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Começa agora uma nova edição do "Domínio da Guerra", da Rádio Observador, sempre com o general Fernando Moreira. Bem-vindo.

Olá, bom dia a todos.

Para além da rádio, lembro que também nos pode seguir nas nossas redes sociais. E começamos pela tentativa de assassinato de Donald Trump por um atirador solitário que acabou morto. As imagens de Trump ferido, mas desafiador, têm percorrido o mundo e são certamente agora um trunfo da sua campanha, já como candidato oficial dos republicanos às presidenciais de novembro. General, este incidente, a sua aclamação e a nomeação de J.D. Vance para número dois, que perspectivas nos trazem para os tempos que se avizinham?

Na verdade, esta semana foi muito marcada por este incidente que ocorreu no sábado passado. Nós estivemos literalmente a poucos centímetros de uma tragédia com consequências inimagináveis. Se tivesse havido a eliminação, através deste ato tresloucado, de Donald Trump, o mundo hoje já não seria a mesma coisa, porque teria produzido um conjunto de ondas de choque no interior da América, com repercussões de natureza global. Felizmente, isso não aconteceu. E não aconteceu, como diria Donald Trump no seu último discurso, por intervenção divina. O que significa que Donald Trump está absolutamente disponível para explorar também este lamentável incidente. Este incidente também não é bom para o Ocidente. Isto é, não é uma boa propaganda que nós fazemos junto daqueles países que iniciam os seus processos democráticos, que procuram ultrapassar aquilo que são décadas de violência, substituindo-a pelo diálogo político, pelos parlamentos, pelos partidos políticos, por todo o sistema difícil de construção do edifício democrático. Dar como exemplo que os Estados Unidos, o líder do mundo ocidental e da democracia, ainda entende que é a tiro que se podem resolver este conjunto de problemas. Portanto, nós, na verdade, também não demos um bom exemplo ao mundo. Mas ultrapassada que está essa fase, e agora que a orelha de Trump se tornou uma espécie de um grande ícone.

Completamente.

Os delegados já andam todos de penso.

Já começa a ser imagem de marca agora.

Eu diria que houve um não efeito e dois grandes efeitos. Vamos começar pelo não efeito.

O não efeito.

O não efeito é que isto não veio alterar em nada o sentido de voto das pessoas. Isto é, não há nenhum democrata, por mais pena que tenha deste incidente, que resolva alterar o seu sentido de voto e passar a votar Trump, porque Trump levou um tiro numa orelha. Não há, isso não acontece. Portanto, este é o não efeito. Não efeito é: não vai fazer uma transferência de votos de uns partidos para Trump apenas porque Trump foi alvo deste atentado.

E quais são os dois grandes efeitos?

E depois há dois grandes efeitos. O primeiro efeito, que já se sente e se sentiu logo no dia em que Trump iniciou a convenção, é o da mobilização de toda a máquina do Partido Republicano, explorando ao máximo aquilo que foi esta tentativa de assassinato de Donald Trump. E isto tem esse efeito, é o efeito mobilizador. É que as pessoas, aquelas que estavam descrentes de Trump, agora sentem-se impelidas a comparecer também nas urnas. Portanto, este efeito é importante. Não há transferência de votos.

Mas há mais gente a sair às urnas.

Mas há mais gente, certamente, a sentir-se atraída para apoiar o seu candidato. O segundo efeito tem a ver com um aspecto que acontece muito nos meios midiáticos. É que um grande acontecimento midiático apaga os acontecimentos midiáticos anteriores. Isto é, qual era a última imagem que nós tínhamos de Trump? Era Trump sentado no banco dos réus. Pois isto veio apagar, já ninguém se lembra, parece que foi há muitos anos, essa coisa da condenação de Donald Trump. E portanto, isto veio completamente apagar aquilo que seria o registo criminal de Donald Trump.

Mas também por isso surgiram todas as teorias da conspiração.

Exatamente. E depois o Partido Republicano, que também é muito dado a teorias da conspiração, encontrou aqui uma fonte inesgotável para atacar também os democratas. Houve aqui um aspecto que foi fundamental também para proteger a democracia americana. É que o jovem atirador tinha uma filiação republicana. Imaginemos que este louco tinha uma filiação democrata, a confusão que não iria gerar no próprio sistema político americano, se se verificasse que este atirador tinha alguma filiação ao Partido Democrata. A convenção republicana foi, naturalmente, muito bem preparada e beneficiou largamente deste acontecimento inesperado. Mas, para além dos pensos nas orelhas dos delegados.

Não era uma orelha qualquer, tinha que ser a direita.

Na verdade, a grande surpresa da convenção foi a escolha do senador do Ohio, James Vance, com apenas 39 anos, para ser o vice de Do presidente dos Estados Unidos.

Antes muito crítico, não é? Anteriormente muito crítico de Donald Trump.

Há dois aspectos que eu gostava de salientar. O primeiro é um aspecto que me parece muito importante e ao qual nós temos e os americanos dão extraordinária importância. É o percurso de vida. É que James Vance não é uma pessoa que tenha vindo de uma família ilustre política americana. É um jovem oriundo de uma comunidade muito pobre, com uma família desestruturada e que corresponde àquele ícone americano de alguém que gosta da América, que acredita nas suas capacidades e que consegue vencer todas as adversidades.

E que chega a vice-presidente.

E aos 39 anos chega aqui. Este é o modelo da América, este é o modelo que os republicanos gostam de ver, este self-made man que venceu todas as adversidades que lhe foram colocadas na vida e que conseguiu atingir esta coisa inimaginável aos 39 anos, ser escolhido para o parceiro eleitoral de Trump.

Foi uma escolha inteligente?

Foi uma escolha muito inteligente. Há uma escolha nos vice-presidentes cujo critério é diferente no Partido Democrata e no Partido Republicano. No Partido Democrata, os vices são feitos para atrair votos de minorias que estão pouco representadas no poder e portanto acrescentam ao Partido Democrata jovens eleitores ou eleitores de minorias que se não encontram representadas no poder e que veem ali uma oportunidade para se sentirem mais representadas. É esse o papel de Kamala Harris na vice-presidência. O Partido Republicano não seguiu essa lógica, porque encontrou alguém que replica o discurso de Trump. Qual é a diferença entre os discursos de Vance e de Trump? São os adjetivos. A matéria é a mesma, mas Trump escolheu alguém que acrescenta adjetivos mais importantes, onde Trump diz que é importante, Vance dirá é fundamental. Portanto, é a mesma matéria, mas é uma diferente adjetivação sobre isto. E portanto, a intenção não é captar franjas que estejam dispersas, é reforçar o sentido do discurso do Trump. Quarenta e oito por cento dos americanos não conheciam, não tinham opinião formada sobre Vance, segundo uma sondagem desta. Vinte e dois por cento tinham uma opinião positiva e 31% uma opinião desfavorável. No entanto, é como eu digo, Vance é um ícone da capacidade de transformação da América e da construção de percursos profissionais, mesmo para pessoas que vêm de meios com grandes dificuldades. Do lado democrata, as coisas não correm bem. A idade pesa. Eu elenquei aqui quatro inimigos que não param de crescer do lado de Biden.

Vamos a eles.

Primeiro, a idade pesa cada vez mais e não há nada a fazer.

Chega a ser penoso ver algumas imagens.

Sobre a qual não há nada a fazer. Depois, as sondagens não são favoráveis e são cada vez mais desfavoráveis. Depois, a pior de todas, que é o inimigo assassino, é o seu próprio partido. O Partido Democrata deixou de acreditar, pelo menos as suas figuras mais ilustres.

Sim, são cada vez mais vozes.

Deixou de acreditar na capacidade de Joe Biden de vencer Trump. E depois, agora apanhou COVID e está de baixa. Quer dizer, no momento em que Trump aparece com toda esta energia. Joe Biden agora apanhou COVID. Tudo acontece a Biden. A decisão final compete a ele, mas ele, entretanto, abriu caminho para uma boa narrativa de desistência. Ele, entretanto, já foi avisando que se houver problemas de saúde que o impeçam de se sentir em perfeitas condições de concorrer, irá desistir. Portanto, provavelmente está a abrir aqui também já uma narrativa de saída. Mas o mais importante é: e então o que é que vai acontecer agora nesta substituição? Há muitos candidatos e nenhum é consensual. E, portanto, o Partido Democrata deixou-se encurralar fora de tempo, numa coisa que já era previsível. E como é que isto é visto de Moscovo? Agora vem a minha tese. Todos temos direito a ter uma tese. Minha tese pode ser desmentida já em novembro ou em janeiro. Mas a minha tese é a seguinte: é que nós temos apostado muito no fato de que Trump é o grande trunfo de Vladimir Putin, e eu já não estou absolutamente convencido com isso. Cá vai a minha tese.

