Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Este é o Som do Domínio da Guerra, da Rádio Observador, sempre com o Major-General José Artur Moreira. Bom dia, bem-vindo.

Olá, muito bom dia a todos.

No nosso último programa, falamos sobre a crescente utilização da palavra paz nos discursos dos actores internacionais em relação à guerra na Ucrânia. General, talvez fosse interessante discutirmos hoje o plano de paz de Trump para a Ucrânia, se é que existe algum.

Se é que existe algum. O tema é interessante, porque nota-se que entre os vários actores do sistema internacional, a questão da paz da Ucrânia traduz aquilo que é uma realidade, um certo cansaço, por um lado, da comunidade internacional, mas também por parte dos dois actores. E esta visita de Kuleba à China vai também nesse sentido. Anda-se à procura de uma solução de paz, uma vez que a solução de natureza militar ainda não deu e não é claro que venha a dar resultados muito conclusivos. Mas numa semana que foi sobretudo marcada pelo aparecimento de Kamala Harris como a candidata do Partido Democrata, mais tarde haveremos de, num outro programa, voltar a esta questão da política externa norte-americana, mas hoje vamos nos concentrar naquilo que poderíamos esperar de um Trump 2.0, sobretudo do ponto de vista da Europa, o que a Europa poderia esperar. Há dois instrumentos sobre os quais Trump não vai deixar de querer atuar. Primeiro é sobre a NATO. Já foi em Trump 1.0, a questão da NATO e sobretudo da falta de contribuição, de empenhamento financeiro, sobretudo da Alemanha, levou muitos puxões de orelha por parte de Trump no seu primeiro mandato. Ele terá agora menos razões, mas vai continuar a insistir nesta tecla. E, portanto, a questão da NATO tem dois aspetos, um que é uma insistência numa repartição diferente de despesas dos Estados Unidos e da Europa, com um reforço significativo daquilo que é a contribuição europeia para isto. Mas há um problema muito mais complicado que Trump pode vir a trazer, que é a questão das tropas norte-americanas estacionadas na Europa. As tropas americanas estacionadas na Europa são cerca de 100 mil. É muita gente, são muitos militares. E estes militares dão uma enorme confiança à arquitetura de segurança europeia, porque mostra o quê? Mostra o empenhamento dos Estados Unidos em defender a Europa. Se não houvesse esse empenhamento político, estas tropas não estariam cá estacionadas. Desses 100 mil, cerca de 20 mil estão posicionados a leste e, portanto, constituem a primeira linha de defesa da NATO. Se o empenhamento dos Estados Unidos diminuir com a Europa, também pode diminuir o número de tropas. Ora, onde é que nós vamos buscar capacidade de substituir 100 mil soldados americanos na Europa? É assim. E, portanto, este é um dos problemas. É o problema de natureza financeira, da repartição, mas também a questão do empenhamento de tropas americanas em solo europeu. Lá teremos que voltar outra vez, ninguém quer fazer isto, mas eu estou sempre a insistir, à discussão sobre o serviço militar obrigatório. Se for a opção Trump a vencedora e se ele continuar a demonstrar a falta de empenhamento na defesa da Europa, vamos ter que encontrar 100 mil soldados para manter a credibilidade europeia. Essa é uma questão. A outra, que pode ter alguns anos para poder ser implementada, mas há outra de consequência imediata, que é o apoio à Ucrânia. Os republicanos não tiveram problema nenhum em manter refém de uma discussão durante vários meses o apoio militar à Ucrânia. Portanto, é muito natural que uma vitória de Trump possa ter resultados imediatos, o que nos atira para a necessidade de Joe Biden, antes de ir embora, de deixar uma Ucrânia bem apetrechada do ponto de vista de sistemas críticos para fazer face a alguma eventualidade. Trump e o plano de Trump. Haverá um plano de Trump ou há apenas uma estratégia negocial? Eu proponho três abordagens. A primeira abordagem é: o que é que Trump disse sobre o assunto? Nesta abordagem, são poucas as frases e não há nenhum artigo ou nenhum discurso estruturado sobre a matéria. São frases soltas que nos ensinam pouco. A mais conhecida é a de que "se eu for eleito, em 24 horas resolvo o assunto". Ele não tornou a falar na questão das 24 horas, mas há cerca de uma semana, fez uma declaração semelhante. Ele tem vontade de resolver rapidamente esta guerra horrível entre a Rússia e a Ucrânia. Desta vez não falou nas 24 horas para ser prudente. Mas nada adiantou relativamente a isto. Isto é, pelas declarações de Trump, não há plano. Há uma vontade, mas plano não há. Segunda aproximação a esta discussão, não o que Trump disse, mas o que as pessoas que visitaram Trump disseram que Trump disse. Agora é preciso ter confiança nos interlocutores e os dois interlocutores também não são de grande confiança, porque o primeiro foi Viktor Orbán. Viktor Orbán, quando visitou Trump, saiu de lá: "Este é o homem indicado que vai resolver este problema". Sobre plano, nada. O que sabemos é que Orbán foi apresentar o seu plano, que é o plano do cessar-fogo imediato. Depois a visita de Boris Johnson. Boris Johnson é tradicionalmente um amigo da Ucrânia. E o que veio Boris Johnson dizer foi um bocadinho o contrário daquilo que Viktor Orbán tinha dito. Isto é, Trump está com a Ucrânia, vai encontrar aqui uma boa solução para o Ocidente e para a Ucrânia. E entretanto escreveu um artigo no Daily Mail onde apresenta um plano. Basicamente, esse plano corresponde a fazermos regressar a situação das fronteiras às fronteiras de 24 de fevereiro de 2022. Isto é, a Rússia ficaria com a parte do Donetsk já ocupado e com a Crimeia e devolveria todo o resto do território e haveria uma perspectiva de integração no sistema internacional da Rússia, com o seu regresso ao G7, passando outra vez a G8 e, por outro lado, também a possibilidade da integração da Ucrânia na NATO e na União Europeia. Não ficou absolutamente claro que este era o plano Trump.

