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Está no ar o Bom, o Mau e o Vilão da Rádio Observador, sempre com o Miguel Pinheiro. Bom dia, Miguel.

Bom dia.

Bom dia. Quem é o bom nesta segunda-feira, dia 13 de junho?

O bom desta segunda é o Sindicato Independente dos Médicos. Há dias, uma grávida perdeu o bebê no Hospital das Caldas da Rainha e ao longo deste fim de semana prolongado fomos lendo notícias, umas atrás das outras, de serviços de obstetrícia fechados um pouco por todo o país, no São Francisco Xavier, em Lisboa, no Beatriz Ângelo, em Loures, no Hospital de Setúbal, no Centro Hospitalar Barreiro Montijo, no Hospital Garcia de Orta, em Almada, no Hospital de Braga. Enfim, já sabemos que depois de ser conhecida uma tragédia, é fácil apontar culpas e responsabilidades, mas o Sindicato Independente dos Médicos não falou depois, falou antes. Antes deste fim de semana prolongado, colocou um alerta no seu site a avisar que vinham aí, e vou citar: "Dias de catástrofe prevista nas maternidades da Grande Lisboa." Por isso, convém ver. Esta catástrofe não só era previsível, como foi mesmo prevista. Mais do que isso, percebemos todos os dias que o governo não tem nenhum plano pra resolver este problema. Limita-se a dizer que temos o melhor SNS do mundo e que os privados são os malvados. E isso é o que acontece quando substituímos a política pela propaganda.

Portanto, o bom é o Sindicato Independente dos Médicos e o mau, quem é?

O mau é Jorge Miranda. No seu discurso de 10 de junho, disse que não podia deixar de reagir a coisas como o ensino em escolas superiores portuguesas, por professores portugueses, a alunos portugueses em língua estrangeira. Sendo professor universitário e tendo tido altíssimas responsabilidades na Faculdade de Direito de Lisboa durante décadas, Jorge Miranda sabe seguramente porque que isso acontece. Acontece, entre outras coisas, porque as universidades portuguesas querem atrair professores estrangeiros, que nos trazem mais qualidade, querem atrair alunos estrangeiros, que nos trazem dinheiro e prestígio, e querem preparar os alunos portugueses pra serem competitivos com os melhores profissionais que há lá fora. Sabes, Maria João, eu tirei o meu curso na Faculdade de Direito de Lisboa. Já não me lembrava destas particularidades. Foi há muito tempo.

E também não foi assim há tanto tempo.

Foi.

És antigo.

Sou antigo. E além disso, eu fiz por esquecer aqueles anos. Mas posições como a de Jorge Miranda explicam muita coisa sobre uma faculdade que ficou parada nos anos 50.

Portanto, Jorge Miranda como mau, só fica mesmo a faltar o vilão desta segunda-feira.

O vilão é Marcelo Rebelo de Sousa e a retórica oca e prejudicial no seu discurso de 10 de junho. Haveria muito a dizer sobre aquele lamentável exercício político, mas como temos pouco tempo, já são 20h30, eu vou falar apenas de três pontos rapidamente. O primeiro ponto é o da fachada do romantismo do império. O presidente defendeu que este ano se comemoram os 200 anos daquilo a que chamou o começo do fim do império, com a independência do Brasil, e também os 20 anos daquilo a que chamou o fim do fim do império, com a independência de Timor-Leste. É bonito. Só que Marcelo esqueceu-se que as responsabilidades de Portugal em relação ao seu antigo império não acabaram com a independência de Timor há 20 anos. Falta um pequeno detalhe: é que até 2049, Portugal deve certificar-se de que a China cumpre os seus compromissos em relação a Macau, compromissos estabelecidos na pomposa declaração conjunta sino-portuguesa sobre a questão de Macau. E aí prevê-se que no antigo território português, e vou citar: "A maneira de viver se manterá inalterada, nomeadamente no que diz respeito às liberdades pessoais, à liberdade de expressão, de imprensa, de reunião, de associação." E Marcelo Rebelo de Sousa seguramente não ignora que a China pisa todos os dias estas liberdades em Macau, forçando quem lá vive a subjugar-se ao regime de Pequim. Mas se fosse reconhecer isso, especialmente num discurso de 10 de junho, Marcelo iria ter um problema, iria ter uma dificuldade, e o nosso presidente não quer saber nem de dificuldades, nem de problemas, e por isso refugia-se nesta retórica fantasista sobre a harmonia pós-colonial. O segundo ponto do discurso que merece comentário é aquele em que Marcelo se deleita e se entusiasma com, e vou citá-lo outra vez: "O povo português que aprende e reaprende a receber irmãos vindos das Áfricas, das Américas, das Ásias, do Pacífico." E eu achei graça, porque há um ano, no seu discurso de 10 de junho, na sequência do caso de Odemira, Marcelo chamou a atenção, e bem, para a necessidade de recebermos condignamente, e respeitando a lei, já agora, os imigrantes. Ora, passado um ano, pelos vistos, os problemas que vimos em Odemira já não existem, desapareceram, e agora nós passamos a receber maravilhosamente todos os que cá chegam. Isto deve ter sido magia, isto num ano mudou tudo radicalmente. Foi seguramente magia que aconteceu em Portugal. O último ponto. Marcelo falou do povo dezenas de vezes no seu discurso, foram dezenas de vezes, mas como sempre acontece nestes discursos vazios, é um povo etéreo, abstrato, que está lá longe, muito longe daqueles palanques. E talvez o presidente devesse se preocupar menos com esse povo de ficção e mais com o povo real, o povo que tem de usar transportes públicos, sendo que os transportes públicos estiveram paralisados durante este fim de semana prolongado, ou o povo que tem de ter filhos no SNS porque não pode ir a privados e que se depara com hospitais sem médicos e sofre por isso consequências trágicas. Esse povo agradece seguramente os discursos poéticos, mas precisa mesmo é de decisões políticas concretas. Só que pra isso, Marcelo já não está disponível.

Vamos então ao resumo. O bom desta segunda-feira é o Sindicato Independente dos Médicos, o mau, Jorge Miranda, e o vilão de hoje é Marcelo Rebelo de Sousa. Foram as escolhas do Miguel Pinheiro na Rádio Observador e que também pode ouvir em podcast a qualquer hora.