Então conte lá.

Joe Biden é previsível.

Pois, e nunca sabemos o que esperar de Trump.

E a questão é exatamente essa. Nós não sabemos e Moscovo também não sabe o que esperar de Trump. Joe Biden é previsível. Já anda nisto há muito tempo e o Kremlin sabe o que pode contar com aquilo que são as decisões de Biden, que são sempre cautelosas, nunca dá à primeira tudo aquilo que Zelensky pede, portanto vai dando um apoio lento, faseado, muito cauteloso. Tem imensas linhas vermelhas sobre o emprego A Federação Russa já foi capaz de adaptar a sua estratégia àquilo que é o conhecimento e a expectativa de atuação do Joe Biden. Trump é imprevisível e isto não é bom para Moscovo. Pode ser bom ou pode ser mau, mas é disruptivo. Isto é, a estratégia de Putin pode não ser compatível com as ideias que venha a trazer Trump para a resolução deste conflito. E eu julgo que o Kremlin ficou mais desconfiado quando entre várias frases, Trump deixou escapar isto: "Não, Putin não vai ficar com tudo o que quer". Ora, o não ficar com tudo o que quer, pode cair exatamente naquilo que era a essência do pensamento de Putin sobre o resultado final desta guerra. A minha tese é, portanto, esta: é que enquanto o Kremlin se está a adaptar e já se foi adaptando às estratégias de Joe Biden, e Joe Biden é previsível, não estou absolutamente certo que o Kremlin esteja muito seguro de que com Trump, isto vai ser muito mais fácil e vai estar tudo resolvido. Além disso, há dois indicadores que vão em direções opostas e que nos falam muito sobre a imprevisibilidade. Viktor Orbán esteve com Trump. E o que é que Orbán disse? Que Trump vai acabar com a guerra rapidamente, já tem um plano para isto. Poucos dias depois vai Boris Johnson também falar com Trump. E o que diz Boris Johnson? Que Trump vai continuar a apoiar a Ucrânia.

Em que é que ficamos, não é? Lá está, essa é a imprevisibilidade.

Em que é que ficamos? Portanto, há a imprevisibilidade e o factor disruptivo de Trump relativamente àquilo que era uma coisa que pelo menos o Kremlin já conhecia, que era como Joe Biden vai continuar a actuar.

General Arnaut Moreira, vamos então falar de Viktor Orbán, que acabou de mencionar. Tem vindo num crescendo de provocações às instituições ocidentais de que a Hungria faz parte. É notório o embaraço que esta postura tem vindo a causar junto à União Europeia. Até onde vai conseguir Viktor Orbán esticar a corda?

Ele para já vai ter um conjunto de desilusões naquilo que era a sua agenda rotativa desta presidência rotativa, porque a União Europeia e muitos líderes não lhe vão dar o palco que ele queria.

Ainda ontem ouvíamos Ursula von der Leyen falar disto.

Não lhe vão dar o palco que ele queria. E portanto, isto vai ter repercussões na própria imagem interna que ele gostaria de passar junto do seu eleitorado. A União Europeia não está disponível para lhe dar palco. Mas Viktor Orbán já não consegue disfarçar o seu fetiche por homens autoritários. Ele adora passear-se com homens autoritários e está cada vez mais longe daquilo que são os valores que constituem a base de construção de todo o edifício da União Europeia. Ele está convencido que tem mais a ganhar com a chegada ao poder ou com o reforço de poder dos líderes autoritários em todo o mundo, do que com as regras democráticas que lhe são impostas pelas suas filiações na NATO e na União Europeia. Ele está a esticar duas cordas. A corda da NATO, que é uma corda mais difícil de esticar, porque os Estados Unidos não o deixam esticar a corda como ele gostaria, e a corda da União Europeia. Essa é mais fácil de esticar. Mas é engraçado que enquanto na NATO não existem, nos 14 pontos do Tratado de Washington, disposições para expulsar um membro, existem no tratado de 1997 da União Europeia. A Hungria pode ser sujeita a dois tipos de procedimentos, de acordo com aquilo que é o artigo sétimo. O artigo sétimo visa proteger os valores da União Europeia e pode haver sanções de natureza, primeiro, de aviso e depois podem haver sanções que impliquem a retirada de direitos de um Estado-membro. Estão muito bem definidas.

