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O director adjunto do Observador, Pedro Jorge Castro, já está aqui conosco agora e todas as quartas-feiras a esta hora. Bem-vindo, Pedro.
Olá, é um privilégio estar aqui com vocês na tarde política.
Que nome poderoso, Pedro, foste arranjar para esta rubrica. Presumo que queiras começar por aí. De onde vem este "O Esplendor e a Infâmia"?
Quase tão poderoso como o indicativo, não é?
Sim, é poderoso.
Muito power. Sim, copiei o nome da rubrica. Este é o título em português de um livro incrível sobre Churchill na Segunda Guerra Mundial, de Erik Larson. Em inglês é "The Splendid and the Vile". Estamos sempre a dizer mal das adaptações para português de títulos de filmes, normalmente, é aí que as coisas costumam correr mal. Desta vez, acho que esta saiu bem. E eu como recomendo vivamente o livro, espero que o autor não se incomode muito, que até acabamos por promover a obra e pode ser que venda mais alguns exemplares. Portanto, peço-lhe o nome emprestado para dar o título a esta rubrica.
Fazes muito bem. Infâmia talvez abundem, mas como é que vais arranjar coisas esplendorosas na política portuguesa para trazer aqui todas as semanas? Esse é o desafio.
Falta fé na nossa classe política, Jesus.
Muita.
Mas percebo a dúvida e o risco. Se falhar tudo, vale-nos a ironia.
Vamos então ao esplendor da semana. Pedro, que tema esplendoroso nos trazes tu na estreia desta rubrica?
Miguel, é tão esplendoroso que eu até trouxe sete segundos de música, dá para dançar um bocadinho no trânsito. It's Raining Men. Esta chuva de pré-candidatos presidenciais tem, sim, qualquer coisa de esplendoroso.
Mas eu estava a ouvir a música, desculpe.
E a dançar.
Também eu comecei a bater o pé.
Era o objectivo.
Não vai poder ser esplendoroso para todos eles, pelo menos no fim. Quer dizer, necessariamente muitos vão ficar de fora, não é?
Sim, seguramente. Mas vai ser esplendoroso para nós, que somos viciados em política, ou não estivéssemos na Tarde Política. Não sei se é disto que o país mais precisa, provavelmente não, mas preparem as pipocas, vêm aí 14 meses intensos de duros combates, intrigas nos bastidores, calculismo, coragem e talvez um bocadinho de cobardia política. Está tudo tão em aberto que eu preparei aqui uma espécie de hipotôsmetro, vale niar. Eles para já estão todos a chegar à praia, ainda falta muito tempo, apesar de ser novembro, mas hoje até está sol. Estão todos ali no paredão a controlarem-se uns aos outros para ver quem mais entra na água. Querem que comece pela esquerda, pela direita?
Eu vou à direita, este parece mais animado.
Então, se calhar, vamos guardar a direita para o fim. Começar pela esquerda. E por quem parece ter menos hipóteses. Ana Gomes, que é a única mulher, para já, devia ter ido buscar este Raining Man. Não há mais mulheres no horizonte, acho que havia a Leonor Beleza, mas ela própria pôs-se fora desta corrida. Ana Gomes teve recuso a falar sobre o tema. Não sabemos o que ela dirá quando falar. Ela já foi candidata, já sabe como pode ser desagradável um banho frio. E com tanta gente à esquerda, eu acho que é improvável que sobra mar para ela poder nadar. Depois Augusto Santos Silva, que foi daqueles que se disponibilizou talvez cedo demais, foi o primeiro a desafiar os outros para ir ao banho, mas ninguém lhe ligou. Ele tem números baixíssimos nas sondagens. Isto é um bocadinho embaraçoso para um antigo ministro dos Negócios Estrangeiros e um antigo presidente da Assembleia da República. Não só não apareceu uma vaga de fundo, como não apareceu nenhuma vaga, o mar até ficou flat. Ele continua disponível, mas não parece ser o preferido de quase ninguém. Ainda há aqui Carlos César, presidente do PS, Eurico Brilhante Dias ontem aqui na Tarde Política referiu o nome dele.
Muito direto ao assunto.
Ele parece estar ali de óculos escuros e panamá, como se não quisesse ser visto pelos outros, mas pode estar a ser preservado para uma solução de recurso, para ser lançado à água, caso os outros candidatos não avancem ou caso corra alguma coisa mal.
Faltou o peixe mais graúdo desse lado esquerdo da praia.
