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Está no ar o Bom, o Mau e o Vilão, sempre com Miguel Pinheiro. Bom dia, Miguel.
Bom dia.
Bom dia, boa sexta. Quem é o bom de hoje, Miguel?
O bom de hoje é o presidente do Supremo Tribunal de Justiça. Henrique Araújo fez ontem um discurso onde deixou este alerta. Ele disse: "Vejo no horizonte, cada vez mais próximo, a criação de um ambiente propício a aventuras legislativas que podem pôr em causa a independência dos tribunais e o regular funcionamento do sistema de justiça." O presidente do STJ disse também que devemos defender sistemas judiciários absolutamente impermeáveis a tentativas de ilegítima intrusão ou condicionamento por parte do poder político. E convém esclarecer uma coisa para pessoas que possam estar distraídas no trânsito ou qualquer coisa assim. Estas declarações não foram feitas pela Procuradora-Geral da República, nem por nenhum funcionário do Ministério Público, nem faz parte de um qualquer parágrafo de um comunicado da PGR. Portanto, estas declarações foram feitas pelo presidente do Supremo Tribunal de Justiça, que não tem nada a ver com investigações da Procuradoria-Geral da República, com procuradores, com nada. Agora, podemos sempre achar que o Supremo se juntou à Procuradoria numa cabala para deitar abaixo a democracia. Podemos sempre achar isso.
Pois, e este conflito latente e prolongado entre o poder executivo e o poder judicial não nos traz nada de bom, como é evidente, como se está a ver.
Nada. Isto vai dar mau resultado, mas enfim, pode ser que o novo líder do PS trave isto, trave as viúvas do costismo.
Miguel, o bom é o presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Henrique Araújo, e quem é o mau de hoje?
O mau são os partidos com representação parlamentar. Ontem, os oito partidos juntaram-se para aprovarem um alargamento das ajudas de custo aos próprios deputados. Problema número um: isto foi feito no último plenário antes da dissolução. Problema número dois: como havia pressa, o projeto de lei foi votado de uma só vez, na generalidade, na especialidade e em votação final global. Tudo de uma só vez. Problema número três: isto foi aprovado por unanimidade, portanto, com o apoio dos outros partidos com representação parlamentar, sendo que o problema nem é esse, é que quase nunca os partidos estão todos de acordo com nada. Eu não estou a discutir, nem quero discutir se este alargamento das ajudas de custo aos deputados faz sentido ou não. Isso seria uma conversa que nos tomaria muito tempo e não é isso que está em causa neste momento. O que está em causa é os partidos não perceberem que esta forma de atuar é devastadora para o regime. Quer dizer, tivessem feito isto, tivessem tratado este projeto de lei como tratam todos os outros e não tivessem esperado pelo último plenário, à última hora, para fazer isto, era o mínimo.
E com debate no plenário.
E com debate, sim, porque ainda me faltou essa. É que isto foi feito, foi determinado que não haveria debate no plenário, mesmo que estejam todos de acordo. Eles podem dizer: "Debater o quê? Estamos todos de acordo." Enfim, darem a sua posição.
E pode ser legítimo.
Claro!
Os políticos em Portugal não são pagos excepcionalmente.
Sim, mas também não é que tendo em conta o país em que vivemos, que os deputados sejam propriamente explorados.
Miguel, mas isto denota que eles próprios têm vergonha daquilo que fizeram. Fizeram-no um bocado às escondidas.
E isto só mostra que, ou melhor, só cria a suspeição de que há aqui qualquer coisa. Não aprendem.
Miguel, vamos ao vilão?
O vilão é Maló de Abreu, agora ex-deputado do PSD, que está a negociar uma candidatura pelo Chega. Ao longo do dia de ontem, Maló de Abreu, que foi braço direito de Rui Rio, passou o dia a tentar desmentir aquilo que é indesmentível. Foi divertido. Ele disse que a saída do PSD não estava ligada a uma candidatura pelo Chega. Ora, ninguém disse que estava ligada. Uma coisa pode ter acontecido primeiro e a outra depois. Disse que não ia entrar no Chega. Ora, também não é isso que está em causa. Não é preciso entrar no Chega. Pode haver uma candidatura independente, mas nas listas do Chega. Disse que não tem nenhum convite do Chega. Bem, Maló de Abreu pode sempre argumentar que não houve um convite formal com carta registrada com aviso de recepção, mas que houve conversas e negociações. Houve, agora a definição de convite que está no dicionário, enfim, teríamos que analisar. E disse também que a sua posição neste momento é de absoluto não em relação a convites, sendo que neste momento a posição pode ser uma, noutro momento a posição pode ser outra e se neste momento diz não em relação a convites, mas então não percebo, houve convites ou não houve convites? Se não houve convites, por que é que é um não? Há conversas ou não há? Enfim, Maló de Abreu pode contorcer-se todo, pode escolher cirurgicamente as palavras, pode andar de um lado para o outro, mas a verdade é que ele tem estado, sim, a falar com o Chega sobre uma candidatura nas próximas legislativas.
Vamos ao resumo. O bom desta sexta-feira é o presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Henrique Araújo. O mau são os partidos com representação parlamentar e o vilão de hoje é Maló de Abreu.