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Operação Stop na Rádio Observador. Todas as semanas as principais novidades no mundo automóvel, como sempre, com Alfredo Lavrador. Alfredo, seja muito bem-vindo.

Obrigado, senhor Rafael. É sempre um prazer.

Para mim também, Alfredo, é sempre um gosto. Vamos falar de construtores alemães que não se decidem perante a ameaça chineses, que têm carros mais baratos com o apoio do Estado. Já com os elétricos, eram contra os aumentos dos impostos, mas agora aparentemente estão a mudar de posição. Alfredo, a Alemanha, que é a maior economia europeia e uma das mais fortes do mundo, não sabe como é que se há de defender dos construtores chineses?

Não é bem isso. Sabes que eu escrevo sobre comércio e indústria há mais de 30 anos e sempre tive o maior respeito pelos construtores alemães e pelos seus dirigentes. Sempre se concentraram em construir bons carros, bons motores, bons sistemas de travagem, boas caixas, ou seja, sempre investiram nisso e nunca tiveram uma visão de curto prazo. Mas hoje, a sua trajetória, tal como as suas decisões, parecem erráticas e incoerentes. O que se nota é que eles visam o lucro imediato, uma vez que os seus acionistas pretendem uma distribuição regular de dividendos. Tudo isto em vez de pensar a longo prazo e no interesse da marca. Daí que estejam a atravessar, todos eles, o que quer dizer alguma coisa, não é? Um podia dizer: "As armas, todos, caramba." Todos eles estão a atravessar períodos de cortes, despedimentos e encerramentos de fábricas, porque fizeram basicamente opções erradas num passado recente.

Alfredo, vamos então voltar um pouco atrás, ao princípio. Como é que os alemães lidaram com o aumento dos impostos para os modelos elétricos fabricados na China?

Olha, em 2025, quando foi decidido, depois de prolongadas negociações, implementar tarifas aos veículos elétricos chineses para compensar as ajudas ilegais atribuídas pelo Estado. E nota que não sou eu, nem tu, que estamos a dizer que são ilegais. Quem determinou que são ilegais foi a Organização do Comércio Mundial. Depois, a União Europeia procedeu a uma investigação e confirmou que, efetivamente, o Estado chinês tem distribuído dinheiro a rodos pelas marcas locais, sobretudo aquelas que são do Estado, que são a maioria. Mas na altura, dizia-te eu, que se discutiu a possibilidade de adotar um imposto elevado para absorver estas ajudas ilegais do Estado chinês, próximo dos 100% de taxa, similar ao que foi aplicado no mercado norte-americano, que neste momento está em 102,5%. O que daria um maior conforto à indústria local e potencialmente evitaria encerramentos de fábricas e despedimentos. Os construtores germânicos esforçaram-se para convencer a União Europeia. Basicamente, o que fizeram foi lobby para que o Estado alemão, que é o maior contribuidor da União Europeia, pressionasse Bruxelas para impor penalizações mais leves, que assim ficaram a oscilar entre os 17 e os 45%. Tudo, na mente deles, para que a China não retaliasse e impedisse as exportações daqueles carros grandes, mais valiosos, topo de gama, que são produzidos na Alemanha e eram exportados pra China. Contudo, e apesar desta cedência, que obviamente lesou a Europa, a verdade é que estas exportações são praticamente marginais e eles deixaram de consumir os carros alemães importados. E nota que até as fábricas que eles têm em joint venture com os chineses na China, cada vez têm mais dificuldade em vender os carros alemães, apesar de serem feitos na China. Basicamente é esta a situação.

Alfredo, e quando surgiu este problema em relação aos veículos híbridos, os plug-ins importados da China, até porque não se tinha falado muito neles.

