Trump anda a meter tanto a pata na poça que lembra o seu homónimo e aquático palmípede. E não só no nome: em 1934 Walt Disney criou o pato encrenqueiro por precisar de um contraponto ao politicamente correto rato Mickey. Se bem que, pelo pilim, rabugice e idade, Trump está mais para o tio Patinhas (Scrooge McDuck).

Na semana passada, em NY, ele tratou a “presidente interina” da Venezuela, a sonsa Delcy Rodríguez, como… uma princesa da Disney. À mão de semear, o patusco Maduro ganha bolor numa cela. Como se diz no Brasil, para os venezuelanos foi trocar 6 por meia-dúzia. Não passou pela cabeça trumpista fazer um jeitinho à democrática (e Nobel da Paz) Maria Corina Machado, preferindo o braço-direito do ditador de esquerda – com graves caneladas nos direitos humanos e no erário público. Com Marco Rubio como uma espécie de vice-rei da Venezuela, o petróleo local foi açambarcado (segundo Trump, “uma prenda dos venezuelanos para os americanos”). Giro não é.

A Epic Fury contra o Irão fez 6 meses, sem o fim da ditadura teocrática (a oprimida sociedade iraniana ficou a chuchar no dedo), nem do programa nuclear, nem do colinho dos aiatolás para a globalização da Intifada – e ainda ensinou aos islamofascistas de Teerão o poder da tranca no Estreito de Ormuz.

Sobre o Omã, aliados antigo dos EUA, Trump fungou: “Se ficar no nosso caminho, será riscado do mapa”. Ninguém ligou peva: o que o líder do Mundo Livre diz já não se escreve? Sque se converteu ao “Chinamaxxing”? Enquanto cavaqueava com Xi Jinping em Washington, do outro lado da rua manifestantes protestavam contra o autocrata chinês, citando os recantos prediletos dele: Tibete, Hong-Kong, Xinjiang (com os seus campos de concentração), Mianmar (cuja junta militar a China paga), Taiwan (o petisco pelo qual Xi lambe os beiços). A partir de registos alfandegários, o Wall Street Journal revelou 1.300 remessas chinesas de componentes de uso dual (civil ou militar) ao Ministério da Defesa iraniano no primeiro semestre de 2026. Já os US$ 14 bilhões em armas para Taipé, aprovado pelo Congresso dos EUA, estão em águas de bacalhau.

Aos 78 anos, Jimmy Lai, o fundador do “Apple Daily”, cumpre pena de 20 anos numa masmorra chinesa, sob acusações que a Human Rights Watch e a Repórteres Sem Fronteiras consideraram falsas. Claro que muito da media americana prefere falar da CNN, MS NOW e Político, que aliás já voltaram à vaca fria na Casa Branca. Trump violou a Primeira Emenda ao metê-los de castigo? Talvez – e os princípios devem ser universais, e não casuísticos. (Trump já tinha restringido a Associated Press por ela recusar-se a chamar “Golfo da América” ao Golfo do México.) A decisão foi boicotada até pela Fox News, e por isso quase ninguém viu Trump e Xi trocarem prendinhas (aquele ofereceu uma águia, este um panda). Mas também é verdade que, por anos a fio, presidentes democratas foram snobs com a imprensa de direita, e apaparicados por jornais engraxadores como o NY Times.

Décadas depois do dia D e do Plano Marshall, só 1 em cada 10 europeus considera os EUA “um aliado”. Em França, Espanha e Dinamarca, ¼ da população classifica os americanos como “rivais”. Trump saliva pela Groenlândia (e o Canadá), tratou Giorgia Meloni como uma “groupie” parvinha e só faltou dizer que o Papa (americano de Chicago) é o Anticristo.

Trump é, bom, trumpista de gema. Narcisismo? Ao pé de Trump, Marcelo Rebelo de Sousa é São Francisco de Assis. America first? Sobre se se ralava com a situação financeira dos compatriotas (o preço da gasolina e o do hamburguer disparam), ele rosnou: “Não penso nisso nem em ninguém”. E talvez nem no casamento do filho patrocinado por um oligarca russo, nem que os Emirados Árabes Unidos investiram US$ 500 milhões na World Liberty Financial, as criptomoedas da família Trump. Mas ele suspira pela expansão do Salão de Baile da Casa Branca, pelo seu Arco do Triunfo e pelo seu nome no Kennedy Center.

