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Tem uma enorme gratidão para com a natureza. Tanta, que há 22 anos detém um pedaço de Portugal onde faz crescer árvores e outras plantas. Ali, Bagão Félix dispensa o relógio, porque é a natureza que indica o tempo. E é ali, como dizia Miguel Torga: "Que se sente uma criatura entre criaturas". António Bagão Félix, onde fica o seu Portugal secreto?

O meu Portugal secreto é intimista. E como é intimista, eu escolho o Alentejo, Casa Branca, no Conselho de Souzel e o meu monte, onde já vou no verão e parte das férias e nos fins de semana, há 22 anos que assim o faço. E portanto, onde eu descubro e redescubro coisas para mim, detalhes interessantíssimos, e onde também me descubro e me redescubro. E essa sintonia entre as duas coisas, os segredos dentro de mim e os segredos que me surgem fora de mim, produziram um pouco esta ideia desta resposta.

O que já descobriu sobre si e sobre o mundo ao longo destes 20 anos aí no seu monte em Souzel?

Olhe, redescobri sobre o mundo, cada vez maior pertinência de uma célebre frase, que eu pelo menos gosto muito, do grande escritor russo Leo Tolstói, que dizia que: "Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia". Ou seja, se nós queremos ser universalistas, se nós queremos ter mundividência, o melhor é começarmos na nossa aldeia. Através do culto da simplicidade, do culto das coisas essenciais e do culto da relação entre nós e a natureza que nos envolve. E é isso que eu também dentro de mim, consigo de algum modo encontrar neste Portugal secreto que há pouco referi.

No seu monte, no Alentejo, António Bagão Félix, o que procura lá?

Eu já há muitos anos me dedico ao estudo autodidata de botânica e, portanto, lá tenho o meu laboratório, o meu museu, o meu jardim, nesse sentido. Enfim, em parte, o laboratório e tudo isso é uma metáfora para explicar que lá encontro a minha relação muito íntima e muito retributiva do respeito e da interligação com a natureza.

Mas o que faz? Faz herbários, por exemplo, estuda plantas?

Não, estudo plantas. Eu tenho cerca de 250 espécies diferentes, das quais cerca de 100 de árvores diferentes. E estudo-as.

Mas tem-nas mesmo plantadas, não é?

Sim, plantadas, claro. Onde tive sucessos, onde tive insistências de árvores que morriam, porque não morrem tanto com o calor, havendo água, como é o caso, morrem mais com o frio, ao contrário do que a maior parte das pessoas pensam. No Alentejo, algumas árvores e algumas plantas não resistem ao frio e à geada, mais do que propriamente ao calor. E portanto, tive sucessos, tive insistências, teimosias, também tive derrotas, a natureza derrotou-me, porque eu levei para lá espécies que de facto não eram as mais adequadas para o clima do Alto Alentejo, mas são experiências e as minhas árvores têm todas uma folha clínica. Onde eu escrevo tudo. E depois, através disso, escrevi livros sobre árvores e, por exemplo, no Facebook faço quase todos os dias uma publicação de uma espécie que tenho no Alentejo, a que chamei "O meu canto" ou "o meu encanto". Portanto, é o meu canto e encanto, simultaneamente.

O Bagão Félix é daqueles que tem uma relação muito próxima com as árvores, ao ponto de até as abraçar ou não?

Bem, as árvores têm uma característica diferente da nossa, entre várias características, há uma que eu considero que é muito interessante: é que as árvores não têm costas. E como não têm costas, ao abraçá-las, nós estamos a envolvê-la sem que possamos ser traídos pelas costas. Ou seja, desta maneira um pouco a brincar, eu disse que é importante criar uma relação de confiança. É claro que é uma relação de confiança no sentido tradicional do termo, mas é uma relação de confiança que resulta daquilo que se vivencia e que não se escreve, e que só nós depois somos capazes de fazer bem. Que é tratar aquela árvore ou aquela planta de uma determinada maneira. Eu estou tempos sem ir lá e às vezes verifico que elas sentiram a minha falta, porque já estão habituadas à hora e ao modo como rego, como as podo, como as trato. Há uma correspondência biunívoca entre o sentir delas e o meu objetivo de as cuidar bem.

