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"Lado Bom da Vida", de segunda a quinta, com o editor de cultura do Observador, Tiago Pereira, que está conosco de novo hoje. Olá, Tiago. Bem-vindo.
Olá, rapaziada.
Esse fim de semana foi espetacular?
Foi extraordinário. Não, não foi nada.
A resposta que eu estava à espera era: "Há de ter muito a ver com isso". Mas tudo bem.
Não, atenção, eu dei-te uma resposta que, na verdade, é isso que quer dizer.
É mais ou menos a mesma coisa. Exatamente.
Mas preparado pra rádio.
Olha, à segunda-feira olhamos novidades do mundo da música. Queres começar pelos Yard Act? Gosto muito deles.
Gosto. Eles também gostam de ti.
Têm um lado Sleaford Mods que me interessa.
Isto é mais uma banda de malfeitores ingleses.
Ya! Gosto disso.
Rapaziada suja, rapaziada pronta para a luta no bar até às últimas consequências.
Mitras do Liverpool. Não sei se são de Liverpool.
Não, são de Leeds.
Mitras de Leeds.
São de Leeds. Sim, é isso mesmo. Os Yard Act já tinham dado um ar da sua-- aliás, convenhamos, os Yard Act têm um primeiro álbum, mas esta canção que está a tocar em fundo não é desse primeiro álbum.
Mas também não é do último.
Não, porque o primeiro é o último, porque só têm um, que foi lançado agora no dia 21, portanto na última sexta-feira. É o álbum, chama-se "The Overload".
Ok. É um EP em 2021, não é?
Exatamente. É o EP "Dark Days".
Esta é que é a do EP.
Exatamente. Porque eu percebo que era uma...
Uma boa introdução?
Exatamente, porque junta uma série de... Vais botar um pouco mais alto?
Só se tu quiseres. Era só pra perceber como é que este single canta.
Vamos em frente.
Gosto desse lado spoken word deles.
É isso.
Sempre muito humor, também.
O que eu vou dizer agora, não fui eu que inventei, mas é tão difícil de fugir a isto, porque é demasiado óbvio. A descrição mais habitual dos Yard Act tem a ver com um cruzamento, isto é vago, atenção, entre os The Fall e o Mark E. Smith, e eventualmente um lado um bocadinho mais sujo da britpop. Se te lembrares, por exemplo, daquela parte spoken word do "Parklife" dos Blur, que tem aquele, se fosse pra falar do dia a dia inglês, que em princípio não tem nada de muito estimulante, nas cidades mais pequenas de Inglaterra. E o que estes rapazes fazem é recuperar um bocadinho esses dois lados de uma tradição britânica. Por um lado, o pós-punk e aquilo que aconteceu na new wave e toda uma criatividade em volta das guitarras que não era muito habitual. E depois esta coisa do dia a dia muito inglês, mas aqui com estes Yard Act, não é necessariamente um dia a dia muito interessante nem muito saudável.
O Bez do Happy Mondays podia fazer parte dos Yard Act?
Até não podia, com todo aquele seu sentido de festarola e de farra infinita.
Me lembrou muito o Happy Mondays quando ouvi isto.
Sim, e depois, por outro lado, também vem um bocado no seguimento de ser mais uma banda britânica. Fazem canções, mas não é muito bem cantado. Podemos ir aos Idles, podemos ir aos Fontain D.C.
É uma nova vaga.
Sim, está muito, não sei se posso dizer na moda. Mas acho que é uma forma de fazer canções muito cativante, é muito crua e o álbum é muito interessante, vale muito a pena, se puderem dar tempo.
Chama-se "The Overload" e é o disco de estreia dos Yard Act, de quem gosto muito e pra quem gostar dessas sonoridades mais brit, mais brit mitra, pode escutá-los.
Brit Guna.
Brit Guna, sim. Vamos a uma outra novidade. Já está cá fora o novo single da Aline Frisão. De resto, na passada sexta-feira esteve aqui precisamente no "Lado Bom da Vida" e tocou esta Luísa.
Tá tudo certo aqui.
Ótimo.
Tá tudo certo. Não tem muito a ver com Yard Act. Ainda que, atenção, a Aline Frisão tem um lado de intervenção política e social e de contestação e até de ativismo muito forte e muito presente. Nós já tínhamos falado noutra circunstância da Aline Frisão e que vinha aí novo álbum. O álbum chama-se "Uma Música Angolana". Só é editado dia 4 de março. Já tínhamos falado disto, mas ainda não havia single para mostrar. Está aqui o single, chama-se Luísa. É a primeira amostra do disco, que vai ser uma viagem por várias linguagens da tradição musical africana.
