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Está no ar mais um episódio de "O Bom, o Mau e o Vilão" da Rádio Observador e que também pode ouvir em podcast. Olá, Miguel Pinheiro, muito bom dia.

Bom dia.

E vamos a isso. Vamos ao bom do dia.

O bom é o João Ferreira, que ontem aproveitou uma demonstração de fragilidade política de Alexandra Leitão. Como se sabe, o candidato da CDU tem se saído bem nos debates e a candidata do PS precisa de todos os votos à esquerda pra conseguir vencer. E no fim de semana tornou-se viral nas redes sociais um excerto de um debate na Renascença em que Alexandra Leitão começa a disparatar e, virando-se pra João Ferreira, diz-lhe o seguinte: "Não me surpreende que haja pessoas que votaram Carlos Moedas e agora vão votar CDU. Sabe por quê? Porque João Ferreira é uma muleta objetiva de Carlos Moedas. Muito bem. Estão orgulhosos? Muito bem." Ela acho que ainda disse "estão orgulhosos?" mais umas quantas vezes, é que agora não temos tempo. Mas enfim, ontem João Ferreira aproveitou a onda e, numa ação de campanha, falou contra o apelo ao voto útil feito pelos socialistas e até disse que está na corrida não para ser vereador, mas pra ser presidente da Câmara. No votômetro de Lisboa, que o Observador acaba de lançar, as duas candidaturas estão quase sobrepostas, é impressionante, tanto no eixo da esquerda como no eixo progressista. Acho que nunca tivemos duas candidaturas tão sobrepostas numas eleições. Não quero mentir, mas tenho esta ideia. Por isso não admira que disputem os mesmos votos desta maneira feroz.

Pois é, em termos de proposta são quase indistinguíveis. Mais uma razão.

É, ali o posicionamento está muito próximo, e de fato cada voto conta, porque nas autárquicas não é possível depois andar cá a fazer geringonças a seguir para tomar conta da autarquia. Não é possível, quem tem mais um voto é quem governa.

E agora vamos ao mau.

O mau, que é Rita Matias. Ontem a deputada do CHEGA teve de ir a tribunal por causa de um processo relacionado com o fato de ter divulgado nas redes sociais nomes de crianças estrangeiras numa turma de pré-escolar. Rita Matias diz que o seu objetivo era argumentar que os alunos portugueses estão a ser prejudicados no acesso à escola. A família de uma das crianças processou a deputada e os queixosos chegaram a um acordo ontem. Rita Matias não quis dizer que acordo era esse, mas segundo o público, a deputada tem 10 dias para apagar das redes sociais o nome dessa criança. Apesar disto, garantiu que voltaria a fazer tudo na mesma, porque, eu vou citá-la: "Aquilo que ficou bastante claro em tribunal é que foi um exercício de retórica política para provar um ponto." Diz que não está arrependida de nada. E eu não percebi, porque se Rita Matias acha que fez tudo bem, não haveria motivo para chegar a acordo nenhum. Se chegou a acordo, então é porque reconhece que não fez tudo bem. Acho eu, a não ser que me esteja aqui a escapar alguma coisa.

Não, não está a escapar nada.

Diria que, não é?

Pois, e até o CHEGA não diz que é muito transparente? Então não deviam divulgar o acordo, logo.

Mas Rita Matias diz que o tribunal proibiu.

É claro, o tribunal é que proíbe o acordo entre as partes.

Porque envolve menores, mas eu estou a ver aqui no público a dizer que afinal o acordo é que ela tem que apagar. Enfim, vamos ter que perceber isto tudo um bocadinho melhor.

Sim, ainda está a começar.

E vamos agora então ao vilão.

Que é o Parlamento. Eu não quero ser moralista, os parlamentos são palco de debates ferozes, como é evidente, e também logo a seguir à revolução na Constituinte houve ali debates absolutamente, eu diria que a roçar um bocadinho ali o pouco desejável. Mas enfim, não quero ser moralista, mas ontem os deputados passaram largo tempo a discutir se o líder parlamentar do PSD, Hugo Soares, tinha ou não ameaçado de porrada, o termo usado é esse, eu peço desculpa às crianças a caminho da escola, mas se ele tinha ameaçado porrada o deputado do CHEGA, Pedro Frazão. E o momento aconteceu no dia em que houve uma manifestação de imigrantes frente ao Parlamento, sendo que André Ventura deixou o plenário pra ir lá fora, os nossos ouvintes lembram-se de certeza, e era por causa disto que Hugo Soares estava indignado a falar com o grupo parlamentar do CHEGA. Pedro Frazão acusava agora Hugo Soares de ter dito que lhe dava porrada, mas ontem a Comissão Parlamentar de Transparência e Estatuto dos Deputados, uma comissão que só trata de assuntos sérios, arquivou a queixa porque concluiu que a palavra usada por Hugo Soares não foi porrada, foi murada. E pra chegar a esta conclusão, a comissão usou a transcrição do debate feita pelos serviços do Parlamento, e a transcrição diz o seguinte, eu vou ler tal e qual, é uma versão abreviada, eu condensei isto, porque já são 20h32, mas enfim. Vou citar o que diz a transcrição: "O senhor Hugo Soares", portanto, eles primeiro identificam quem fala, "O senhor Hugo Soares é um incendiário, é um incendiário." O senhor Pedro Frazão: "Tu é que és um incendiário O Sr. Hugo Soares: "É um incendiário. Vai à minha casa. Vai. Eu dou-te a morada. Eu dou-te a minha morada". E neste momento, Hugo Soares pega no telefone interno do Parlamento e continua: "Estão ali à porta, atende lá". O Sr. Pedro Frazão: "Ó Hugo, hoje não tomaste a medicação ou então falta-te o gin do Algarve?" Vozes do PSD: "Tenham respeito". O Sr. Pedro Frazão: "Dê isso ao respeito de vocês." Foi isto. Que momento digno. Só para esclarecer, esta referência de Pedro Frazão tem a ver com umas imagens da Festa do Pontal, naquele período dos fogos, houve aquela polémica toda, Hugo Soares viu umas imagens em que ele estava com um gin, acho que a referência ao gin do Algarve é isto. Seja como for, eu vi, ouvi e li isto tudo e fiquei com duas dúvidas. Primeira dúvida: eu não percebi porque carga de água é que o Hugo Soares estava com tanta vontade de dar a morada dele ao Pedro Frazão. Queria dar-lhe a morada para quê? Para ir lá tomar um chá, para quê? Não percebi para que era a morada.

Marcar um duelo.

Não sei bem, mas tudo bem, queria dar-lhe a morada, ok. Não sei se o Pedro Frazão trabalha nos CTT, nas horas vagas, qualquer coisa. Enfim, não sei. Segunda dúvida: alguém acha que sai bem desta história? Mais uma vez, eu não quero ser moralista, claro que nos parlamentos há muito, mas alguém acha que sai disto bem? A Comissão Parlamentar de Transparência e Estatuto dos Deputados esteve a tratar deste assunto. Santo Deus. E não acabou, porque agora André Ventura já disse que quer que isto seja tudo ouvido em plenário. Vai recorrer. Vai recorrer. Eu acho que isto devia, no mínimo, subir ao Constitucional. A dignidade do assunto merece. É por isso que este programa faz falta. Aqui fica a nossa sugestão. Para resolver a crise do regime.

Vamos então ao resumo bom desta terça-feira é o João Ferreira, o mau, Rita Matias e o vilão, o Parlamento. Foram estas as escolhas do Miguel Pinheiro nas manhãs "360" e sempre em podcast.