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Começa agora o Domínio da Guerra da Rádio Observador, sempre com o major-general José Renato Moura. Bom dia, bem-vindo.
Olá, muito bom dia a todos.
Gosto muito deste momento da semana, já sabe. Fica aqui dito. Já costumo escrever e agora fica dito.
Eu passo a semana também à espera deste momento.
Depois de dias de colapso, Wall Street teve esta quarta-feira um dos seus melhores dias da última década. Foi uma reação muito favorável ao anúncio de uma pausa de 90 dias na guerra das tarifas de Donald Trump. Altos e baixos. Fora desta pausa ficou a China, que, pelo contrário, viu as tarifas aumentarem para valores acima dos 100%. Isto nem sabemos há quantas vezes nesta hora que falamos. É possível, general, descortinar alguma estratégia na gestão caótica de um processo tarifário que ameaça a economia global, a estabilidade e a qualidade de vida de todos nós?
É isso que nós andamos à procura. Nós, analistas, procuramos sempre alguma lógica nisto, que haja uma lógica nisto, que não seja apenas uma disputa entre dois rapazes que se zangaram um com o outro e que utilizam aquilo que é a economia global para infligir danos um ao outro. E, portanto, andamos à procura que isto tenha uma lógica, que haja um sentido, que faça um sentido qualquer. Bom, quando Trump anunciou, no final da semana passada, com pompa e circunstância, e como na altura nós falamos aqui, o chamado Dia da Libertação, poucos estariam à espera que passados poucos dias, meia dúzia de dias, ele voltasse atrás com esta decisão ou pelo menos suspendesse esta decisão. E por quê? Porque aquela imposição era de tal maneira detalhada, por um lado, e por outro lado, abrangia meio mundo, mais de uma centena de países, que aquilo parecia uma coisa pensada para durar. Há efetivamente aqui um plano por detrás disto, isto corresponde àquilo que são os interesses estratégicos dos Estados Unidos a longo prazo, de fixar mão de obra, de fixar a sua indústria, de trazer outra vez a industrialização de volta à América. E muitos dos seus assessores até saíram publicamente, na sequência do Dia da Libertação, a dizer que as tarifas não eram negociáveis. Não eram negociáveis neste sentido de que não se tratava de uma medida de natureza conjuntural, mas de uma medida de natureza estrutural, que fazia parte do programa eleitoral de Donald Trump e que queria trazer outra vez a industrialização de regresso à América. Portanto, ficámos com esta ideia de que isto correspondia a um plano. O mundo protestou de forma veemente contra este plano e este anúncio, e depois dividiu-se em duas áreas. A área daquelas economias mais vulneráveis, mais fracas, que o que pediram foi reuniões bilaterais com os Estados Unidos, no sentido de procurar pelo menos atenuar o que está aqui, porque eram economias que não têm escala suficiente para enfrentar os Estados Unidos. Portanto, esses puseram-se logo de joelhos.
E os que reagiram?
E depois os que reagiram. Os que reagiram foi a União Europeia, que reagiu de uma forma inteligente, prudente, mais gradual.
Mais ponderada.
É, mais ponderada, dando sempre margem de recuo. E, por outro lado, a China, que entendeu que isto era um ataque claro, determinado e óbvio.
Abriu a guerra.
E abriu a guerra e resolveu responder e ir à guerra. E Trump respondeu também com um aumento sucessivo das taxas sobre a China. Primeiro foram 104, depois passou para 125. Parece que hoje já vai em 145, no final do nosso programa.
É por isso que eu disse acima dos 100.
Exatamente. No final do nosso programa, não sei onde estará. Isto não é um jogo de crianças, porque estamos a jogar com a economia mundial. É que por trás das folhas de Excel e daqueles números, há a economia das pessoas, e é isso que é importante. E, portanto, há uma coisa com que Trump já acabou, até pode suspender, mas acabou com a confiança das pessoas na estabilidade da economia e portanto, lançou o pânico entre os mercados. Os mercados mundiais não tardaram a reagir negativamente a este anúncio, como aliás era esperado. E alguns até viram nisto o primeiro dia daquele movimento que se chama a desglobalização. Não só acabou a globalização, como agora cada um por si e, portanto, o movimento da desglobalização terá tido o seu primeiro dia com este afundamento das bolsas e dos mercados. E depois, candidamente, depois de ter partido a louça toda, a louça econômica toda, Trump vem suspender por 90 dias estas medidas. E é aqui que entramos no cerne da nossa questão.
Começo a imaginar quando é que será que ele toma essas decisões e quando acorda, ao pequeno-almoço.
