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Era uma coisa que eu fazia muitas vezes informalmente. "Olha, tem a minha irmã, eu acho que ela não está bem, tem este sintoma." E de repente eu percebi que o que eu fazia informalmente, podia ser um serviço à comunidade, um serviço que a comunidade dos profissionais de saúde mental pode e deve prestar. O meu nome é Inês Almondo Melo, sou médica psiquiatra e trabalho na psiquiatria há exatamente sete anos e meio. Esta situação aconteceu mais ou menos há três anos. Era um dia normal, eu ia chamar um doente que eu sabia apenas o seu primeiro nome e o apelido. Ou seja, era uma primeira consulta. Cheguei à sala de espera, chamei pelo nome que eu tinha acesso, que era de um homem, e de repente levantam-se duas pessoas de idade, dois velhinhos, ao mesmo tempo, e eu perguntei se o nome da pessoa correspondia ao velhinho do sexo masculino e eles disseram: "Não, esta consulta era para o nosso filho, e ele não veio, mas nós viemos no lugar dele." Naquele momento, passaram-me várias coisas pela cabeça. Uma delas era se eu podia atender os pais do doente ausente, por eticamente ser possível. Depois pensei: "Se o doente ainda não é meu doente, eu não devo sigilo à sua família, porque eu não devo nada a ninguém, porque eu ainda não atendi esta pessoa." Naquele momento, pensei muito rápido e disse: "Pronto, entrem." E o que é que eles queriam? Eles queriam me contar o que se estava a passar na vida de um dos filhos deles, achando eles que estavam a testemunhar um episódio de doença mental. E estivemos a dissecar o que se estava a passar na vida do filho. Isso foi um exercício muito interessante e que eu nunca tinha feito, uma espécie de uma consulta de um doente prospetivo, ou seja, de um doente do futuro ou de um doente ausente. O filho adulto, assim cinquentas, recusava ir a qualquer tipo de consulta com profissional de saúde mental, fosse psicólogo ou psiquiatra. O que me descreveram foi um quadro de uma descompensação de uma possível doença bipolar. A pessoa está com muita energia, pode estar com essa energia sob a forma de irritação ou sob a forma de boa disposição. Muitos projetos, vai vencer, vai comprar, tudo vai correr bem, pode fazer muitas compras, uma certa desinibição sexual até. Falar muito e muito rápido, não ter que dormir tanto, a pessoa não precisa dormir, dorme três, quatro horas e acorda cheia de energia. O que eles estavam a observar era um episódio dentro dessa linha. No caso da doença bipolar mais tipo 2, que é essa que passa mais nos pingos da chuva, pode-se andar anos e anos sem contactar com os serviços de saúde mental. E era o caso deste senhor. Ao início comecei com um certo síndrome do impostor. "Eu sou médica, estou aqui a dar consulta e não há doente?" Quase tipo uma consultoria, que eu não estava habituada a ver-me nesse papel. E depois, lentamente, fui me sentindo muito mais na minha pele, confiante na minha pele. Ou seja, senti: "Eu estou a fazer psiquiatria, eu estou a fazer uma intervenção no sentido destas pessoas conduzirem uma pessoa que tem um episódio de doença mental agudo, de conduzir esta pessoa ao tratamento". Fui me sentindo cada vez mais confiante. E então, o que eu fiz com eles? Depois de perceber o que se estava a passar, o exercício que fizemos na consulta foi ensinar este casal, que já tinha tentado várias coisas sem sucesso, a convencer o seu filho a procurar ajuda. E estivemos a ensaiar, a fazer role play mesmo, de conversas que eles iriam ter com o filho. Usei as minhas melhores técnicas de como convencer alguém a procurar ajuda. Nesse dia, como foi a primeira vez, dei o meu melhor, mas desse dia para frente, fui melhorando, porque eu percebi que este é um serviço que nós temos que prestar. Eles conseguiram, e foi muito mais fácil do que toda a gente ali achou que ia ser. Mas eles seguiram o role play com a forma que a gente tinha feito. Foi o pai a figura mais importante. E entretanto, fui eu que fiz a consulta ao filho. Foi um momento muito emocionante, quando o doente prospetivo passou a ser um doente do presente. Ele, hoje em dia, está estabilizado, não está em nenhuma fase ativa de doença, ou seja, não está nem em depressão, nem em fases hipomaníacas, hipomaníaco-maníacas. Está estabilizado. Já trabalhei com ele o seu diagnóstico, a chamada psicoeducação. Na doença bipolar importa muito que a pessoa reconheça sinais de alarme de que está para breve um episódio, para que nós possamos intervir o mais rapidamente possível. Está a tomar medicação para estabilizar, os famosos estabilizadores de humor. E neste processo de psicoeducação foi muito útil a participação dos pais. Aprendi que, tal como já suspeitava, o amor da família é muitas vezes uma arma importantíssima para conduzir as pessoas à ajuda. Aprendi que há muita falta deste tipo de intervenção, que as pessoas se sentem muito sozinhas nisto, e não tem que ser assim. A partir desse dia, assumi o meu papel de conselheira de famílias. Percebi que era um serviço que era necessário e muitas mais vezes o fiz. As pessoas começavam a pedir: "Mas eu não sei como é que eu vou convencer. Nem sei o que se está a passar com meu filho, com meu irmão, com meu sobrinho, com meu pai." E comecei a responder: "Não faz mal. Venha você. Eu vou ajudar no que eu puder." E tenho tido experiências super gratificantes, como foi esta, na verdade, foi a primeira, foi o primeiro amor. Tive muitas mais experiências gratificantes.

O Mental é uma parceria do Observador com a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento e com o Hospital da Luz. Conta com o apoio científico do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos.