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Olá, seja bem-vindo a mais um episódio de "O Valor da Floresta", o podcast do Observador e da Navigator. Eu sou a Maria João Simões e nos próximos minutos vou conversar com Paula Guimarães, diretora de sustentabilidade da Navigator. Bem-vinda.
Bom dia, Maria João.
Obrigada por se juntar a nós.
Bom dia e muito obrigada por este convite.
Obrigada nós.
Muito bom falar sobre este tema.
É mesmo, importantíssimo. Esta semana olhamos para a floresta como ativo estratégico no novo quadro de reporte de sustentabilidade, que obriga as empresas a avaliar e comunicar os impactos e dependências associados à natureza. E Paula Guimarães, isto inclui os serviços prestados pelos ecossistemas florestais. Como é que tudo isto depois se coloca em prática?
Eu acho que para quem está em um setor de base florestal, diria que isto tudo se coloca em prática de uma maneira muito orgânica, muito natural. E o fato de neste novo quadro de reporte, haver uma norma que é dedicada à biodiversidade e aos serviços dos ecossistemas, acaba por pôr em evidência a importância de tratar este tema de uma forma integrada com o tema da gestão florestal. Portanto, faz tudo muito sentido. Mas se calhar importava começar por falar do que é isto dos serviços de ecossistemas, porque muitas vezes as pessoas não sabem ou até eventualmente podem confundir conceitos. E uma coisa que é importante, e este tema dos serviços dos ecossistemas associados à floresta já é um tema amplamente reconhecido, inclusive na leitura científica, em frameworks, como por exemplo, da plataforma intergovernamental sobre biodiversidade e serviços dos ecossistemas, e eles estão associados em quatro categorias principais, sendo que uma delas é precisamente a dos serviços de aprovisionamento, também esses são serviços do ecossistema, e desde logo, um dos serviços é o fornecimento de madeira. Portanto, as pessoas às vezes têm uma ideia um pouquinho idílica, romântica, dos serviços dos ecossistemas, mas fornecer madeira é também um serviço dos ecossistemas, e claro que fornecer outro tipo de produtos lenhosos ou não lenhosos, como a cortiça, os cogumelos, os frutos, etc. E depois, claro, temos os tais outros serviços de regulação, como por exemplo, regulação de processos associados ao clima, porque as árvores das florestas sequestram dióxido de carbono.
Temos falado muito disso.
Exatamente, armazenam carbono e, portanto, têm aqui um efeito incrível no combate às alterações climáticas, mas também o controle dos ciclos da água, da erosão do solo, os serviços de suporte, portanto, associados ao solo, também os ciclos de nutrientes, o serem habitat para as espécies e, por fim, os serviços culturais, que são aqueles que se calhar as populações mais urbanas conhecem melhor, que no fundo, as florestas acabam por ser um meio de recriação e ecoturismo, por vezes até de educação ou inspiração científica ou simplesmente de valor estético e paisagístico. Portanto, todos estes são serviços dos ecossistemas e quem está neste setor consegue percebê-los como um todo, incluindo o fornecimento de madeira.
O fato de as empresas terem de comunicar os impactos e dependências associadas à natureza, obriga que as empresas repensem a sua estratégia, e isto não só por causa das alterações climáticas, mas destas novas regras.
