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Pedaço de terra pintado de negro reflectido no oceano, abalado desde sempre por tremores e tempestades. Nascido do centro da Terra há milhões de anos, toca o céu das nuvens brancas e das estrelas. Chamam-lhe a Ilha Montanha. E dito assim, é fácil adivinhar a ilha que encanta Luís Filipe Borges. Luís Filipe Borges, onde fica o teu Portugal secreto?

Na ilha do Pico, segunda maior do arquipélago dos Açores, grupo central, a pelo menos 1500 km de distância, feita do Oceano Atlântico, da capital.

E por que a ilha do Pico, Luís?

Porque sou um orgulhosíssimo açoriano, mas isso todos somos. Encantadíssimo pelas nove ilhas do arquipélago e com uma tremenda dificuldade em escolher a minha favorita, que vai mudando ao longo do tempo. E neste momento será a ilha do Pico, porque ela tem características que, no seu conjunto, talvez a tornem a mais impactante. Uma delas, que a distingue logo de várias ilhas, é a sua dimensão. A ilha do Pico é conhecida por Ilha Montanha ou Ilha Maior. E, de facto, é uma ilha onde se fazem viagens muito assinaláveis. É muito fácil no Pico conduzir durante 45 minutos, uma hora, coisa que é impossível de fazer em ilhas belíssimas, mas pequenas, como Santa Maria ou Graciosa, ou naturalmente a ilha do Corvo. E sendo uma ilha grande, é também uma ilha que tem muito por descobrir ainda. São Miguel, a ilha maior, é altamente recomendável, mas já é uma ilha talvez um pouquinho virada demais para o turismo, enquanto que o Pico é uma ilha que identificamos todos com a montanha mais alta do país, mas tem muito mais para ver e para fazer, e a maioria das pessoas ainda não sabe ou nem desconfia. É uma ilha, por exemplo, que tem meia dúzia de lagoas extraordinárias e estas lagoas não fazem parte dos tradicionais bilhetes-postais associados aos Açores.

Então faz de nosso guia. Que lagoas é que podemos encontrar na ilha do Pico?

As minhas favoritas são a Lagoa da Rosada e a Lagoa do Capitão. A Lagoa do Capitão, por falar em sítios secretos, é uma lagoa que eu recomendo que visitem na chamada hora mágica, porque além da beleza da lagoa em si, ela fica numa zona muitíssimo interior da ilha e o interior do Pico é um interior quase selvagem, sem presença humana, o que o torna ainda mais extraordinário de visitar, porque a ilha sendo enorme, tem um pouco menos de 15 mil pessoas. Portanto, as populações estão concentradas no litoral e chegar à Lagoa do Capitão na hora mágica. Normalmente ao fim da tarde, os Açores deslumbram particularmente e, no caso do Pico, a montanha fica totalmente descoberta. E nesse spot tem-se uma vista assombrosa, porque temos a lagoa à nossa frente e depois temos toda a montanha logo a seguir. De certos ângulos, aliás, é possível tirar fotos fantásticas em que a montanha, aquela pirâmide natural perfeita, é refletida na água. É um sítio que eu recomendo muito, ainda por cima, a princípio, estarão umas ovelhinhas também ali por perto a compor ainda mais este belíssimo cenário.

Será seguramente um belo postal. Luís, já subiste ao Pico?

Não, é a minha maior lacuna no que diz respeito ao arquipélago. É algo que eu quero fazer um dia, só que eu sou uma pessoa muito desastrada, sou uma pessoa que cai em casa, tropeça no gato, espalha-se na sala, faço muito este tipo de coisas. E então, para pessoas como eu, que nasceram sem sentido de equilíbrio, subir a montanha torna-se um bocadinho assustador. E então eu queria realizar o sonho de ser pai, primeiro, e depois-

Subir ao Pico.

E depois, mais tarde, com esse assunto tratado, um dia subir a montanha, que toda a gente diz que é tarefa para um dia, pelo menos, ir para subir e descer.

Luís Filipe, tu és açoriano, nasceste na Terceira. Quando é que foi a primeira vez que foste à ilha do Pico? Tens memória desse momento ou não?

Tenho. Já era bastante adulto. Eu terei ido ao Pico pela primeira vez por volta dos meus 27 anos, 28. Portanto, há 15 anos. Na altura, em trabalho para a RTP Açores, e foi dos trabalhos mais prazerosos, porque o objetivo desse trabalho era cinco dias a conhecer a ilha e a dá-la a conhecer. Lembro-me de ter tido a oportunidade de andar de moto quatro pelo interior da ilha e ter sido uma experiência de deslumbre e de adrenalina.

É um sítio muito conhecido também pelo seu vinho, o vinho do Pico.

Sim, os vinhos do Pico são cada vez mais conhecidos e apreciados Já vem do tempo dos czares russos. Os czares russos eram muito fãs das vinhas do Pico. As vinhas do Pico, aliás, são património mundial. Estamos a falar de uma área superior a 1000 hectares e outra das vistas absolutamente obrigatórias desta ilha. Ainda por cima, é importante dizer isto, o Pico fica numa zona do arquipélago que é popularmente conhecida como triângulo e que é composta por três ilhas que são, de longe, as três ilhas que estão mais próximas umas das outras nos Açores. Do Pico para o Faial distam cerca de 6 km, quase como Lisboa-Almada. Há muita gente que vive numa ilha e trabalha na outra, porque há travessias diárias e muito frequentes de barco. E depois a ilha de São Jorge está também muitíssimo próxima, uma viagem de 50 minutos de barco. E quando estamos na costa norte do Pico, temos sempre vista para os quase 60 km de comprimento de São Jorge, que é uma vista deslumbrante. E se estamos na Madalena, temos a horta, a cidade failense mesmo à nossa frente. Portanto, é um local do arquipélago onde o isolamento, no inverno, por exemplo, se sente bastante menos porque temos sempre vista para os outros vizinhos atlânticos e isso também contribui para vistas excepcionais.

