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Começa agora uma nova edição do Bom, o Mau e o Vilão. Olá, Miguel Pinheiro, bom dia.

Bom dia.

Bom dia. Quem é o teu bom de hoje?

O bom é o Tribunal Administrativo de Lisboa, que tomou mais uma decisão a favor da concorrência. Haja alguém. Esta polémica é muito fácil de explicar. A Rede Nacional de Expressos é concessionária do terminal rodoviário de Sete Rios, ou seja, gere o espaço. Acontece que a Rede de Expressos também é uma operadora, ou seja, é cliente do espaço. Nos últimos anos, surgiram concorrentes à Rede de Expressos Operadora, nomeadamente a Flixbus, e, por coincidência, a Rede de Expressos concessionária decidiu que era impossível a Flixbus usar o terminal para recolher lá passageiros porque já estava tudo cheio. Não cabe aqui nem um ovo. Portanto, quem quiser apanhar um autocarro em Sete Rios só tem uma empresa e mais nenhuma. Olhem que bom. A Autoridade da Mobilidade e dos Transportes decidiu em tempos que a Rede de Expressos concessionária tinha mesmo de abrir o terminal, mas isso não serviu de nada e agora o tribunal decidiu o mesmo. Só que a Rede de Expressos concessionária continua a insistir que no terminal só há espaço para a Rede de Expressos operadora, nem um centímetro a mais. E parece-me que a lição de tudo isto é óbvia. A empresa concessionária do terminal não pode ser ao mesmo tempo operadora. Parece-me evidente. Se a empresa concessionária é também operadora, isso torna a concorrência impossível. E eu não sei do que é que estamos à espera para resolver isto. Provavelmente há contratos que ainda têm que ser cumpridos, mas esse é, de facto, o pecado original aqui neste tema, não é? Mas os contratos têm de ser cumpridos por todos os lados. Certo. Portanto, eu não sei se temos um regulador a dizer uma coisa, o tribunal a dizer uma coisa, se calhar alguém devia olhar para os contratos. Eu não estou a dizer que não estão a ser cumpridos, só estou a dizer que fico com esta perplexidade. Portanto, se calhar alguém devia olhar para os contratos. Repara, quando tudo isto começou, não havia concorrência, não havia nada disso. Se bem que não foi há tanto tempo quanto isso. Não foi propriamente nos anos 70. Mas entretanto, o mundo muda e tendo em conta que o mundo muda, se calhar, eu diria que alguém devia olhar para isto. Não há quem olhe para isto, santo Deus. Então não queremos ter uma economia concorrencial? Enfim, vamos ver o que é que se segue. Vamos ver se o autocarro avança.

Miguel, o teu mau é outra vez o novo presidente da República.

A sério, estou aqui pronto e desejoso para elogiar Sua Excelência, o senhor doutor António José Seguro. Nada contra, zero. Aliás, Deus sabe o alívio que foi haver uma mudança no Palácio de Belém. Porém, ontem, António José Seguro decidiu entrar de peito cheio e ao visitar o interior do país no segundo dia das cerimónias de tomada de posse, ele decidiu apontar o dedo aos políticos. Lembrou que houve incêndios em agosto, que o Parlamento aprovou uma lei para criar uma comissão técnica independente, que essa lei entrou em vigor em janeiro, que estamos em março e essa comissão ainda não tem todos os membros, são 12, para poder começar a funcionar, e que dentro de poucos meses temos novamente o verão e uma época potencial de incêndios. E concluiu: "Aqui está um exemplo do que não pode acontecer no nosso país." O problema é que depois foi mais à frente e disse que isto mostra que é preciso mudar a maneira como se faz política em Portugal. Presumindo-se que com a chegada do novo presidente, vamos então agora mudar a maneira como se faz política em Portugal. O problema é o seguinte, é que Seguro tem toda a razão na cronologia e tem toda a razão na indignação, mas a culpa não é dos políticos. O Observador, ao contrário do que ele diz, foi perguntar ao Parlamento o que é que se está a passar e a resposta foi: os grupos parlamentares, os políticos, já indicaram os quatro nomes que lhes compete. A Associação Nacional de Municípios, políticos, e a Associação Nacional de Freguesias, políticos, também já indicaram os seus nomes. Só faltam os quatro nomes, que segundo a lei, têm de ser indicados pelos não políticos, que são as universidades e os politécnicos. Para esta comissão não ficar entregue aos políticos, esta raça horrível, isto não pode ficar nas mãos dos políticos, decidiu-se. Entram pessoas indicadas pelas universidades e pelos politécnicos. Onde é que elas estão? Não estão. E eu diria que a conclusão desta bela história é a de que um presidente da República tem de se informar antes de falar. E se calhar é por isso que convém ter um chefe da Casa Civil já escolhido quando se toma posse, se calhar isso ajudava, em vez de se andar a improvisar quando se chega ao cargo. E assessores, não é? Sim, assessores. O chefe da Casa Civil é... E fazer perguntas às A esses assessores, ouvi-los, refletir, meditar e só depois falar. Aliás, as pessoas eram muito críticas de Marcelo Rebelo de Sousa por falar demais. Ora, cá está. Pensar antes de falar, informar-se antes de falar, acho que ajuda sempre.