Isso depende do grau de maturidade das empresas, na forma como se relacionam com a natureza. Quer dizer, por vezes, não se trata necessariamente de alterar a estratégia, mas de ajustar simplesmente a forma como comunicam essa estratégia, como a vivem, como a têm declinada, por exemplo, em procedimentos, em recolha de informação e ajustar tudo isto àquilo que são as necessidades de reporte do tal novo quadro atual. No nosso caso, o que fazemos é adotar um modelo de gestão florestal sustentável, que já definimos e implementamos há muito tempo. Este modelo está apoiado na avaliação sistemática de impactos ambientais e socioculturais potenciais, portanto, olhando para as nossas atividades e operações, identificamos os potenciais impactos e depois definimos um sistema de gestão em que temos uma hierarquia de mitigação destes impactos e definimos as boas práticas de gestão para os mitigar e aproveitar também oportunidades que surjam. Neste modelo de gestão florestal, nós incorporamos a nossa estratégia de conservação da biodiversidade, porque aqui, falando dos serviços do ecossistema, é importante falar da estratégia de conservação da biodiversidade, e incorporamos também a monitorização de um conjunto mais abrangente de indicadores, não só os indicadores da tal biodiversidade e serviços de ecossistemas, habitats, espécies, etc, mas também indicadores de produção, de produtividade, de identificação, de importância para a conservação, de saúde e vitalidade dos ecossistemas, enfim.
Uma complexidade.
Exatamente. E este sistema, este modelo de gestão, no nosso caso, já está certificado. Nós obtivemos a nossa primeira certificação da gestão florestal em 2007 e temos toda a área que gerimos em Portugal, cerca de 109 mil hectares, certificada pelos dois principais sistemas há muito tempo.
É por aí que vamos. Sabemos que a Navigator gere uma grande área da floresta em Portugal, cerca de 1,2% da área total do país. Como é que se protege a floresta ao mesmo tempo que se tira partido dela? Como é que se encontra aqui o equilíbrio certo? Esta é a grande questão.
Exatamente. Então, como dizia, no nosso modelo de gestão florestal, começamos por fazer a tal avaliação prévia de impactos e portanto, temos uma matriz que está definida, que construímos com intervenção, com apoio e envolvimento de stakeholders internos e externos. Nós trabalhamos também com especialistas e até com envolvimento de outro tipo de organizações, incluindo organizações não governamentais. Portanto, temos esse mapeamento dos impactos potenciais Fazemos depois uma confirmação em terreno. Antes das nossas operações mais relevantes, fazemos uma confirmação em terreno com as equipes de projetos, com os técnicos florestais, tudo isso. E depois, claro que, perante as condições locais, nós adaptamos os nossos modelos de gestão e aplicamos localmente as melhores práticas. Sempre que necessário, também consultamos as nossas partes interessadas locais ou regionais. E tudo isto acontece porque nós temos o tal mapeamento à partida. Nós fazemos a avaliação, conhecemos a avaliação das nossas dependências, e obviamente que se nós dependemos da matéria-prima madeira, importa saber que dependemos de florestas saudáveis para o nosso negócio principal.
Exatamente.
E isso é uma dependência crucial de fatores ambientais e importa-nos ter uma precipitação adequada, ter boas condições de solo, de biodiversidade, porque tudo isso significa equilíbrio. Conhecer impactos, riscos, etc., também nos permite ter práticas adequadas para que todo o ecossistema mantenha a sua resiliência, contribua positivamente para as paisagens em que se inserem, para a coesão territorial e o ambiente tem a outra face da moeda, que são as pessoas. E, portanto, o envolvimento das pessoas, das comunidades, a geração de emprego local, tudo isso faz parte e acaba por ser impactado. No nosso caso, gostamos de dizer que positivamente pela forma como gerimos os nossos espaços florestais. Por isso, eu gostava só de sublinhar que este tal equilíbrio, a forma de gerir para a produção, mas ao mesmo tempo garantir o tal equilíbrio, a conservação de valores naturais, passa pela conciliação de objetivos. Nós temos objetivos de produção, sempre conciliados com objetivos de conservação. As nossas florestas para produção de madeira são florestas plantadas, mas pelo modelo de gestão florestal que implementamos, olham para o ecossistema como um todo e geram um impacto, que nós procuramos que seja positivo, a nível da paisagem. Portanto, aqui a palavra-chave é gestão. E gostava só de acrescentar um detalhe. Eu tenho estado a falar de paisagem porque nós somos efetivamente o maior proprietário e gestor florestal em Portugal, mas nós não nos limitamos às fronteiras, entre aspas, da nossa floresta. Nós interagimos muito com os outros agentes do setor e já, de há muito tempo para cá, vimos implementando programas que visam, precisamente esta palavra-chave, a gestão. Procuramos fazer aqui a transferência de conhecimento, envolver-nos com outros agentes do setor e temos uma série de programas específicos que vão desde apoio a produtores, fornecedores e prestadores de serviços florestais para a gestão sustentável, transferência de conhecimento e capacitação. Fazemos também o apoio através de financiamento ou apoio técnico, prevenção e combate a incêndios e outras iniciativas relevantes, até mesmo do ponto de vista da literacia para a floresta.
