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Ela era uma menina que tinha uma maturidade brutal. Ela teve que crescer à força. E a forma como ela descrevia as coisas era tão pormenorizada que era muito fácil de passar e formular imagens. A revolta é muito grande. Surge logo a pergunta: como é que isto é possível? Como é que alguém pode fazer isto? O meu nome é Gabriela Salazar, sou psicóloga clínica e da saúde e exerço há 20 anos. Durante a licenciatura, foi muito claro pra mim que a área dos maus-tratos, abuso, violação, não estariam de todo ao meu alcance, porque não me identificava, colidia demasiado com os meus valores e achava que nem era uma questão de competência, era mesmo uma questão de gestão emocional. Considerava que iria ser demasiado desafiador pra mim. E ainda durante o estágio, o primeiro caso que eu recebo é de uma menina que estava institucionalizada, tinha 11 anos na altura. Entretanto, a menina chega, senta-se, eu apresento-me, peço pra ela me dizer o nome dela. Eu começo por fazer perguntas simples, o nome, a idade, em que ano ela está. E entretanto, disse-lhe: "Olha, eu sei que foi a instituição que pediu esta consulta. Há quanto tempo estás institucionalizada?" E ela disse-me que era recente, seis, sete meses. E o motivo para ela estar institucionalizada. E ela responde-me que o pai a violava. Assim, estas foram as palavras dela: "O meu pai violava-me desde os cinco anos. A minha mãe sabia, mas fazia de conta que não sabia. Um dia aqui na escola eu falei com a minha diretora de turma e a minha diretora de turma disse-me que não era normal e que eu não devia continuar neste contexto. Ela alertou as autoridades, foi desencadeado todo o processo judicial e eu fui retirada. Mas eu gostava de perceber por que é que sou eu a culpada". E quando ela me faz esta pergunta, eu que estou a ler o culpada, por que a ela? "Porque tive que sair de minha casa, perdi contato com os meus amigos, perdi contato com aquilo que eu conhecia e estou agora numa casa onde não conheço ninguém e acho que mais valia ter estado calada". E quando ela diz isto, foi um confronto brutal. E aqui deparo-me com duas questões. Primeiro, a inexperiência. Eu nesta altura já estou toda a tremer. Quando estou a falar com a menina, eu já estou toda a tremer e já estou a sentir aqui uma desorganização mental e emocional brutal. Portanto, eu conseguir manter o foco foi muito difícil naquele momento. E depois, a ausência de resposta devolveu-me uma sensação de incapacidade brutal, porque eu só pensava: "OK, o que eu posso fazer? Eu não tenho ferramentas para isto. Eu não sei o que é de fazer aqui." No final da consulta, ao fazer os registros, estava a fazê-los de um modo muito robótico e automático. Eu senti necessidade de me desconectar das emoções naquele momento, como forma de me proteger. Dirigi-me pro meu carro, entrei no carro, liguei o carro, avancei pra ir embora e assim que eu percebi que estava fora do raio da escola, eu parei o carro e tive uma descarga brutal. Eu só chorava. Chorei imenso. Chorei, chorei, chorei. Muito enraivecida, muito revoltada, muito zangada. Eu lembro-me de pensar: eu tenho que estudar isto. Eu tenho que perceber isto. Não é esquecer, mas tem que existir uma forma de ajudar a integrar isto na vida das pessoas que passam por isto. Tem que existir. Este caso foi, sem dúvida, um ponto de viragem, tanto em termos profissionais como em termos pessoais. Em termos profissionais, porque efetivamente foi o que me levou a enveredar pra esta área do trauma, do trauma psicológico, e que me fez procurar e munir de ferramentas para ir de encontro a todas as pessoas que tenham vivenciado estas situações ou situações análogas. O facto de eu me ter confrontado com isto, de ter tido esta reflexão, ter feito esta autoanálise confrontada com este caso e de ter iniciado todo um processo psicoterapêutico, eu enquanto cliente, foi essencial para o papel de psicóloga que eu exerço neste momento. Uma outra coisa que foi muito importante eu trabalhar em contexto terapêutico no meu processo de desenvolvimento pessoal, foi a criação de limites. E não achar que eu consigo aguentar, eu consigo engolir, eu consigo aguentar com tudo. Eu acompanhei-a durante aproximadamente cinco meses, porque entretanto estava no final do estágio e nós não poderíamos continuar o acompanhamento após o término do estágio. O trabalho com ela, na altura, e também com a ajuda da minha orientadora, naturalmente, tinha muito a ver com o trabalho que eu fazia em termos da atribuição da culpa. Foi muito isto que eu trabalhei com a menina. Uns anos mais tarde, fui trabalhar num hospital que potencia a área da instituição onde a menina estava e decidi procurar por informação, porque tinha curiosidade. Pela informação que me foi veiculada, a menina estaria bem integrada. Nunca mais soube dela, já lá vão 20 anos, portanto, espero que seja uma adulta feliz, funcional e que efetivamente não viva refém daquilo que outros lhe fizeram. Eu acho que é essencial nós separarmos efetivamente aquilo que nos acontece, daquilo que nós somos.
O Mental é uma parceria do Observador com a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento e com o Hospital da Luz. Conta com o apoio científico do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos.