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Começa agora um novo episódio do Bom, o Mau e o Vilão da Rádio Observador, que também pode ouvir em podcast. Olá, Miguel Pinheiro, bom dia.
Bom dia.
Bom dia. Quem é o teu bom de hoje?
O bom é o PS, que ontem entregou um pedido de audição da Ministra do Trabalho no Parlamento. Os socialistas querem ouvir Maria do Rosário Palma Ramalho sobre o relatório que olhou pro futuro das pensões e que foi feito por um grupo de trabalho nomeado pelo governo. E além disso, o PS quer fazer perguntas aos coordenadores deste documento e ainda a outros especialistas. E isto parece-me o mínimo dos mínimos. Pense-se o que se pensar sobre o relatório, pense-se o que se pensar sobre as medidas que devem ou não ser tomadas em relação às pensões, acho que o mínimo que devemos exigir é que os políticos nos expliquem o que têm na cabeça sobre o assunto. Não se compreende, aliás, como é que a Ministra do Trabalho encomenda um relatório como este e depois acha que pode simplesmente ficar em silêncio, como se não se tivesse passado nada. E só acho estranho como é que o governo se colocou numa posição em que tem de ser arrastado pelos cabelos pro Parlamento. Mas pode ser que assim, pelo menos, nos digam mais alguma coisa sobre este assunto.
Eu acho que o governo aqui ateou o fogo e depois ficou a assobiar pro ar à espera de ver as reações, mas convinha que, tendo encomendado este estudo, se pronunciasse sobre ele.
Pelo menos dizer qualquer coisa. Dizem qualquer coisa. Acham bem, acham mal, acham mais ou menos, não sei. Pode ser que seja agora.
Miguel, o teu mau lê jornais.
Lê, mas são jornais em estrangeiro.
Em estrangeiro.
E só uma parte, porque o Hugo Soares abriu ontem a tradicional Universidade de Verão do PSD e no seu discurso voltou ao tema da censura moderna. Ele não usou essa expressão cunhada por Luís Montenegro no Pontal, mas explicou aos laranjinhas que os jornalistas portugueses são um horror. Ele também não usou esta expressão, é a minha interpretação. São um horror porque, e aqui estou a citá-lo: "Falam pouco do sucesso da economia portuguesa". E até deu o exemplo, como contraponto, de uma notícia recente do jornal francês Le Figaro. O Le Figaro. Trata-se de uma notícia que o partido andou a distribuir pelas redes sociais pra mostrar que lá fora o Figaro acha que nós somos o máximo. Portanto, os jornalistas lá fora acham que nós somos o máximo. Os jornalistas cá dentro só falam de coisas que não interessam. Pronto, a tese é esta. E de fato, o título do Le Figaro é ótimo pro governo. Eu vou ler: "2,5% de crescimento num ano. Por que a economia portuguesa lidera na Europa?" É ótimo, não é? Acho que não há dúvida. E eu fiquei curioso e fui ler a notícia toda. E depois fiquei a pensar: será que o Hugo Soares concorda com tudo que tá lá escrito? Fiquei eu a pensar. Então o Le Figaro começa por escrever o seguinte: "Após um início de ano apático". Ora, o Hugo Soares concorda que a economia portuguesa teve um início de ano apático? É que eu não o ouvia dizer-nos isto, mas será que ele concorda? Depois o Le Figaro escreve isto: "Em contrapartida, o investimento recuou durante este período, o que surpreende, visto que Lisboa dispõe, tal como todos os estados membros da UE, de apenas alguns meses pra gastar o saldo do PRR." Ora, o Hugo Soares concorda que há um problema de investimento na economia portuguesa? Ele concorda que há um recuo, uma desaceleração e que temos aqui algo com que nos preocupar? Psicas ouvida. Depois o Le Figaro escreve que os bons resultados da economia, estes bons resultados agora, foram impulsionados, além do turismo, e vou citá-los: "Por 10 anos de política econômica favorável às empresas." Ora, o Hugo Soares concorda que os últimos 10 anos, ou seja, os anos de António Costa também incluídos, estão na base dos bons números atuais? Ele acha que, de fato, tudo isto é o resultado de 10 anos de boas políticas? E finalmente, o Le Figaro escreve isto, também pra explicar como é que chegamos aqui. Vou citar: "O primeiro-ministro socialista José Sócrates promoveu reformas corajosas no estado social." Ora, o Hugo Soares concorda que Sócrates teve políticas corajosas e que ajudam a explicar os atuais números da economia portuguesa? Enfim, eu acho que este pode ser um bom ensinamento pros alunos e pras alunas, pros meninos e pras meninas que estão agora na Universidade de Verão do PSD, a aprender, a meditar, a estudar. E o ensinamento é: não devemos ficar nos apenas pelos títulos, nós devemos ler as notícias do princípio ao fim, porque quando se lê só títulos, não estamos bem informados.
