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Olá, bem-vindos ao segundo episódio do programa "Only the Best". Eu sou Rui Ramos, historiador, e comigo está João Carvalho Dias, diretor adjunto do Museu Calouste Gulbenkian. Já sabe, este programa é quinzenal e resulta de uma colaboração entre o Museu Calouste Gulbenkian e a Rádio Observador. Pode ouvi-lo aqui na Rádio Observador e em podcast. O objetivo é falar da história por detrás de uma das mais importantes coleções privadas de arte de todos os tempos, a coleção que o homem de negócios de origem armênia Calouste Sarkis Gulbenkian reuniu durante uma vida inteira e que está hoje guardada e exposta no Museu Calouste Gulbenkian, em Lisboa. "Only the Best", o título deste programa, refere-se a uma frase de Calouste Gulbenkian que resume o critério que ele usou para fazer a sua coleção. Vamos continuar a seguir Gulbenkian nesse percurso de colecionador, a propósito de algumas das mais interessantes peças da sua coleção e descobrir de onde vieram as peças, o que motivou o interesse de Gulbenkian e como foram adquiridas. São histórias fascinantes que os ajudarão a olhar de uma nova maneira para o Museu Calouste Gulbenkian em Lisboa. E hoje vamos recuar ao Egito Antigo para falar de uma das grandes aquisições de Gulbenkian, a da coleção do reverendo William MacGregor. E bem, muito do colecionismo é isto: colecionadores que compram as coleções de outros colecionadores. Agora vamos tentar saber tudo. Quem era o reverendo, o que era a sua coleção, por que interessou Gulbenkian e como é que foi adquirida. João, guie-nos em relação a estes mistérios.
Vamos então tentar. Talvez começar por caracterizar a coleção. Ela é constituída verdadeiramente em dois momentos, sendo o primeiro entre 1907 e 1921, e depois eu diria que há o segundo momento, que é o de 1922. Claro que ele depois de 22 continua a comprar, mas continua a comprar já sob a tutela, digamos assim, a orientação de Howard Carter. Portanto, temos um primeiro momento até Howard Carter e o segundo momento depois de Howard Carter. Antes de Howard Carter, nós temos um colecionador errante, que procura no mercado algo que lhe interessa, algo que apela aos seus sentidos. Ele tem bons marchands, boas empresas, digamos, e muito conhecedoras, por exemplo, a Spink & Son é fundamental, e os Duveen.
Era um mercado muito organizado, não é?
Um mercado muito organizado, que já vinha desde as campanhas napoleônicas.
Exatamente.
E portanto, que de alguma forma começa a inundar o Ocidente de artefatos. Até essa época era possível trazê-los com muita facilidade do Egito. E portanto, mais tarde, quem entra em escavações arqueológicas, tem parte daquilo que escava é para si e outra parte fica no Egito. E portanto, há um meio muito ativo nesta área, um intercâmbio extraordinário deste tipo de artefatos. Gulbenkian interessa-se no sentido em que está a constituir uma coleção, e uma coleção eclética também compreende este tipo de objetos e portanto, isto torna-se quase que natural. Estes colecionadores de arte egípcia, um pouco como os de arte grega, são geralmente aristocratas. O célebre Grand Tour foi extensivo.
Essa viagem que os jovens aristocratas ingleses faziam.
Essa viagem de formação.
Na Europa, enfim, às vezes no Mediterrâneo.
Mediterrâneo, Médio Oriente, e de alguma forma acabavam também por se tornar egiptólogos, arqueólogos, amantes destas coisas. Para além disso, estas famílias mais abastadas e aristocratas, sobretudo as inglesas, com grandes casas senhoriais no campo, iam fazendo pequenos museus destes objetos. Só que os pequenos objetos só por si valem pouco, precisam ser estudados. E aí vêm os egiptólogos, que também começam a estudar estas coisas. Só que, como sabemos, os hieróglifos eram indecifráveis até ao Champollion.
Até o princípio do século XIX, mais ou menos.