Isso é muito importante. Claro, sim.
O apoio é muito diversificado, vai desde formação até criar condições para uma gestão agrupada. Como sabemos, Portugal é um país essencialmente de floresta privada, com uma dimensão média de propriedade pequena, muito pequena, a dimensão predominante, de maneira que se impõe, para uma boa gestão florestal, que haja uma gestão agregada. E nós temos tido um papel muito ativo nesta mobilização do setor, no sentido de fomentar boas práticas, fazer transferência de conhecimento. Nós temos um instituto de investigação e desenvolvimento na empresa, o Instituto Raiz, orientado não só para as práticas florestais, mas também para o desenvolvimento tecnológico e da bioeconomia. E fazemos esta ponte com o setor e o nosso último programa, o Clube Produtores Florestais, é muito a face desta-
É o espelho disto, não é?
Exatamente. Foi lançado há um ano e tal, já vai com quase 400 membros, um investimento de 600 mil € em volume de negócios e temos aqui uma série de benefícios que vamos colocando à disposição dos produtores que se queiram juntar a nós.
A Paula Guimarães é diretora de sustentabilidade da Navigator. Como é que uma empresa destas lida com a pressão de usar recursos naturais e, ao mesmo tempo, proteger a biodiversidade? Já nos foi dando aqui algumas ideias.
A pressão não é nossa.
É da natureza .
Não, a produção de recursos naturais, quer seja para utilização para fins de subsistência ou para fins econômicos, que é o caso das empresas, e a proteção da biodiversidade, não são funções antagônicas ou mutuamente exclusivas. As duas podem e devem coexistir. E voltando outra vez à referência ao nosso modelo de gestão florestal, nós lidamos muito bem, porque fazemos a tal conciliação. Vemos aqui não funções antagônicas, mas absolutamente complementares e a nossa abordagem de gestão é precisamente nesse sentido. Procuramos gerir de maneira adequada os impactos, as dependências, os riscos e as oportunidades que estão identificados, não só a nível do nosso modelo de gestão florestal, mas agora também na transposição para o referencial normativo que assim o exige. Temos uma abordagem multifacetada, essencialmente em três vertentes: a vertente da gestão florestal sustentável, em que priorizamos práticas sustentáveis que promovem florestas saudáveis, maximizando o tal sequestro de carbono, como uma ação positiva relativamente às alterações climáticas, mas também fomentando a biodiversidade, o que ajuda a fortalecer a resiliência das nossas florestas às alterações climáticas e também a combater alguma vulnerabilidade a interrupções na cadeia de abastecimento, que é essencial para os negócios. Mas também apostamos no aprovisionamento responsável, aquilo que vai para além do fornecimento de madeira a partir das nossas próprias florestas. Adquirimos madeira de uma forma responsável, fazendo os tais pontos com os nossos fornecedores, procurando que a madeira seja, de preferência, de origem certificada e aí temos contribuído através dos programas que referi, mas também fazemos planeamento de cenários. Nós não olhamos só para o presente, estamos muito apostados em olhar para o futuro.
Claro, as metas.
Exatamente. Planeamento de cenários, perceber quais são os possíveis impactos de alterações climáticas, de uma série de fatores que nos devem ajudar a antecipar riscos futuros e, ao mesmo tempo, explorar oportunidades que este setor oferece, de facto, porque este setor é muito importante como fornecedor de uma matéria-prima de eleição para a tal bioeconomia.