Não, a questão em torno dos híbridos plug-in, ou PHEV, só para ser mais rápido a referir-se a este tipo de carro, surgiu agora, em julho, assim que se aperceberam, pelos dados do primeiro semestre de 2026, que os três PHEVs mais vendidos na Europa eram todos chineses, com o anterior líder, que era o Volkswagen Tiguan, a cair pra terceira posição e os modelos equivalentes da BMW e da Mercedes caíram ainda mais. A questão foi esta: a partir do momento em que criaram taxas aos veículos elétricos chineses, as vendas caíram de 22%, eles tinham um share de 22% de mercado, passaram a ter um share de 17. Atenção, o share 17, mas o mercado aumentou, de maneira que eles não venderam necessariamente menos. A curva de crescimento é que caiu, e eles passaram a vender percentualmente menos. O que aconteceu foi que os chineses começaram a apostar mais nos PHEV, porque estes não pagavam taxas especiais, ou seja, pagam apenas aqueles 10%, que é a taxa normal à entrada da União Europeia, em vez dos quase 45 das marcas mais penalizadas. Mas o curioso é que depois de lutar tanto por impor taxas mais baixas aos elétricos chineses, os construtores alemães, através do CEO do grupo Volkswagen, agora exigem à Europa urgência em penalizar os híbridos plugin pelos mesmos motivos. Há um ano atrás não era prioritário e queriam as taxas mais baixinhas possíveis, mas agora que lhes doeu na pele, já querem urgentemente uma imposição de taxas. E por quê? Porque a maior parte das marcas alemãs, em vez de investir forte nos elétricos, como fizeram os chineses, investiram forte nos híbridos plugin, porque sai mais barato, dá mais lucro, que é, em última instância, a única finalidade daquelas empresas.

Alfredo, qual é que parece então que vai ser a solução a adaptar e até que ponto é que isso é bom para o consumidor europeu e aqui com natural destaque para o consumidor português?

Olha, temos que ter presente que isto, na prática, diz respeito a todos os europeus. Temos que ter presente que a indústria automóvel é uma das mais importantes da Europa, senão mesmo a mais importante, e é a coluna vertebral da economia de países como a Alemanha, a França, Itália, Espanha, cujas economias se vão ressentir, e muito, com o encerramento de fábricas e despedimento de trabalhadores. Nós temos uma fábrica na Autoeuropa, é certo, e tem um peso considerável em Portugal, mas não tanto quanto tem nos outros países. A verdade é que se estes países sofrerem, nós sofremos por tabela. Uma afirmação curiosa do CEO da Volkswagen foi a recusa em ceder as suas quatro fábricas, aquelas que ele vai encerrar, a marcas chinesas, que assim, se por acaso ficassem na posse dessas fábricas, não teriam que investir tanto em fábricas novas e conseguiriam, à mesma, evitar as taxas mais elevadas ao fabricar na Europa. O problema é que os estados alemães onde essas fábricas estão implementadas, não vão ficar a olhar para uma fábrica vazia. Vão arranjar alguém que as ocupe. De maneira que ou a Volkswagen arranja uma solução para estas fábricas, nem que seja a produzir armamento de guerra, como já se falou, ou elas vão acabar na posse de marcas chinesas para reduzir os custos. A solução para os alemães, perguntavas-me tu, é basicamente fazer o que fizeram no passado, aquilo que os tornou os melhores construtores e os mais respeitados: é investir. Na altura, investiam nos carros a combustão, ofereciam os melhores motores, tanto a gasolina como a gasóleo, em termos de potência, investiam nos melhores chassis, para os carros serem giros de guiar e confortáveis, etc. Com a chegada dos elétricos, deixaram de investir da mesma forma, ao mesmo nível, perderam a liderança ou a vantagem que tinham sobre os outros e foram alcançados pelos carros chineses e as vendas ressentem-se, não há nada a fazer.

E é com este ressentimento que vamos fechar a edição desta semana do "Operação Stop". Alfredo, regressamos para a semana. Até lá, um grande abraço.

Está combinado. Abraço.