E, portanto, o cerne é este: mas há aqui alguma estratégia ou isto é apenas uma gestão caótica dos assuntos internos e internacionais a que, aliás, esta administração já nos habituou? Bom, eu alinhei aqui quatro hipóteses. Elas não são mutuamente exclusivas. Até podemos pensar que algumas delas possam ter contribuído para esta decisão daquilo que eu chamei o recuo trumpiano. Bom, então, as quatro hipóteses, eu arranjei uns nomes interessantes para isto. A primeira chama-se o erro de cálculo A segunda é a preservação da equipa económica, a terceira é o golpe genial e a quarta, a manipulação do mercado. Vamos a isto. O erro de cálculo. Trump é um homem que sabe de bolsas. Ele passou a vida toda como investidor e, portanto, sabe perfeitamente os resultados dos aumentos das tarifas. Mas ele pode ter subestimado um dos efeitos disso. Acabou por haver reflexos de natureza econômica interna muito superiores ao que ele poderia ter antecipado. Por quê? Porque milhões de famílias americanas têm não só as suas poupanças em fundos de investimento que dependem da cotação das ações na bolsa, como têm também as suas reformas dependentes disso. Milhões de dólares foram queimados de um dia para o outro, e isso traduziu-se numa enorme aflição por parte das famílias que confiavam na estabilidade dos mercados e que tinham posto o seu futuro na mão desses mercados. Isto suscitou, do ponto de vista de alguns senadores republicanos, uma imensa desconfiança e a vontade de travar aquilo que era um reflexo, que era como o chicote que regressa. A ponta do chicote regressa com muito mais força e, portanto, ao atingir também as poupanças das famílias americanas, Donald Trump pode ter cometido aqui uma imprudência para a qual foi alertado poucos dias depois. A primeira ideia é a do erro de cálculo. Isto aconteceu porque houve um erro de cálculo, culpa de Trump, portanto, nesta primeira hipótese. A segunda hipótese tem a ver com a preservação da sua equipa económica. Eu distingo nesta equipa económica de Trump quatro figuras. Duas são de natureza institucional. Sentam-se à mesa dos secretários quando Trump reúne a sua equipa. Estes dois institucionais são Scott Bessent, que é o secretário do Tesouro, e Howard Lutnick, que é o secretário do Comércio. Estes são os dois elementos institucionais com os quais Trump fala. Aliás, Trump quando decidiu suspender, foi depois de uma conversa com estes dois secretários. Scott Bessent nunca pareceu estar completamente alinhado com esta política. Scott Bessent não é contra as tarifas, mas achava que deveria haver um propósito mais específico, deveriam ser estudadas com maior detalhe e que ter se disparado em todas as direções poderia ser contraprodutivo. Mas depois há dois elementos que têm enorme influência no staff de Donald Trump e que não têm este assento institucional, que são Peter Navarro, que é um conselheiro há longo tempo econômico de Trump, e Elon Musk, que é o conselheiro informal e frequentador mar a largo.
E que também fez críticas sobre esta questão das tarifas.
Exatamente. Peter Navarro manteve uma intensa discussão com Elon Musk entre sábado e terça-feira. Primeiro, Musk, no sábado, veio dizer que isto das tarifas estava tudo errado e que o que deveríamos lutar era por tarifas zero. E Peter Navarro ficou furioso porque se considerava o pai desta ideia. Basicamente, Peter Navarro veio dizer que Elon Musk não é um economista para estar a pronunciar sobre estas coisas e não passa de um juntador de peças importadas de carros. Ui! E que essas peças deviam era ser produzidas na América. Ui! Elon, que tem uma rede social à sua disposição, foi para a rede dizer: "Navarro é mais estúpido que um saco de tijolos." Nós conhecemos aquela "burro como uma pedra", mas esta é a versão tecnologicamente avançada. Mais estúpido que um saco de tijolos. E depois, no meio disto tudo, teve que vir a Casa Branca em apoio desta manobra que a equipa económica se estava a insultar em desfavor de Donald Trump, porque isto mostrava uma enorme divisão. E então Karoline Leavitt saiu à rua para dizer o seguinte: "Boys will be boys." Quer dizer, isto é uma coisa de rapazes, é uma disputa de miúdos. Simplesmente estes miúdos influenciam.
Têm muito poder.
