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Isto porque às sextas-feiras, no "O Lado Bom da Vida", temos música ao vivo. É nossa convidada esta semana, a Mafalda Veiga. Mafalda, obrigado por estares conosco hoje aqui.
Obrigada eu.
Com a tua guitarra.
Muito obrigada.
Mafalda, começaste em 1987 com "Pássaros do Sul", enorme sucesso na altura, e depois não paraste. Discos, atuações ao vivo, concertos no Coliseu. No próximo dia 14, és uma das artistas no cartaz do festival "Às Vezes o Amor", o festival que celebra o Dia dos Namorados e que já vai na oitava edição, e que este ano percorre 16 cidades com 16 artistas, com atuações entre os dias 12 e 14. Enfim, não vou dizer o nome das cidades todas, Aveiro, Braga, Castelo Branco.
São muitas. Eu vou estrear Lagos, por acaso. Vai ser a primeira vez que o festival acontece em Lagos, por isso estou super contente com isso. Vai ser a estreia do festival lá e é uma terra que eu adoro. Costumo passar férias às vezes ali perto. Portanto conheço bem e sabe-me muito bem voltar lá.
Portanto o teu bronze é da Praia da Dona Ana.
Às vezes.
É a Praia da Dona Ana ou mais meia praia?
Exato, mais meia praia.
Muito bem. Falaste de Lagos, vais ter este espetáculo com um formato especial ou novo.
É um espetáculo a solo, que eu preparei. Normalmente, quando participo no "Às Vezes o Amor", tenho sempre uma canção que preparo, uma versão que preparo para esse dia, que é especial. Eu peço normalmente às pessoas que me digam nas redes sociais que conselho é que me dão para escolher. E já escolhi entretanto e estou a preparar essa versão. De qualquer forma, o espetáculo é um espetáculo a solo em que toco várias guitarras e em que tenho um realizador convidado que fez as imagens para este espetáculo, é o Tomás Baltazar. E é esse o espetáculo a apresentar em Lagos.
Queres explicar um pouco como é que são estas imagens, como é que funciona na tua atuação?
Olha, as imagens acompanham, na realidade, o Tomás fez uma montagem, não por tema, mas em que também há uma narrativa na própria imagem. E são filmagens originais, coisas que ele filmou, mas também algumas coisas minhas filmadas em Super 8, quando eu era pequena, que o meu pai tinha filmado e que eu lhe passei, e sobre as quais ele fez montagem. O Tomás é um grande montador de cinema, super conhecido como montador de cinema, com currículo incrível. E ele fez uma montagem muito bonita.
E específica para este-
Específica para este concerto. No fundo, há uma relação emocional entre o cinema e as minhas canções, sem haver uma relação direta canção-imagem. Mas acho que é muito bonito aquilo que o Tomás fez para mim neste concerto.
Tens saudades de tocar com uma banda maior?
Vou tocar em breve com uma banda maior, mas tenho imensas saudades o tempo todo. Nós temos tido muitas saudades de tocar.
Sim, de tocar.
De tocar, de estar juntos em ensaios, de poder combinar ensaios. Aquela coisa de para tudo, para nós, foi completamente dramático, porque estar em casa, às vezes a tocar em lives, muitas vezes com delays e ter que resolver coisas deste gênero, não faz sentido, para além de que a relação com os músicos é importante no terreno. Nós somos bandas, estamos habituados à coisa orgânica, de estar na estrada, de sair, de fazer concertos, e à relação privilegiada que é para um músico ter o retorno imediato do público.
Claro.
Nem todas as artes têm este privilégio, ter o retorno imediato do público àquilo que tu fazes. E tem sido dose para todos nós, a todos os níveis, como devem imaginar.
Como é que tu viveste este período e como é que encontraste o teu equilíbrio emocional no meio deste furacão?
Olha, eu tinha acabado 2019 assim a bombar e estava a compor e tinha feito o "Camp Quente" para comemorar 30 anos de canções. Tinha feito um livro das minhas canções preferidas com imagens da Ana Vidigal. Com esse livro, fui convidada pra Feira Internacional do Livro de Bogotá, onde toquei com a Mónica Giraldo, que é uma compositora colombiana, e que foi muito frutífero o encontro. Tivemos vários showcases na feira e várias conversas sobre música e sobre o livro, sobre as canções e a escrita de canções, e a relação da música com as palavras. E, portanto, eu vinha assim a bombar.
Estavas de barriga cheia, pelo menos.
Estava.
Pelo menos isso.
