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O Miguel Pinheiro já está conosco para uma nova edição do Bom, o Mau e o Vilão. Fala, Miguel, bom dia.
Bom dia.
Miguel, o teu bom é António José Seguro.
Sim, ele ontem recebeu aquilo que será possivelmente o mais importante apoio desta campanha, até tudo, que é o de Ramalho Eanes. Há dois meses, André Ventura disse o seguinte numa entrevista: "De todos os presidentes que tivemos, acho que Ramalho Eanes foi aquele que melhor representou, com autoridade, com sobriedade, o modelo de presidente." Isto disse Ventura. Ontem, Eanes disse que tem com Seguro, não com Ventura, um entendimento partilhado sobre as competências e o exercício da função de presidente da República Portuguesa. Além disso, Eanes é o homem do 25 de Novembro, a data que para André Ventura rivaliza com o 25 de Abril e, por fim, Eanes não pode ser apresentado ao país como pertencendo a uma casta que passou os últimos 50 anos a roubar o povo, porque, como toda a gente sabe, ele recusou 1,3 milhões de euros a que teria direito por causa de uma pensão que não foi paga. Houve ali 14 anos em que a pensão devia ter sido paga, não foi. Enfim, e ele disse: "Não quero o dinheiro de volta." E perante este apoio de Eanes a Seguro, André Ventura tem mesmo de ficar em silêncio. Quer dizer, é que não pode dizer nada, porque qualquer coisa que diga vira-se contra ele.
Pois, e neste ponto só falta mesmo André Ventura anunciar o apoio a Seguro, não é?
De facto, isto já começa a ser um bocadinho de mais. Mas enfim, acho que para Eanes há sempre lugar.
O teu mau bateu recordes.
Sim, a CP. Ontem a empresa divulgou os resultados de 2025, abriu uma garrafa de champanhe, porque parece que bateu um recorde tendo tido mais 20 milhões de passageiros em 2025 do que no ano anterior. O problema é quando começamos a olhar para as letras pequeninas. Por exemplo, a empresa divulgou uns números, mas não divulgou outros. Nós não sabemos quantos passageiros teve o Alfa Pendular, não sabemos quantos passageiros tiveram os comboios suburbanos de Lisboa. Enfim. Mais um problema: a CP tem batido outros recordes, nomeadamente com a subida do número de supressões e atrasos. O jornal Público escreve que no Oeste, em dezembro, foram suprimidos mais de três comboios por dia, deixando os clientes sem alternativas, porque muitas vezes a CP tem que arranjar alternativas rodoviárias. Aqui não arranjou. Também segundo o Público, neste momento a CP tem mais de 30% das carruagens usadas nos intercidades paradas pra reparação. Mais de 30%! E por quê? Este número gigante vem de onde? Há dois motivos. Primeiro, não há trabalhadores suficientes pra fazer as reparações e depois as burocracias pra uma empresa pública são tantas, que a empresa não consegue comprar peças de que precisa para as reparações. O governo já prometeu que a CP vai começar a ter concorrência, vai ser assim devagar, devagarinho. Primeiro nuns sítios e depois logo se vê. Enfim, eu só espero que não demore muito.
Até porque a CP vai agradecer, certamente. Sem ironia.
Depende.
Tem que correr também, não é?
Certo, sim. Desse ponto de vista solar, sim, acho que sim. De facto. Tu consegues sempre levantar-nos o espírito. Sim, senhor.
Só cá pra isso, Miguel.
A CP vai agradecer, porque aquilo que a CP quer e aquilo que os sindicatos da CP querem é trabalhar, querem é apresentar o melhor serviço aos clientes. É isso que os sindicatos da CP mais desejam, é precisamente fazer isso e, portanto, vão adorar ter concorrência.
Não, se adorar, não vão adorar, como é evidente. Mas aí fica claro para os utentes que este tipo de serviço não tem que ser aquela desgraça.
Ah, isso de certeza. E vamos lá repetir: em países civilizados é possível, apesar de só haver ali uns carris, é possível haver concorrência. Pronto, só para ficar claro.
Então quem é o teu vilão de hoje?
Olha, são os problemas de sempre. Desta vez, por exemplo, a propósito da tempestade, o SIRESP voltou a falhar várias vezes. O SIRESP, convém lembrar, é a rede de comunicações de emergência do Estado. Portanto, é aquilo que não pode falhar quando tudo o resto falha. É pra isso que ele existe. Falhou tudo. O que é que não está a falhar? SIRESP. Pronto, é assim que é suposto as coisas acontecerem. No entanto, a Batalha ficou pelo menos 30 horas sem o SIRESP. A Batalha, não estamos a falar de uma pequena aldeia perdida algures. O presidente da Proteção Civil jura que as falhas foram pontuais, sim, senhor, e garantiu uma coisa: que a cada hora que passa, as coisas tendem a melhorar. E a mim parece-me que há aqui um equívoco. É claro que a cada hora que passa, as coisas tendem a melhorar. É claro, é assim em todos os grandes desastres. Mas o SIRESP só faz sentido se funcionar logo, nas primeiras horas em que as coisas não estão a melhorar. A natureza do SIRESP é essa. Se o SIRESP é pra funcionar Daqui a umas horas, daqui a 48 horas, o pingadinho já não serve de nada. Ou serve pouco. Também ontem, o Observador ouviu o presidente da Câmara de Leiria a dizer que os danos na eletricidade são muito maiores do que se pensava e a admitir que o nível de transparência com as populações sobre o tempo que tudo isto vai demorar tem de ser maior. Isso, de facto, convém. As pessoas têm de saber com o que é que contam, têm de saber que têm de se safar sozinhas, têm de saber que as coisas vão demorar muito tempo, que é para não estarem ali à espera que venha um milagre que não vai acontecer. Marcelo Rebelo de Sousa, eternamente otimista, como o Paulo Ferreira, afirmou que é sempre preciso retirar lições e ver o que não funcionou bem para melhorar para o futuro. E eu acho muito bem. Agora, vamos mesmo retirar lições para melhorar? Espero bem que sim. Estou esperançoso.
O problema é que estamos fartos de ir às aulas. Nós já assistimos a estas aulas 10, 15, 30 vezes.
Eu gostava de ver, quando isto passar, uma reunião pedagógica. Acho que deviam chamar os jornalistas para isto. Se é que estas coisas acontecem, deviam acontecer, deviam chamar os jornalistas. Haver uma reunião onde estavam sentados à mesma mesa o presidente da Câmara da Batalha, o presidente da Câmara de Leiria, o presidente da Proteção Civil, o ministro, estarem todos sentados para falarem sobre o que correu mal e para depois dali sair uma lista do que vai ser corrigido. E tudo isso ser divulgado para nós sabermos que efetivamente as pessoas estão a falar, estão a tentar perceber o que aconteceu e estão a corrigir. Acho que era muito pedagógico para a democracia. Andamos a falar tanto em democracia nestas semanas, isso é que eu acho que era uma grande medida para melhorar a qualidade da nossa vida democrática.
Com essa mania ainda vais à cabeça do país, com essa mania da organização, Miguel.
Paulo, eu só quero o melhor para a pátria.
Vamos ao resumo do "O Bom" desta sexta-feira: António José Seguro, mau, a CP, e o vilão, e a propósito do mau tempo, são os problemas de sempre. São as escolhas do Miguel Pinheiro no episódio que daqui a instantes também fica disponível em podcast.