Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Porque é que estás a dizer cabeças rolarem? Por causa da Revolução Francesa?
Não, porque é a definição. Perguntaste o que é uma revolução. Eu estou a responder: é cabeças rolarem.
Mas de onde é que vem essa tua definição?
É só o que eu sei.
Há coisas que tu só sabes e não percebes de onde vêm. Tu achas que o 25 de Abril foi uma revolução?
Não.
Por quê?
Não rolaram tantas cabeças quanto deviam.
Não rolaram cabeças, ponto.
Meia mentira, também rolaram.
Então o 25 de Abril não foi uma revolução, foi o quê?
Foi arte.
Vou tomar a liberdade de fazer a minha reivindicação.
Para fazeres o nosso jingle.
Pequenas reivindicações de liberdade.
Pronto, acho que pode ser.
E também contar o momento. Agora está aqui escrito. Pequenas reivindicações.
Bem-vindos ao Pequenas Reivindicações de Liberdade.
De liberdade. Pessoas incríveis.
Olá, estamos aqui em mais um episódio de Pequenas Reivindicações de Liberdade.
Um podcast Observador.
Evidentemente, não podia ser mais nada senão Observador. É o único sítio que faz sentido receber este podcast. E temos hoje conosco...
Maria Castelo Branco. Muito bem-vinda.
Alô. Obrigada.
Estás bem?
Estou bem.
Boa.
Vocês estão bem?
Estamos ótimas.
A pessoa a dizer: "Maria Castelo Branco".
Mas eu sinto que tu tens sempre um bocadinho de vontade de apresentar, mas é uma coisa boa. Mas tens sempre vontade de dar assim meio Oprah style.
Yes, I could be Oprah.
More or less.
Maria, este podcast Pequenas Reivindicações de Liberdade tem, a partir deste momento, um cronômetro e quando tocar, o nosso episódio acaba, a conversa que estejamos a ter, e passamos só a um momento final que temos uma pergunta para te fazer.
Isso é fabuloso.
É assim que nós funcionamos.
Super germânico.
Certo, nazi, é o que queres dizer.
Sim, é uma altura complicada para estarmos a falar disto, Maria.
Não, o Elon Musk diz que não faz mal, que os alemães não têm que ter vergonha.
Então, olha, se ele diz.
Se ele diz é.
Dizer que estou desse lado.
Avé.
Maria, a avó Glória era quem recebia sempre todos os nossos convidados em casa dela, da temporada anterior, e agora ela não pode estar aqui. No entanto, nós gostamos que seja sempre ela a dar as boas-vindas às convidadas e por isso aqui vai. Viva, querida Maria. Antes de mais, I love you. Em segundo lugar, I admire your power. Analista política, especializada em política chinesa, comunicadora, comentadora, cronista, giraça e perspicaz. Jovens ao poder.
Adoro. Obrigada, avó Glória.
Jovens ao poder é o grande lema deste episódio.
É verdade.
Jovens ao poder?
E talvez deste podcast, no geral. Maria, por que tu és incrível?
Por que eu sou incrível? Eu não sou incrível.
Tu se calhar devias levantar e sair.
Meio que ficaste ofendida até. "Eu não sou incrível, não me chames isso."
Não, mas não sou. Ou seja, essas coisas todas que a avó Glória disse, primeiro são tudo coisas que eu acho que vêm muito mais, isto não é falsa modéstia. Não é mesmo, mas acho que vêm muito mais das condições em que eu cresci do que outra coisa. Ou seja, claro, isto não quer dizer que todas as pessoas com as condições que eu cresci tinham que ser isto ou tinham que fazer estas coisas. Mas não acho que seja particularmente incrível. Se eu viesse de um sítio em que não tinha os pais que tive e que tenho, a estrutura, o privilégio todo, eu nem sei se gostava assim tanto de política. Ou seja, é uma afirmação que não é falsificável, porque eu não faço ideia, mas sim.
Agora que já disseste que és uma privilegiada, já podemos continuar este episódio em paz.
Isto não foi.
A partir daqui podes dizer tudo o que quiseres.
Já tirámos o elefante da sala.
Já, pronto.
Já és uma mulher livre a partir de agora.
Tanto que vocês se chamam Nana e Titi, não é?
Sim.
Maria.
O privilégio está no nome.
Nós somos privilegiadas porque nos temos uma à outra. Esse é o nosso privilégio.
A amizade é um grande privilégio, não sei se conheces. Nós vamos dizer-te agora porque tu és incrível. És incrível porque ainda muito nova e já com ideias e vontade de as pôr em prática, juntaste-te a um partido político ainda em desenvolvimento para o ajudares a crescer.