Que grandes lições o contacto com a natureza lhe proporcionaram?

Em primeiro lugar, eu sou das pessoas que convictamente pensa que nós só somos dignos da nossa natureza humana se soubermos respeitar a natureza. O respeito pela natureza não é uma perspectiva discursiva, tem que ser autêntica, tem que ser vivida por factos, por testemunhos, por práticas, por comportamentos, por uma ética biocêntrica, não apenas uma ética antropológica que se centra no homem, tudo o resto é secundário, mas uma ética equilibrada na relação entre o homem e a natureza. É assim que eu penso, é assim que eu procuro, no meu microespaço, atuar. Deixe-me dizer uma coisa: eu às vezes estou com pessoas amigas ou conhecidas e faço uma pergunta muitas vezes, que é: "Você vive ao pé de um jardim, não é? Ou à frente da sua casa, quando sai da casa, tem uma árvore, não é? Qual é a árvore que tem à frente da sua casa, onde já vive há 20, 30, 40 anos?" E a maior parte das pessoas não sabe responder.

E é importante saber?

Não tem de saber o nome científico, que muitas vezes eu sei, e outras características da taxonomia botânica. Evidentemente que não. Mas é uma companheira. É uma companheira como, por exemplo, Anne Frank teve durante os dois anos que esteve escondida naquela casa com a sua família, tinha um castanheiro da Índia perto dela e no diário escreve, fala e transmite-se através da sua angústia, da sua ansiedade, com o castanheiro da Índia. Nós também precisamos disso, não apenas centrarmos exclusivamente em nós a ideia do mundo. E além do mais, deixe-me dizer o seguinte: eu faço até, como disse, por convicção, mas também por gratidão, porque se não fossem as árvores e as plantas, a flora, o mundo botânico, nós não teríamos condições para viver. São elas que nos fazem a troca absolutamente miraculosa através dessa coisa notável que é a fotossíntese.

E é isso que nos mantém vivos. Bagão Félix, se Portugal fosse uma árvore, que árvore seria?

Eu sinceramente acho que, além de ser uma árvore muito portuguesa, não apenas portuguesa, mas é uma árvore que traduz muito, em meu entender, a idiossincrasia portuguesa, que é a oliveira. Se reparar numa oliveira, e não é preciso ser milenar, uma oliveira com 50 anos, 40, 30. Se olhar para o tronco da oliveira, está lá tudo que nós somos, até do ponto de vista dos contrastes. Nós somos um povo simultaneamente alegre e triste, simultaneamente ansioso e às vezes relaxado, no sentido psíquico do termo. Mostramos sofrimento, dor e ao mesmo tempo somos capazes de as superar. O tronco da oliveira tem todos esses pontos que eu considero que são a tradução da idiossincrasia e da personalidade, em geral, do povo português.

Portanto, seríamos uma oliveira.

Sim, sem dúvida.

Em Souzel, há muitos ouvintes que nos estão a ouvir e estão a perguntar como é a região de Souzel, o que se faz em Souzel. Bagão Félix, faça um pouco de guia turístico para nós em Souzel e no distrito de Portalegre.