Na realidade mundana, ao contrário do que julgam os negacionistas da complexidade, as coisas tendem a ser matizadas em vez de unidimensionais. É como na mecânica quântica: ora temos partículas, ora temos ondas… Não apenas a política, mas a própria vida é a arte do possível. Às vezes, o copo meio vazio é o copo meio cheio. Trump é uma bela caca, e não o novo Carlos Magno ou o Churchill de que o autocancelado Ocidente precisa como de pão para a boca? Comparado com quê? Não será um rei-filósofo, mas o próprio Platão meteu o pé na argola no cargo (e 3 vezes!), bazando de Siracusa para não ser escravizado pelo tirano que aconselhava. Trump esperneia contra o wokismo (que não está em remissão), a DEI (que degrada as minorias) e o Califado 2.0 das socialites socialistas do DSA. E Trump apoia Israel (apesar do constrangedor Netanyahu) contra os autómatos antissemitas que nem sequer sabem de que raio de rio e de mar estão a falar.

Mas a popularidade de Trump anda mais por baixo do que barriga de cobra: 36%, a mais anêmica de um Presidente nas eleições de meio de mandato. Os democratas são favoritos, e com candidatos já com lata para se assumirem comunistas islâmicos. Na tribuna da ONU, Trump tirou a água do capote, lembrando de que não é candidato à reeleição, mas “tentará ajudar os Republicanos”, que, ora essa, lidera (ele é o MAGA). Entretanto, nas cerimónias dos 25 anos do 11/9, o tétrico Mamdani dava risotas necrófilas (como a raposa no funeral das galinhas), e depois foi plantar oliveiras com habitantes de Gaza na Gracie Mansion (residência oficial do Presidente da Câmara de NY).

Trump não é o que imagino quando penso já nem digo num Founding Father, mas na palavra “retidão” – porém, talvez o mais exasperante nele seja a boçalidade javarda. Em 2029 concluirá o mandato como o mais velho presidente da história dos EUA: 82 anos. Devia bater na madeira. Uma pessoa desconfia de que está a envelhecer quando as velinhas são mais caras do que o bolo. Por outro lado, envelhecer não é tão mal, quando consideramos a alternativa. Contudo, ao saber da morte do antigo diretor do FBI, Robert Mueller, Trump gozou: “Que bom, fico feliz que tenha esticado o pernil!” Sobre o falecido deputado democrata John Dingell, trolou que “agora ele deve estar a olhar para cima” (lá das profundezas do Inferno).

Convém não esquecer que as 3 tentativas de assassínio de Trump em 2 anos (uma bala raspou-lhe a orelha) foram recebidas pelos progressistas com soturna amargura – pela má pontaria. Quando Charlie Kirk foi abatido como um cão há um ano, avalanches de  posts no Bluesky (o X da esquerda) deram pinotes de êxtase, seguidos de uma wish list de linchamentos não virtuais, com J.K. Rowling e Elon Musk à cabeça.

E dizer que há muito tempo, numa galáxia muito distante, a liberdade de expressão era um valor diamantino entre os progressistas –  hoje nem com o telescópio espacial James Webb conseguimos vislumbrá-la. O que interessa não é a questão em si, mas a identidade do acusador e do acusado. Pois,  “o outro” não passa de uma abstração pós-moderna em vez de uma pessoa real, com valores inerentes: o outro é um genérico – ou um tabernáculo ou uma sanita. Ofuscados pelos pontos cegos das tribos, não se trata de combater a mentira, mas só de derrotar o adversário – até com feministas branqueando a violação de judias. Há uma palavra específica para isso: misologia.

Nos EUA, a esperança de vida aumentou 10 anos desde 1950, e 30 desde 1900. No novinho em folha “Gerontocracy in America”, Samuel Moyn informa que, com exceção de para a Casa Branca, os americanos idosos votam nos bem mais jovens. Remorsos? Nas primeiras décadas do século XXI, os lares de baby boomers (nascidos entre 1946 e 1964) aumentaram o seu patrimônio líquido em 42%, enquanto “a riqueza das famílias com pais entre 18 e 34 anos caiu 68%”. Dois octogenários consecutivos presidiram os EUA. Somos “a primeira sociedade moderna em que uma pessoa tem mais probabilidade de ser pobre se for jovem do que se for idosa”.

Paradoxalmente, com o fetiche da juventude agora é como se envelhecêssemos ao contrário, como no conto de Scott Fitzgerald, “Benjamin Button”. Incluindo aqueles idosos para os quais os 70 são os novos 30. E, com os cabelos pintados cor de burro quando foge (enquanto os miúdos pintam os seus de branco…), borrifam-se para a civilização ocidental e o seu legado. Na peça de Shakespeare, o Bobo diz ao rei Lear: “Não devias ter envelhecido antes de seres sábio”. Pensando bem, o próprio Trump é um adolescente de 80 anos.

