Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Esta região de Portugal, com nome de rio, é toda ela, para o ator Albano Jerónimo, uma experiência sensorial que vai do vinho às flores. Uma região feita pelo homem, inóspita, cheia de sombras e contornos. Albano Jerónimo, onde fica o teu Portugal secreto?

O meu Portugal secreto fica, sem dúvida, no Douro. Fica no Douro por várias razões. Eu ligo-me a esta região de uma forma dupla. Primeiramente, não só por lazer, por destino, onde eu fujo quando quero preparar um trabalho, mas também por questões familiares. Toda a família da minha mulher é de lá. Eles são uma família ligada de gerações ao vinho, à produção de vinho. Portanto, encontro lá um misto entre lazer, algo mais íntimo, como algo também profissional. Também profissional, porque faço parte de uma equipe que está a fazer um relançamento de uma marca que foi lançada precisamente pelo meu sogro, uma marca de vinhos, é uma empresa familiar, a Van Zeller & Co., e que este ano celebra 400 anos de atividade no negócio do Vinho do Douro. Eu estou a fazer a direção artística deste projeto. Portanto, todo este projeto foi redesenhado, baseado nas garrafas antigas do vinho do Porto da marca. É um projeto que está centenários do Porto raros, muito antigos. A título de curiosidade, eu já tive a oportunidade de provar vinhos com o meu sogro com mais de 150 anos. E o mais antigo, datado de 1860. Portanto, é toda uma experiência sensorial impressionante. Imagina entrar num armazém de vinho do Porto, provar esses vinhos, perceber como são feitos os blends. Esta experiência, aliás, será possível viver no próximo ano. E tudo isto é algo que me transporta para uma dinâmica também de trabalho. O Douro, eu gosto de pequenas coisas na vida, gosto da simplicidade de ir comprar pão de azeite à padaria de Ervedosa do Douro. Para quem gosta de carne, uma paragem obrigatória é no Talho do Pinhão e garantidamente terá um atendimento absolutamente ímpar.

Por quê?

Podes provar algumas iguarias, desde aguardentes, desde pequenas, segundo o dono, que é extremamente simpático. Tens pedaços de carne, tudo animais criados ao ar livre, que isto é uma particularidade até interessante, onde quem gosta de carne prova e diz que é absolutamente único e maravilhoso. Aliás, há pessoas de Lisboa, só para teres ideia, que vai ao Pinhão comprar carne a este talho, só para saber qual é que é a especialidade da casa.

De propósito?

De propósito. Outra coisa que eu gosto de fazer é andar pelas ruas, pelas estradas do Douro, em pleno verão, em pleno bafo de calor, onde tu tens toda uma harmonia de cheiros, que é engraçado, é que tu podes encontrar tudo isso nos vinhos que bebes da região do Douro. E é toda uma panóplia de cheiros, de flores, de coisas absolutamente incríveis. Portanto, é uma zona que me liga nestas pequenas coisas também.

Para um ator, é importante encontrar refúgio em locais especiais? Isso ajuda-te no teu trabalho de construção de personagens e de te encontrares a ti mesmo?

Sim, acho que tem que ver com escuta, tudo aquilo que eu faço. Acho que tem que ver com escuta no sentido em que tenho que me ouvir ora a mim, ora aquilo que estou a desenvolver, a trabalhar. E para isso, às vezes os sítios empurram-nos para zonas de concentração ou de disponibilidade interior, se quiseres, para abraçarmos aquilo que estamos a ler ou aquilo que queremos desenvolver artisticamente. Portanto, tudo isto são absolutamente motivos e peças fundamentais na arquitetura de um trabalho, na arquitetura pessoal também. E sim, estes sítios são de privilégio, onde tu consegues ter outro tempo e outra qualidade de tempo na tua vida.

Albano Jerónimo, tu procuras recorrentemente o Douro nesse trabalho?

Sim. Procuro. Foi uma região que me foi apresentada há muitos anos, quando eu era mais pequeno, e que me foi novamente posta na vida pela minha mulher. A minha mulher, como te disse ao início, a família toda faz parte deste legado do Douro. E então foi uma redescoberta deste Douro através da minha mulher, de uma perspectiva feminina, portanto, conhecer esta região quando se olha meio inóspita até, mas está cheio de contornos, cheio de detalhes, cheio de pormenores que fazem com que eu me ligue a estas pequenas sombras que surgem naquelas colinas e naqueles montes.

Isso é uma região muito ligada ao vinho. Falavas há pouco dessa experiência única que é provar um vinho com 150 anos. Tu já tiveste essa oportunidade? Como é que descreverias esse momento que deve ser único na vida de uma pessoa?

É, sem dúvida. O que marca os sítios, se quiseres, são as pessoas, para mim, ou de uma forma geral. E sem dúvida, estar a fazer isto com o meu sogro, estar a fazer isto com a minha mulher, ter aquele objeto, aquela preciosidade, aquele néctar de 150 anos, tudo isto faz com que o momento seja único O que tu sentes? Sentes um ótimo ponto de partida. O vinho, acredito eu, é sempre um ponto de partida para família, amigos, para te encontrares e reunires dentro desta lógica. O que eu descobri? Descobri que quase estavas a beber um pedaço de história. Já passou tantas pessoas por aquele processo de preservação, de conservação daquele vinho, daquele produto. Sei lá, posso falar de outra experiência. A marca Varnelas & Co também tem vinhas velhas, que dão um vinho absolutamente incrível que é o CV. Esta vinha encontra-se num vale apertado que tem mais de 100 anos. Estas vinhas velhas, vê-las completamente viçosas, tudo isto são experiências sensoriais inacreditáveis. E conhecer cada vinha mais rara, vinhas antigas que estão espalhadas pelo Douro, perceber como se produz uma gama de vinhos que incluem Portos, brancos, tintos, são coisas altamente exclusivas e com quantidades limitadas. Isto tudo abre uma porta para a qualidade única. Sinto-me um privilegiado, para te responder de forma direta. Sinto que faço parte de um grupo de pessoas que tem a possibilidade de provar estas pequenas pérolas que a natureza nos oferece.

Albano Jerónimo, tens algum ritual ou algum hábito de verão que não prescindas?

Tenho algumas coisas. Tenho livros, eu adoro ler. No verão é imprescindível transportar livros comigo. E paralelamente, como tenho uma filha, também transportar alguns brinquedos, nomeadamente livros. Tenho a sorte de poder dizer que a minha filha lê orgulhosamente um livro de 282 páginas em quatro dias.

Uau!

Mais rápida que o próprio pai. Portanto, tenho que sempre levar um bom carregamento de livros, é algo imprescindível para mim. Os livros, se quiseres mal comparado à imagem dos vinhos, é algo que congrega outro tempo, outras perspectivas de vida, outra forma de estar na vida. São peças fundamentais. Já agora aproveito para te dizer que esta relação com o Douro é também uma forma de aproveitar o interior deste país, o interior de Portugal. Posso-te falar à volta do Douro, desde Foz Côa, que todos nós conhecemos, mas Trancoso, Penedono, Marialva. Quando há uma feira, por exemplo, que promove o comércio local, o artesanato local. Isto são tudo detalhes indispensáveis para umas férias. São pedaços de terra, de gente, de culturas que eu adoro poder usufruir quando vou de férias.

O Portugal secreto do ator Albano Jerónimo. Albano, obrigado e boas férias.

Obrigado.

Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.