É verdade. Não serão propriamente tubarões, mas temos aqui um trio que vai à frente, dois Antónios e um Mário, já em pleno areial para montar o chapéu, as cadeirinhas, uma daquelas arcas azuis carregadas de minis e uma coluna a dar em permanência à Rádio Observador, como todos sabem, imaginam e esperam de nós, será a rádio que vai acompanhar mais em permanência e que vai dar uma cobertura mais aprofundada desta campanha presidencial. Vejo António Vitorino a fazer piadas com o fino sentido de humor, que quem ainda se lembra dele o reconhecerá, e talvez com ar menos blasé do que aquele que temos visto nos últimos 20 anos. Foi sempre sucessivamente hipótese dos socialistas para todos os cargos, mas preferiu sempre ficar fora do aquário, sempre a mostrar grande indiferença por tudo o que fossem cargos políticos nacionais. Desta vez não é assim, o simples facto de ele não fechar a porta e de ter levado o fato bem vestido, digamos assim, pode ser sinal de estar disposto a molhar-se. Eu temo que ele esteja demasiado afastado da vida política nacional, mas seguramente é dos pré-candidatos com o melhor currículo, um dos que melhor entraria também nos votos do centro. Vamos ver como é que corre e se tem vontade. Depois António José Seguro, ele já se andava a fazer anunciar através dos seus próximos, através do seu núcleo duro de seguristas, que ainda existem. E deu agora este sinal definitivo de que está mesmo a ponderar avançar com este início do comentário semanal na CNN. E é quase como se ele já tivesse ido molhar os pés para medir a temperatura da água. É muito significativo a rapidez com que Francisco Assis, aqui também na Rádio Observador, lá está, apareceu a prometer que o apoiaria, caso ele avance mesmo. Depois Pedro Nuno Santos anulou um bocadinho esse efeito com aquelas declarações que fez esta segunda-feira.
Dizendo que é um erro lançar os nomes.
Sim, ele não disse exatamente que tinha sido um erro lançar o nome de António José Seguro, mas depois a perceção que fica, na verdade, até é um bocadinho essa. E portanto, isto anulou o élan que poderia estar a criar-se dentro do PS para António José Seguro. Há aqui uma coisa sobre António José Seguro, que é um homem que esteve tantos anos afastado, 10 anos em silêncio, quase como se fosse um Um monge que fez um voto de silêncio, há uma grande expectativa para quando ele vai abrir a boca, o que virá daqui? Uma pessoa esteve 10 anos a pensar, vai dizer o quê? E nós esperaríamos que dissesse coisas extraordinárias e não aconteceu. Tudo o que ele disse é mais ou menos dentro do esperado, dentro do institucional. Não há nada de muito surpreendente e, portanto, ele esteve 10 anos a pensar, mas não saiu dali nada de muito extraordinário.
E creio que nessa lista, nessas toalhas estendidas no Areal, falta apenas a de Mário Centeno, visto por muitos, de resto, como o Ronaldo das finanças.
Sim, mas é muito improvável que o vejamos a dar aqueles mergulhos que nós vemos Cristiano Ronaldo dar do seu iate quando vemos imagens dele de férias. Ele tem o problema de estar ainda a acabar o mandato como governador do Banco de Portugal. Não se põe de fora de um mergulho, mas é quase como se tivesse de esperar três horas para fazer a digestão. Ele já tem um núcleo de conselheiros políticos, mas parte com grande atraso. Na última sondagem da CNN, em setembro, tinha apenas 8% e surgia em quinto lugar.
Então agora que vamos ao lado direito da praia, como foi prometido, quem é que está nessa lista de pré-candidatos?
Se calhar quem não está. Paulo Portas parece riscado, é quase como se ele estivesse no restaurante da praia e tivesse visto pela televisão Luís Montenegro a anunciar que queria que o PSD apoiasse um candidato que fosse militante do partido. E isso terá tirado a Paulo Portas a vontade de vestir os calções de banho. Passos Coelho, idem. Aparece bem colocado em sondagens, mas ele não parece querer meter-se nisto. É como se ele andasse ali de parapente a sobrevoar o Areal, mas não é para aterrar nesta praia.
O mais bem colocado à direita, continua a ser.
Teria sido, ou seria, mas não parece provável. Depois, Santana Lopes adorava. Parece os mitos que eles tão bem na água. Vendo de fora, é quase comovente ver esta paixão pela política, mas se ele está à espera de uma sondagem, é o que ele diz, está à espera de um sinal de uma sondagem, para ver se anima a ir ao banho, eu acho que essa sondagem não chegará. Há fortes possibilidades de não aparecer, não apareceu até aqui. Não é propriamente uma novidade na política a de Santana Lopes e, portanto, se ele está à espera de uma sondagem para ir ao banho, eu acho que mais vale começar a fazer Castelos na praia, talvez da Figueira da Foz.