E há novas ideias ou tecnologias a serem usadas na forma como gerem a floresta, Paula?
Claro que sim, e felizmente que sim. Normalmente, as pessoas tendem a pensar que num setor primário, isso não acontece. Mas, de facto, tem-se vindo a desenvolver e a utilizar tecnologia cada vez mais moderna, tendo em consideração os princípios da sustentabilidade e os desafios que enfrentamos todos, e que é utilizada desde o planeamento das operações até à sua implementação nas plantações ou na conservação de valores naturais. E só para dar alguns exemplos, já há muito que vimos utilizando sistemas de informação geográfica, georreferenciação, aplicações para fazer um inventário florestal, para percebermos as existências, aquilo que existe na floresta, para além de fazermos aquelas monitorizações com transectos no terreno, em que percorremos as nossas áreas. Já utilizamos também armadilhas fotográficas, câmaras fotográficas de infravermelhos para capturar imagens de fauna, porque os animais não estão à nossa espera para serem fotografados, e até inovação em máquinas e equipamentos com diversos objetivos e que vêm também contribuir para esta modernização do setor. E há outro tema emergente agora, que é o da saúde do solo e estamos também envolvidos num projeto que nos vai ajudar a encontrar aqui também uma maior eficiência de utilização de fatores biológicos na resiliência das plantas, na melhoria da saúde do solo, porque só com o solo saudável é que nós também conseguimos ter boas produções e equilíbrio dos ecossistemas. Portanto, sem dúvida que a tecnologia também se utiliza na gestão da floresta.
Se tivesse de deixar uma mensagem sobre o valor da floresta e o papel das empresas, qual seria?
Seria que a floresta é um ativo natural absolutamente estratégico. As florestas geridas de forma sustentável são uma peça-chave para alcançar as metas de descarbonização do país e da Europa, porque, por um lado, sequestram carbono, como já dissemos, mas por outro, fornecem matérias-primas que são naturais e renováveis, permitindo substituir outras de origem fóssil e isso coloca-as no centro daquilo que nós queremos que seja uma transição para uma bioeconomia circular e uma economia de baixo carbono. A floresta é, sem dúvida, uma aliada decisiva no combate às alterações climáticas e um ativo estratégico para a competitividade de quem integra soluções baseadas na natureza, que é o nosso caso. As empresas têm aqui um papel essencial, mais até do que os cidadãos, porque temos capacidade de investimento, escala e capacidade de influência nas cadeias de valor. E só funcionando numa ótica de cadeia de valor, o impacto será realmente importante. Há uma nova consciência na Europa e no mundo.
Ainda bem que é assim.
E esta nova consciência de que temos que pôr a natureza no centro das decisões, dá outra visibilidade ao setor florestal e dá a perceber o quão essencial é para este futuro e, portanto, a Comissão Europeia com o seu roadmap para os créditos da natureza, que foi lançado agora no início de julho, vai ser precisamente um passo nessa direção, porque vai ajudar a reconhecer o valor dos ecossistemas, a criar mecanismos que recompensem quem os protege, como os produtores florestais, os agricultores, as empresas responsáveis e tudo isto, tal como dizia Jessica Roswell, a comissária europeia do ambiente, resiliência hídrica e economia circular, ela tem uma frase que resume tudo. Ela diz que o objetivo da Comissão Europeia era trabalhar em harmonia com a natureza e fazer dessa relação uma oportunidade para uma economia resiliente e competitiva.
Resume muito bem.
Resume muito bem, está muito alinhada connosco e essa é a mensagem que deixo: valorizar a floresta e integrar a natureza na estratégia é hoje uma parte essencial do papel das empresas.
Paula Guimarães, foi um gosto conversar consigo. Obrigada pela partilha.
Obrigada.
Eu sou a Maria João Simões. Obrigada pela companhia. Marcamos encontro daqui a 15 dias para um novo episódio do "Valor da Floresta", uma iniciativa do Observador e da Navigator.