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Bom dia, Rita. Bom dia.
Já tinha saudades deste indicador.
Também eu. Tinha saudades vossas. Aqui ao fim de semana.
As férias foram boas?
Foram boas, sim. Foi mais por cá, mas gostei muito. É ótimo na mesma. É bom, porque assim o mês parece muito mais pequeno. Meter férias no mês que uma pessoa sente que é mais longo. É uma boa técnica. Janeiro tem sensivelmente 432 dias, não é? Não tem nada, mas é uma segunda-feira mágica. Eu sinto isso. São cinco. Por acaso fiz anos na segunda-feira mais triste do ano. Foi dia 15 de janeiro. Na Blue Monday. A primeira coisa que eu vi logo de manhã foi: "Hoje é o dia mais triste do ano." Que porcaria! Valha-me Santíssimo.
E ficaste ainda mais triste porque ninguém te deu os parabéns.
Não, não fiquei nada triste. A Rita também não deu sinal de vida.
É por isso, Rita, que nós decidimos fazer daqui uma surpresa do nosso aniversário.
Não há nada. E entrar não sei onde com um balão. E este melhor emprego, como é que vai ser? Esta semana apresento-vos o melhor emprego do mundo na Vista Alegre, que comemora este ano 200 anos de existência.
Parabéns, Vista Alegre.
A fábrica foi fundada em 1824 por José Ferreira Pinto Basto.
Isto, se eu não estou em erro, quer dizer que foste à ilha.
Sim, André, fiquei lá a dormir e tudo no hotel da Vista Alegre. Não é à toa que é o melhor emprego do mundo. Não dormi foi muito, porque a visita à fábrica começava às 07h30 da manhã. Isso é muito cedo. Então mas aproveitaste para quê? Para tomar um banho de imersão, ir ao spa? Quase. Ainda tentei, mas depois fico sempre com pena de gastar água. Não sei se vos acontece. Percebo. Então o que é que acontece? Fiquei com meia nádega de molho e pronto, fiquei satisfeita. Está bom.
Falando do melhor emprego do mundo, tu indo à Vista Alegre, aquilo certamente tem lá vários empregos, conheceste muitas profissões.
Vamos começar. No início da visita, comecei a falar com alguém que já estava reformado, que é sempre um bom emprego.
É o melhor.
Que sonho. Exatamente. Trabalhou mais de 40 anos na Vista Alegre, no desenvolvimento de produto. Vamos ouvir Pinto Bastos, que embora pareça pelo apelido, não pertence à família do fundador. Ele vai falar-nos da porcelana.
O vidro é bastante mais amigo do que a porcelana. A porcelana não é nada amiga de design, primeiro, pelas próprias características do material, depois pela temperatura elevadíssima a que coze. Coze a 1400 graus e passa por processos de transformação muito violentos durante a cozedura. E quando vão para além do normal, e a porcelana tem limites. E aí é o desafio, é quando eles querem ir para além do normal e é desafiar.
Porcelana tem limites. Tu tens limites.
Este senhor não tem voz de reformado. A voz não vem com o reformado.
O que é que é uma voz reformada, André? Uma voz cansada, vivida. Ele estava a andar e a falar. Eu acho que por acaso até tem.
Eu ouvi a voz e parecia um senhor de 40 anos.
Mas é mais velho. Não perguntes a idade. De 40 anos.
Se é reformado, 40 anos de trabalho na Vista Alegre, desculpe.
Não, eu percebo. Nós éramos um grupo grande, atenção, só para que conste, não era só eu que lá estava, éramos mais 30. E mostraram-nos o forno antigo e o atual. Para terem uma ideia, antigamente o forno demorava dois meses para atingir a temperatura de 1400. Dois meses. Hoje em dia demora 12 horas e os ciclos de cozedura passaram de 24 horas para seis horas, o que é extraordinário. Então, mas eles nunca desligam o forno? Está a bombar 24 horas? Exatamente, só em caso de emergência, ou seja, é muito raro. Vamos ouvir agora a sirene, que é quando começa o trabalho. Pelo menos não vi aquela coisa: "Será que deixei o forno ligado?" Não, está sempre ligado. É agora.
Que assustador. Pedimos desculpa aos nossos ouvintes. Isto é assustador.
Fiz logo aquela carinha de pânico. Meu Deus, mas isto é o quê? 8h em ponto? Imaginem se o nosso sinal horário na rádio fosse assim. Exato. São 8h. Mas isto é assim, é para toda a gente ouvir, e dentro da fábrica há muito ruído, claro. Falei com dois trabalhadores jovens, a Joana Menezes, que estava de bata, e o Daniel Farinha, que tinha outro uniforme, e perguntei acerca da diferença nas fardas.
