Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Cidade quartel, património mundial da humanidade junto à fronteira. Foi uma descoberta tardia de Joana Amaral Dias. Terra de bons pitéus, calor abrasador e um vasto património cultural, é para a antiga deputada, um exemplo do potencial turístico do país e não só. Joana Amaral Dias, onde fica o teu Portugal secreto?
O meu Portugal secreto fica mesmo ali na fronteira, quase a chegar a Espanha. É praticamente o último de Portugal, Elvas.
Cidade de Elvas?
Cidade de Elvas, é verdade. Para mim foi uma descoberta tardia na minha vida, mas definitivamente uma paixão.
Quando é que descobriste Elvas, Joana?
Descobri Elvas há uns sete anos, porque a família dos meus filhos mais novos é elvense, totalmente, 100% elvense. E para mim foi uma surpresa brutal, porque eu considero que conheço bem o país. Viajo muito de norte a sul, campanhas eleitorais, promoções de livros, estou sempre de Faro até lá cima, até Bragança. Foi uma surpresa espetacular, porque realmente Elvas é uma cidade fascinante. Aliás, é património mundial da humanidade.
O que te atrai em Elvas, Joana Amaral Dias?
Em primeiro lugar, é comida. Tenho que ser sincera, porque eu sou daquelas que morre o peixe, e assim logo eu também. Realmente, no Alentejo, para comer, é espetacular. Elvas não é exceção, embora seja um Alentejo muito particular, porque é raiano. Mas efetivamente mantém-se, pode-se comer os melhores pitéus e dá para se perder dos salgados aos doces, dos vinhos até às maiores surpresas alentejanas. Depois tem imensas feiras gastronômicas, isto e daquilo. Além da comida, de fato, é um património incrível, que eu acho que diz muito da nossa história, da história do nosso país e do potencial brutal que nós temos do ponto de vista, se soubermos preservar o nosso património e se soubermos também promovê-lo.
E o património de Elvas, na tua opinião, está bem valorizado e bem preservado?
Está bem valorizado. Eu acho que ajudou muito o facto de termos feito em 2012 a candidatura ao património mundial da UNESCO, como cidade fronteiriça, onde inclui a um património muito grande, que vai desde o Aqueduto da Amoreira, que é um aqueduto gigante. Mete o Aqueduto de Lisboa num chinelo. Os fortes em estrela, da Graça e de Santa Luzia, depois tem mais uma série de fortins, etc. Tem peças únicas no património português. E eu acho que está relativamente bem conservado. O que eu acho é que é pouco descoberto. Eu acho que é secreto, eu escolhi Elvas, não só porque de facto sou apaixonada por Elvas, mas eu acho que é secreto para mim, como é secreto para a maior parte dos portugueses. A maior parte de nós não sabe o tesouro que está ali mesmo a seis quilômetros de Badajoz. Mesmo às portas de Badajoz. Tem isso e depois também tem um património incrível de arte contemporânea, para quem não sabe, que é uma coisa que pode soar surpreendente, mas é verdade, porque a coleção do António Cachola foi doada ao Estado, albergada, melhor dizendo, em depósito no Museu de Arte Contemporânea em Elvas, no MACE, que é uma coleção de primeira linha, de primeiro mundo, definitivamente, primeira linha, de facto. E depois também tem outras coisas do ponto de vista artístico, muito interessantes, como a maior coleção de ex-votos do país, que é lindíssima. É comovente, quem não conhece, está na Igreja Nossa Senhora da Piedade. Ir lá e assistir àquela dor humana toda e ao mesmo tempo àquela esperança toda daqueles ex-votos que forram as paredes que falam ali. É muito bonito. De fato, é o meu segredo, Elvas é o meu segredo, mas não acho que é segredo para 10 milhões de pessoas.
Agora já não é. É interessante, porque eu nunca imaginei que a Joana Amaral Dias fosse sublinhar, numa cidade, ex-votos.
Claro, vamos lá ver. Na religião mora também a alma humana. Eu sou ateia, mas sou psicóloga também e sou política, tenho todo o interesse em perceber, e sou ser humano, portanto tenho todo o interesse em perceber os fenômenos do Homo sapiens sapiens e os fenômenos religiosos, nomeadamente a Igreja Católica Apostólica Romana, mas não só, são fenômenos extraordinários e que a mim suscitam uma imensa curiosidade. Os ex-votos ali, por acaso, nem têm tanto a ver com isso, tem mais a ver com o facto de sentires o grito das pessoas ao entrar naquelas salas, sentes as lágrimas daquela gente que ali se foi manifestar e que ali se foi expressar de uma forma tão intimista, ao mesmo tempo. É muito bonito. E portanto, ir a Elvas é comer bem e ter acesso a uma oferta cultural e patrimonial única no país e na Europa. Aliás, é curioso que tu vês muitos turistas em Elvas, muitos espanhóis, mas também franceses. Portugueses muito poucos ainda, mas recomendo. Não vão logo mijar, só um bocadinho.
Joana Amaral Dias, em que Elvas te ajudou como pessoa carregada, como todas as outras, de idiossincrasias e contradições?