Da lusofonia.
Sim, ela também vai ao Brasil, portanto acho que podemos alargar o espectro. Obviamente, tem uma relação também sempre muito presente com Portugal. E eu acho que pode ser um dos discos muito interessantes deste início de novo ano, convinha estarmos bastante atentos a isso.
Tem colaborações interessantes. Acho que há um dueto com o Nastý e o Mosquito, que é um artista da Índia angolana, não sei se podemos dizer.
Tem com o Nastý e Mosquito. Estávamos há bocado a falar do Brasil. Ela também colabora com o Victor Santana, que é um cantor brasileiro.
Há uma letra do Ricardo Ribeiro.
Há uma letra do Ricardo Ribeiro, era isso que eu ia dizer. Portanto, só para mostrar que ela vai aqui a vários espectros. Ela faz isto muito bem, a Aline Frisão, que é à medida que vai reunindo influências e relações criativas, vai conseguindo juntá-las, dando-lhes sempre uma base muito sólida, que tem a ver com a sua criatividade pessoal. Portanto, mantém sempre uma linguagem que não é estanque Mas continua sempre a ser muito dela.
E depois tem uma certa elegância, uma certa subtileza na forma como canta aquelas palavras e até como toca. Os trejeitos da Aline são subtis e são elegantes.
Sim, acho que toda ela é elegância e classe. E ela tem conseguido a cada novo disco tornar isso ainda mais evidente e ainda mais coeso. Além disso, ela é produtora do próprio álbum. Portanto, é uma coisa que é feita com a constante supervisão, até técnica, da parte dela.
A Judite estava aqui a elogiá-la na sexta-feira por ela ter, ainda tem poucos anos, tem 30 e tal anos, e já fez muitas coisas, muitos discos, bandas sonoras, é muito profícua nesse aspecto da produção musical.
Porque a Judite se calhar também gostava de revelar ao mundo as suas canções que escreve em casa. Ela estava a fazer sinais, que não podem ser legendados na rádio.
Não, não podem.
Que são os melhores.
Os sinais não podem ser legendados na rádio. São sinais fulminantes que estás a receber. E os olhares também não podem ser legendados na rádio. Também não. Muito bom. Luísa, o primeiro single do novo disco de Aline Frazão. De resto, já há concertos também em Portugal em março. Não, 26 de março, Espinho, 20 de abril, Teatro Maria Matos em Lisboa e podem também ouvir o "O Lado Bom da Vida" da sexta-feira, que ela esteve aqui à conversa conosco.
Deixa-me só dizer uma coisa em relação à Aline Frazão. Acho que nesta classe de compositores e de cantautores, há alguns que atacam as notas por cima e há outros que atacam as notas por baixo. E a Aline é das que pôs em cima das notas. E é preciso ter muita categoria pra conseguir fazer isso. É sim, senhor.
Bem visto.
Este comentário foi espetacular.
Foi espetacular, foi muito. Vamos agora avançar para novidades de Neil Young.
Mais ou menos. Há uma novidade.
"Shake Off You". Ele regressou ao trabalho com os Crazy Horse.
Para já, esta canção começa com uma harmónica e há poucas harmónicas na rádio em Portugal.
Bom nome pra um programa de rádio. Toma nota que é o próximo.
Quando ouvimos o Neil Young a fazer isto, das duas, uma: ou queremos andar a cavalo ou pegar numa picape.
Sim, pode ser.
Pelo menos é aquilo que eu sinto.
Sim.
E esta canção faz parte de "Barn", celeiro, o mais recente álbum do Neil Young com a sua banda, os Crazy Horse. Só uma nota de trívio: é o 41º álbum do Neil Young.
É obra.
41º.
Caracas!
É muito disco.
Eu não tinha ideia se era um homem pra 60 e muitos ou pra 70 e muitos, mas nasceu em 45.
Pois é.
1945.
A caminho dos 80.
Nasceu no fim da Segunda Guerra Mundial, é incrível.
A caminho dos 80. Eu lembro de o ter visto aqui há uns anos no Alive, no festival, já depois de ele ter recuperado de aneurismas, etc. E eu fiquei a pensar: "Como é que um homem, com tudo o que ele já passou na vida, está aqui a destruir basicamente este festival pela positiva?" Ora bem, este disco saiu no final do ano passado, mas há uma novidade, e por isso é que eu trago aqui esta canção e trago o Neil Young. É que este disco foi gravado com Crazy Horse num celeiro convertido em estúdio e foi gravado muito na base do improviso, do vamos lá então, estes velhos todos agarrar aqui nos instrumentos e vamos fazer aqui rock'n'roll de meia-noite. O que é muito interessante? O Neil Young, que é casado, julgo eu que é casado ou tem uma relação com Daryl Hannah, atriz americana.
