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Quando o Afonso Reis Cabral chegou pela primeira vez a esta aldeia da Serra do Caldeirão, uma linha de calceteiros assentava pedras sobre o calor do meio-dia. Afonso Reis Cabral tinha acabado de percorrer a pé, e durante quatro semanas, a quase totalidade dos 700 km da Nacional 2, a estrada mais extensa de Portugal e que liga Chaves a Faro. Afonso Reis Cabral, qual é o teu Portugal secreto?
Entre outros, é o Ameixial e a Serra do Caldeirão. No fundo, é um Alentejo ainda muito desconhecido ou bastante mais desconhecido. Aliás, um Algarve muito mais desconhecido. E é um Algarve que, curiosamente, ainda junta turistas, mas são turistas maioritariamente ingleses, mais quase pé descalço, de andar de autocaravana e de ir parando conforme calha. E no Ameixial acontece muito isso por causa da Fonte da Ceiceira.
O que é a Fonte da Ceiceira?
Eu acho que a Fonte da Ceiceira é um Shangri-La, porque eu estava a fazer a Nacional 2 a pé, já nos últimos dias, e atravessei a Ribeira de Bascão, que é a ribeira que naquela zona da Nacional 2 marca a fronteira entre o Alentejo e o Algarve. Estava a palmilhar a Nacional 2, quando de repente chega à Fonte da Ceiceira, numa curva da estrada, e encontro um completo Shangri-La. Eu digo isto por quê? Porque a Fonte da Ceiceira, no fundo, é uma piscina pública, mas é muito mais do que uma piscina.
Então?
É um lago artificial, mas com imensa classe, ou seja, muito bonito, com nenúfares, com cascatas de xisto, com relva até à água e depois a água vai crescendo pra relva ou vice-versa. E é no meio da serra, é uma espécie de joia incrustada no Caldeirão, completamente inesperada, porque de resto tudo ali é mais ou menos natural ou mais ou menos abandonado, e marca o início do Ameixial, que é uma aldeia, e depois a própria aldeia, 200, 300 metros mais à frente na Nacional 2, revela-se também outra joia. Porque eu não sei, eu não faço ideia o que levou a isso, mas o Ameixial é uma espécie de sonho da Junta de Freguesia. Eu não faço ideia quem é que está à frente daquela Junta de Freguesia.
Pra quem nos ouve e não sabe, o Ameixial fica entre Almodôvar e Loulé, no coração da Serra do Caldeirão.
Exatamente, faz parte de Loulé. Eu não sei bem quem é que estará à frente daquela Junta de Freguesia, mas é uma pessoa voluntarista e um otimista também, porque a aldeia tem umas 400 e poucas pessoas, penso eu. 430, ainda há bocado fui pesquisar isso. É uma população muito envelhecida e apesar do que eu disse há bocado, de haver turismo de interior e aquele típico turismo de autocaravana ou de mochila às costas, há relativamente pouca gente, ainda pra mais comparado com o Algarve típico das praias. Ainda assim, é extraordinário como foi possível naquela aldeia pôr tudo o que há de melhor do ponto de vista camarário. Tem máquinas pra fazer exercício na rua, tudo está absolutamente bem pintado, tem um monumento extraordinário, e esse bastante bonito, aos antigos camionistas da Nacional 2, já que a Nacional 2 nasceu nos anos 40, até pra além de outras coisas, pra ser via de ligação comercial, e portanto, havia muitos camionistas que iam do Algarve pra cima, pra meio de Portugal, levando, eu imagino, laranjas. Portanto, tudo que é de aparato camarário, ali está absolutamente bem conservado, novo, tudo impecável. Acontece que há muito pouca gente pra usufruir daquilo.
Portanto, pra ti o-
Nomeadamente a própria.
Diz.
Nomeadamente a própria Fonte da Ceiceira. Quando eu passei por lá, havia duas ou três pessoas, alguns ingleses, por exemplo, mas num café mais à frente, já no centro da aldeia, eu perguntava à senhora que estava à frente do café se conhecia a fonte. E a senhora dizia-me, embora vivesse a 300 metros da fonte e, portanto, a 300 metros do Shangri-La, a senhora olhava pra mim muito desconfiada e dizia-me que aquilo era modernices e que se recusava a ir lá.