Só falta o teu vilão, Miguel, que falou sobre a reforma laboral.

Sim, falar, fala sempre. O problema é fazer. André Ventura mostrou mais uma vez que não quer reforma laboral nenhuma. Por um lado, afirmou que o governo deve rasgar e começar novamente todo o processo, ou seja, acha que se deve mandar para o lixo sete meses de conversas e negociações com as entidades patronais e com os sindicatos. E esta é a melhor forma de atirar a coisa para 2027, 2028. Pronto, é começar do zero. Portanto, daqui a sete meses ou oito meses voltamos a falar. Além disso, André Ventura voltou a explicar como seria para ele uma legislação laboral ideal. Então aqui vai, eu só tenho pena de não termos aqui aquela música que costuma tocar quando as candidatas a Miss Mundo desfilam, mas imaginem que está essa música a tocar. Então, para André Ventura, a reforma laboral não passa por mais precariedade, baixos salários ou incerteza quanto aos despedimentos. Passa, sim, por um aumento da competitividade, aumentos salariais e também mais emprego e mais ambição. Podem tirar a música da vossa cabeça. Esta é, sem tirar nem pôr, a retórica dos sindicatos mais radicais. Chama precariedade à flexibilidade, insinua que o governo e os patrões o que querem é salários baixos, essa corja que só quer pagar salários baixos, e acha que a melhor forma de ter mais emprego é tornando os despedimentos quase impossíveis. E eu só posso concluir que André Ventura enganou-se no cargo. Ele deveria ser líder da CGTP. Não sei o que ele está a fazer no único partido de direita em Portugal. Devia estar na CGTP. Recomendo. E amanhã dirá outra coisa diferente, se for preciso e pronto. Não sei. Eu acho que André Ventura até tem sido muito consistente nisto. Ele adota a retórica da esquerda mais radical, e que nem é de toda a esquerda, é da esquerda mais radical para fazer de conta. Começou por aceitar o pacote laboral, até começaram os primeiros protestos ainda em relação sobre as questões de parentalidade e por aí fora. Sim, reconheço isso. Olha, Paulo, tens razão. Vamos gravar esta parte, Miguel.

"Reconheço isso". Miguel, hoje é dia de Realpolitik com o Sérgio Sousa Pinto. O que vão falar esta semana?

Vamos falar sobre a guerra no Irão, que se está a prolongar e o que isto nos diz sobre o poder americano e a forma como os Estados Unidos, não só hoje, mas desde há décadas, olha para o seu papel no mundo. E também sobre estes primeiros dias de Seguro como presidente da República e também, claro, sobre o pacote laboral, a economia portuguesa e para onde é que vamos.

É o Realpolitik para ouvir depois do jornal do meio-dia. Quanto ao bom, mau e o vilão desta quarta-feira, o bom é o Tribunal Administrativo de Lisboa, o mau é o novo presidente da República e o vilão é André Ventura. São as escolhas do Miguel Pinheiro, num episódio que daqui a minutos também fica disponível em podcast.