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Este é o Bom, o Mau e o Vilão da Rádio Observador, sempre com Miguel Pinheiro. Olá, Miguel, bom dia.

Bom dia.

Miguel, o teu bom disse uma coisa acertada?

Acertadíssima. Luiz Neves, numa entrevista publicada ontem, perguntaram-lhe sobre a existência de manobras dilatórias em processos como a Operação Marquês, e a resposta foi clara, incisiva, certeira. Vou citar Luiz Neves: "Tem que haver direito de defesa de todos, mas também tem de haver instrumentos que acabem com práticas que arrastam indefinidamente os julgamentos." E ele ainda chamou a atenção para um ponto, disse o seguinte: "Isto só se passa nos crimes de corrupção e criminalidade econômico-financeira." Segundo ele, ainda para mais, estas coisas acontecem numa área em que o cidadão está atento e por isso podem levar à perda de confiança na Justiça. E está muito bem. Como eu disse no início, esta entrevista foi publicada ontem pela Rádio Renascença, mas há só aqui um detalhe a que temos de ter atenção: é que apesar de só ter saído agora, a entrevista foi feita nos últimos dias de Luiz Neves como diretor nacional da Polícia Judiciária. Portanto, há aqui uma pequena mudança e nós agora só temos de rezar para que Luiz Neves não tenha mudado de ideias ao passar para o governo como ministro da Administração Interna. O Luiz Neves, que disse estas coisas na entrevista, está agora na posição ideal para falar com a sua colega do Ministério da Justiça e juntos apresentarem ao Conselho de Ministros uma proposta para mudar a legislação que permite estas coisas. É só fazer.

É só fazer, sem dúvida, e convencer os deputados também. As ideias estão lá.

O que quiserem. Tenha a certeza de que os deputados, mesmo aqueles que são advogados, terão o distanciamento para legislar de uma maneira que possa incomodar alguns advogados.

Claro.

Mas enfim, quando as pessoas depois chegam a deputados, têm que pensar de outra maneira.

Miguel, o teu mau está a ceder demasiado?

Parece que sim. Não sei, temos que esperar um bocadinho para ver. Não me quero precipitar, mas o mau é o governo, porque ontem a UGT informou o país de alguns detalhes da negociação do pacote laboral e ficámos a conhecer uma cedência do governo, a ministra e o primeiro-ministro, na verdade. Ambos queriam alargar a outras áreas os serviços mínimos obrigatórios em caso de greve, nomeadamente queriam alargar às escolas para assegurar o cuidado às crianças, mas o secretário-geral adjunto da UGT gabou-se do facto de isso ter caído. Ou seja, as escolas vão continuar entregues de forma praticamente livre aos sindicatos. Os herdeiros de Mário Nogueira continuarão a poder perturbar a vida de milhares e milhares de alunos e de milhares e milhares de pais. Claro que quando há uma negociação, é impossível um dos lados manter todas as suas propostas. Claro que é inevitável esquecer algumas coisas, mas Luís Montenegro garantiu repetidamente que a revisão dos serviços mínimos era uma das formas essenciais de garantir um equilíbrio entre o direito à greve e os direitos dos restantes trabalhadores. Por isso vamos ver se depois de tantas negociações, já lá vão sete meses, o pacote laboral não se transforma numa mão cheia de nada. Vamos ver. Agora o governo aparentemente vai voltar a sentar-se com a UGT e com as entidades empresariais. Vamos ver se não vêm ainda mais cedências e se no final isto não fica mais ou menos na mesma.

Se for para isso, mais vale não legislar mesmo, só vai introduzir entropia e ruído sem que haja grande vantagem nisso.

Sim, e vamos todos ficar convencidos de que estamos melhor, quando na realidade estamos na mesma. Enfim. Mas vamos aguardar serenamente, como é nosso timbre, para tentar perceber o que é que sai daqui.

O vilão é o Estado. O que é que se passa?

O de sempre, Maria João. Ontem os responsáveis políticos zangaram-se todos uns com os outros. E tendo-se zangado, nós ficámos a saber umas verdades, como é hábito nestas situações. Tudo começou com o ministro da Economia a falar sobre os problemas nas zonas afetadas pela tempestade. Castro Almeida admitiu que a reconstrução de casas não está a correr bem, foi a expressão que usou, mas ilibou o governo de culpas, dizendo: "O que é que podemos fazer mais?" E realmente, eu na minha vida, especialmente pessoal, também estou sempre a repetir isto: o que é que podemos fazer mais? E segundo ele, o processo está a ser lento pelo lado das câmaras e o dinheiro na mão das pessoas é ainda muito pouco. Ficámos a saber isto. E depois foi a vez de ouvirmos os autarcas. Só dar dois exemplos. O presidente da Câmara da Marinha Grande apelou ao ministro para que diga a verdade sobre a situação e o presidente da Câmara de Leiria afirmou que há um profundo desconhecimento por parte do ministro daquilo que tem sido o esforço dos municípios. Vamos lá ver, como diria alguém. Eu não sei de quem é a responsabilidade, mas há uma coisa que ficou absolutamente clara ao ouvir toda a gente ontem: é que mesmo com tanto esforço, o Estado está outra vez a falhar. Os autarcas andaram no terreno, os ministros andaram no terreno, o primeiro-ministro andou no terreno, os líderes partidários andaram no terreno, o presidente da República andou no terreno, toda a gente andou no terreno, aprovou-se legislação nova, criou-se uma estrutura de missão para coordenar toda a gente, falámos, gesticulámos, discursámos e no final acabámos nisto. O Estado voltou a não conseguir fazer o que deve. E eu infelizmente não estou surpreendido.

É o padrão. Provavelmente foi porque toda a gente andou preocupada em andar no terreno.

É possível ou não sei. Não queria chegar à conclusão de que isto não tem emenda, porque quer dizer, isto tem que ter alguma emenda, tem que haver uma maneira. Isto não pode ser, não é possível. Tem de haver uma maneira de resolver isto, mas não estamos a conseguir chegar lá.

Vamos ao resumo. O bom desta quinta-feira é Luiz Neves, o mau é o governo e o vilão é o nosso Estado. Foram as escolhas do Miguel Pinheiro nas manhãs 360 e sempre em podcast.