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Começa agora o novo Domínio da Guerra. Comigo já está o Major-General José Armando Moreira. Vamos olhar para mais uma semana de guerra. Bom dia, General.

Olá, muito bom dia a todos.

Bom dia. Para além da rádio, recordo que também nos pode acompanhar em direto no YouTube, Facebook ou através do site do Observador. General, começamos pela China, que surpreendeu a comunidade internacional ao votar a favor de uma resolução das Nações Unidas em que, entre outras coisas, referia a condenação da invasão russa. Mas depois disto, veio dizer que não alterou a sua posição em relação ao conflito. Afinal, fiquei um pouquinho perdida, em que é que ficamos?

Por momentos, até pensámos que a China tinha mudado para o outro lado, tinha atravessado o corredor do Parlamento e se tinha sentado na bancada da oposição, mas não foi ainda desta. Na verdade, houve uma resolução das Nações Unidas que foi votada e essa era uma resolução que pretendia basicamente incrementar as relações entre as Nações Unidas e o Conselho da Europa. Só que neste texto, no texto que alimentava esta resolução, havia uma linha, um parágrafo lá escondido, onde se condenava a agressão da Rússia à Ucrânia. A China leu certamente todos os parágrafos. Mas entendeu que o valor da resolução, do incremento das relações entre o Conselho da Europa e as Nações Unidas tinha um valor superior do que aquele parágrafo que está ali. Portanto, ela surpreendentemente para todos, apesar daquele parágrafo, votou a favor, porque achou que colocar-se do lado do Conselho da Europa e da defesa dos valores humanos era mais importante também para a sua estratégia do que ligar àquela linha que lá estava escrita sobre a Rússia. E, portanto, ela votou a favor da resolução. Também votaram a favor o Brasil e a Índia também foram outros países que votaram a favor da resolução, porque consideraram que a resolução não era sobre a Rússia, era sobre o Conselho da Europa e que deveriam estar desse lado. Aparentemente, até terá havido uma outra votação sobre aquele parágrafo escrito, se ele deveria ou não ser incluído na declaração. E aí a China absteve-se. E portanto houve bastante mais abstenções, neste caso houve cerca de 48 abstenções e portanto a China, na verdade, não mudou. O telefonema com o Zelensky ainda não foi suficiente para saltar para a bancada da oposição.

General, esta semana foi também marcada por ataques ucranianos na profundidade do território ocupado, com resultados de grande visibilidade em Sebastopol e vários descarrilamentos de comboios em Briansk. Isto pode ser um indício de que a contraofensiva está próxima?

Certamente, porque na preparação de uma contraofensiva, existe um conjunto de procedimentos, de passos prévios que anunciam exatamente uma preparação para este tipo de manobra. A primeira é invisível, isto é, nós não temos conhecimento desse passo, é o passo da intelligence. É preciso saber onde estão as forças russas, qual é a sua capacidade de defesa em cada um dos pontos da frente, qual é o tipo de preparação de terreno, existe terreno onde está minado contra carros de combate, há terreno onde existem as tais pirâmides de betão, existe terreno que foi escavado para constituir ali um conjunto de valas, de obstáculos à progressão dos carros de combate, onde é que estão as reservas da Federação Russa para uma defesa contra esta contraofensiva. Tudo isso passa-nos despercebido, portanto, é um passo absolutamente fundamental para o desenho da manobra, mas sobre o qual não existe uma visibilidade por parte da nossa parte. Mas depois, existe uma outra parte também importante, que tem a ver com a composição e a organização das forças. Em função daquilo que é a leitura do terreno, dos objetivos a conquistar e a postura do inimigo, também, naturalmente, é preciso proceder a esta organização e à composição das forças e atribuir objetivos a cada uma das forças. Mas depois, há uma parte que é esta parte visível que nós estamos a ver, que é a parte da preparação do campo de batalha para a ofensiva. E desta preparação fazem parte, pelo menos, três componentes importantes. A primeira tem a ver com a vontade de defender, é preciso diminuir a vontade de combater do adversário. Isto faz-se de múltiplas formas, uma das quais é mostrar poder. Isto é, quando se mostram os equipamentos que foram recebidos, quando se mostra o treino que foi dado às tropas, quando se mostra o treino coletivo das unidades do ponto de vista daquilo que é a sua preparação tática para a manobra, quando se mostra um espírito de combate e de grande otimismo, tudo isto procura influenciar e, portanto, diminuir, neste caso, a vontade de defesa. Estamos efetivamente a ver esta fase. Uma segunda questão tem a ver com aquilo que é a capacidade de antecipar e de observar por parte do inimigo. O inimigo dispõe de um conjunto muito relevante de equipamento que lhe permite antecipar tudo isto, nomeadamente com radares de vigilância do campo de batalha ou os seus radares de contrabateria, ou o conjunto de equipamentos que possui, natureza da sua guerra eletrónica, que permitem detetar movimentos, conversações, etc., por parte das forças ucranianas. Ora, o que nós verificamos, o padrão que temos assistido, isto verificou-se, por exemplo, na ofensiva de setembro, é que nas semanas que antecedem a contraofensiva, existe uma grande destruição deste tipo de equipamentos por parte das forças ucranianas. Este padrão está a verificar-se neste momento. Nós estamos a assistir a uma grande concentração por parte das forças ucranianas num esforço para destruir este conjunto de equipamentos que permitem de alguma maneira visualizar as intenções ucranianas e portanto retirar esta capacidade, sobretudo a de contrabateria, que é importantíssima, às forças da Federação Russa. E depois há um terceiro elemento, que é aquele que é o mais visível, que é o da destruição dos seus depósitos. Esta destruição dos seus depósitos e da sua cadeia logística é exatamente aquilo que estamos a assistir neste momento. Portanto, tudo aquilo que são depósitos de combustível, ou que são depósitos de munições, ou que são linhas de caminho de ferro através das quais se pode alimentar o sistema logístico, são, neste momento, os grandes objetivos por parte da Ucrânia, no sentido de retirar, em cima da hora, a capacidade e a disponibilidade da Federação Russa poder utilizar estes recursos em favor de uma defesa mais eficaz.