O plano de Trump, claro, exatamente.

Não ficou claro. O que ficou claro é que este era o plano de Boris Johnson. Era a leitura de Boris Johnson. Portanto, por aqui também não chegamos ao plano de Trump. Depois há uma declaração finalmente escrita. Há o telefonema de Zelensky.

Que disse o mesmo, se chegar à Casa Branca, acabará com a guerra.

E Zelensky, ou pelo menos o seu staff, transmitiu a ideia de que Trump lhe terá dito a Zelensky que ele não confie na quantidade de boatos que estão postos a circular, que ele vai dar cabo na Ucrânia se chegar à presidência, porque isso não é verdade. Mas isto não foi a voz de Trump, foi o que disseram que Trump disse. São interpretações sobre aquilo que Trump disse. O que Trump disse foi uma coisa bastante menos assertiva sobre o assunto. Foi que as duas partes chegarão, certamente, a um entendimento negociado para resolver este problema. Isso é o que está escrito, porque consta de um post nas redes sociais enviado pelo próprio Donald Trump. Aqui não fala em 24 horas, como dizia Orbán, mas fala na necessidade de uma solução de natureza negociada. Também não conseguimos vislumbrar plano nenhum aqui. A terceira abordagem é mais especulativa, mas não deixa de ser interessante. Trata-se de definir um perfil para Trump e ver o que é que podemos esperar deste perfil. As premissas são estas. Eu lancei aqui quatro premissas que me parecem verdadeiras, pelo menos eu tomo-as com essa leitura. Primeiro, Trump não considera o apoio à Ucrânia como essencial para a segurança dos Estados Unidos da América. É um problema lateral, sobretudo um problema de natureza europeia. Dois, a Ucrânia vai ser um problema de segurança para a Europa. Os Estados Unidos querem uma solução baratinha que lhes permita não estar envolvidos, nem serem envolvidos num conflito por causa da questão da Ucrânia. Terceira premissa, se o apoio à Ucrânia é uma marca da administração Biden, então Trump está contra. Não vai ser essa a solução, porque ele tem combatido a política externa de Joe Biden. Se a marca de Joe Biden é o apoio à Ucrânia, Trump vai querer marcar uma diferença aqui. E o quarto é: o ego de Donald Trump é maior que o próprio Donald Trump. E isto faz dele, ou faz interpretar a sua missão quase de natureza messiânica, que é o homem que vai trazer a paz ao mundo. Não uma paz qualquer, porque um dos lemas da campanha de Trump é a paz pela força, isto é, pela dissuasão. O que é que resulta daqui? Primeiro, Donald Trump quer ser muito o mediador deste conflito. Não está a ver a China a mediar, não está a ver outros atores a mediar, está a ver ele. Ele é a solução para resolver este conflito. Depois, a vontade de Trump e o seu desejo de ter protagonismo nisto pode ser mau para Kiev e mau para Moscovo. Pode ser mau para os dois, porque ele tem muita vontade de encontrar uma solução e os dois atores podem ter que fazer concessões que não estão dispostos a fazer. Terceiro, a Rússia não se importaria que os Estados Unidos fossem os mediadores, desde que a questão a discutir não fosse a Ucrânia, mas a segurança da arquitetura europeia. Isto é, que se pudesse encontrar aqui uma solução em que a NATO não estaria presente tão perto das fronteiras, isto é, a Rússia queria implicações geoestratégicas bastante maiores do que a simples resolução de uma discussão de um conflito com a Ucrânia. Depois, a forma de mediação. Há duas formas de mediação. Há uma impositiva Que é os Estados Unidos definem um plano e obrigam as partes a cumprir esse plano, ou outra, que é não impositiva, em que os Estados Unidos são apenas os facilitadores. As partes sentam-se e chegam ao acordo. Simplesmente, se for não impositiva, isto é, se for dada liberdade aos atores, então isto contraria aquela proposição de Trump de que resolve isto rapidamente. É o que se passa com a Faixa de Gaza, em que as discussões, já vamos no 20º plano de paz e continuamos sem avançar nesse sentido. E portanto, para ser rápido, Trump teria que ter um plano. Não temos a certeza que esse plano existe. E portanto, Trump teria que desenvolver um plano de paz bem estruturado e que fosse capaz de impor aos dois. Para isso, não há dúvida nenhuma que ele tem ascendente sobre a Ucrânia, porque é um dos grandes fornecedores dos sistemas críticos, mas temos que nos perguntar nesta fase, qual é o ascendente que Trump tem sobre Putin. Isto é, como é que obrigaria Putin a vir ao encontro daquilo que seria o tal plano. Bom, é aqui que estamos nesta fase. Não temos, neste momento, nenhuma certeza que exista um plano por parte de Trump para resolver a questão. O que nós temos mais é uma estratégia de aproximação ao problema, em que vai convencendo as partes que vão ter que chegar a uma solução e que os Estados Unidos serão os mediadores deste conflito.

