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Começa agora uma nova edição de "O Bom, o Mau e o Vilão" da Rádio Observador. Olá, Miguel Pinheiro, bom dia.
Bom dia.
Bom dia. Quem é o teu bom de hoje?
O bom é o Estado, o nosso Estado, porque ontem os deputados ouviram o responsável pela Inspeção-Geral da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território, a IGAMAOT. Ouviram-no e ficaram a saber que a ANA, que é a gestora do Aeroporto de Lisboa, incumpriu o plano de ação de ruído entre 2018 e 2024. Muito tempo. Mas esse incumprimento teve consequências, porque a IGAMAOT aplicou uma coima à ANA. E é bom perceber que o Estado tem meios, tem poder e tem, acima de tudo, coragem pra controlar e, se necessário, punir as grandes empresas. Se uma grande empresa fica seis anos a ignorar as decisões do Estado, vai pagar um preço. E, portanto, eu imagino que a ANA já esteja arrependidíssima, porque ao fim de seis anos de incumprimento, vai agora ter de pagar. Espera aí. Isto não pode estar bem. Estava aqui a ver isto melhor. Parece que durante a audição no Parlamento, o inspetor-geral do IGAMAOT andou a fugir à pergunta sobre quanto é que a ANA vai ter de pagar. No fim da audição, o Observador perguntou-lhe e percebeu que estão em causa 12 mil euros. Então 12 mil € por seis anos de incumprimento. Deixa-me cá pegar aqui na máquina. Isto dá 2 mil € por ano. Isto dá 166 € por mês, 5,5 € por dia. Lá se vai a ANA. Esquece. Provavelmente então deve fazê-lo, não é? É mais caro impugnar do que pagar. Eu pagava o café e o pastel de nata. O nosso Estado é assim: sempre que nós nos entusiasmamos e o pomos no bom, acabamos por nos desiludir. Peço desculpa.
Começaste tão bem.
Foi uma boa tentativa, Miguel.
O teu mau é a CGTP.
É a CGTP. Por razões misteriosas, a central sindical entendeu que devia pronunciar-se sobre o resultado das eleições presidenciais. Tudo bem, é um país livre. Força. Mas não é isso que me faz mais impressão. A CGTP e o PCP estão sempre a jurar que a central sindical é totalmente independente do partido. Parece que até tem lá umas pessoas do PS. Por isso, deve ser uma incrível coincidência que a CGTP reproduza quase palavra por palavra os argumentos do PCP. Paulo Raimundo denunciou uma grande operação das sondagens que, segundo ele, prejudicou o candidato do PCP. Já a CGTP escreveu que as eleições aconteceram num contexto em que as pressões, nomeadamente por via das sondagens, tiveram papel central. Paulo Raimundo lamentou que a campanha tenha estado focada no acessório pra ocultar e dissimular as questões cruciais da vida nacional. Já a CGTP afirmou que a campanha teve muitas vezes como foco mediático temas laterais. E isto parece mesmo que estamos a ouvir um eco ou um papagaio, uma das duas coisas. Se o PCP e a CGTP não são irmãos gêmeos, parecem, porque isto é igualzinho. É muito parecido, pelo menos. Mas não têm nada a ver um com o outro, Miguel. É só coincidência. Eu acho que sim. Acontece, Paulo. Quantas e quantas vezes, não é, que duas pessoas não têm nada a ver uma com a outra, dizem as mesmas coisas? Acontece imenso e aqui é a mesma coisa, não liguem.
Miguel, o teu vilão quer falar pouco.
Parece que sim. António José Seguro, porque quando ontem os jornalistas lhe perguntaram se está disponível pra debater frente a frente com André Ventura nesta segunda volta, o candidato empurrou a questão pra outra altura, lá mais pra frente, e limitou-se a dizer apenas que o seu papel principal é dialogar com os portugueses. E eu ouvi isto e fiquei logo desconfiado, porque normalmente, quando os políticos começam a dizer que só têm de falar com os portugueses, isso é código para: "Não quero saber dos jornalistas pra nada e não quero saber de debates pra nada. Eu vou ganhar isto, sou um grande campeão e não preciso de nada disto para ficar em primeiro lugar." É código pra isto, normalmente. Os ouvintes têm de me dar aqui um duplo desconto, porque o Observador é um dos organizadores do debate das rádios e o Observador vai querer, obviamente, entrevistar António José Seguro, portanto, têm que me dar este desconto. De qualquer forma Convinha que Seguro percebesse que esta segunda volta é uma nova eleição. Isto não é a mesma eleição. As pessoas votaram uma vez e agora vão votar outra vez. Há pessoas que votaram da primeira vez, podem não votar da segunda e vice-versa. Há pessoas que votaram de uma maneira, podem votar de outra. Há novas perguntas, há novas dúvidas, há novos temas e há mais escrutínio. Portanto, se o plano de António José Seguro é esconder-se para não responder a nada, a coisa é capaz de não correr bem, acho eu. Eu presumo que os eleitores são capazes de não achar graça a isso. Agora, António José Seguro é que sabe, claro. Até porque esta coisa de falar com os portugueses, as entrevistas e os debates são precisamente uma forma de falar com os portugueses, não é? Certo. E eu já disse isto ontem. Eu tinha a ideia, de o ouvir, que António José Seguro se apresenta como o candidato da democracia. Tenho ideia. Mas posso ter ouvido mal, atenção. Posso ter ouvido com uns problemas. Se eu já comecei isto a ouvir mal a história da Coimbra-Ana, posso perfeitamente ter ouvido mal isto.
Miguel, hoje é dia de Realpolitik depois do meio-dia, de que vais falar com o Sérgio Sousa Pinto?
Vamos falar de presidenciais, vamos falar do que aconteceu no domingo, o que levou àqueles resultados, o que levou a que alguns candidatos afundassem e outros disparassem. E claro, vamos falar também sobre a segunda volta, sobre esta nova eleição, o que podemos esperar do que aí vem.
Realpolitik para ouvir depois do jornal do meio-dia. Quanto ao bom, mau e o vilão desta quarta-feira, o bom é o Estado, o mau é a CGTP e o vilão é António José Seguro.