Costumamos dizer que a pressa é má conselheira e parece haver alguma inquietação ocidental com o facto de a primavera já ter chegado e a tal contraofensiva ainda não ter acontecido. General Arno Moreira, é legítima esta pressa, não é?

Pelo menos é compreensível. É natural que as pessoas também estejam cansadas da guerra, que atribuam até, eventualmente, mais efeitos na sua qualidade de vida provocada pela guerra da Ucrânia, até provavelmente mais do que aquilo que ela efetivamente trouxe.

Mas há muita gente a depositar esperança nesta contraofensiva também.

E portanto, as pessoas veem a contraofensiva como virar outra vez a iniciativa para o lado ucraniano e aproximar-nos do fim da guerra. É perfeitamente legítimo este tipo de expectativa. Esta pressa, no entanto, não é boa conselheira. Por quê? O planeamento militar é um conjunto de procedimentos que está consolidado ao longo de muito tempo e os Estados Maiores estão muito preparados para o fazer. Os Estados Maiores são muito rápidos, porque este é um conjunto de procedimentos que estão perfeitamente definidos. É muito rápido fazer este tipo de planeamento. O que não é rápido e o que atrasa normalmente tudo isto são as capacidades. É que o planeamento é rápido, mas o planeamento é feito sobre um conjunto de capacidades disponíveis. Ora, o processo de construção das capacidades é que nem sempre acompanha a rapidez do planeamento de natureza militar. Porque para eu ter estas capacidades, eu tenho uma espécie de um checklist de questões que tenho que levantar previamente. Eu tenho os efetivos suficientes? Provavelmente, neste momento, sim. Eles estão técnica e taticamente treinados para o fazer? Sim, provavelmente também sim. Eu tenho todos os equipamentos militares principais que preciso, os carros de combate, as viaturas de combate de infantaria, as viaturas blindadas de transporte pessoal, os meios de artilharia autopropulsados, etc.? Tenho. Na esmagadora maioria já estão disponíveis. Mas depois há um conjunto de outras questões que são menos visíveis, mas que são igualmente importantes para a contraofensiva. Estou a falar dos sistemas de apoio. Numa operação ofensiva, existe também, para além daquilo que são os meios muito visíveis, um conjunto de outros meios em apoio destes, sem os quais as operações ofensivas têm muita dificuldade. Estou a falar nos veículos de combate de engenharia, para ajudar a ultrapassar o conjunto de obstáculos que certamente estão preparados. Estou a falar no sistema de comunicações, que tem que ser muito flexível, com uma largura de banda muito disponível e capacidade de se estender no campo de batalha à medida que as forças vão avançando. Estou a falar de todo o sistema logístico. Os carros de combate vão avançar por ali adiante, mas atrás deles têm que vir as viaturas que trazem as munições, que trazem o combustível, etc. Nós estamos muito fixados nos carros de combate, mas para tudo isto funcionar, existe atrás uma multiplicidade enorme de meios sobre os quais nós não temos visibilidade. Portanto, provavelmente, ainda não foi lançada esta contraofensiva Dois aspectos importantes. O primeiro é que o terreno não estará ainda suficientemente consolidado do ponto de vista das chuvas, de lama, etc., que permitam não criar um obstáculo adicional à contraofensiva e, por outro lado, é preciso treinar estes sistemas de apoio, porque para passar as linhas defensivas da Federação Russa, vai ser necessário utilizar um conjunto de apoios de combate muito importante, que é preciso estar disponível e sobre o qual nós não temos ainda visibilidade.