Exatamente. Aliás, estamos neste ano a comemorar o bicentenário de Champollion, em 1822, que faz a decifração dos hieróglifos e, portanto, isso abre um mundo ao estudo, e os grandes estudiosos dessas áreas estão nos principais museus europeus ligados às universidades. Portanto, é o caso do Ashmolean em Oxford, que tem este papel, o British Museum em Londres, Berlim, por aí fora. De maneira que estes aglomerados iam surgindo. E antes ainda de conhecer o Howard Carter, o Gulbenkian faz uma aquisição de uma coleção, que é a coleção Amherst E que é uma coleção muito ligada ao Carter. O Carter estava intimamente ligado a essa família, porque o pai do Carter era um artista da Royal Academy, não um artista de primeira água, mas um excelente retratista. E o Carter seguia-o nestas várias incursões pelas casas onde ele iria retratar os dignitários locais. Ele próprio era um excelente desenhador. E é através desta que ele conhece este mundo, que ele penetra deste mundo da egiptologia e que vem mais tarde a ser conhecido pelo Gulbenkian e a partir daí, Gulbenkian vai recorrer a ele como o seu principal consultor. Mas mesmo como principal consultor, a última palavra é sempre do Gulbenkian.
É sempre do Gulbenkian. Já fizemos aqui referência no programa passado a isso. Em 1922, o Howard Carter descobre o túmulo inviolado do faraó Tutancâmon no Vale dos Reis. Mas já aqui também referimos o interesse pelo Egito Antigo, não data dessa época, é anterior. Foi sempre grande, aliás, mas aumentou com a expedição de Bonaparte ao Egito no fim do século XVIII, princípio do século XIX, e depois com a decifração da escrita hieroglífica. Agora, na década de 20, esse interesse devia estar no auge. A maior descoberta arqueológica de todos os tempos, esse túmulo de um rei egípcio, do Egito Antigo, um túmulo inviolado, não tinha sido assaltado, estava intacto. O egiptólogo Howard Carter aconselha Gulbenkian nas suas aquisições, imagino que acerca do valor das peças, acerca da sua autenticidade. O Gulbenkian já era então um grande homem de negócios entre Londres e Paris. Como é que se criou essa relação com o Howard Carter? Isto era pelo interesse comum pela egiptologia?
Foi exatamente pela egiptologia. Nós não temos certezas documentais, mas o facto de Howard Carter ter preparado o catálogo da coleção Amherst, que surge um ano antes da MacGregor, leva a que Gulbenkian esteja muito ciente de quem é este homem. Aliás, este homem já estava há muito tempo no Egito e tem uma ligação que é fundamental para a credibilização perante Gulbenkian, que é o facto de ele trabalhar com Lord Carnarvon. Lord Carnarvon habita a extraordinária casa de campo que serviu para filmes e que é muito conhecida, Highclere Castle. É casado com Lady Almina, que é uma Rothschild. É uma família de grandes meios e com uma coleção absolutamente extraordinária. Gulbenkian sabia exatamente quem era Lord Carnarvon, quem era Howard Carter. E quando surge o leilão do Reverend William MacGregor, o William MacGregor é um homem absolutamente extraordinário. Ele também vem de uma família muito abastada, é patrono de escavações no Egito. Ele próprio vive durante muito tempo no Egito, porque ele tinha uma saúde muito débil e a família manda para o Egito pela secura. Depois ele torna-se membro da Egypt Exploration Society, do Instituto de Arqueologia ligado à Universidade de Liverpool. É alguém que não é só um interessado colecionador, é alguém que é ativo na egiptologia. Só que a certa altura decide, ele ainda está longe de morrer, em 22, julgo que ele morre em 37, decide ver-se livre da sua coleção, que é uma coleção absolutamente assustadora, os números são incríveis. Temos 1800 lotes, 9000 objetos. E como é que Gulbenkian sabe que isto está a acontecer? Pelos Duveen. Ele era muito amigo do John Duveen, que lhe diz: "Olhe, isto vai acontecer, vai para o mercado." E a partir daí ele vai tentar perceber como é que vai conseguir chegar a esse leilão. E falo de duas maneiras. Primeiro, contratando o Carter para licitar peças até determinado limite. E o K.A. Yan, que é um armênio de grande confiança do Gulbenkian, que servia muitas vezes de testa de ferro.