E, de repente, para tudo. E, de repente, quando estávamos com datas marcadas pra começar o ano de 2020, para tudo. Ao princípio, eu achei: tudo bem, é um tempo. Eu achei mesmo que eram três meses. Eu achei, daqui a três meses.
Acho que toda a gente achou, não é?
Isto acaba. Portanto, vou aproveitar este tempo muito bem, vou compor e tal. Participei em imensos lives que foram um sucesso. Houve um deles que foi o festival Eu Fico em Casa, não sei se vocês se lembram.
Sim, claro.
Onde participamos mais de 70 colegas músicos e cada um tinha meia hora e foi espetacular, tipo 11 mil, 20 mil pessoas a assistir, foi espetacular. E ainda a sensação de ok, está tudo a acontecer.
Só que é um ecrã, não é?
Sim, é um ecrã, é loucura. Eu não sabia quem é que me estava a ver, mas eu estava sentada lá em casa a tocar no sofá e não sabia sequer quantas pessoas me estavam a ver. Mas, na verdade, ainda estávamos com aquela esperança: ok, isto vai passar, depois as coisas vão continuar. E as coisas não continuaram, e depois não continuaram, e depois foram-se adiando e adiando. Mesmo assim, consegui fazer, em 2020, com a Mónica Giraldo, eu a gravar cá e ela a gravar na Colômbia, uma canção minha que ela adaptou pra espanhol e cantamos em dueto e que saiu no ano passado. A última canção de amor que escrevi foi pra o último disco da Ana Bacalhau, que ela editou no fim do ano passado. Ou seja, houve várias coisas que fui fazendo e concertos que puderam ser feitos. Um ou outro, quando houve umas abertas, houve um ou outro concerto que pôde ser feito.
Souberam Enfim, tiveram um sabor especial, aduzes.
Tiveram um sabor especialíssimo, vocês nem imaginam.
Em Partilha?
Ainda por cima, um deles foi em São Martinho do Porto. Um dos músicos tinha tido Covid, então tivemos que alterar a banda toda, um teve que sacar as coisas do outro pra ir fazer não sei o quê. Puxou por todo o nosso lado solidário. Foi muito solidário e muito importante encontrar as pessoas outra vez. E na verdade, mesmo com as máscaras, estava lá toda a gente a assistir.
Ainda bem. Olha, tu foste um fenômeno logo no primeiro disco, em 1987. Não havia esta coisa das redes sociais, dos telemóveis, do TikTok, dos Instagrams. É uma noção de viralidade que é completamente diferente de hoje. Já alguma vez pensaste: "O que seria de mim, Mafalda Veiga, se estivesse a começar na música hoje?"
Sinceramente, eu não sei. Acho que tudo isto, por um lado, em termos de rendimentos para os músicos, dificulta imenso a vida a toda a gente. Ou seja, os discos não vendem e vão deixar de existir os físicos e vai passar a haver o nicho do vinil, claramente. Tu já não tens onde ouvir um CD, nem no carro, nem em lado nenhum, nem nos computadores. Já tiraram essa possibilidade. Portanto, o CD vai deixar de existir, o vinil vai ter o seu nicho. Para a parte de divulgação do nosso trabalho, é uma democracia enorme. Tu podes mostrar o teu trabalho, não estás dependente de alguém que te diz: "Sim, isto é bom" ou "Não, vai pra casa, porque isto não é grande coisa e vais ter que trabalhar mais". Ou seja, podes mostrar o teu trabalho livremente e tens acesso a todas as plataformas pra tu própria poderes fazer isso. É uma vantagem. A outra desvantagem é complicada, porque eu acho que ainda tem que ser muito legislada esta situação dos direitos do autor. Não estou a falar só de mim, de todos os autores. Tem que ser muito legislada, deves saber isso também. Tem que ser muito legislada toda a situação dos autores e a maneira como, de repente, aquilo que são os nossos rendimentos, que é o patrimônio intelectual, aquilo que fazemos, parece que é grátis. Parece que é obrigatório que seja grátis. É estranho, as pessoas têm a noção.
Vivemos um novo paradigma, não é?
É tudo meu.
Parece que levam a mal que se cobre.
Exato. Parece que estás a querer roubá-los. É tão estranho. É assim ao contrário.
Mafalda, dessa altura inicial em que te estreaste e em que tiveste esse sucesso, que imagino tenha sido também inesperado, deves ter histórias interessantes de coisas que te aconteceram e que não estavas à espera na altura. Quando é que percebeste, de repente, que as pessoas gostavam das tuas canções, cantavam as tuas canções?
