as regras, como faz nas conferências de imprensa, em que ele é que sabe. "Eu falo quando quero, eu é que sei, eu é que decido." Aqui fala quando lhe dizem pra falar e não é ele quem decide. E, portanto, eu faço aqui uma aposta. Paulo, tu que não tens amor ao dinheiro.

Já tá a levar as mãos aos bolsos.

Pronto, diz lá. 50 cêntimos.

Queres umas moedinhas?

Não, mas esta é fácil. Até tenho vergonha. Não vamos apostar, porque esta é fácil.

Tu apostas o quê?

Eu aposto que o dia de Luís Neves vai acabar muito pior do que começou. Atenção, eu não sei como é que começou o dia de Luís Neves. Graças a Deus, não estava lá ao lado da cama pra ver. Pode ter começado mal por algum motivo, mas mesmo tendo começado mal, vai acabar pior.

Por outro lado, Miguel, já correu tão mal que agora é difícil correr pior.

Pior não fica, como dizia aquele candidato brasileiro.

O Tiririca.

O Tiririca. Tu que tu te foste.

Não, mas há sempre essa perspectiva. Isto já correu tão mal que dificilmente poderá correr pior. Não sei.

Também é verdade. Olha, então eu afirmo lá a aposta.

O que tu achas? Continuas a apostar?

Continuo.

Pronto, então lá veremos.

Vais a jogo, Paulo?

Não vou a jogo, só simbolicamente. Não se mete nem 50 cêntimos.

É, Maria João, isto é sempre tudo simbólico.

Sempre. O Paulo já sabe.

É sempre muito simbolismo, e depois pagar as apostas no restaurante de sempre é que nem pensar.

Mas já que falas, de facto, dizes aqui que não há notícia de que se tenha passado tão rapidamente do céu ao inferno, se quiseres. Mas é um caso de estudo. Como é que ele, oito anos à frente da Polícia Judiciária, com tão boa imprensa e bom trabalho para mostrar, de repente, em três ou quatro meses, se perde tudo.

Eu acho que a Fundação Gulbenkian devia atribuir uma bolsa ao Instituto de Ciências Sociais.

Não se pode ter uma conversa séria aqui a esta hora.

Não, é verdade, pra criarem uma equipa pra estudar isto, estou a dar-te razão.

Mas para a opinião pública, provavelmente os requisitos e aquilo que são boas características para um líder da PJ são completamente diferentes, talvez, daquilo que se pede a um ministro, mesmo de Administração Interna.

Ou então corremos o risco com o prolongar deste caso, de as pessoas se convencerem de que Luís Neves se calhar não foi tão bom líder da PJ, que é outro dos problemas. Eu entendo que Luís Neves, repara, realmente é muito desagradável chegar ao fim de uma carreira e terminá-la desta maneira. E percebo que ele queira sair do governo com a sua reputação intacta, mas o que está a acontecer é o contrário. O prolongar desta situação só está a contaminar outras áreas do currículo de Luís Neves.

Sem dúvida.

Eu percebo. Não é fácil. É por essas e por outras Paulo, que eu, apesar dos teus pedidos insistentes, não me meto na política.

Fazes mal.

Paulo.

Só falta o vilão, Miguel, é Luís Montenegro.

É, o primeiro-ministro passou semanas a dizer-nos que o governo estava bom e que o país estava ótimo, nós estávamos ótimos, eu estava ótimo, Maria João, estavas ótima, o Paulo também estava ótimo.

O Paulo está sempre.

Sempre ótimo, sempre impecável.

Deixa ver as análises e depois falamos.

Mas passou semanas a garantir-nos que as críticas ao ministro da Administração Interna e ao ministro da Educação eram única e exclusivamente o produto de jornalistas malvados e documentadores alienados que vivem numa bolha e que não conhecem o país. E ouvindo, realmente ficávamos todos a achar que o bom povo português estava pronto a entrar nas redações com forquilhas pra pôr na ordem as elites bem-pensantes. Eis que, de repente, ficamos a ver que, pelos vistos, não era bem assim, porque a tracking poll da CNN indica-nos que 58% das pessoas inquiridas desaprovam o governo e 59% desaprovam o primeiro-ministro. Na cabeça de Luís Montenegro, a AD estaria a caminho de uma maioria absoluta triunfal, mas com estes números não há maioria nenhuma, nem absoluta, nem relativa. Nós já sabemos, as pessoas quando dizem quem é que estão a pensar votar, é totalmente diferente estarem na véspera de umas eleições ou estarem a muito tempo das eleições. Já sabemos disso tudo, com certeza, é verdade, mas estes números são um bocadinho para o assustadores para o governo. E eu diria que tendo em conta que Luís Montenegro estava convencido de que o povo pensava uma coisa e a bolha pensava outra, e tendo em conta que estes números mostram que se calhar a bolha e o povo estão mais alinhados do que o governo pensava, eu diria que a solução é Luís Montenegro começar a sair mais vezes à rua. Mas não é para se encontrar com militantes com bandeirinhas. Já sabemos, sair à rua, num carro, como turista, pra depois quando sair do carro, ter ali umas pessoas a agitar umas bandeirinhas e entrar dentro duma sala onde estão outras pessoas a agitar umas bandeirinhas, não serve de nada. Eu diria que pode haver aqui uma forma de fazer isto, que é Luís Montenegro põe um bigode falso. Eu acho que devia. E sai disfarçado pra falar com eleitores normais. Há um programa de televisão que é o CEO disfarçado.

Vai fazer de cliente-mistério.

Exato.

É o primeiro-ministro mistério.

Exato.

Por que não?

Exato. Bigodinho.

Uma cabeleira, vá, só pra lhe dar outro ar.

Uma cabeleira verde pra disfarçar, só pra passar despercebido.

E falar com as pessoas e ouvir as pessoas fora da bolha. Já que está tão preocupado com a bolha, de facto, sair da bolha é sempre bom.

É a velha questão da censura moderna. Se deixasse de haver casos destes no governo, se calhar, naturalmente se daria mais atenção a algumas coisas que o governo está a fazer.

Claro, Paulo, é como eu. Se eu deixasse de fazer disparates, as pessoas só reparavam nas coisas boas. Eu estou farto de dizer isto, mas ninguém me ouve. As pessoas continuam a chamar a atenção pras coisas tontas que eu faço. E olha, estou nisto.

Eu não diria melhor.

Obrigado, Paulo. Solidariedade sempre.

Vamos ao resumo. O bom desta terça-feira é André Ventura, o mau é Luís Neves e o vilão de hoje é Luís Montenegro. Foram as escolhas do Miguel Pinheiro nas manhãs 360 e sempre em podcast.