Mas ler tudo não é política. Política é ler, selecionar criteriosamente aquilo que nos interessa, aquilo que nos convém.
Temos que ler tudo pra perceber que o professor Hugo Soares nos está a dizer que devemos agradecer a José Sócrates e António Costa o fato de terem tido políticas corajosas e políticas amigas das empresas que levaram a que o senhor doutor Luís Montenegro tenha podido também apresentar estes resultados. Acho que deve ser isso, não sei. Mas eu nem estudei, eu nem fui à Universidade de Verão do PSD, portanto, não faço ideia.
Miguel, o teu vilão não quer ter mais médicos
Não, nada disso. Por amor, cruzes!
Deus livre.
Cruzes, caramba! Agora até fiquei arrepiado com isso. Claro que não queremos ter mais. Nem pensar! O vilão são os estudantes de medicina. Ao que parece, eles estão muito incomodados porque abriram novos cursos na área. Este ano foram criadas mais 40 vagas em medicina no concurso nacional de acesso ao ensino superior, por causa do mestrado integrado em medicina na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, sendo que há o perigo, há o risco, Deus nos livre, mas há quem esteja a pensar em abrir em breve outro curso, agora na Universidade de Évora. Biltres. Para a presidente da Associação Nacional de Estudantes de Medicina, isto é péssimo, e eu vou citá-la: "Não achamos benéfica a abertura significativa de mais vagas de medicina. Existe uma retórica falaciosa de que tal iria resolver o problema do SNS, mas é ilusório." É uma ilusão. Vejam aqui, não há médicos, mas é uma ilusão. A associação, com a sua condescendência, até afirma que como há falta de médicos no interior, pode eventualmente aceitar-se a abertura de cursos nessa zona, mas se isso acontecer, defende, então devem diminuir-se as vagas nas áreas metropolitanas, porque ter mais médicos globalmente é que nunca, jamais e em tempo algum. A presidente da Associação Nacional de Estudantes de Medicina, pelos vistos, só não percebeu uma coisa: não há médicos em Trás-os-Montes e Alto Douro, não há médicos em Évora, mas também não há médicos na região metropolitana de Lisboa. Eu não sei se ela não lê jornais, não vê televisão, não ouve rádio. Não sei se alguma vez tentou ir a um hospital, mas não há. E esta é a velha e cansada conversa de todos aqueles que já estão dentro do sistema e que não querem concorrência, eu percebo. Para quê ter mais concorrência? Insistem em tentar convencer-nos de que nós não estamos a ver aquilo que toda a gente vê e de que não sabemos aquilo que toda a gente sabe. Querem convencer-nos de que, afinal, nós temos médicos mais do que suficientes. E eu pergunto: a sério? Realmente era só o que nos faltava, era dizerem-nos que estamos enganados. Isto aqui há médicos a torto e a direito.
Uma coisa estranha que eu não percebo neste pedido da presidente da associação é pedir que não sejam abertos cursos na área metropolitana de Lisboa, como se uma vez findo o curso, as pessoas não se pudessem deslocar.
Sim, mas o ponto dela é: não pode haver mais vagas. E que sim, senhora, até há estudos que mostram que tendencialmente, quando as pessoas estudam por exemplo, em Trás-os-Montes e Alto Douro, poderão ter tendência para ficar lá. Mas um dos problemas em Portugal é até ter médicos que venham para Lisboa. Claro, por causa dos custos das casas, todo o custo de vida é muito mais alto. O nosso problema neste momento até é que as pessoas venham para Lisboa e fiquem em Lisboa. Mas se tivesse um problema de saúde, como se dizia há bocado: "Olhe, vai ao endireita."
Pode ser uma solução.
Ou então ficas à espera daquele senhor de que falamos há bocado, que é ecoveiro, resolve o teu problema.
Vamos ao resumo. O bom desta terça-feira é o PS, o mau é Hugo Soares e o vilão são os estudantes de medicina, foram as escolhas do Miguel Pinheiro nas manhãs 360 e sempre em podcast.