Não sei se me ajudou, uma coisa tenho: sinto uma ligação muito forte a Elvas, por essa via familiar. Eu, como sou ali da zona da Bairrada, originalmente, costumo brincar e dizer que os meus filhos são metade cor-de-preto, metade leitão da Bairrada. Para dizer que sinto já uma parte ali, uma ligação muito forte, como sinto a outros pontos do país, mas aqui, de facto, em Elvas, sinto uma ligação profunda por esta via também familiar. E Elvas tem outra coisa interessante: embora seja uma cidade pequena e uma pequena cidade portuguesa, é mesmo uma cidade muito pequena na dimensão europeia. Mas embora seja uma pequena cidade, como está a um passo de Espanha, tem, apesar de tudo, algum cosmopolitismo e há um vaivém permanente de pessoas entre Portugal e Espanha.
Isso nota-se na vida da cidade, Joana?
Nota-se muito, nota-se muitíssimo. Aliás, nota-se sobretudo que os espanhóis adoram passar tempo em Elvas. Porque não só é mais barato, como tem muita qualidade. As piscinas de Elvas, os restaurantes de Elvas, os parques e os jardins de Elvas, que são vários e bonitos, bem conservados, interessantes para quem gosta de jardins públicos e jardins urbanos, que é o meu caso, que acho muita graça. Tem muitos espanhóis lá e de repente apetece ir beber um copo a Espanha e ter aquela movida. E estás em Badajoz, que já não é só caramelos. Badajoz já é uma cidade com um certo movimento e uma certa dinâmica. Elvas também tem essa possibilidade da pessoa, de alguma maneira, sair do país. Tirando agora neste período complicado que foi de fecho de fronteiras, Elvas sofreu muito e foi, aliás, uma cidade particularmente fustigada e marcada pela quarentena e pelo lockdown, justamente por esta razão. Mas também tem essa mundividência, e que se sente, de facto, nos elvenses. É curioso isso.
Já percebemos que és um bom garfo. Aliás, fizeste questão de dizer isso várias vezes. O que é que não podemos perder em Elvas?
Tem restaurantes maravilhosos. Posso fazer publicidade a alguns?
Vamos ficar pelos pratos. Aliás, és apreciadora de ameixas de Elvas ou não?
Sim, gosto de ameixas de Elvas. Os meus filhos têm uma bilha de leite que faz em casa as ameixas de Elvas, nunca fiz, mas eu já sei tudo sobre ameixas de Elvas. Mas não se pode perder a sericaia de Elvas, que aliás leva ela própria ameixas, como uma espécie de cereja no topo do bolo, ali é a ameixa no topo da sericaia. Toda a doceria alentejana é uma doceria rica e muito boa. Muito calórica, definitivamente. Mas depois todos os outros pratos também alentejanos, tens desde os borregos à carne do alguidar, não sei se sabes o que é carne de alguidar, que é muitíssimo boa. E de facto tens ali muitos restaurantes, tens inclusivamente restaurantes em Elvas que fazem coisas interessantes, como uma recuperação do património gastronómico, que é uma coisa que eu também sequer sabia muito bem que existia e que descobri lá em Elvas, que são restaurantes que vão à procura das receitas antigas, como se comia imagina há 100, há 200 anos, e fazem a recriação desses pratos, porque isso também se perde. Esse património gastronómico também, obviamente, se vai pelos tempos.
E assim de repente, Joana Amaral Dias, consegues me dar um exemplo de um prato que tenha sido recuperado?
Todas essas carnes do alguidar, as migas de batata doce, migas de abóbora. Há uma série de coisas muito antigas que tu podes comer em Elvas e que é difícil de encontrar noutros locais. Eu às vezes, mais do que um fim de semana em Elvas para mim é complicado, porque eu tento manter a linha, estás a perceber? Cada vez que vou de fim de semana a Elvas, depois lá tenho que fechar a boca a seguir, é a parte chata, mas realmente é uma perdição.
Muito bem, é uma cidade para visitar durante todo o ano ou há uma época específica em que Elvas atinge o seu esplendor?
Elvas tem um problema nesse aspeto, que é muito quente no verão. Vocês não imaginam quão quente é Elvas. É mesmo muito seco. Não passa um curso de água. E por isso é muito quente no verão e é bastante fria, é muito mais fria do que, por exemplo, Lisboa, muito mais fria no inverno. Mas esta altura do ano é espetacular. Setembro, outubro é uma altura maravilhosa para estar em Elvas, bem como a primavera, porque o clima está um pouquinho mais ameno, não tem aquele agreste alentejano e por isso recomendo vivamente que passem por lá. Aproveitem agora, que depois que começar a chover é mais complicado.
Muito bem. A cidade quartel de Elvas, o Portugal secreto de Joana Amaral Dias. Joana Amaral Dias, tens algum ritual de verão que não prescindas de realizar?
O meu ritual de verão é ir correr todos os dias de manhã à praia. Ou seja, todos os dias, o máximo número de dias possível, porque eu gosto de correr, gosto muito de fazer exercício, mas correr à beira-mar considero um luxo e que nas praias portuguesas é imperdível.
Joana Amaral Dias, muito obrigado.
Obrigada eu.
Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.