A diferença da farda que nós temos é a forma como nós lidamos com o processo e com os produtos. Neste caso, quem tem uma bata branca é quem lida com a peça no dia a dia. Tem que ter uma farda que permita garantir a higiene. É essa a imagem e é essa a função da bata branca. O polo é uma farda quentinha para inverno.
Não há volta a dar.
Estamos enquadrados. É uma roupa de proteção para podermos estar aqui no ambiente fabril.
Explica-me lá a diferença. Qual é a diferença?
Estávamos à espera de uma grande explicação para o polo. É isso.
O polo é porque está frio, como é óbvio, mas é um bom polo. Estavas à espera do quê, Rita? Mas há uma particularidade em trabalhar na fábrica: quando as peças estão com algum defeito, por exemplo, porque passam por várias fases de cozedura e passam por várias fases de inspeção, se não estiverem perfeitas, vão para a bate.
Essa é só uma, até é divertido. É divertido ir ali parti-la depois.
Pois é, há partes onde vocês destroem o material. Eu acho que já estou a perder a equipa, mas dá para ver? A gente não sabe. Não sabem onde é que está? Não sei. E vocês podem ir para lá só partir coisas? É assim, depende da etapa do processo. Nós, quando estamos a falar- Se estiveres numa etapa de irritação e de pressão, podes ir para Não. Não dá. Não.
Nem pensar.
Exato. Adorei este não. Mas olha, isto é até meio terapêutico, não é? Até acho que há assim umas, como é que aquilo se chama? Range room. Exatamente, Filipa. Há pouca gente a conhecer isso.
Em Benfica há uma.
Vão para ali partir tudo. Obviamente, de fato. Sim, estás toda equipado. Para libertar a raiva. Dizem que é muito bom. Não é bem a minha cena, mas há quem goste muito. Exato. É melhor do que sair à Tostaqui só para alguém molhar o nosso ombro, e nós estar à porrada. Antes de ir para ali e libertar a raiva toda.
Claro, tens um "exibido" por aí.
Ou vais partir as peças na Vista Alegre. Desampa-me a loja. Mas vamos continuar a visita. As peças da Vista Alegre têm a particularidade de serem únicas. Existe sempre um certo número de tiragens e há muita gente a trabalhar na fábrica. São à volta de 650 trabalhadores. Olha que bela equipa. Sim. E conheci alguns, e todos eles trabalham lá há pelo menos 30 anos. Vamos conhecer a Carla.
Ver os sítios, vemos a louça pai boa e faço o melhor por isso.
Os ouvintes não sofrem?
Não.
Como é que se chama?
Carla.
Carla. Há quantos anos é que trabalha aqui?
27 anos.
27 anos e sempre com este barulho. E não chega a casa e não grita?
Não.
Claro, é porque tem uma boa audição. Tem bom trabalho, gosta disso?
Gosto, adoro o meu trabalho. Não troco este trabalho por outro trabalho.
Que querida.
Muito bom. E também encontrei trabalhadores vindos de fora de Portugal. Atenção. Isto é barro. Isto é barro, não é? Posso tocar?
Sim.
Posso?
Sim.
Isto vai ser reutilizado?
Não parece muito português.
You are going to reuse this? You are going to use this?
Não, eu falo mais espanhol.
Isso vai para o basurero.
É basura. Sale daqui como lixo, mas para aproveitar.
Vale.
É assim.
E é curioso que eu estava-
Reutilizants.
Reusants.
Mas olha, depois já fosse. Reparem como eu estava: "Posso tocar?" E ele disse: "É como os espanhóis, vês com as tuas mãos." Eu vejo com as mãos, sim. Também descobri uma nova função que não sabia que existia, que é o de rebarbadora. Olha, aí está.
Nós aqui estamos a rebarbar pratos e acabar.
A rebarbar?
Sim, e acabar pratos.
Rebarbar quer dizer acabar pratos?
Sim, tirar a rebarba ou o que eles trazem a mais e acabar pratos.
E o que é uma pessoa rebarbada?
Uma pessoa rebarbada?
Sim, um homem rebarbado, não sabe o que é?
Não.
Acabadora, não é? É aqueles que- Acabadora manual. Então estão a-
Ela está a rebarbar e eu estou a acabar.
Ela está a rebarbar. Como é que te chamas?
Paula.
Paula rebarba e a...?
Maira acaba.
Maira acaba.
Paula rebarba e Maira acaba.
Eu gostei de lá atrás: "Um homem rebarbado é um acabador manual."
Adoro como cada um interpreta da maneira como quer.
Perfeita.
Não conhecia. Claramente que não.
Sim, são aquelas máquinas.