General, o Médio Oriente regressa hoje em força aqui ao nosso domínio da guerra, aproveitando a visita oficial do primeiro-ministro de Israel aos Estados Unidos. Isto numa semana em que prosseguem violentas ações militares em Gaza, encontros políticos em Pequim, indefinições sobre o que se prepara na fronteira com o Líbano e em que se abriu uma nova frente ativa contra os Huthis. General, é muita coisa a acontecer. Que ponto de situação podemos fazer sobre este desenvolvimento?

Mas podemos sistematizar isto entre acontecimentos de natureza política e de natureza operacional. Há três de natureza política que são muito relevantes durante esta semana. Primeiro, é o próprio anúncio pelos Estados Unidos de que o acordo de cessar-fogo em Gaza está quase concluído. É claro que os detalhes são sempre o problema.

Faltou o quase.

O quase. Mas há esta convicção. A administração Biden adoraria ter este problema resolvido antes das eleições.

Antes de novembro, sim.

O segundo é uma reunião que ocorreu em Pequim entre as várias partes envolvidas, entre as partes palestinianas e outros grupos que chegaram a um acordo de princípio para um governo de unidade nacional que permitisse governar Gaza. Isto é o fruto das circunstâncias. Isto é, o Hamas anda à procura de uma solução de natureza política que permita evitar uma derrota de natureza militar em Gaza e, portanto, gostaria de permanecer a administrar Gaza, integrado num governo nacional da entidade palestiniana e da autoridade palestiniana. E, portanto, anda à procura aqui de uma solução de natureza política. E a terceira é a viagem de Netanyahu aos Estados Unidos. Ela foi programada certamente há muito tempo e, portanto, ela não foi pensada para coincidir.

Ele próprio diz que não foi na melhor altura.

Não foi na melhor altura, porque os holofotes não estão colocados como ele gostaria naquilo que são as suas conversas, quer com a administração Biden, quer com Trump, quer também o seu discurso, que foi muito aplaudido no Congresso dos Estados Unidos, está um bocadinho ofuscado pelas circunstâncias de ter sido dado um novo tiro de partida, digamos assim, para as eleições presidenciais de novembro. Bom, depois há dois acontecimentos de natureza operacional muito relevantes. Primeiro, uma inesperada escalada conflitual entre Israel e os Huthis. Os Huthis conseguiram fazer voar um drone desde o Iémen até Tel Aviv, com a destruição e um conjunto de equívocos, alguns talvez também de natureza humana quanto à identificação desta ameaça, levaram a que o drone conseguiu chegar até Tel Aviv. Israel respondeu, e respondeu com o bombardeamento das instalações petrolíferas de uma cidade costeira iraniana. O que é que isto tem de relevante? Estamos aqui perante um conflito absolutamente inédito. Isto é um conflito a mais de 2 mil km de distância. Há mais de 2 mil km de distância entre Israel, entre Tel Aviv e o Iémen. Ora, um ator de terceiro nível do sistema internacional entra no meio disto, consegue desenvolver ações de ataque a 2 mil km de distância. Isto é uma coisa absolutamente extraordinária, um aviso para a Europa. Nós temos que começar a pensar num escudo europeu, não apenas em relação àquilo que é a frente Leste, mas em relação a um conjunto de atores imprevisíveis que se estão a formar na região do Sahel e que estão a bem menos de 2 mil km da Europa.