E José Pedro Aguiar Branco, onde é que vê o presidente da Assembleia da República nesta praia das presidenciais?
Ele levou os calções de banho dentro da pasta de documentos. Não estão vestidos, mas estão ali. Qualquer coisa, é só tirá-los e vestir. Ele não tem muito a perder. Todos se lembram o mandato de presidente da Assembleia da República dele vai ser de apenas dois anos, portanto, não é propriamente como se estivesse a abdicar de um cargo para um grande risco de depois ficar sem nada. Eu acho que ele está a manter-se como reserva, está ali a bater umas bolas com o nadador salva-vidas, para o caso de Marques Mendes decidir não avançar. Marques Mendes, sim. Acho que foi o primeiro a chegar à praia, o candidato mais previsível, tendo em conta tudo aquilo que sabemos. Fez uma espécie de reconhecimento do terreno, acho que ali com a sua prancha e o fato de bodyboard. É o mais parecido com o atual presidente que temos neste momento, é o mais próximo dele, comentador televisivo, mas eu acho que ele vai ganhando consciência de que isso pode não ser uma vantagem. Tem o caminho aberto até ao mar, ou teria, mas está a olhar para as marés e a ver isto tudo a virar muito repentinamente.
Mas que marés conturbadas são essas?
Eu acho que ele sabe exatamente o que está a provocar essa turbulência nas marés. O submarino do almirante está a chegar à areia já vindo do mar alto. Está ali a vantagem que Gouveia e Melo leva nas sondagens. É o pré-candidato, é o único que parece comportar-se como se já estivesse toalha volta do corpo, a despir a farda para vestir os calções, como temos visto Marcelo Rebelo de Sousa a fazer tantas vezes ao longo deste tempo. Embora acho que ele nunca vá fazer isso, nunca vamos ver o almirante a fazer essa figura. Ele tem aqui no caminho, se calhar, uma espécie de alforreca e um peixe-aranha a ameaçá-lo. Potencial alforreca eu acho que é André Ventura. André Ventura, líder do CHEGA, já indiciou que vai apoiá-lo ou que pode apoiá-lo, portanto, expressou admiração por ele. Isto apesar de Gouveia e Melo não ter feito declarações de amor mútuo. Em várias entrevistas, ele demarcou-se de várias ideias do CHEGA, de várias posições do CHEGA. Mas se Gouveia e Melo chegar, de facto, a esta corrida, tendo como principal oponente André Ventura, isto vai levantar um problema que é a maior parte da população, ou a maior parte dos eleitores, ou uma maioria absoluta de eleitores, estará disposta a votar ao lado de André Ventura, ainda por cima num militar. Se calhar as pessoas tenderão a prolongar a indecisão e a ver exatamente como é que vão fazer. E é muito complicado para Gouveia e Melo sair de uma situação destas. Se calhar, para ele, o ideal até era ver o CHEGA a fazer aquilo que o PCP fazia muitas vezes, que era avançar com o candidato que depois desistia à última hora para apoiar o outro candidato que estava ali. O peixe-aranha que está no caminho também é complicado, se calhar ainda mais, e tem a ver com o perfil. Eu acho que o almirante foi excecional a fazer uma coisa, que parece simples, mas que na verdade estava complicada naquele contexto, que é garantir que as vacinas chegavam à população. Depois deu muito nas vistas com este raspanete que deu em público aos militares insubordinados lá na Marinha, mas de um presidente da República não se espera nenhuma destas duas coisas, na verdade. Espera-se um trabalho mais discreto, mais hábil, mais mediador, de maior negociação, e nós não sabemos com franqueza se o almirante Gouveia e Melo tem estas características, nem sei se conseguiremos perceber isso ao longo dos próximos tempos, mas ainda vamos ter que ver como é que ele lida com todo o escrutínio de uma campanha, que tem espinhos bem diferentes daquilo que ele está habituado a encontrar nos quartéis da Marinha.
Vamos continuar seguramente a acompanhar esta corrida ao Maralto presidencial. Pedro, para cada segmento, tu trazes um apontamento do passado, um episódio do baú. O baú que nos trazes hoje está relacionado precisamente com Gouveia e Melo.
O apelido menos conhecido de Henrique Gouveia e Melo é Passalacqua.
Não fazia ideia.