Sério?
Desde há relativamente poucos anos.
2018.
2018. Cá está, o Nelson não me deixa mentir.
Mas consta que estavam juntos há vários anos e se casaram agora em 2018, mas que já eram um casal há vários anos.
Rock'n'roll, meu amigo. Então, Daryl Hannah gravou em vídeo os Crazy Horse, com o Neil Young à frente, a interpretar todas estas canções precisamente nesse celeiro. E esse filme, concerto, documentário, está disponível na íntegra e de forma gratuita na página oficial do Neil Young no YouTube.
Espetáculo.
E portanto, isto desde há muito poucos dias. Portanto, podem ir ao YouTube e ver tudo isto a acontecer. Não sei, vale muito a pena. Acho que ouvir o Neil Young e vê-lo é sempre fantástico, é uma lição de vida e é uma lição de rock'n'roll. Sempre que possível é aproveitar.
Muito bem, vamos fechar as sugestões musicais da semana no "O Lado Bom da Vida" com o Tiago Pereira para falar de Sun Lux, um projeto que eu gosto muito.
Tu também gostas de tudo, Nelson.
Gosto de tudo que é bom, basicamente.
Ei!
Mas Sun Lux é uma banda que eu tenho debaixo do ouvido já há algum tempo. E diria que eles são especiais. Não é possível colocá-los numa etiqueta, é muito difícil classificar a música deles.
Então fazes como a maior parte das pessoas faz e diz que este é um grupo experimental.
Ah!
Pronto. Que basicamente tocam tudo aquilo que têm à mão, com muita eletrónica. Mas fazem estas canções que têm um lado um bocadinho tristonho e dramático.
Têm um lado sempre cinematográfico.
Mas sim, o ambiente e a textura é sempre muito importante nesta música.
Só antes de irmos à tua sugestão, estávamos aqui a ouvir em fundo a "Plans We Made". Talvez o grande sucesso deles foi uma música chamada "Easy". A "Easy" entra em vários filmes e entra em vários anúncios. É uma música altamente cinematográfica e altamente publicitária. Não é essa que tens, não é?
Não.
Esta é a nova "Plans We'd Made". Nova? Acho que já é do ano passado.
Sim, a canção não é nova, mas o vídeo é novo. Há um vídeo novo para esta canção, que foi publicado recentemente, há poucos dias. Acho que vale a pena porque ainda estamos no prazo de validade de ir atrás daquilo que aconteceu no último ano, tentar perceber aquilo que não conseguimos acompanhar, aquilo que perdemos. E os Sun Lux acho que vale muito a pena e é uma daquelas canções que têm o raro condão de servir para refletirmos sobre a nossa existência.
Boa sorte.
És um perigo, tu.
Exato. Ou para fazer de banda sonora para um jantar com uma série de pessoas e bem regado, em que a música está lá, às vezes parece que não está, mas dá para as duas coisas e é difícil encontrar música assim, parece-me.
De resto, esta canção faz parte de "Tomorrow's Tree", que é uma trilogia, três discos de nome "Tomorrow's" que é o Sun Lux, que é mais ou menos o projeto de um só homem, quase diria. Ryan Lott é um bocado o cérebro.
Isto tem que ter sempre um patrão.
Pronto, ainda bem.
Eu não acredito muito na democracia, nestas coisas da criatividade.
Isto da canção não dá muito certo.
Alguém tem que mandar.
Mas deixo já agora uma sugestão: vejam pelo YouTube um vídeo que é Sun Lux, "Easy" com Woodkid, no Festival de Montreux, na Suíça. Esse vídeo é inacreditável, porque eles estão com uma megaorquestra num megapalco e a "Easy" ganha ali uma toada ainda mais apoteótica. De resto, o Woodkid, que o acompanha nesse concerto, é um francês que foi há dias confirmado para o próximo Super Bock Super Rock.
E depois venham dizer que não aprendem megacoisas nesta megarubrica.
É verdade. Lado Bom da Vida. Amanhã está de regresso com outro tema. Às segundas falamos de música com o Tiago Pereira. Um abraço, Tiago. Até amanhã.
Um abraço.
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