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Começa agora uma nova edição do Bom, o Mau e o Vilão, sempre com Miguel Pinheiro. Fala, Miguel. Bom dia.

Bom dia.

Bom dia, Miguel. Quem é o teu bom de hoje?

O bom de hoje são os utentes do SNS que têm de suportar tudo o que se passa nos hospitais públicos. Hoje, o Observador conta a história de um senhor que esteve 36 horas na urgência do Amadora-Sintra. Ele não foi ao hospital só porque lhe doía a unha do pé ou porque estava a passar lá ao pé. Não, ele foi levado pelos bombeiros, por orientação do INEM, e depois de ter ligado pra linha SNS 24. Ou seja, fez tudo direitinho, como o SNS manda. Mas as coisas, como sempre, começaram a correr mal logo nesse primeiro telefonema. A linha SNS 24 precisou de 40 minutos pra atender a chamada e depois, às 15h05 de sábado, 29 de agosto, foi levado pro hospital e só sairia de lá às 2h da manhã de segunda-feira, portanto, já no dia 31. Sendo que, segundo as regras, de que nós nos orgulhamos de ter cá regras internacionais de funcionamento de urgências, segundo essas regras, ao ter pulso era amarela, ele devia ter sido visto em 60 minutos, mas esperou quase 23 horas só pela primeira observação médica. E o que aconteceu depois não é comum, espero eu. Enfim, tenho a certeza que não é comum. O processo ficou esquecido, o que só mostra o absoluto caos que é o trabalho no Amadora-Sintra. Seguramente, isto não aconteceu porque o médico lhe deu pra ali. É porque deve estar totalmente afogado em processos. O poder político sabe muito bem o que se passa ali. Há médicos permanentemente a irem-se embora e a urgência está sem diretor desde abril. E os utentes pagam os seus impostos, cumprem todas as regras de acesso ao hospital, esperam pacientemente pelas instruções que são dadas pelos serviços e, no final, a paga é ficarem 36 horas numa sala de espera. E o pior é que se há um plano sério pra resolver isto, eu não o conheço. Se o Ministério da Saúde tem um plano incrível há vários anos pra que isto se resolva, ainda não teve a gentileza de o partilhar conosco.

Há quem diga que não se resolve a não ser a longo prazo, de facto, não há solução para isto.

Não, claro.

E quem o diga é a direção executiva do SNS. Atenção.

Certo, mas então que nos expliquem: nós temos falta de médicos, portanto, nós vamos abrir mais X vagas médicos nas especialidades que são necessárias pra daqui a Y anos podermos ter mais médicos. Entretanto, vamos tentar ir buscar médicos ao estrangeiro. Da mesma forma que os nossos médicos vão lá pra fora, o contrário pode acontecer, por que não?

Aí abre logo uma guerra com a Ordem dos Médicos para outras equivalências.

Pois, o problema é que ninguém quer guerras. E depois as pessoas acabam 36 horas nos hospitais.

Miguel, o teu mau é José Luís Carneiro.

Sim, porque o líder do PS falou ontem sobre aqueles que querem uma crise política. Ele disse isto, eu vou citá-lo: "Já o fizeram em 2025, provocaram uma crise política que levou o país pra eleições." E eu não sei a que versão da história que José Luís Carneiro se está a referir, mas o que aconteceu em 2025 foi o seguinte: houve uma moção de censura do Chega, e eu imagino que ele estivesse a referir ao Chega, pareceu-me, mas de facto houve uma moção de censura do Chega a 18 de fevereiro de 2025, que o PS chumbou. Depois houve outra moção de censura do PCP a 2 de março de 2025, em que o PS já se absteve, e a seguir o Partido Socialista, com outros partidos, chumbou uma moção de confiança do Governo a 11 de março de 2025. Portanto, em 2025, nesse ano a que se refere José Luís Carneiro, o Chega apresentou uma moção de censura, mas o PCP também, e a efetiva queda do Governo aconteceu com a ajuda do voto do PS. Portanto, quem criou uma crise em 2025, que levou a eleições, foram o Chega, o PCP e, detalhe fundamental, o Partido Socialista. Portanto, não vale a pena fazer de conta que as coisas se passaram de maneira diferente. Se José Luís Carneiro não gostou de 2025, concentre-se neste ano. Também há outra coisa a acontecer.

Talvez se tivesse a referir a quem apresentou a moção de confiança. Não sei, ao Governo, no caso.

Mas o governo agora também está, porque ele está a dizer que são os mesmos de 2025.

Pois, não faz sentido nesse sentido.

Nada faz sentido, Paulo. É mais uma.

Miguel, o teu vilão andou a cancelar espetáculos no fim de semana.

É. Os nossos artistas sectários este fim de semana, um atrás do outro, como se estivessem combinados, vários artistas cancelaram a presença no Comédia à la carte Fest. O motivo invocado foi sempre o mesmo: nesse festival vai atuar o Jerry Seinfeld. Seinfeld é judeu e tem apoiado Israel depois do ataque terrorista do Hamas de 7 de outubro de 2023, e Deus os livre, a estes puros, Deus os livre de estarem perto de um judeu que apoia Israel depois do ataque terrorista do Hamas de 7 de outubro de 2023. Eduardo Madeira, Filipe Homem Fonseca, Inês Aires Pereira Pedro Tochas são tão sectários que querem apenas atuar com pessoas que pensam exatamente como eles e para pessoas que pensam exatamente como eles, sempre na busca da virtude e da pureza ideológica. Está aberta a porta para termos espetáculos de e para pessoas que defendem Israel e depois espetáculos de e para pessoas que criticam Israel. Vamos ter espetáculos de e para pessoas de direita e espetáculos de e para pessoas de esquerda, e por aí adiante. E percebe-se bem o que está na cabeça deles. Aliás, Inês Aires Pereira disse no Instagram que só percebeu agora quais são as opiniões de Jerry Seinfeld. Este tema mobiliza-a tanto, é tão preocupada com o tema de Israel e da Palestina e com as suas implicações no mundo artístico, que só agora é que percebeu que Jerry Seinfeld é conhecidíssimo pelas posições que sempre teve. Mas o que ela escreveu foi isto, vou citar: "Nem toda a gente é obrigada a saber que ele é um, enfim". E eu suspeito que sei qual é a palavra que Inês Aires Pereira não quis usar. Pedro Tochas também é um caso interessante, além de fazer espetáculos em salas de espetáculos, a vender bilhetes, ele também ganha a vida, temos que ganhar a vida, a ser speaker para várias empresas. E no site dele há testemunhos de inúmeros executivos que o contrataram e que lhe pagaram. E entre esses testemunhos está um executivo da Altice, que também é dona da MEO. E a Altice, como se sabe, é de Patrick Drahi, que é um empresário franco-israelita muito próximo de Netanyahu. Mas esses espetáculos, eu imagino que Pedro Tochas não cancele, porque também não dá muito jeito. De qualquer forma, estamos nisto.

Fecho. Também só deu conta agora.

Sim, também. São aquelas convicções instantâneas que aparecem ao fim de semana. Toda a gente subitamente tem a mesma convicção no mesmo dia. Acontece muito.

É, acontece muito. Mas olha, não vão às urgências quando tiverem esses sintomas.

Não, 36 horas já viste.

Vamos ao resumo. O bom de hoje são os utentes do SNS, o mau é José Luís Carneiro e o vilão de hoje são os artistas sectários. Foram as escolhas do Miguel Pinheiro nas manhãs de 360 e que também pode ouvir em podcast.