Pois, mas basicamente é tirar os excessos da massa de porcelana com uma lâmina. E não só apanhei duas rebarbadoras, como três.
36.
36. Olha, é a minha idade, é de 88, mais ou menos.
É.
87. Diga uma coisa: está neste momento a fazer as pegas dos-
É a asa da chávena.
E vai ser o dia todo à volta das asas?
Sim, rebarbamos, depois vamos cortar pra máquina de corte.
Eu não queria acreditar que estava a apanhar outra rebarbadora.
Elas andam aí.
E também fui conhecer o trabalho dos escultores numa sala muito mais silenciosa, com vários artistas a desenhar e a moldar, e à conversa com o ceramista Mário Oliveira, ele explica-me que fazem as peças com muito rigor. Há muito trabalho de engenharia, biologia e fazem as aves portuguesas, por exemplo, em tamanho real. E claro, com especialistas, nomeadamente ornitólogos, para que seja o mais real possível. Pronto, é que eu tenho fobia a pássaros, desculpem.
São feitas exatamente à dimensão natural.
Todas as aves de Portugal são feitas à dimensão natural?
As que nós fazemos, todas que estão a ver, são feitas à dimensão e acompanhadas por um ornitólogo no desenvolvimento. Não é feito só com: "Vem aqui um senhor para dizer que era assim." Desde a elaboração do modelo da peça em branco, até aos pormenores todos.
Esse ornitólogo queria mesmo este passarinho a cantar. Queria devocá-lo.
Pronto, depois desenvolveu-se a ideia.
Agora vamos falar de outros animais. Continuamos a falar de animais. É de um pormenor extraordinário. Sim, é tipo um Bambi, como eu chamo. Sabia que a parte de trás parece normalmente uma cara que é de propósito para... Já sabe, não é?
Não.
É que normalmente estes animais que são presas na natureza, a parte de trás do rabito parece uma cara que é para enganar os predadores.
Por acaso não tinha-
Se bem que eu não sei qual é também. Em termos de resultados práticos, não sei se funciona. Se pensarmos que a nossa parte de trás poderia ser a parte da frente. Parabéns, artistas.
Eu gostei da pausa.
O problema é que estou sempre a gravar. Vocês já me dizem.
Que bom momento. Isto foi muito bom.
Isto tem um bocadinho de didático. E queria também dar os parabéns aos artistas, que eles são de facto incríveis. O trabalho deles é incrível.
Rita, também visitaste o museu, não foi? A capela e o teatro.
Sim.
Isto é que foi uma grande visita.
Foi uma grande visita e é das capelas mais bonitas que já visitei, a Capela de Nossa Senhora da Penha de França. Vale a pena passar por lá. O teatro também é lindíssimo e hoje em dia é usado ainda para espetáculos, mas começou com uma companhia de teatro composta por trabalhadores da fábrica. Vocês gostavam que a rádio tivesse um grupo de teatro?
Eu gostava que tivesse, mas para ver, não para participar.
Participar, não.
Tu participava, ó Filipe.
Não, participar também não me vejo.
Eu não gosto de representar, mas gosto de cantar.
Se o teatro resiste.
Ai, realmente, muito medo.
Agora vamos às notícias.
Vamos fazer um musical. Aí eu aceitava.
Mas eu vou então continuar com a visita, "a visita", porque ela foi longa e ainda nem chegamos à melhor parte. Eu acho que devíamos ter sempre, não é agora, mas esta parte também não é má. Devíamos ter sempre um microfone a gravar, a ver exposições. Neste caso, estávamos a ver algumas peças muito antigas e a ler legendas.
Então é para lançar?
Então vamos lançar.
Este, por exemplo, está um estudo para caixa boceta. Boceta, no brasileiro, é uma cena...
Sim.
Pronto. Eu estava a ler.
Calha bem, eu por acaso estou a gravar.
Estou, mas não faz mal.
Estamos a ler. Sim, estamos a ler as legendas.
Sim, claro.
Portanto, não dissemos nada.
Tem razão. Agora sim, vamos balançar.
Então balançamos. E eis a melhor parte: quando descubro o familiar do fundador da Vista Alegre, que estava entre nós, mas não sabia quem ele era Porque éramos muitos ali. E eu começo a comentar um prato onde tem no centro o retrato do fundador e à volta, nas bordas do prato, estão retratados os outros presidentes, os outros fundadores. Vamos ouvir então. Será que houve discussão para saber quem é que ia ficar de pernas para o ar? Mas se o símbolo está ali, eu quero ficar de pernas para...
Quando foi feito este aqui, já tinha morrido. Portanto, não houve discussão.