Eu estava no segundo ano da faculdade e foi tudo muito rápido.
Qual era o curso?
Línguas e Literaturas Modernas, que acabei. Adoro, porque eu sou formada em Literatura, a parte da música é só muito intuitiva e sempre fui autodidata. Mas então estava na faculdade e lembro-me que saiu o primeiro disco e eu ainda não tinha muita noção. Eu gostava imenso de escrever em esplanadas, adorava ficar lá na faculdade sentada no parque a escrever, a observar. Eu tinha um Panda.
Um Panda ou um Fiat Panda?
Um Fiat Panda encarnado, vermelho. Eu vinha a subir a António Augusto Aguiar, e vinha de uma reunião qualquer na EMI e de repente estava muito distraída a cantar uma canção que estava a dar na rádio e há uma pessoa ao lado que me diz assim: "Então quando é que sai o próximo disco?" E eu fiquei branca e a tremer da cabeça aos pés, porque foi a primeira vez que eu percebi: "Ok, as pessoas conhecem-me na rua". Não tinha tido ainda essa noção.
Isso é espetacular.
E foi um pânico. A partida, foi um pânico. E levei um tempo a habituar-me. E agora acho extremamente simpático, porque normalmente as pessoas são supersimpáticas e é muito bom o reconhecimento do teu trabalho, claro.
Agora podemos falar um bocadinho dos compositores portugueses, porque de certeza que acompanhas o que se passa no mercado.
Sim, muito.
Há algum que tu gostavas de colaborares especialmente?
Imensos.
Então podes dizer cinco? Eu sei que há sempre o receio.
Cinco não, porque não temos muito tempo.
Imensos. Olha, eu já colaborei com vários colegas mais velhos, que foram escola pra mim, referência pra mim, como é o Jorge Palma, como foi Zé Mário Branco. Já colaborei com colegas meus, mais da minha geração, como o João Pedro Pais. Recentemente fiz uma parceria que adorei com o Miguel Araújo, que é um músico com quem me entendo especialmente bem. E gosto imenso de trabalhar com o Miguel. Mas já fiz também com a Márcia, com a Gir, sei lá.
E foste a escrever para outros com maior regularidade?
Ana Bacalhau, já a convidei muitas vezes. Eu adoro a Ana, sou superamiga dela, pra além de grande fã. E a história foi que houve um primeiro concerto que ela fez a solo, depois dos Deolinda, que era um concerto onde ela só tocava versões das canções da vida dela. Eu não me lembro, chamava-se "15 Anos", não sei, já não me lembro. Era uma canção do que ela ouvia quando era adolescente. Muito punk rock, muito outra coisa que não tinha nada a ver com Deolinda. E eu fui ver no São Luís. E ela transformava-se, era outra pessoa a cantar. Então eu tinha um concerto marcado pras Festas de Lisboa passado pouco tempo e telefonei-lhe a dizer: "Ana, vem cantar comigo Because the Night, porque eu tenho o sonho de cantar Because the Night há imenso tempo e tu és a pessoa certa". Então fizemos uma grande arrocalhada, tocamos o Because the Night no Rossio, chuva a potes, mas ótimo, cheio de gente. E foi o princípio de uma parceria que tem vindo a acontecer com várias situações. Uma delas foi ela convidar-me para este último disco, para escrever letra e música de uma canção.
E quando compões para outros intérpretes, compões já a pensar naquela pessoa, para a voz?
Componho uma canção que é minha, que podia ser para mim. Preciso é muito que aquela pessoa seja minha amiga, ou seja, não tenho facilidade em compor quando não conheço. Se me pedirem: "Faz uma canção", se eu não conhecer, não tiver nenhuma empatia, até posso ter, mas não sei se tenho, não tenho tanta facilidade. Com pessoas que conheço bem, é muito fácil, porque eu sei que as canções vão ficar muito bem cuidadas nas mãos daquelas pessoas. A Ana canta magistralmente a minha canção e fui vê-la ao Capitólio no lançamento do último disco dela. Foi bom, foi ótimo trabalhar com ela.
E voltando a este convite para tocar no festival Às Vezes o Amor, foi o tema do festival que te levou a participar?
Eu não sei se tu concordas comigo, mas eu acho que o patrono deste festival devia ser o Daniel Maia Pinto Rodrigues.
Sim.