Mas ele pode sempre alegar que está como primeiro-ministro.

O que acontece é que em face daquilo que está escrito, que é, por exemplo, para impor sanções, não para impor avisos, mas para impor sanções, é preciso unanimidade no Conselho Europeu. Ele acha que já tem apoios suficientes no Conselho Europeu para estar livre destas sanções. Portanto, ainda vamos ter que aturar Orbán durante bastante tempo.

General, o Kremlin continua a afastar o cenário politicamente catastrófico para Putin de uma nova mobilização forçada, como no outono de 2022. Garante que o número de voluntários para combater na Ucrânia é suficiente. É mesmo assim ou está a Federação Russa aqui a lançar uma espessa cortina de fumo?

É uma enorme cortina, é uma enormíssima cortina de fumo. Parece tudo fácil. Quem ouve os responsáveis do Kremlin, parece que é tudo fácil e que os voluntários estão a correr em massa e que não têm nenhum problema de recrutamento. Pois eu hoje trago os números que mostram exatamente o contrário. Em 2023, portanto, o ano passado, um soldado da região de Moscovo recebia $6.800 para assinar o contrato para ir combater na Ucrânia. $6.800. 12 meses depois, o mesmo soldado, se for combater para a Ucrânia, vai receber $22.600. Isto é quase quatro vezes mais do que o Kremlin precisava de pagar o ano passado Isto são números que são retirados através das fotografias dos cartazes que estão afixados em todos os pontos da cidade e, portanto, não são desmentíveis. Isto é, no espaço de um ano, a Federação Russa tem que pagar quatro vezes mais para ter o mesmo número de voluntários. Portanto, esta ideia que é tudo fácil, não é. Os números mostram exatamente o contrário. É cada vez mais difícil à Federação Russa recrutar voluntários para isso. E isto tem uma consequência: é que se isto continua nestes termos, a mobilização forçada, como ocorreu em outubro de 2022, e que é politicamente um desastre para a gestão de todo este assunto por Vladimir Putin, pode ter que ser ativada outra vez.

Nesta edição, o nosso ponto mira é a paz, o que parece logo um contrassenso. Nesta semana, todos falaram de paz. As Nações Unidas votaram o fim da ocupação da Ucrânia pela Rússia. Órban escreveu a dizer que tem um plano de paz. Trump garante que tem um plano de paz. Zelensky quer uma cimeira de paz. A China, Lavrov, mas, General, no entanto, não parecemos nada próximos da paz.

Não é que não estamos nada próximos da paz, mas todos falam de paz. Simplesmente, a paz é um sentimento idílico, é uma coisa que não existe, na verdade, porque a paz não é apenas a ausência de guerra. A paz é um conjunto de muitas outras coisas, é a dignidade das pessoas, é o sentido de justiça, é a capacidade de poder escolher livremente. A paz são muitas coisas, não é apenas a ausência de guerra. Ora, todos falam em paz, mas a paz que cada um quer é uma paz muito diferente da paz dos outros. Zelensky quer a paz com a devolução dos territórios que estão ocupados e quer também a liberdade de se poder integrar nas organizações internacionais que escolher. Putin não se importa com a paz, desde que não exista Ucrânia. Desde que não exista Ucrânia, Putin não se importa com a paz. A China quer paz, mas quer paz porque tem medo que as sanções ocidentais sobre quem apoia a Federação Russa acabem por vir a prejudicar também a sua economia. Portanto, quer paz por uma outra razão diferente.

Outros interesses.

O Ocidente quer a paz que a Ucrânia estiver disponível para aceitar e, portanto, o Ocidente não tem posto condições relativamente à paz da Ucrânia. Trump não sabemos que paz quer.

Voltamos ao início, à imprevisibilidade.

Não sabemos que paz quer. Provavelmente, quer uma paz que saia barata aos Estados Unidos da América. Eu julgo que esse é o critério para os Estados Unidos. E Órban fala de paz porque adora regimes autoritários. Quer partes da Ucrânia, quer parcerias com a Rússia e quer as fábricas chinesas de produção de veículos elétricos. Para isso, precisa da destruição da União Europeia e do desmembramento da Ucrânia. Todos querem paz, mas não é a mesma paz.

Andamos longe. General Álvaro Branquinho, muito obrigada por mais um "Vidro da Guerra". Bom fim de semana.

Obrigado. Bom fim de semana a todos.