General Arno Moreira, na próxima terça-feira, 9 de maio, assinala-se o Dia da Vitória e temos assistido a uma preocupação generalizada na Federação Russa relativamente às tradicionais cerimônias militares. Algumas regiões até cancelaram as celebrações. Há motivos para isso? O que é que devemos esperar neste dia?

O dia 9 de maio é um dia particularmente simbólico. É o Dia da Vitória, ele marca para a Federação Russa, marcava certamente muito mais ainda para a União Soviética. É o dia da vitória do Estado Soviético sobre a Alemanha nazista e, portanto, é um dia de grande exaltação, uma exaltação absolutamente merecida, porque foi através de uma enorme resiliência dos soviéticos que conseguiram vencer a Alemanha nazista e, portanto, é um dia de exaltação patriótica. Ora, o ponto alto desta exaltação patriótica são os desfiles militares e são normalmente organizados nas várias regiões. Em Moscovo, certamente uma enorme parada, um conjunto de cerimônias que tem o seu ponto alto naquilo que é o desfile das Forças Armadas. Este desfile procura transmitir duas ideias: a primeira é uma ideia de força e a segunda é uma ideia de segurança. Isto é, mostrar às pessoas que nós temos força e, portanto, força no sentido de liberdade de ação, e também segurança, isto é, que as pessoas se sentem protegidas. Ora, o problema é que estas celebrações do 9 de maio este ano não têm nem força, nem segurança. Portanto, aquilo que a Federação Russa pretendia transmitir, não existe. E não existe do ponto de vista da força, porque a força está empenhada. Há, aliás, aqui um problema gravíssimo de transmissão de percepções. Isto é, num momento em que as forças no terreno se queixam da falta de meios, os meios vão ser utilizados em paradas de natureza militar? Então não são estes meios que estão a ser pedidos pelos nossos combatentes. Há aqui uma questão inultrapassável das percepções que pode jogar para os dois lados. Para mostrar força é preciso ter militares disponíveis, mas por outro lado, isso vai mostrar que estes meios estão a ser retirados onde eles verdadeiramente iam ser precisos. E portanto, isto tem a ver com o primeiro aspecto. A parada militar em si constitui, de alguma maneira, uma afronta àquilo que são as necessidades de equipamentos na frente. Mas depois, há uma questão de segurança que é muito importante aqui, porque a Ucrânia também sabe que o dia 9 de maio é muito particular e que há muita gente a observar tudo aquilo que se passa. Um drone que passe numa cerimônia destas com a bandeira da Ucrânia pendurada, hasteada, tem uma visibilidade diferente daquilo que se passa num outro dia, no dia a dia. E portanto, este receio de que a Ucrânia também possa aproveitar o 9 de maio para introduzir elementos de desestabilização interna do regime, através de uma demonstração de força, que não precisa de ser um ataque, pode ser demonstrações como estas que eu fiz, são pequenas provocações, digamos assim, faz com que haja um elevadíssimo receio neste momento relativamente à realização e aos tais objetivos que se pretendem, que é mostrar, por um lado, segurança e, por outro lado, força. É por isso que eles começaram a ser cancelados. Vamos ver se no próprio desfile em Moscovo não vai haver também um conjunto muito grande de meios que vão ser retirados, no sentido de não transmitir esta sensação de que os meios não deviam estar em Moscovo, deviam estar nas frentes de combate.

Vamos à cortina de fumo? A Rússia acusou a Ucrânia de uma tentativa de assassinato de Putin. Houve até fumo a sair da cúpula do Kremlin.

É verdade.

Há mais fumo escondido para além do que podemos ver, general?