Por incrível que hoje pareça, ninguém é jovem o suficiente para saber tudo. Nem mesmo a geração Z, que manda nos pais, e que de amuo em amuo desistiu da maçada de ter filhos (se calhar pararam um segundo de olhar para o tlm e olharam-se ao espelho).

Nos últimos meses, Trump é visto a passar pelas brasas (OK, na ONU foi inevitável, por causa da mosca tsé-tsé que é o  Engº Guterres). Está rechonchudo (engordou 10 kg) e com hematomas constantes. Fora as sonecas, dorme pouco, acorda de madrugada com a TV ligada e o Truth Social engatilhado para mandar vir com o planeta, enquanto emborca salgadinhos e bolos na cama. Consta que o fígado dele está pior que o de Prometeu.

Há precedentes. Quando Woodrow Wilson sofreu um derrame, sua mulher e o médico esconderam o sarilho, e escolhiam quem o podia ver. Wilson pontificou na Casa Branca por 1 ano e tal, pouco mais que uma fachada. Reagan teve demência, embora os médicos garantam que nunca manifestou sinais durante a Presidência. FD Roosevelt sofreu de poliomielite debilitante, e Abraham Lincoln governou com depressão profunda pela morte do filho. Quanto a JFK, que parecia vender saúde (Marilyn e um harém que o digam), a única enfermidade que ele não tinha era hipocondria – a ponto de ao longo da vida receber a extrema-unção cinco vezes. No debate presidencial de 2024 o mundo atónito assistiu a um Joe Biden quase senil (Trump chamou-o Sleepy Joe”), apesar de até à véspera a media progressista salmodiar que o Presidente era uma espécie de Thor.

Em 1923, na URSS, três derrames deixaram Lenine sem mobilidade e fala. Estaline encarou o facto como uma assistência para golo, e depositou o Tutancâmon comunista no Mausoléu da Praça Vermelha. Em 2011, Hugo Chávez anunciou um achaque e foi tratar-se em Cuba, mas manteve a trela na Venezuela e até foi reeleito no último suspiro. Em 2013, Maduro avistou o finado ditador na forma de uma ave (os falcões do regime invocaram “El Condor Passa”; os moderados, “A pombinha da Catrina”). Depois da queda da cadeira, por 23 meses Salazar continuou a assinar documentos e a conceder audiências – tudo faz-de-conta. Diariamente, imprimia-se apenas para ele um único exemplar fake do “Diário de Notícias”, sem um pio sobre o novo primeiro-ministro.

A IA vai transformar-nos em imortais, como auguram o gerontologista Aubrey de Grey e o polímata Ray Kurzweil (Medalha Nacional dos EUA para Tecnologia e Invenção)? Este lançou a Calico, subsidiária do Google que promete a imortalidade até 2099, através do download da mente humana num suporte sem o carbono dos nossos corpos (bem, como carpiu Philip Larkin num poema sobre a Revolução Sexual dos anos 1960, infelizmente será um bocado tarde para mim).

As entidades conscientes não terão uma presença física fixa mas volátil na nuvem online. A parte boa é que não serão mais necessárias cirurgias de “redesignação de género”, pois não haverá distinção entre humano/máquina nem criador/criatura, fundidos numa nova espécie biotecnológica. Seremos todos queer, à velocidade da luz. Assim, a ideologia contra as fronteiras geográficas comunga com o ativismo contra as fronteiras anatómicas. O Google torra  US$ 1 mil milhão anuais para startups nessa geringonça. Ah, se eu mandasse…

Já vivemos mais do que toda a gente que veio antes. Em 1900, 3% dos terráqueos tinham mais de 60 anos. Hoje são 14 por cento (mais de mil milhões), e em 2050 serão 1/5. Daí nasceu mais uma famigerada fobia: o “etarismo”. No Brasil brotou o eufemismo mais bisonho de sempre: sai a “Terceira Idade”, entra a “Melhor Idade”. (Se não é indiscrição, melhor para quem: para os herdeiros?)

Mas viver mais será viver melhor, ou só mais olhos que barriga? A Sibila de Cumas recebeu uma prenda magnífica de Apolo: o deus concedeu-lhe tantos anos de vida quantos grãos de areia ela pudesse reter na mão. A Sibila aceitou, mas esqueceu-se de pedir algo importante: que também conservasse o viço da juventude. Viveu séculos, cada vez mais decrépita, encarquilhando-se indefinidamente. No “Satiricon”, de Petrônio, ela é uma coisinha presa numa garrafa, a quem as crianças perguntam o que deseja. A resposta é pungente: “Morrer!”

Similis foi um proeminente oficial romano sob os imperadores Trajano e Adriano. Depois de aturar imensas chatices, quando finalmente reformou-se foi para o campo, onde viveu 7 anos e escolheu a sua lápide: “Aqui jaz Similis, que morreu em idade muito avançada, mas viveu apenas sete anos”.

