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Está na altura de conhecermos as escolhas do Miguel Pinheiro. Está no ar mais uma edição do Bom, o Mau e o Vilão. Olá, Miguel, bom dia.

Bom dia.

Bom dia, boa quinta-feira.

Muito obrigado.

Quem é o bom de hoje?

O bom desta quinta é Emmanuel Macron. O presidente francês falou ontem aos seus ministros numa intervenção que foi transmitida pelas televisões e explicou-lhes, a eles e aos franceses, que estamos a entrar numa nova era, a que ele chamou a era do fim da abundância. De forma direta, tranquila, ele falou sobre o fim da abundância de liquidez financeira sem custos, sobre o fim da abundância de produtos e tecnologias que pareciam estar sempre disponíveis, sobre o fim da abundância da água. Enfim, de forma adulta, falou sobre todos os problemas que os países da Europa Ocidental já estão a enfrentar e vão ter de continuar a enfrentar nos próximos anos. E no final, pediu aos seus ministros que falem com os franceses com grande clareza e sem catastrofismo. Por isso, vemos em França o presidente da República a tratar os eleitores como adultos, explicando os problemas e antecipando dificuldades para que eles se possam preparar. Por cá, o presidente da República e o primeiro-ministro fazem de conta que não se está a passar nada, que tudo isto é uma coisa transitória, provisória, e tentam convencer-nos, claro, que nós, os portugueses, somos os melhores do mundo e por isso iremos sempre conseguir fazer tudo sem dificuldades nenhumas. Em França fala-se sobre o fim de várias abundâncias e por cá temos esta abundância de retórica vazia, de demagogia e de ilusionismo político.

Isto é um pessimismo muito grande, Miguel. Vai tudo ficar melhor do que estava, não tenhas a mínima dúvida.

Paulo, eu já me deixei disso há alguns anos. Eu antes acreditava nisso, e até era verdade.

E no Pai Natal também, não é?

Já não me levas com isso.

Quem é o mau de hoje?

O mau é o Ministério da Justiça. Em 2016, a Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais propôs aplicar em Portugal um programa de reabilitação que pretendia evitar a reincidência de incendiários, que é um ótimo objetivo político. Dois anos depois dessa proposta, em 2018, foi então anunciada a aplicação de forma experimental de um programa de reabilitação para incendiários. Faz todo sentido, realmente, convém ver se as coisas funcionam antes de as aplicar em todo o país. E agora, quatro anos depois disso, passaram-se quatro anos, estamos em 2022 e esse programa continua em fase de estudo. E eu não sei se este programa resulta ou não resulta. Não sei se é eficaz ou não é eficaz. Não sei se reabilita ou não reabilita incendiários. Não sei, não faço a mais pequena ideia. Agora, aquilo que eu sei é que há funcionários da Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais que estão há seis anos a dedicar as suas horas a isto, quando verão após verão nós vemos o país arder. Estamos a gastar tempo que não temos e dinheiro que não temos num programa que não sabemos se funciona. E como vemos, ao contrário do que acontece em França, nós por aqui continuamos a viver na era da abundância. Lá temos alguém: "Ó Silva, então, como é que foi o dia de hoje de trabalho?" "Foi bom, estou a entrar no sexto ano de estudo sobre um programa para evitar a reincidência de incendiários."

Não há comentários a fazer para uma coisa destas.

É.

Não.

Então vamos ao vilão.

Vamos ao vilão. O vilão é a ministra da Saúde. Eu não quero tirar muito tempo aos nossos ouvintes com isto, porque isto é o de sempre, mas já agora convém irmos olhando para as coisas à medida que vamos sabendo delas. Ontem ficámos a saber que em Sobral de Monte Agraço só há um médico de família para toda a população do concelho. Como só há um médico, isto quer dizer que ele tem de tratar de 1900 utentes e quer também dizer que há outros 9 mil que pura e simplesmente não têm médico nenhum. Como tem a seu cargo 1900 utentes, este único médico de família de Sobral de Monte Agraço tem pensado em deixar o serviço por causa da pressão do trabalho. E como não é possível tratar de todos os problemas, os utentes que precisam, por exemplo, de uma receita, uma coisa tão simples quanto uma receita, vão entupir as urgências do Hospital Beatriz Ângelo, em Loures. Hospital malvado, claro, é um hospital privado, portanto, é o hospital do mal, mas é o que há, não há mais nada. O que existe ali é um hospital malévolo dos privados e as pessoas vão para esse hospital para tentar conseguir receitas e entopem o hospital só para conseguir uma receita. O presidente da Câmara já explicou tudo isto à ministra da Saúde e, segundo disse aos jornalistas, Marta Temido ficou sensibilizada para a necessidade de resolver os problemas. E eu acho que a população de Sobral de Monte Agraço pode ficar descansada. Marta Temido vai tratar de tudo. Ela já ficou sensibilizada e isto mais seis anos, menos seis anos, resolve-se, não se preocupem.

Tu, desculpa, mas não percebes nada. Não percebes que o algoritmo diz que as pessoas de Sobral de Monte Agraço estão cheinhas de saúde e não precisam de médico algum.

Pois é, devia haver ainda mais gente em Sobral de Monte Agraço sem médico.

Claro, porque aquilo é um posto de saúde, vamos todos viver para Sobral de Monte Agraço, já.

Helena.

Vamos então ao resumo de hoje. O bom desta quinta-feira é Emmanuel Macron, o mau o Ministério da Justiça e o vilão de hoje é a ministra da Saúde. Foram estas as escolhas do Miguel Pinheiro na Rádio Observador e que também pode ouvir em podcast.