É verdade que os habitantes do Pico são diferentes dos restantes açorianos ou não?

O açoriano em geral penso que se caracteriza pela sua resiliência, porque são praticamente seis séculos de distância, de intempérie, de sismos e de furacões, e isso naturalmente deve enrijecer o ADN, passe a expressão. Mas no Pico talvez esse caso seja particularmente fulgurante, porque o Pico tem a notável característica de ser a ilha geologicamente mais nova, é uma ilha adolescente. Foi formada há entre 300 a 400 mil anos. Para se ter uma ideia, a mais antiga, que é Santa Maria, tem entre cinco a seis milhões. Portanto, uma diferença gritante. E então o Pico era uma ilha assustadora quando os navegadores lá chegaram. Era uma ilha negra, era uma espécie de gigantesco torreismo de lava, e isso então fez com que fosse a última a ser habitada e fosse uma ilha com má fama durante bastante tempo. Era conhecida como a ilha do degredo, porque assustava, porque não tinha solo arável e porque era uma ilha para onde se mandavam os indesejáveis. E eu acho que isso tornou o picaroto ainda mais empreendedor e resiliente.

Isso nota-se?

Diz.

Perguntava-te se isso se nota, se isso se nota em quê.

Nota-se, exato. Eu ia dar o exemplo. Noventa e sete por cento da população do Pico integra o setor privado, que é uma porcentagem que não tem paralelo no resto do arquipélago. Por exemplo, no seu vizinho imediato, que é o Faial, penso que 51 ou 52% da população está direta ou indiretamente ligada à função pública. Portanto, há aqui uma diferença colossal. E o Faial, sendo uma ilha muito mais pequena, tem pelo menos 10 mil habitantes a mais. E essa iniciativa privada no Pico está bem patente, por exemplo, no setor de hotelaria e restauração. O Pico tem um único hotel clássico, um hotel no sentido tradicional do termo. E é um hotel antigo, que teve uma remodelação recente, muito interessante, que fica na Madalena. Tudo o resto, e é imensa, toda a restante oferta turística de hotelaria no Pico é alojamento local, turismos rurais e de habitação, com projetos de uma beleza singular, como por exemplo, as Lava Homes, na Terra Alta, Costa Norte, o Pocinho Bay, que fica cerca de uma dúzia de quilómetros da Madalena, a Aldeia da Ginjeira, a Aldeia da Fonte, sítios absolutamente encantadores e muitíssimo bem integrados na natureza. Projetos de sustentabilidade também. Ou seja, quem for ao Pico também pode ter esta certeza: não vai encontrar mamarrachos, por muito bem desenhados que fossem, não existem, pura e simplesmente.

Luís Filipe Borges, tu és conhecido por ser um bom garfo. Na ilha do Pico, o que é que nos recomendas?

Recomendo o Cela Bar. O Cela Bar é um bar-restaurante bastante conhecido, tem vencido uma data de prêmios internacionais, é uma construção que mistura pedra com madeira e tem umas linhas redondas absolutamente singulares e não só tem um ótimo restaurante como temos uma vista assombrosa para o vizinho Faial e para os ilhéus, deitado e de pé. Fica na Areia Alta. O Pico tem esta característica também, tem localidades com nomes poéticos: Terra do Pão, Criação Velha, Areia Alta E também recomendo o Magma, que talvez neste momento seja o melhor restaurante da ilha, onde é mesmo necessário marcar com muita antecedência. O Magma é o restaurante das Lava Homes, que são o sítio mais bonito onde já fiquei hospedado. E recomendo o Ancoradouro, que é já um clássico, é um restaurante de uma onda mais tradicional, muitíssimo recomendável também.

Ilha do Pico, nos Açores, o Portugal secreto de Luís Filipe Borges. Luís Filipe Borges, tens algum hábito de férias ou desta época de verão?

Sim, o meu momento favorito, que para mim é mesmo simbólico de férias, é quando começo a remexer as prateleiras e as estantes e faço a seleção de livros que vou ler nas férias. Adoro juntar esse grupinho de volumes que vai pesar bastante na bagagem. Aliás, eu vim do Pico precisamente há dias e fui com a companhia destes amigos feitos de papel, que são uma companhia ainda mais aliciante quando estamos na ilha, e eu não me poderia esquecer de dizer isto, estamos na ilha com mais zonas balneares de todo o arquipélago, que são mais de 80, que é outro atrativo fantástico. O Pico pede mesmo um carrinho e ir conduzindo a aventura e parando para descobrir recantos na costa, onde mergulhar e onde apanhar sol. E a ilha tem esta escolha enorme. Para conhecer os mais de 80 sítios, seria preciso ficar lá alguns meses. Infelizmente, a vida não o permite.

Claro. E já agora, qual é o melhor sítio para se ler um bom livro? Qual é a melhor zona balnear no Pico?

Vou dizer três. Vou dizer a Poça Branca, vou dizer o Canto da Areia, que é a única praia de areia da ilha, e vou dizer o Cais do Pico, em São Roque.

Muito bem, Luís Filipe Borges. Muito obrigado.

Foi um prazer. Obrigado eu.

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