Ele disse que não havia problema. E depois, logo a seguir descubro que ele é o exa-neto do fundador. Eu não sabia de quem ele estava a falar. Eu nunca pensei ouvir exa-neto. Ele estava a falar que os falecidos familiares estavam nas bordas debaixo do prato. Às vezes sou avista. Foi uma boa pontaria. Era a sexta geração da família Ferreira Pinto Basto e gostava aqui de deixar o apontamento mais inteligente que fiz neste dia e devia ter-me ficado por aí e pronto, para sair em grande. Este é mais longo, mas vamos ouvir. Ou família. Ou seja...
Sim, de alguma maneira. Eu costumo dizer que nasci aqui, embora não tenha nascido.
Ou seja, é trineto.
Sexta geração.
E como é que é fazer parte desta família tão histórica?
É um orgulho enorme. De facto, é uma marca com grande notoriedade, com grande projeção e que nos enche a todos de grande orgulho.
E uma coisa, na sua família é normal o sentido de humor? É que nota-se que a própria marca tem boa disposição.
Sim, acho que somos uma família divertida, bem-disposta e com sentido de humor. Sim, mas por que diz isso?
Porque acho mesmo que todas as coleções têm algo divertido. Às vezes é o conceito ou os próprios desenhos, as cores. É bem-disposta.
Sim. Nunca ninguém se tinha referida à marca neste termo, mas acho que pode ter razão. É uma marca positiva.
Pontaria Rita Camarneiro.
Sim, senhor. Quis dar as boas graças, foi acabar em bem.
Mas eu não sei como é que ninguém se lembrou, porque é Vista Alegre, não é triste, é Vista Alegre.
Sim. Acabaste bem.
Se tivesse acabado aqui, mas acabou com uma sirene. Vi peças lindíssimas e únicas. Hoje em dia, em leilão, algumas delas ultrapassam os €20 mil, por isso vale a pena guardar aquele conjunto que lá tem em casa, mesmo que isso às vezes seja mais difícil para fazer as partilhas. Já estou a imaginar. "Podes ficar com a casa, o carro, mas não fiques com aquele conjunto da Vista Alegre 2024." Este ano, a primeira peça. Já sabemos o que fazer a tal revista. Este ano a primeira peça que nós vimos a ser feita pela Vista Alegre, comemorativa dos 200 anos, é um prato com um pato e um calendário e ilustrações belíssimas de um designer que infelizmente faleceu recentemente. E comecei a perguntar às pessoas que estavam comigo quanto é que acham que valia aquele prato. E todos disseram para cima €500. E afinal, só o prato, não chegava a €80. Portanto, vá lá, é uma boa coisa. E agora sim, para terminar, toca a sirene do meio-dia. Hora de almoço.
Que medo.
É hora de almoço ou uma granada. Duas horas. Sim. Acredito que com o tempo não pareça um alerta de guerra. Parece só: "Ouço isto e apetece-me comer e não apetece-me refugiar."
É assustador. Acho que estou habituado.
Dá-me ligeira ansiedade. Mas continua. Que bom. Parece aquela caixa da gaita de foles quando está sem a parte da gaita, só a parte do estômago do carneiro a fazer barulho. São foles. Acho que é carneiro ao correr. Enfim. São foles. De facto, eu tive muita sorte de ter conhecido tanta gente satisfeita com o seu trabalho e fui muito bem recebida. Tive direito a uma visita guiada com o exa-neto do fundador, que me falou da história das peças, mas não consigo colocar aqui tudo, claro. E partilhou comigo também que sente um grande orgulho na marca e descanso por saber que a marca está em boas mãos, visto que há uns anos, não sei se estão a par, deixou de ser gerida pela família e passou para a Visabeira e ele está satisfeito com o trabalho. Adorei, voltava a repetir a experiência e fui de autocarro. Porque eu sem aí é um som. É aquela coisa, o melhor emprego out of context. Vou lançar. Vá. Tentei. Fui lá para trás, estendi-me. Até me descansei, mas isso não é de bom tom. Deu saia. Mas as minhas meias eram de algodão, não há problema. Careja-me nervos, fui no autocarro. Isto para dizer o quê? Gostei deste momento final. Exato, porque raramente ando de autocarro. E fui de autocarro. Foi uma boa experiência. Exato, e foi uma boa experiência.
Nunca tinhas andado.
Não, já andei muito. Já não andavas há muitos anos. Desde os 25, meus amores. No momento em que puseste as mãos no volante. Pronto, está tudo certo. Mas sim, e compensa ficar atrás porque dá para nos estendermos ao comprido. Pronto, dicas com Rita Camarneiro. E foi o melhor emprego do mundo da Vista Alegre. Está feito. Vamos fechar aqui. Espaço de notícias. Vamos embora. Agora a sirene.