Numa conversa transmitida pela televisão pública, Putin veio dizer que já não sobra dinheiro, e não é surpreendente que falte dinheiro para investimento quando se gasta 30% da despesa pública na área da defesa. A novidade é que não o tínhamos ainda ouvido assim com tanta clareza. Há aqui certamente uma cortina de fumo nesta confissão, não há?

Há, porque sendo verdade que não há dinheiro extra, não é pelas razões que Vladimir Putin trouxe este assunto, não são as razões óbvias. O que se passa é que Vladimir Putin nomeou o filho de um amigo para ser uma espécie de presidente do Tribunal de Contas, portanto, responsável por verificar aquilo que são as despesas, o tipo de despesas, a legalidade das despesas das muitas instituições que estão na órbita do Estado da Federação Russa e, portanto, fiscalizar despesas. Mas este discurso foi televisionado com um propósito, e o propósito não foi o de ser agradável para o Ocidente, porque o Ocidente ficou todo satisfeito por obter uma declaração. Afinal, as sanções estão a funcionar, não há dinheiro extra. Na verdade, não há mesmo dinheiro extra na Federação Russa. Mas isto não foi uma confissão para dar uma satisfação ao Ocidente. Não, isto tem uma questão interna muito grave. No dia 1 de agosto, a gasolina vai subir 40% na Federação Russa. Há manifestações em todo lado, manifestações não de natureza política, mas de natureza social e econômica, de pessoas descontentes. Umas em Stavropol, porque não têm água, e a empresa pública diz que este ano já não há dinheiro, agora só há dinheiro para 2025. Ou em Krasnodar, em que as pessoas reclamam pela falta de eletricidade, estão com cortes sucessivos de eletricidade. O que se está a passar é que à medida que se vão transferindo recursos do Estado para a indústria de defesa, todos os sistemas críticos que são necessários para dar qualidade de vida à população estão todos no descalabro. E é isto que está a acontecer. E este discurso de Putin, televisionado, não serviu, portanto, para-

Era para consumo interno, não é?

É para consumo interno, é para dizer às pessoas: "Atenção, que não está a sobrar dinheiro, vai haver dificuldades, mas eu nomeei agora um novo elemento para o Tribunal de Contas, no sentido de ver que não há desperdícios nem desvios de dinheiro em relação àquilo que são as funções essenciais do Estado". Portanto, há um problema de natureza econômica que agora está perfeitamente visível, e agora começam a aparecer as consequências de natureza social que preocupam tanto Putin que ele já não se importa de vir em público confessar que afinal já não há dinheiro extra.

Viktor Orbán tem sido uma presença habitual no nosso Ponto Mira e hoje está de volta. Desta vez, ameaça bloquear as compensações financeiras que Bruxelas concede aos países europeus que fornecem munições à Ucrânia. E tudo isto por causa de um pipeline russo que passa pela Ucrânia. Que história é esta, general?

É que a Ucrânia resolveu bloquear o trânsito por esse pipeline de petróleo oriundo da Rússia e da Lukoil. Ora, é preciso perceber que a Ucrânia o que está a fazer é a defender-se, porque a Federação Russa continua a lucrar dinheiro com este trânsito de petróleo para a Eslováquia e para a Hungria. A União Europeia permitiu que isto continuasse apenas temporariamente, quando deu dois anos de transição à Hungria e à Eslováquia para encontrarem outros fornecedores de petróleo, que foi o que todos nós fizemos.

Tivemos que fazer.

Pois a Hungria e a Eslováquia, em vez de encontrarem outros fornecedores, o que fizeram foi aumentar a sua dependência de Moscou, e agora, neste momento, não têm petróleo para as suas refinarias.

General Armando Moura, muito obrigada por mais um Domínio da Guerra. Até para a semana. Obrigada.

Bom fim de semana a todos.