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Fica situado numa das pontas do país, num distrito que é todo ele de extremos, de paisagens altas e profundas, de terras quentes e frias. Capicua, qual é o teu Portugal secreto?

É o Planalto Mirandês.

Por alguma razão especial?

Sim, porque tenho uma ligação familiar, a família do meu pai é toda de Sendim, Miranda do Douro. Então desde miúda que, não passava lá férias longas, mas íamos lá várias vezes e aprendi a gostar muito daquela paisagem agreste e daquela gente acolhedora. E de facto é um sítio ainda bastante escondido, porque há muitos portugueses que não conhecem a zona de Miranda e do Planalto Mirandês. E achei que Portugal escondido rima com interior, com Trás-os-Montes e com aquela zona que devia ser mais conhecida e que tem tanta coisa surpreendente para mostrar.

Então vamos lá descobrir o que é que tem o Planalto Transmontano para mostrar.

Se eu puder fazer em jeito de roteiro algumas sugestões, diria que tem boa comida. Aliás, a posta mirandesa famosa só é posta mirandesa lá, portanto, é inigualável. É preciso mesmo ir, por exemplo, à Gabriela, que é o restaurante em Sendim, que tem a melhor posta mirandesa do mundo e que é inconfundível pelo seu molho avinagrado, pela qualidade da carne. E eu nem sou carnívora, praticamente não como carne, mas abro exceção quando vou a Sendim. E depois tem muita coisa para ver, nomeadamente a aldeia de Picote, que é muito bonita e que tem um miradouro natural muito bonito, que vale a pena, que é o Miradouro da Fraga do Puio, sobre o Douro e sobre as arribas do Douro. Se tiverem sorte, podem ver as aves de rapina à espreita. Depois também é interessante ir ao Santuário dos Burros de Tenor, que é uma outra aldeia ali ao pé, que tem uma reserva de burros mirandeses, que é aliás uma espécie em extinção. Eles têm dezenas e dezenas de burros que são muito simpáticos e que é engraçado visitar e apadrinhar. Por acaso este ano não aconteceu, mas tem uma vez por ano, normalmente, um desfile de burros mirandeses e de gaiteiros, que chamam o Burril Gaiteiro, por Tenor, que também é uma boa ocasião para ir lá visitar a aldeia. E também é engraçado fazer uma volta de barco pelo Douro Internacional, porque se consegue perceber a paisagem natural a partir do rio, que é uma perspectiva que normalmente não se tem e, portanto, também é giro fazer esse passeio. E portanto, acho que andar pelas aldeias, ir a Miranda, Miranda também é interessante. Comer bem, visitar o Douro, são argumentos bons para ir conhecer aquela zona que ainda é tão desconhecida da maioria dos portugueses e que é mesmo interessante em termos culturais e gastronómicos também.

Capicua, tu dizias no início que a tua família é originária de Sendim, em Miranda do Douro. Era um local onde tu ias passar férias a miúdo. Que memórias é que guardas dessas férias de criança, em Sendim?

Andar de burro ou de cavalo pelo campo. Ainda muito pequenina. Eu gosto muito de burro, que é o meu animal favorito. E então ficava encantada de ir ver a padeira Adelaide, que ainda é prima afastada do meu pai, a fazer pão no forno de lenha e aquele cheiro a lenha e a pão de centeio, pão transmontano, que é uma coisa bastante especial. Até hoje gosto muito de ir visitá-la. E depois também toda a questão humana, que as pessoas são muito acolhedoras, são muito fraternas, abrem a cozinha, abrem a sala e querem oferecer comida. Aquela coisa muito transmontana de receber. E também acho que é interessante a parte musical, das gaitas de foles, da música de tradição celta. Há o Festival Intercelta também em Sendim. Portanto, também há uma coisa específica daquela região que tem a ver também com a música e com a língua. As pessoas falam português, mas há muitas pessoas que ainda falam mirandês. E eu lembro-me de ouvir os velhinhos, tratados por tio. Lembro-me, por exemplo, o tio Vili o Pepe, que eu era muito pequenina e ele sentado à porta da sua casa em Sendim a falar mirandês com o meu pai. E lembro-me do meu pai me dizer que ele nunca tinha visto o mar e aquilo me surpreender muito, porque de facto Miranda ou aquela região, há uns anos atrás ainda mais, era muito longe do mar, não havia autoestrada. Demorava-se muitas horas a chegar e muitas daquelas pessoas da aldeia tinham essa característica de falar com aquela língua, de ser daquela região, dava-me a impressão, ao ponto de estarem muito longe do meu Portugal, que era o Portugal da beira-mar, do Porto e da beira-mar. E eu senti desde miúda que aquilo era um lugar distante, em que as pessoas também tinham uma forma específica de falar, tinham uma cultura à parte. E lembro-me bem, hoje em dia já não se sente tanto isso, obviamente, é muito mais perto em termos de Geográficos, porque é mais fácil chegar. Lembro quando era miúda e ia para lá, demorávamos horas de carro e eu enjoava muito. Lembro-me de ser uma longa viagem. Hoje em dia já não, há a autoestrada até Bragança e é mais fácil chegar. Mas lembro-me dessa distância, dessa magia de estarmos num lugar diferente do litoral. De sentir aqueles senhores transmontanos de outro tempo, que falavam outra língua e que tinham outra cultura, quase como se fosse a aldeia do Asterix. Um enclave.

É um sítio, Capicua, onde tu vais com alguma regularidade ou não?