O patriarca bíblico Matusalém terá vivido 969 anos, morrendo no ano do Dilúvio (no que poupou uma fortuna em chapéus-de-chuva). Como já naquela altura ninguém ligava para os vices, Jarede caiu no esquecimento completo, embora seu recorde batesse no poste (962 anos).

Na Grécia clássica, a esperança média de vida era inferior a 30 anos, com enorme mortalidade infantil e jovens tombados em batalhas. Se alguém sobrevivesse aquilo tudo, podia esperar uma vida mais longa do que a média no México atual, com os seus cartéis predatórios. Sócrates morreu aos 70 (executado); Platão viveu mais de 80. Sófocles, o mais badalado tragediógrafo, expirou aos 90, e seu colega Ésquilo podia ter passado dos 70 com uma pernas às costas, se uma águia não o tivesse bombardeado no cocuruto (ainda por cima, calvo) com o casco de uma tartaruga (há dias em que um dramaturgo não pode sair de casa).

Como sempre, tudo é relativo (incluindo a relatividade). Michelangelo pintou “O Juízo Final” na Capela Sistina aos 68 anos; Verdi compôs a “Missa Solene” aos 72; Cervantes acabou o “Dom Quixote” aos 69 e Goethe concluiu o “Fausto” aos 82. Dercy Gonçalves, uma icónica atriz brasileira muito desbocada, jurou de pés juntos: “A minha avó morreu aos 88 anos – de parto”.

Qin Shi Huang, o primeiro imperador da China, obcecado pela imortalidade, mandou esquadrinharem o mundo em busca do elixir da eterna juventude. Como seguro morreu de velho, engolia poções de mercúrio para a longevidade, receitadas pelos alquimistas da corte. Mas não passava de pirataria chinesa: o mercúrio envenenou-o e morreu aos 48 anos.

Na nossa era secular, até a alma imortal confunde-se com a matéria. Woody Allen (91 anos) ironizou: “Não quero alcançar a imortalidade através da minha obra. Prefiro alcançá-la não morrendo.” Bryan Johnson, cuja lema é “Não morra!”, também queria viver para sempre através da obra feita: com documentário na Netflix, é o guru da longevidade biohacker. Investiu milhões de dólares no seu corpo e professava-se o homem mais metódico e saudável do planeta, a monitorar cada pormenor – hemograma, frequência cardíaca, gordura visceral, até ereções noturnas. E a consumir pouca carne, mas muito colágeno, além 100 suplementos por dia. Recebeu uma transfusão de plasma do filho adolescente, e fez o mesmo para o seu pai.

Neste verão, aos 49 anos, Johnson anunciou nas redes sociais ter sido diagnosticado com uma doença autoimune que compromete as células estomacais, gerando confusão mental, queda de cabelo e risco elevado de cancro no estómago. O guru aventou , compungido: “Pergunto-me se não levei essa treta da longevidade demasiado longe”. “Provavelmente”, respondeu  o Dr. Ezekiel Emanuel, autor do livro sugestivamente intitulado “Eat Your Ice Cream”. Ninguém precisa de ter como perene prato do dia óleo de fígado de bacalhau: “Estamos aqui por pouco tempo, e não se trata apenas de nós.”

O mais precioso são as relações? Na “Ética a Nicómaco”, Aristóteles diz que “o homem feliz precisa de amigos”. Quando os confrades desatam a debandar, tende a ser deprimente. Mas não só amigos. Um cronista evoca um vizinho viúvo chamado Monte Levinson, que um dia proclamou no átrio do seu prédio em NY: “Tenho 86 anos e ainda sou capaz de conduzir à noite. Isso torna-me um solteiro elegível”.

Enquanto isso, em julho passado, num hospital de Ontário, os médicos informaram Brigitte Stegemann, uma avó de 83 anos, que ela seria submetida ao “suicídio assistido” (no Canadá, a última moda – literalmente) contra a sua vontade. Observaram-na a chorar por 45 minutos e, mesmo assim, mataram-na. Só faltava os carrascos aconselharem-na: “Morra, que passa!” A neta abriu um processo junto ao Ministério da Saúde. É apenas uma opinião pessoal, mas acho que o suicídio não devia ser praticado noutra pessoa.

Como descobriu Dorian Gray no único romance de Oscar Wilde, por vezes o preço a ser pago pela aquisição da juventude eterna é a sua alma. Mas algo também me diz que, se pessoas como aqueles médicos de Ontário não lembram ao Diabo, este tem uma memória de elefante para gente assim. Não perdem pelo demora.