Isso que é-
É muito curiosa a dicotomia entre o voluntarismo, muito bem-vindo, porque dá frutos, de ter todo aquele aparato desde a tal fonte até às máquinas pra fazer exercício físico na rua. E depois, enfim, pessoas mais velhas que olham com alguma desconfiança pra isso.
Afonso Reis Cabral, esse deslumbramento que tu tens pela aldeia do Ameixial tem a ver com o facto de a teres descoberto já na reta final das quatro semanas em que andaste a pé pela Nacional 2, ou tem a ver Pela aldeia em si que te deslumbra?
Eu acho que é fruto das circunstâncias também, de eu estar a percorrer a Serra do Caldeirão já na reta final da caminhada e, portanto, depois de 21, 22 dias a andar a pé todos os dias e por vezes 40, 45 quilómetros. Tem que ver também por ter sido muito inesperado encontrar a Fonte da Ceiceira, que foi logo a primeira imagem e a primeira impressão da aldeia. E depois com a própria aldeia, com o estado de conservação da aldeia, com um certo abandono que há lá, mas um abandono cuidado, por ter pouca gente, mas ao mesmo tempo estar tudo impecável. E depois de ser um refúgio, e foi de facto um refúgio pra mim na Serra do Caldeirão. Eu fiquei a dormir lá nesse dia e foi um dos poucos dias da caminhada em que estava à vontade fisicamente e psicologicamente. Cheguei relativamente cedo à Fonte da Ceiceira, por volta da 13h00, 14h00, e portanto tive a tarde livre pra estar lá a apanhar sol, a mergulhar, a descansar, a ler, e já com a certeza de que ia conseguir chegar à meta, que era Faro, daí a dois dias. Portanto, é o mérito da própria aldeia, mas também das circunstâncias, não posso dizer o contrário.
Já lá voltaste, Afonso?
Ainda não. Já voltei a muitos pontos da Nacional 2, mas ainda não voltei ao Ameixial.
Vamos falar da Nacional 2, que se está a firmar como um produto turístico em Portugal, nas suas mais diversas variantes, a pé, de autocaravana, de bicicleta, de carro. Quais são os ingredientes que na tua opinião fazem deste produto turístico, a Nacional 2, um produto apetecível e que valoriza a marca Portugal?
Eu acho que é justamente o facto de transcender a ideia de produto turístico. A Nacional 2 estava lá, existe desde os anos 40, e simplesmente estava esquecida. E agora, desde há três, quatro anos, passou a ser apresentada às pessoas, passou a ser cuidada, a própria imagem da estrada foi muito projetada pelas pessoas que a percorrem. Mas no fundo, acabamos por descobrir o que já tínhamos. Eu acho que há uma certa poesia nisso. E a Nacional 2, sendo transversal, começa em Chaves e acaba em Faro. Percorre o interior absoluto de Portugal e, portanto, é uma janela pro país, mas mais do que uma janela pro país, pras paisagens, que estão lá, desde o Douro Vinhateiro até às planícies algarvias, até ao centro, à região de Góis, por exemplo, a serra do Açor. Mas mais do que isso, é uma porta de entrada pras pessoas. E pra pessoas que querem que a Nacional 2 seja, de facto, uma via de passagem. Eu a certa altura, no livro que publiquei sobre a Nacional 2, refiro qualquer coisa como a Nacional 2, mais do que uma estrada, é um rio. Porque a ideia de rio pra mim é mais apelativa, porque num rio as pessoas vivem do rio, vivem nas margens, percorrem-no, exploram-no, navegam-no. E no fundo, a Nacional 2, hoje em dia, é quase como um rio, porque há muitas pessoas que acabam por viver da Nacional 2: restaurantes, comércio, aldeias mais ou menos esquecidas e que agora estão recuperadas, como tu dizias, pelas pessoas que percorrem a Nacional 2 de carro, a pé, de bicicleta. E portanto, acaba por ser um rio pra percorrermos o país.
É uma boa forma de conhecer o país que somos?