Menos do que eu gostaria. Gostaria de ir uma vez por ano, mas não acontece sempre. Por acaso, no ano passado estive lá. Este verão ainda não sei se vou, mas gostava muito de ter mais aqueles encontros de família que tentamos organizar e que nem sempre conseguimos manter todos os anos. Mas gostava, até porque gosto de, por exemplo, também visitar as lojinhas. Em Sendim tem duas ou três lojinhas com artesanato típico, mas não é aquele artesanato já muito urbanizado. É aquela coisa da senhora que vende os tapetes feitos em tear ou vende ou faz aquelas meias de lã de ovelha crua. Aquelas coisas típicas que são engraçadas e que já não se vê tanto. Eu, pelo menos agora no Porto, sinto que as lojas já estão muito para inglês ver, estão um bocadinho plásticas e mesmo o artesanato, que supostamente era típico, passa a ser um bocadinho-

Industrializado

...comum demais e industrializado. Então é fixe, é refrescante para mim chegar lá e ver aquelas senhoras que fizeram elas próprias as meias, que as vendem e que fazem o seu negócio com aquilo que há de particular naquele lugar. Isso para mim também é interessante. Mas sim, gostava de ir lá com mais regularidade, mas normalmente no verão, ao contrário deste ano, tenho os fins de semana normalmente ocupados e o verão é uma fase de grande intensidade de trabalho, então nem sempre consigo ir lá todos os anos.

Ok. E mirandês, tu falas mirandês ou não?

Não, não falo. O meu pai às vezes diz umas coisas que ele aprendeu com os pais dele, algumas expressões, mas não falo mirandês.

Mas era uma hipótese? Por exemplo, uma música em mirandês?

Não, não tenho essa fluência, nem nada que se pareça. E também acho que para fazer aquilo que eu faço, precisava de ter uma fluência que não tenho. E há bastante música boa em mirandês, não preciso de dar o meu contributo.

Capicua, foi a pensar no Planalto Transmontano e em Miranda do Douro e em Sendim, que escreveste a música "Casa no Campo", ou não tem nada a ver?

Não, a "Casa no Campo" é uma utopia que pode existir em qualquer zona, até dentro da cidade, como eu digo na própria letra. Mais uma utopia familiar e afetiva do que propriamente uma questão rural versus urbano. Mas sim, em Trás-os-Montes ainda há muitos sítios em que é possível ter esse estilo de vida mais tranquilo e mais sintonizado com os valores da ecologia, da paz na convivência e um ritmo mais tranquilo de estar. Às vezes nas cidades é mais difícil, mas também é possível e eu tento fazer isso enquanto aqui estou. Quem sabe um dia vá morar para Trás-os-Montes, não sei.

É uma hipótese?

Não sei. Eu sempre disse que um dia destes ia morar para o norte, mas não sei se Trás-os-Montes, mas é possível.

Mas vias-te a morar em Trás-os-Montes?

Via-me a morar em Trás-os-Montes, se calhar não no Planalto Mirandês, mas no Trás-os-Montes mais perto do Marão, que é mais perto da minha terra, que é o Porto. E que seria mais fácil fazer essas escapadinhas ao Porto quando fosse necessário. Mas acho que Trás-os-Montes tem muita coisa interessante e tem qualidade de vida para quem consegue trabalhar na região, porque de facto, ainda há muita falta de oportunidades para o interior em termos profissionais e portanto, quem tem a sorte de conseguir manter uma carreira, trabalhar e ter um ganha-pão na região, de facto consegue ter uma qualidade de vida ótima, porque além de ser um bom sítio para viver, os preços das casas, o estilo de vida é muito mais comportável do que nas cidades, principalmente do Porto e Lisboa. Obviamente. E depois também é um sítio que, em termos ecológicos, está mais protegido das alterações climáticas, é uma zona que tem, nomeadamente ali a zona de Vidago, Chaves, etc, é uma zona que tem muita água e água boa, muitas águas termais, e eu gosto de termas e portanto acho que ali também há muito potencial. E tem paisagens incríveis, do Alvão ao Planalto Transmontano. Há ali muita coisa para explorar e muita comida boa, muita gente simpática e hospitaleira, portanto há muitos motivos para se estar bem em Trás-os-Montes. Tendo capacidade de trabalhar na região. Infelizmente, não é uma coisa que aconteça a toda a gente e é por isso que há muita gente que se vê obrigada a sair e vir para o litoral, infelizmente, à procura de mais oportunidades.

Vou fazer-te uma maldade se te pedisse uma rima repentista sobre Trás-os-Montes e Miranda do Douro?

Eu só tenho que me fazer rimas repentistas. Acho que é melhor nem tentar, porque vai sair uma rima de manjerico e já passou o São João.

Capicua, tens algum ritual, algum hábito de verão do qual não prescindas nas tuas férias?

Sim. Até é estranho dizer isto depois de uma conversa sobre os encantos de Trás-os-Montes e do planalto transmontano, mas o meu ritual de férias é a praia, porque para mim, férias sem praia não sabem a férias. Para mim, o ritual é estender a toalha na areia e ficar a ler debaixo do guarda-sol e dar muitos mergulhos no mar. Esse é o ritual. Para mim é essencial para fazer o reset, para conseguir esvaziar o pensamento e me sentir relaxada e em paz. E o sítio onde sou mais feliz é na praia e portanto não prescindo desse ritual.

Capicua, obrigado por partilhares conosco o teu Portugal secreto.

Obrigada eu. E espero que este ano toda a gente vá passar férias em Portugal. Espero eu. Que se encantem com o planalto mirandês, que é uma boa sugestão, e que desfrutem tanto quanto eu quando lá vão. Um beijinho.

Obrigado.

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