Isto é matéria que vai dar certamente para muitos desenvolvimentos. Porque, na verdade, há quatro atores que poderiam ter feito a sua intervenção nisto. O primeiro ator são os Estados Unidos, como, aliás, a Federação Russa rapidamente colocou essa hipótese, que se não foram os Estados Unidos, foi pelo menos sob a sua direção. Só que se fossem os Estados Unidos, os drones tinham entrado pelas frestas da janela, não se tinham espatifado no telhado. Se fosse uma operação coordenada, pensada pelos Estados Unidos, os drones tinham explodido dentro do Palácio do Senado e não se tinham espatifado daquela forma de encontro ao telhado. Portanto, vamos excluir essa hipótese Sobram-nos três outras hipóteses. A primeira hipótese é a de que tenha sido a Ucrânia que efetivamente tenha conduzido esta operação. A Ucrânia dispõe hoje em dia de drones suficientemente sofisticados para vencer esta distância muito grande que separa a sua fronteira do Kremlin. Simplesmente não faz sentido nenhum. Não faz sentido nenhum, por quê? Porque está a abrir um precedente que até este momento ainda não tinha sido invocado. É que nem a Rússia tinha bombardeado o Palácio Presidencial em Kyiv, nem a Ucrânia tinha bombardeado o Kremlin. Ora, não faz absolutamente nenhum sentido do ponto de vista da lógica da guerra, eu abrir aqui um precedente, porque se é verdade que a Ucrânia pode com drones atacar o Kremlin, a verdade é que a Federação Russa pode atacar com mísseis de cruzeiro e, portanto, não estamos a falar do mesmo tipo de efeitos que se podem provocar de um lado ou do outro. Do meu ponto de vista, não tem absolutamente lógica nenhuma que a Ucrânia tenha pensado num ataque ao Kremlin, muito menos um ataque para assassinar Putin. Nós sabemos que Putin não toma banhos de sol nas varandas e no rooftop do Palácio do Senado. Quando ele quer apanhar ar mais fresco, vai ao ar-condicionado do bunker e muda a temperatura, põe no máximo, portanto, apanha ar mais fresco. Ou seja, não faz nenhum sentido. A Ucrânia sabe, como aliás é do conhecimento geral, que Putin nem sequer dorme no Palácio do Senado. O Palácio do Senado é a sua residência oficial, mas não é lá que ele pernoita. Ele tem nos arredores de Moscovo, uma casa preparada onde é efetivamente o local onde fica. Portanto, toda esta narrativa não faz sentido nenhum que tenha sido o governo ucraniano a pensar numa manobra deste género. A segunda tem a ver com ser uma encenação por parte da Federação Russa, que nós chamamos uma operação de falsa bandeira. Ora, eu não excluo esta hipótese. É claro que a Federação Russa diz assim: "Ah, mas eu estou a mostrar uma vulnerabilidade". Vulnerabilidades é coisa que não falta na Federação Russa, mas existe um conjunto de vantagens muito significativas. A primeira é: passou a dispor, através desta narrativa, de uma justificação para atracar o Palácio do Kremlin. Segundo: passou a ter uma justificação para Putin não comparecer em cerimônias de natureza oficial, nem sequer para viajar pelo estrangeiro, porque agora todos os serviços estão interessados em pôr fim à vida de Putin. Não obstante, isto ter, do ponto de vista da Federação Russa, poder revelar uma vulnerabilidade, essa vulnerabilidade está amplamente conhecida, é muito conhecida e não abre um patamar novo, mas fornece um conjunto muito grande de possibilidades de atuação a confirmar-se esta narrativa. Eu não excluiria que isto foi efetivamente uma operação de falsa bandeira.

E hoje temos o nosso Ponto de Mira colocado sobre as linhas de defesa que as forças russas têm vindo a construir nos territórios ocupados. Podem ser ultrapassadas, general?

Nem as pirâmides de betão, nem as valas contra os carros de combate, nem as minas impedem uma brigada de progredir, porque as brigadas têm efetivamente também os tais meios de apoio de engenharia para o poderem fazer. É evidente que para serem verdadeiros obstáculos, também têm que ser batidos pelo fogo. Não basta apenas criar os obstáculos e ir embora. É preciso que esteja lá alguém para defender esses obstáculos. Ora, neste sentido, é muito interessante aquilo que se lê numa linha no último pacote de ajuda militar norte-americana. Diz assim: "Vão ser entregues munições de destruição de obstáculos". E isto está pensado no arsenal ucraniano.

General Larno Moura, muito obrigada por mais um Ponto de Mira da Guerra. Até sexta. Bom fim de semana.

Bom fim de semana a todos.