Para fazer as licitações.
Fazer licitações. Ninguém sabe, eram ilustres desconhecidos.
Pois, ninguém sabia quem era.
E o que acontece é que nos leilões aparecia aquele senhor, comprava umas peças e pronto. E ninguém sabia que era o Gulbenkian que tinha adquirido. E isso acontece neste leilão, porque muito cedo o Carter indica-lhe 13 lotes Dois deles eram, segundo o Carter, absolutamente essenciais, que eram os melhores lotes de todas as peças. E o Gulbenkian fica com esta informação e pede ao K.A.N. para licitar esses dois melhores e dá os outros ao Carter, porque ele ainda não conhecia bem o Carter. E, por outro lado, temo que ele pensasse, e é legítimo que o fizesse, que ele estaria a tentar comprar essas peças para o Lord Carnarvon. Fazia todo sentido. Havia uma relação entre eles que tudo levaria a entender isso. De maneira que ele acaba por comprar as peças e a correspondência é muito interessante, porque o Carter fica desolado por ter perdido as melhores peças, que vêm em toda a imprensa da época, fala nestas grandes aquisições feitas por este anônimo investidor, que é A.A.N., não era o Gulbenkian, naturalmente, e que tinha muita pena. E o Gulbenkian não lhe diz logo que foi ele.
Que interessante.
Leva o jogo. Só mais tarde é que ele realmente dava o jogo e o Carter diz-lhe: "Fico muito feliz que tenha comprado, porque realmente seria uma perda incrível estas duas", porque era efetivamente, sobretudo a cabeça de Senusret III, era a grande peça da coleção.
Essa cabeça do rei Senusret III. Aliás, algumas dessas peças, incluindo essa cabeça do rei, foram emprestadas por Gulbenkian mais tarde ao British Museum, em Londres, em 1936, e depois ainda estiveram na National Gallery of Art, em Washington, de onde vieram para Portugal em 1960. Este percurso destas peças dá também uma ideia de que Gulbenkian é um colecionador, quer uma coleção para si, já falámos disso, mas não a quer só para a sua contemplação. Ele admite que outras pessoas também queiram apreciar essas peças que ele vai escolhendo por serem as melhores.
Sim. Aliás, ele tem uma frase infeliz que o vai caracterizar, do meu ponto de vista erradamente, que é dizer que as obras de arte são como um harém. Portanto, que eu só mostro a quem eu muito bem quero. Isso é realmente o dizer de um oriental, mas efetivamente isso não corresponde. Eu julgo que ele disse isso como um ato de bravura.
Sim, de posse.
De posse, exatamente, proprietário. Mas o fato é que, nomeadamente com as antiguidades egípcias, ele muito cedo as emprestou, por exemplo, ao Louvre. Houve uma das suas aquisições que depois até trouxe muita celeuma, porque desentenderam-se o vendedor e um outro investigador e portanto puseram em causa a autenticidade da peça. E isso deu artigos extraordinários, o que só beneficiam a história da arte, digamos, destas coisas. E, portanto, o que é que ele acaba por fazer? Emprestar. Em 36, o mundo está a mudar e ele tem essa perceção. Ele é um homem que lida com as elites internacionais, sobretudo ao nível dos negócios. E em 36 o clima está a mudar. E ele percebe que não pode ter uma coleção como a que tem em sua casa.
Em Paris.
Que estava a custar rodos dinheiro em segurança, rondas noturnas e todo esse tipo de problemáticas. E quando propõe ao British Museum, porque conhecia bem o British Museum, e o British Museum imediatamente quis. E a coleção foi toda para o British Museum em 36. E em 36 foi também a grande parte da coleção de pintura para a National Gallery de Londres. Portanto, durante este período, durante o período da guerra, essas obras estão em segurança.
