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O que Miguel Torga escreveu sobre esta serra de Portugal ficou gravado para sempre: alta, imensa, enigmática. Atraído pela sua majestosidade, o alpinista João Garcia fez-se à estrada de Lisboa sozinho de bicicleta, aos 16 anos, só para a conquistar. E conseguiu. O verão estava no fim, mas as energias do João estavam longe de acabar. João Garcia, onde fica o seu Portugal secreto?
O meu Portugal secreto é, sem dúvida, a serra da Estrela.
E por quê?
Foi aí que começou uma grande odisseia, o início de uma grande paixão. Fui realmente à serra da Estrela para aprender a escalar em rocha.
Quando tinha 16 anos. Foi a primeira vez que foi à serra da Estrela?
Não, eu acho que fui com os meus pais já anteriormente. Curiosamente, de inverno. Há recordações familiares de que eu, quando vi a neve pela primeira vez, pus-me a guinchar de felicidade, era algo novo. Mas era realmente muito pequenino, não me lembro.
E essa vez, com 16 anos, foi em que ano? Em 1983.
Em 1983, fui ao encontro de um clube de montanhismo da Guarda, que organizava todos os anos uma atividade chamada "Conhecer a Estrela". Ficávamos acampados nas charcas do Covão da Clareza, que fica no planalto central da serra da Estrela. Tem três lagoas d'água translúcida fantásticas, e aí montávamos acampamento. Depois dirigíamo-nos ao Cantar Magro, que é o monólito com o maior desnível ali na serra da Estrela, um granito perfeito. E aí praticávamos escaladas, fazíamos vias. As vias são itinerários que já foram percorridos por outras pessoas, que foram catalogados, que foram inclusive dados nomes. Aprendi a colocar todos aqueles apetrechos de segurança nas fissuras, na rocha, todas aquelas manobras de corda. Foi realmente um verão fantástico.
É a recordação mais viva que tem da serra da Estrela?
Sim, foi a primeira com estas atividades. Depois, acho que regressei à serra da Estrela talvez mais umas 100 ou 200 vezes. Passei a regressar também de inverno, porque fiquei fascinado não só com a escalada em rocha, mas também com a progressão na neve e gelo, todos aqueles equipamentos. Eu estava muito interessado, tanto que depois evoluí rapidamente para os Alpes e fazer outras atividades. Descobri aí nos Alpes o fascínio da dificuldade de subirmos em altitude, porque subimos, o ar torna-se rarefeito e, ao contrário de muitos outros desportos, em que usamos apenas dois vetores, duas variáveis, que é a intensidade e a duração. Neste caso, esta densidade e duração, sempre que subimos mais 1000 m ou mais 2000 m ou 3000 m, tudo isto varia. Isso pra mim foi fantástico.
João, pra quem nos ouve, que atributos é que tem a serra da Estrela?
A serra da Estrela, primeiro, é nossa. No Portugal continental, é a mais alta. Depois tem bom granito. É um granito que, infelizmente, pela pouca altitude que tem, tem muitos líquens, está muito suja, mas há zonas desse granito que, durante o inverno, com as chuvas, com o vento, os líquens acabam por não se agarrar tanto. Mas é uma serra que é arredondada. Eu não me canso de a localizar quando viajo de avião e é fácil de a localizar. E depois tem aqueles vales rasgados que nos revelam que outrora, há muitos milhões de anos, haviam glaciares. Glaciares que desciam esses vales e que a dada altura arredondavam no mítico, clássico vale em forma de U. Portanto, é fácil do ar reconhecer todas essas características. Depois tem as gentes, os beirões são pessoas casmurras, são pessoas teimosas, mas se calhar é nesta teimosia que nós conseguimos atingir objetivos. Não desistir à primeira, não falhar, não vacilar, porque realmente desistir é a maneira mais fácil de resolver o problema. E eu, no fundo, acabei por ser educado também por estas gentes que parecem aparentemente rudes, mas que são pessoas fantásticas.
O João tem ligações familiares à Beira, ou não?
Não. As minhas ligações são com pessoas que conheci justamente nesse ano, pessoas da Guarda e com quem mantenho laços de amizade bastante profundos. Costuma-se dizer que a família é aquela que tem o nosso sangue, mas os amigos É aquela família que nós escolhemos.
João, há muitos ouvintes que não praticam nem montanhismo, nem alpinismo e que querem saber ou querem receber do João Garcia alguns conselhos de locais para visitar na Serra da Estrela. O que é que escolheria?
Na Serra da Estrela, o sub desporto que se pode praticar do montanhismo é o pedestrianismo, os passeios a pé. Mas o passeio a pé na Serra da Estrela não só está regulado, é preciso seguir itinerários que estão balizados, que são os chamados os PRs. Pequenas rotas, que normalmente têm aquelas marcas branca e vermelha. Tudo isso hoje em dia é informação que é possível encontrar localmente ou então na internet. Mas é preciso também ter a noção de que na montanha temos que ter sempre alguns cuidados e costumam ser sempre aqueles cinco mandamentos da segurança. O primeiro é nunca ir sozinho. O segundo é avisar sempre alguém por onde é que o grupo foi e a que horas é que é suposto regressar. O terceiro é justamente preparar essa marcha, ver a meteorologia, ver quantas horas são, levar comida, bebida. O quarto é justamente nunca levar pouca comida ou pouca bebida. E o quinto é não sobreestimar as nossas capacidades. Se virmos que é uma rota que se calhar vai durar muitas horas, temos no grupo pessoas que se calhar não estão tão bem preparadas, não estão tão bem equipadas, se calhar é preferível abdicar ou então encontrar um objetivo mais acessível. Portanto, estes seriam os conselhos que eu daria às pessoas que querem uma atividade de ócio na Serra da Estrela. Depois também há as comezainas. A Serra da Estrela também é muito conhecida pelo queijo, o queijo amanteigado, uma boa broa, um bom vinho beirão e eu acho que com estas três peças já é o suficiente para passar um serão animado e brincar com o sotaque das pessoas lá de cima, que dizem: "Bem hajam" e "Onde ides vós?" e aquela por ser português de Portugal e somos todos.
Muito bem, estamos a desvendar o Portugal secreto do alpinista João Garcia. João, tem algum hábito de verão que não falhe, independentemente do tempo e do lugar?
Não, eu acho que não sou assim tão uma pessoa de hábitos. Tenho hábitos em casa de pôr as coisas sempre no mesmo sítio, ao contrário do que as mulheres. A nível de verão, os meus hábitos estão mais controlados é pelo trabalho. Chega a primavera, vou para o Nepal, chega o verão, vou para o Paquistão, porque são as melhores temporadas de turismo ou mesmo de alpinismo nestes países. Nós sabemos que no verão, no Nepal, existem as chuvas da monção, portanto, é preferível ir antes ou depois, na primavera ou no outono. Mas a monção, como não chega ali ao extremo oeste já da Cordilheira do Himalaia, que na verdade é a Cordilheira do Karakórum, como não chega a monção, então poderemos visitar essas bonitas montanhas no verão. Portanto, o meu verão está condicionado mais pelo trabalho, não tanto por hábitos ou rituais.
Muito bem, Serra da Estrela, o Portugal secreto do alpinista João Garcia. João, muito obrigado.
De nada.
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