Souzel tem várias freguesias. A freguesia que eu pertenço, eu já digo pertenço porque de algum modo já estou a lentejanar há 22 anos. Não sou natural de lá, sou de Ílhavo, mas eu sou um animal de sequeiro, não sou um animal de regadio, não gosto de praia. Portanto, tudo que é campo para mim tem um sabor especial. Eu estou em meio entre a sede do Conselho de Souzel e a sede do Conselho de Aviz. Desde logo tem uma característica muito interessante, pessoalmente falando, é que lá faço um confinamento completamente desconfinado. O que eu quero dizer com isto? Lá faço praticamente tudo que faço agora é o que faria se não houvesse esta questão da pandemia. Respiro, ando no campo, trabalho. A única coisa que faço normalmente é ir tomar um café, a um dos cafés da Casa Branca, onde falo com pessoas simples, falamos das coisas mais normais da vida, com pessoas que têm vida, e que não estão propriamente ali a fazer uma peça de teatro, que na cidade é mais frequente. Como dizia, aliás, Miguel Torga, ele dizia uma frase que eu acho belíssima e muito afirmativa, que é: "Na cidade somos uma ficção entre ficções. Na aldeia somos uma criatura entre criaturas". E é verdade. Na aldeia é como uma criatura. Na cidade, às vezes, nós somos ficções, somos peões, somos pontos visíveis ou invisíveis na vida da cidade. E, portanto, o que eu faço? É isso. Eu levanto-me muito cedo, gosto de nascer com o sol todos os dias. Agora está muito calor, eu aproveito o calor para estar dentro de casa, para trabalhar, para escrever, para ler, para fazer coisas, porque lá o tempo tem outra medida. Nós não somos algemados pelo Chronos, não somos algemados pelo ponteiro dos relógios e, portanto, eu próprio não ando com relógio Porque não é preciso. Nós temos outros indicadores. O céu é aberto, à noite veem-se as estrelas. É um regresso às coisas simples e eu dou cada vez mais valor às coisas simples, que são aquelas que primeiro estão dentro de nós, através das quais nos ouvimos ser. E são aquelas que eu tenho um prazer muito grande em poder transmitir às minhas netas, como transmiti às minhas filhas. E a ideia de comunhão, de ágape, quando a minha família está lá toda, normalmente só estou eu e a minha mulher, mas depois vão os filhos, os genros, as netas, é uma ideia de ágape, no sentido em que com as minhas netas é ir buscar os ovos das galinhas, é tratar do cão, é ver os gatos, é plantar uma pequena árvore ou um arbusto. Essa redistribuição, permita-me dizer, sem qualquer ideia megalómana, essa redistribuição de sabedorias da vida, para mim é bastante retributiva e eu sei que para as minhas netas, neste momento, com idades todas elas diferentes, é também muito compensador. E elas adoram esta ideia do Alentejo, esta ideia da Terra, esta ideia do que está para além do biombo da cidade.

Sousel, no Alentejo, onde não há tempo, o Portugal secreto de Bagão Félix. Bagão Félix, tem algum hábito ou algum ritual de verão que não prescinda de realizar?

Não, não tenho um hábito de verão. Agora tenho um hábito que quando chego ao monte, lá no Alentejo, e depois vou visitar toda a minha parafernália botânica cá fora. Às vezes demoro uma hora e meia, duas horas, duas horas e meia e depois, seja qual for a hora, depois é que vou para dentro de casa. Ou seja, eu vou para dentro de casa, fora de casa, e a seguir é que vou para casa, dentro de casa.

E nessa ronda inicial que faz pelas suas árvores, fala com elas?

Falo com elas sem falar, mas de facto há. Às vezes estou comigo mesmo a próprio a falar.

Sozinho?

Diga, desculpe.

Sozinho e a comentar: "Estás tão crescida." É isso?

Sim, e a comentar. Aí sim, agora não é propriamente falar com elas, é falar delas dentro de mim. Enfim, cada um dirá como entender, mas é um ritual muito interessante, porque as árvores têm uma forma de viver e de revivescência que não é igual à nossa e, portanto, têm o seu tempo, têm a sua cadência, têm o seu ritmo, têm a sua harmonia e com o tempo nós aprendemos. E eu procuro ter ainda uma razoável memória, mas tenho, sobretudo, uma muito boa memória fotográfica. Ou seja, se eu estiver 15 dias sem ir e quando chego lá, eu noto ao pormenor as diferenças em relação à quinzena anterior em que lá estive. Isso para mim é muito gratificante. Digo isto com muitas aspas, como é óbvio. É como se tivesse a assistir a partos sucessivos de novos nascimentos, seja de uma planta, seja de um fruto, seja de uma flor, seja de uma folha, seja no rebento de um caule, etc. Portanto, eu tenho tudo isso filmado dentro de mim e na visita seguinte eu tenho a satisfação de ter contribuído para mais vida e, de algum modo, mais vida dentro de mim, porque eu não me considero acima de tudo que me envolve. Eu sou eu e as minhas circunstâncias e muitas das minhas circunstâncias têm a ver com a natureza.

E é isso que nos molda. Bagão Félix, muito obrigado por ter revelado o seu Portugal secreto.

Foi um gosto.

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