Estão em segurança, exatamente.
Essas obras estão em segurança. No fim da guerra e com a possibilidade que houve, isto é um episódio muito longo, de se construir um anexo à National Gallery para albergar a coleção de Gulbenkian. No fim da guerra, isso era impossível. O esforço de reconstrução implicava um investimento enorme em construção, mas de habitação, porque Londres tinha sido devastada, Coventry completamente destruída e por aí fora. Não havia clima político, ainda por cima com o governo trabalhista na altura, em Inglaterra, portanto não havia nenhum tipo de acordo. E é aí que surge um outro protagonista, que é John Walker, ainda nessa altura curador da National Gallery of Art, de Washington, a propor-lhe: "Então, mas por que não transita pro outro lado do Atlântico tudo aquilo que tem em Londres?" E isso é um novo capítulo. Portanto, de alguma forma, a coleção egípcia, que é aquilo que nos traz hoje aqui, vai viajar de Londres para Washington. E a aquisição que ele faz dos medalhões de Abu Kir, que falámos no episódio anterior, acabam por nunca vir para Lisboa, ele não os vê, e vão diretamente de Nova York para Washington, onde são acomodados juntamente com as peças egípcias, o que de alguma forma também é uma história interessante de contar.
É verdade, e iremos contar muito provavelmente aqui. Mas um dos documentos mais interessantes publicados pela Fundação Gulbenkian, em livro, é o diário da viagem de Gulbenkian à Palestina e ao Egito, em janeiro e fevereiro de 1934. E uma das coisas que descobrimos aí é a minúcia com que Gulbenkian se informa. Por exemplo, em relação a Balbec, no Líbano, ele tem esta nota na página 31 do livro, que está publicado pela Fundação Gulbenkian: "Tenho que estudar a fundo a história de Balbec", diz ele. Isto é um homem de negócios que tem que cuidar também de grandes interesses, nomeadamente dos seus interesses da indústria petrolífera do Médio Oriente Mas ele levava a arte muito a sério. Mas tinha tempo para fazer estas várias coisas.
Exatamente. Há uma frase que eu gosto de citar e nós no museu e na fundação temos vindo a utilizar ultimamente, que é quando ele diz: "A arte é o meu consolo". Eu julgo que isso explica muito da sua psicologia, da forma como ele encontra na arte algo que transcende aquele dia a dia muito complicado do mundo de negócios onde ele estava envolvido, com negócios absolutamente concentrados num único homem, ele, não em corporations, em conselhos de administração. É um homem sozinho contra os seus adversários, travando sempre inúmeras batalhas, recuando quando tinha que recuar, avançando temerariamente quando tinha que avançar. E isso, de alguma forma, a arte é um processo que ele desenvolve concomitantemente. E isso é muito interessante nos copiadores. Os copiadores da correspondência têm o pagamento à senhora da limpeza, que fez um trabalho extra, tem a carta, porque tudo se fazia através da correspondência. Tem o vender milhares de ações na Venezuela Oil, tem o comprar um Rembrandt, não esquecer o Rembrandt ao Hermitage. E portanto, isto tudo dá a dimensão de como alguém com escasso tempo ocupa o seu tempo de uma forma tão rica. E efetivamente a questão da arte é, juntamente com os jardins, a forma de evasão.
Finalmente, onde é que no Museu Gulbenkian em Lisboa se podem ver as antiguidades egípcias de que aqui falámos?
É imperdível, porque é a primeira sala do museu e portanto uma vez chegando ao museu e passado o átrio, já com o bilhete, a primeira sala que vamos encontrar é a sala das antiguidades egípcias.
Obrigado ao João Carvalho Dias. Voltaremos daqui a 15 dias para falar de outro momento fundamental da vida de colecionador de Calouste Gulbenkian. E este mete revolucionários bolchevistas, um dos maiores museus do mundo e uma das maiores vendas de arte de todos os tempos, em que Gulbenkian, como se diz, chegou primeiro. Até lá e contamos consigo para continuar esta viagem.