Amo, sobretudo, "Às vezes". É extraordinário. E eu acho que este festival tem esse lado de ser um festival muito vocacionado para músicos portugueses, para a música portuguesa. É um festival que, ao mesmo tempo, tem um lado muito literário, na maneira como aborda todas as pessoas que entram, todos os autores que participam. Já não é a primeira vez que toco, acho que é a terceira edição que faço, e tem sido sempre um prazer enorme. E o facto de poder ter surpresas que preparo para o Dia dos Namorados, nesse festival, também é giro.
Queres revelar um pouco dessas surpresas?
Não posso.
Não? Deixa acontecer a surpresa.
É mesmo surpresa. Ainda estou indecisa entre duas canções e estou a ver qual é a versão que fica mais gira.
Muito bem.
De qualquer forma, deixa-me só contar, que eu tenho agora por versões, que uma das características do solo, deste meu espetáculo, é que eu tenho versões em português de clássicos que eu gosto muito. E pedi ao Rui Reininho para me fazer do "Love Me Tender", que ele fez uma versão em português que se chama "Love Me Fender". Pedi à Filipa Leal para me fazer uma versão do "Fever", e ela fez uma versão super divertida que se chama "Ferida". E pedi ao Ricardo Marques, que além de poeta, também é tradutor e traduziu a Patti Smith para português, para me fazer uma versão do "Wing" da Patti Smith. Portanto, tenho versões em português feitas por amigos, poetas que admiro imenso. E queria dar os parabéns ao Bruno também, porque tive num espetáculo onde ouvi temas que tu fizeste para os Happy Mess.
É verdade.
Muito bonitas as letras, gostei imenso.
Um desafio do Miguel Ribay. Obrigado.
Muito giro. Gostei imenso.
Mafalda, vamos ouvir-te tocar daqui a segundos. Pergunta rápida para fechar.
Estou falando rápido, não é?
Não, está ótimo. Trabalho novo, vem aí ou não?
Vem, estou a gravar agora.
Muito bem. Quando é que sai?
Ainda não sai. Sabes que agora com a pandemia estamos sempre sujeitos a todo o tipo de restrições, do gênero alguém esteve com não sei quem que tinha Covid, para tudo, e depois passado 14 dias encontramo-nos outra vez.
Pois, muito bem.
Portanto, não sai. Está assim.
E já tem título?
Ainda não tem título, mas já está em um caminho e estou a gostar imenso.
Muito bem. Mafalda Veiga, convidada do "Lado Bom da Vida" desta sexta-feira na Rádio Observador. Vamos ouvir Mafalda Veiga ao vivo a tocar agora na rádio. Qual é a música que vais tocar, Mafalda?
Vou tocar uma canção que se chama "O Meu Amor".
Muito bem, "O Meu Amor", em direto na Rádio Observador, Mafalda Veiga.
Às vezes não cabe no mundo tudo o que eu te quero dar. O tom e a cor de escurecer com o pensamento a milhas do sistema solar. Um brilho dentro do meu quarto acende a noite para mim e desfaz o nosso pacto do espaço em fronteiras e coisas afins. Espreito ao longe o universo solto em bolhas de sabão. Agarro os sonhos que me abraçam só para entender de que matéria são. Procuro com urgência e fogo o mapa de um tesouro meu. Entre a deriva do teu corpo e a bússola atenta do meu coração. O meu amor é tão bom que é só meu, só meu, só meu. O meu amor tem um jeito de ser que é só seu, só seu, só seu. E é que não acaba mais tudo o que o meu amor tem. O meu amor é só meu, não o dou a mais ninguém. Às vezes sentados no mundo a balançar as pernas por cima do mar. Perdemos o tempo, mas por um segundo matamos a saudade que nos há de salvar. E eu cuido de mim, prometo. Se doer, doeu, se chorar, chorei. A vida é tudo o que me ensinaste. E mais tanta coisa que só eu é que sei. O meu amor é tão bom que é só meu, só meu, só meu. O meu amor tem um modo de ser que é só seu, só seu, só seu. E é que não acaba mais tudo o que o meu amor tem. O meu amor é só meu, não o dou a mais ninguém. O meu amor é só meu, não o dou a mais ninguém.
"O Meu Amor", de Mafalda Veiga, em direto na Rádio Observador. Mafalda, dia 14 de fevereiro, em Lagos, no festival O Amor Acontece? Não.
Às Vezes o Amor.
Às Vezes o Amor.
E dia 12 de fevereiro em Almeirim, mais perto daqui. Se quiserem ver, um espetáculo a solo também.
Muito bem, Mafalda Veiga foi a convidada do "Lado Bom da Vida" desta sexta-feira. Mafalda, bom fim de semana e uma vez mais, obrigado.
Muito obrigada.
Rádio Observador. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.