Têm muito poder. Portanto, esta coisa do boys will be boys eu acho que também é extraordinário e devemos registrar aqui no nosso programa. A terceira é a teoria do golpe genial. A teoria do golpe genial é aquilo que eu chamo a narrativa de escapatória nesta fase. Depois de ter partido esta louça toda, é preciso mostrar que isto não foi uma coisa caótica, mas foi uma coisa planeada desde o início, e isto demonstra a genialidade de Donald Trump. Tratou-se daquilo que nós na estratégia chamamos uma demonstração de força. Trump quis mostrar ao mundo que é ele que detém o poder e que a economia mundial ainda depende das decisões que os Estados Unidos tomam. Foi uma demonstração de força. Durou o tempo suficiente para produzir efeitos, mas tal qual como as demonstrações de força, depois é retirada, porque a afirmação já foi feita. Os Estados Unidos são a potência que controla a economia mundial e, portanto, têm que ser respeitados e é importante que os países se alinhem de acordo com aquilo que são as orientações de Trump. Portanto, este é o toque, é a saída, a narrativa da genialidade. Isto foi tudo de propósito, isto foi apenas uma demonstração de força para mostrar como os Estados Unidos continuam a ser a grande economia e têm capacidade de formatar a economia mundial. E depois, há uma quarta, que é talvez a mais triste destas todas, que é a teoria da manipulação de mercado. Isto é, se Trump tinha isto planeado e se foi capaz de, horas antes de reverter a sua situação, fazer um post na sua rede social a dizer: "Está na hora de comprar", o que ele esteve a fazer foi, na verdade, dar indicações a um conjunto de pessoas que tinham conhecimento de que a situação ia ser revertida, de que podiam ganhar milhares de milhões de dólares instantaneamente se investissem naquele momento e comprassem ações. Esta teoria da manipulação do mercado é uma teoria gravíssima, porque significa que o próprio autor das medidas está ou pode ter dado recomendações no círculo próximo dos deles para ter um enorme retorno de milhares de milhões em poucas horas. E, portanto, estas quatro teorias podem não se excluir mutuamente e pode haver aqui uma conjugação verdadeiramente desta teorização.
General, também por causa desta guerra comercial, tem se falado menos da Ucrânia e do apoio europeu. Ainda assim, tivemos nova tragédia com a multiplicação de mortes civis, vítimas do ataque sistemático de drones e de mísseis balísticos russos.
É verdade. Esta semana falámos pouco, porque andámos muito entretidos com a questão das
E porque isto também é de facto muito importante.
Mas houve alguns outros aspectos que são importantes. Em primeiro lugar, porque a sensação que temos neste momento é que com a primavera, a Federação Russa iniciou já um conjunto de ofensivas na região de Sumy e na região de Kharkiv, que pode visar construir ali uma espécie de uma zona tampão, que eventualmente até pode, no final das hostilidades, servir para trocar pelas regiões que lhe falta conquistar no Donbass. E, portanto, poderia ser uma medida de troca. Eu devolvo estas regiões, mas em compensação, aquilo que eu não conseguir conquistar no Donbass é me atribuído. Na verdade, a progressão tem vindo a diminuir drasticamente. A progressão das forças russas no terreno tem vindo a diminuir. Pode ser que agora com esta ofensiva da primavera, as coisas se revertam, mas os números, que foram números que são consolidados quer pelo Ministério da Defesa Britânica, quer pelo Instituto para o Estudo da Guerra, não mentem. Em janeiro, a Rússia tinha conquistado 427 km² de território ucraniano. Mas já só 354 em março e apenas 203 em fevereiro e 203 em março. Isto é, tem havido uma progressão bastante mais lenta por parte das conquistas da Federação Russa. Isto apesar do número de soldados da Rússia na Ucrânia não cessar de aumentar. Neste momento, já são cerca de 623 mil. O que está um pouco paralisada é a iniciativa franco-britânica, porque há aqui uma diferença de aproximação. A Grã-Bretanha, o Reino Unido, não quer avançar.
Houve uma desaceleração, não é?
É. O Reino Unido não quer avançar sem uma garantia sólida de que os Estados Unidos podem vir ajudar estas forças que seriam disponibilizadas pela coligação de vontades na Ucrânia, enquanto que a França acha que isto não deve ser o travão. É claro que entre uma e outra, naturalmente, que há aqui um problema, que é uma solução, a de Keir Starmer, com o apoio dos Estados Unidos, terá certamente uma adesão muito maior por parte dos países, enquanto que uma iniciativa que não tenha o apoio dos Estados Unidos terá certamente um apoio menor. Portanto, vamos ver como corre, entretanto, hoje esta reunião em Bruxelas, do grupo de Ramstein, que pela primeira vez, e isto é preciso assinalar, será presidida conjuntamente pelo Reino Unido e pela Alemanha. Os Estados Unidos não presidirão a esta reunião, o que é a primeira vez que acontece desde que o grupo de Ramstein se formou pela primeira vez.