Por isso é que criámos o "Esplendor e a Infâmia".
Exato.
É qualquer coisa como passar a água, portanto isto também estava mesmo destinado ao mar. Tropecei num comentário feito pelo próprio Henrique Gouveia e Melo, vejam lá, num site que é o GENEA, de genealogia, em 2015. Estaria ele ainda, se calhar, bastante longe de imaginar que viria a ser pré-candidato presidencial. Então escreveu ele, vou só dizer o início: "Chamo-me Henrique Eduardo Passalacqua de Gouveia e Melo e sou bisneto do General Viriato Severino Passalacqua pelo lado materno." Isto porque aquela thread, digamos assim, é precisamente sobre o apelido Passalacqua. Ora, este General Passalacqua, que é bisavô de Gouveia e Melo, até pode ter muitos feitos militares, não faço ideia, com certeza não cheguei a aprofundar isso, mas ganhou notoriedade, sobretudo como pioneiro do movimento espírita em Portugal. Isto há cerca de 100 anos. No Museu da Presidência da República, também muito a propósito, há um cartão de visita dele, deste General Passalacqua, bisavô de Gouveia e Melo, enviado a Teófilo Braga, na altura. Apresentava-se como general reformado e vivia num terceiro andar da Rua Serpa de Carvalho, em Lisboa.
Curiosidade interessante. Vamos agora à infâmia da semana. E Pedro, queres começar este segmento com um excerto do filme "Casa dos Espíritos"?
Sim, para mim é uma das falas mais icônicas do cinema. Há uma discussão entre Meryl Streep e Jeremy Irons que acaba com a atriz esbofeteada.
"You've also slept with women not of your own class. But he did it for love. And so did Blanca. Clara, my angel. I will never speak to you again. Never."
O que é impressionante aqui, além obviamente do dramatismo da cena, são ótimos atores, claro, o que é impressionante é que depois no filme eles continuam juntos, mas ela não lhe fala mesmo. Isto torna esta frase ainda mais marcante e intensa. Isto é em propósito da violência doméstica, claro, e de outras violências contra as mulheres, que foi, aliás, assinalado o Dia Nacional esta segunda-feira, contra a violência de género. Abundam os casos esta semana, com desenvolvimentos de histórias de natureza diferente, desde José Castelo Branco a Boaventura de Sousa Santos, está tudo nas manchetes dos jornais de hoje, de ontem. Atenção, a violência doméstica não é um exclusivo dos homens contra mulheres, já sabemos disso, também há vítimas masculinas. Há várias formas de violência, incluindo violência psicológica. E eu, já agora, aproveito este espaço muito rapidamente para recordar um vídeo que me fez muita impressão ver nas redes sociais, da sexóloga Tânia Graça, não sei se tropeçaram nisso, que é ela a elencar 10 tipos de ataques ou de violência exercida sobre as mulheres e a baixar um dedo por cada situação que já viveu. E faz-me mais impressão ainda o impacto que isto teve nas mulheres e a quantidade de mulheres que diz que já passou por quase todas estas situações, sendo que o último destes ataques é a violação. Isto cruza-se, logo por azar do primeiro-ministro, com umas declarações que ele fez esta segunda-feira, a dizer que o aumento de denúncias de violência doméstica não corresponde a um aumento de crimes e a um agravamento da situação, mas antes ao facto de estas situações estarem a sair do armário. Ora, Luís Montenegro tinha noção do impacto que isto iria causar, porque ele disse logo que não queria chocar ninguém, mas chocou, evidentemente. Parece-me muito difícil sustentar uma afirmação destas. Uma coisa são os dados que existem, outra coisa é uma perceção sobre a evolução dos casos reais. É, por isso, desnecessário fazer uma afirmação destas, parece retirar a gravidade a este tipo de situações horríveis, mesmo que ele depois tenha vindo dizer que não é nada disso, mas a perceção para quem ouve uma coisa destas é que ele tem noção de que está a dizer uma coisa que é difícil de sustentar e que tem um efeito perverso entre as pessoas que estão a ouvir. Ora, o primeiro-ministro anda a arranjar conselhos de comunicação para as suas ministras em dificuldade, como nós próprios noticiamos aqui, mas eu acho que ele devia arranjar também alguém com quem discutir estes assuntos, antes de os referir desta forma imprevidente em afirmações públicas.
E assim termina a estreia de "O Esplendor e a Infâmia", que já vai ficar disponível em podcast. O Pedro Jorge Castro volta na próxima quarta, à mesma hora. Até lá, Pedro.
Até lá.