Sem dúvida, e é uma forma excelente de conhecermos as pessoas que somos. E essas pessoas que são dotadas de uma generosidade enorme, que apesar de muitas delas até viverem da Nacional 2, dão um braço pelas pessoas que a percorrem, e sobretudo por pessoas que percorrem de bicicleta e a pé, porque estão num esforço maior do que propriamente fazê-lo de carro.
Isso também te aconteceu.
Sim. Eu na caminhada dependi da generosidade das pessoas e a certa altura até sentia pudor de receber tantas ajudas. Mas de facto, as pessoas estavam perfeitamente dispostas a ajudar e a abrir a porta de casa, muitas vezes. Aconteceu-me várias vezes, eu parar cansado depois de 30 quilómetros e alguém me abrir a porta de casa e dizer: "Entre, use a casa de banho à vontade, seque-se ou tome banho ou beba água". E enfim, eu era simplesmente um tipo a andar a pé numa estrada, não mais do que isso.
Afonso Reis Cabral, começamos esta conversa a falar do Ameixial, que pra ti é o Shangri-lá, ou é um Shangri-lá do percurso da Nacional 2. Tiveste a oportunidade de dizer isso mesmo aos habitantes do Ameixial ou não?
Aos habitantes do Ameixial, diretamente, não disse. Embora falei com essa senhora do tal café e disse-lhe o que achava da Fonte da Ceiceira. Mas a senhora ficou bastante desconfiada, porque era uma obra nova e eu achei melhor não continuar, porque não queria ouvir a típica frase do "antigamente é que era bom". Portanto, não disse diretamente, mas depois escrevi no livro e essa homenagem também está feita.
Ficou eternizada. Estamos a desvendar o Portugal secreto de Afonso Reis Cabral, que é o Ameixial, na serra do Caldeirão, entre Almudöver e Loulé. Afonso, tens algum hábito, prática ou gesto que não prescindes de realizar durante as férias de verão?
Eu acho que não tenho nenhum ritual próprio das férias de verão, mas algo que não prescindo é de ler. Mas acontece que isso faço durante o ano todo e, aliás, sou um pouco contra a ideia de leituras de verão, porque acho que a leitura deve ser diária e constante. Ainda assim, de facto, nas férias aproveito para ler uns calhamaços um bocadinho maiores, portanto, isso não prescindo.
Então a minha próxima pergunta não ficou desprovida de sentido. Ia te perguntar se fazes alguma seleção especial para o verão. Seleção de leitura.
Sim, lá está, talvez uns livros um bocadinho maiores. Mas é conforme calha. Mas, de facto, nas férias de verão dá para ler um bocadinho mais ou melhor, ler aquelas obras que pelo menos durante o ano demoraria duas, três, quatro semanas e ali despacha-se em três, quatro dias.
E este verão, que calhamaço é que vais ler, Afonso Reis Cabral?
Ainda não sei. Neste momento estou a fazer algumas leituras que não estava habituado, que são novelas gráficas. Descobri, na quarentena, as novelas gráficas e já li umas 20 novelas gráficas, à vontade.
Para quem não sabe, o que é uma novela gráfica?
Novela gráfica é, no fundo, uma banda desenhada para adultos. Dizendo de maneira muito simples. É, por exemplo, o "Maus", do Art Spiegelman. Ali há imagem, há o texto e é boa literatura, muitas vezes boa literatura. Aliás, uma das novelas gráficas que recentemente foi muito falada foi o "Sabrina", que foi finalista do Man Booker, salvo erro, de literatura. Não é o típico comics, não é a típica banda desenhada de super-heróis e afins, mas são temas profundos, temas muito interessantes, tratados com enorme sensibilidade através de desenho e texto. Normalmente, o próprio autor escreve e desenha.
Poderá ser esse o caminho do teu próximo livro?
Não. Ia ficar uma bodega, porque eu pego no lápis é para escrever, não é para desenhar. Já tentei desenhar aqui e ali e fica de facto muito mau.
Muito bem. O Portugal secreto de Afonso Reis Cabral, a Fonte da Seiceira e a aldeia do Ameixial, no concelho de Loulé, no Algarve. Afonso Reis Cabral, muito obrigado por teres desvendado o teu Portugal secreto.
Obrigado eu.
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