A nossa cortina de fumo de hoje incide sobre essa enorme esperança, que foi a negociação mediada pelos Estados Unidos para a trégua geral de 30 dias entre a Rússia e a Ucrânia. Onde é que anda este sapo? Parece votado ao esquecimento, General.
Parece. Esta cortina de fumo está a ser dissipada lentamente com os pequenos ventos da história e o que se vê é que não há iniciativa nenhuma para a paz que esteja para durar. Na verdade, esta cortina de fumo não é apenas o anúncio das negociações para uma trégua global Ela também tem a ver com aquilo que foi o puxão de orelhas que Trump deu a Putin, e que afinal não foi puxão de orelhas, porque Putin não se queixou, mandou o seu enviado a Washington, e o que temos agora é a continuação do aprofundamento das relações.
E nem altas tarifas foram.
Nada. E não é válida aquela coisa que se diz por aí de que é porque não havia comércio. Também não havia comércio com os pinguins, e os pinguins não se livraram da tarifa dos 10%.
O nosso ponto de mira hoje está sobre a Ásia Central, que recebeu a visita de uma equipe da Comissão Europeia chefiada por Ursula von der Leyen. General Arnaut Morais, o que há a reter desta cimeira?
É que nós conhecemos pouco e aquilo foi sempre um território proibido. O Ocidente sempre esteve impedido de negociar, de estar presente, de estabelecer relações. Aquilo sempre foi uma espécie do quintal das traseiras da Federação Russa e da China. E portanto, ninguém está autorizado a entrar ali naquela zona. Simplesmente, tem havido um desenvolvimento brutal na Ásia Central, ao qual nós também não temos prestado atenção.
Estão tudo distraitos.
Há poucos dias, antes desta visita de alto nível da União Europeia à Ásia Central, o Quirguistão, o Tadjiquistão e o Uzbequistão assinaram entre si um acordo de reconhecimento mútuo de fronteiras, sem a intervenção de nenhuma potência estrangeira. Sem mediador, foram capazes, ao final de 30 anos, de reconhecerem mutuamente as respectivas fronteiras e assim acabarem com um elemento de tensão que impedia que olhassem para o mundo de uma forma diferente. Durou 30 anos o estabelecimento deste acordo de paz. Ora, aquilo que eram as repúblicas soviéticas, estamos a falar daqueles países todos que terminam em "ão". É o Quirguistão, o Tadjiquistão, o Uzbequistão, o Turcomenistão e o Cazaquistão. Se não me engano, são estes cinco. Pois, estes cinco países pertencem a organizações que são diferentes. Alguns ficaram muito na órbita das organizações econômicas criadas e lideradas pela União Soviética, mas outros têm aproximações também à China, através da Organização da Cooperação de Xangai, e outros à Turquia, através da Organização dos Estados Turcos. E, portanto, estes países não têm sido capazes de ter uma voz comum. E o exemplo da presença europeia pode ser interessante, isto é, pode dar um impulso a que o modelo europeu possa ser também replicado na Ásia Central, e que em vez de se negociar entre a União Europeia e cada um destes cinco países, seja possível encontrar uma voz de negociação que garanta não apenas a estabilidade, cujas fronteiras agora estão reconhecidas, mas um propósito de desenvolvimento comum. O que anda a União Europeia à procura? A União Europeia levou na sua bagagem 12 mil milhões de euros para investir nos países.
Era uma mala muito grande.
Era uma mala pesadíssima, por isso que Ursula levou também António Costa para ajudar a pegar na mala. Agora, o que acontece? Acontece que a União Europeia anda à procura de uma alternativa, de uma passagem entre a Ásia, entre o comércio que vem da Ásia para a Europa, que não passe pela Rússia. Este projeto chama-se o Corredor do Meio, e envolve exatamente estes cinco países. Ora, dos 12 mil milhões que estão previstos, uma parte considerável é para o desenvolvimento das infraestruturas de natureza de transporte. E, portanto, a União Europeia, nesta visita, o que está à procura é encontrar aqui uma nova rota, que já não é a Rota da Seda, que não passa pela Federação Russa, e que pode passar pelo quintal das traseiras da China e da Federação Russa.
General Arnaut Morais, muito obrigada por mais um domínio. É sempre um gosto, como sempre.
Muito obrigado.
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