Porque mesmo sabendo que ao falares publicamente vais ser criticada e até ameaçada, não abdicas de dizer o que pensas a cada momento, mesmo que mais tarde a tua opinião possa mudar.
És incrível porque no podcast Lei da Paridade, com a Adriana Cardoso e a Leonor Rosas, perante todas as adversidades, continuam a dar lugar aos jovens e, em particular, às mulheres para poderem ter credibilidade pública.
Porque embora muitas vezes não seja o que acontece, tu relembras-nos de que a política deve estar ao serviço da população e que está nas mãos de cada uma lutar por isso.
És incrível porque imaginamos que sejas uma pessoa que não perde o interesse que tinha por alguém só por ter ideias que divergem das tuas e, pelo contrário, talvez tenhas mais vontade de perceber de onde vem esse pensamento.
E por fim, porque nos dás vontade de conversar contigo e discutir ideias sobre as quais sabes mais do que nós.
Oh.
Afinal és incrível.
Sim.
Podes dizer: "Sim, eu sou incrível."
Não gosto disso. Isso é aquelas coisas autoafirmações. Mas porquê?
É que não consegue.
Mas porquê? Há coisas que eu ou tu podemos fazer que são incríveis, mas essas autoafirmações que encapsulam uma coisa dão para o bom e para o mau, e eu não adoro.
Porque também nunca se sabe o significado da palavra incrível amanhã. Agora estamos a usá-la como uma coisa boa e amanhã pode ser-
Não, é que nós estamos na pós-verdade
Se vais trazer para aqui conceitos desses, esquece. Podes parar já de falar com a gente.
Este até foi muito clichê.
Sim, mas tudo que tenha um "pós" antes eu já fico: "Ok, não sei do que a pessoa está a falar." Pós-modernismo é a única coisa que eu conheço.
O pós-verdade é em que a verdade já não interessa.
Ok.
Mas estamos aí, não é uma coisa difícil.
É a única resposta que eu tenho para dar.
Incrível, secas.
Maria, não sei se já reparaste que a Titi e eu não costumamos apresentar-nos desta maneira. Nós reparamos que tu trazes sempre os teus olhos muito bem pintados, um lápis escuro sempre presente. E nós decidimos pôr um lápis. Eu não quis pôr os óculos para tu veres os meus olhos. Tive dificuldade em ler o que escrevi, porque pintamos os olhos.
A sério, eu estava a reparar que vocês estavam com os olhos pintados. Sabem que as mulheres na Alemanha nazi pintavam os lábios de vermelho? Encarnado, vermelho, a vossa preferência é diferente.
Vermelho, sempre.
Let's go, Benfica.
Não. Isso não. Vermelho povo.
Vermelho povo? São duas cores diferentes.
Não. Por acaso no Benfica até se costuma dizer "o Marquês está de encarnado". O Marquês veste encarnado. Mas é porque é o Marquês.
Mas o Marquês de Pombal era super...
Mas já era Marquês.
Está bem.
Por isso, claro que não ia-se a vestir de vermelho.
Mas eu não gostava muito das elites.
E nem do Benfica.
Não, do Benfica não gostava.
Mas não são duas cores. E na Alemanha nazia as mulheres pintavam os lábios dessa cor?
Sim. Como uma forma de resistência. A giroita quando o outro cai do sítio, começou a chatear-se com o batom. E é um símbolo que hoje em dia também se usa para as mulheres se identificarem umas às outras, ou seja, identificarem se são aliadas ou não. Elas põem batons em regimes mais opressivos.
Eu nunca ponho, não sou aliada. Ok. Regimes mais opressivos. Achei que era socialmente.
Ou não. Mas é uma coisa que se fazia nos anos 40 na Alemanha, que era para tu identificares: "Esta é aliada."
E tu propões que o risco preto à volta dos olhos seja também "somos aliadas".
Let's go.
Maria, interpretámos da forma certa o teu risco e portanto aqui estamos hoje as três de mãos dadas.
Incríveis.
As três incríveis. Eu vou-te já dizer que eu sou incrível. Tu não queres dizer essas coisas sobre ti, eu digo sobre mim. Sim, eu também não tenho vergonha de dizer isso sobre mim.
Mas não é ter vergonha.
É não és capaz disso, não acreditas.
Eu posso dizer, sou incrível. Mas não é sobre isso, é sobre a tua identidade ficar encapsulada numa coisa.
Nós não te queremos pôr em cápsulas. Nós temos um segmento chamado "Perguntas Flash". Agora vou ter de reforçar que a Maria disse "caps lock".
Não, eu sei. Eu tenho um humor um bocado...
Não muito bom.
Não é péssimo, é dad jokes.
Não sei se isso não é machista, mas ok. Maria, nós temos agora um segmento chamado "Perguntas Flash", em que queremos que tu respondas o mais honesta e rapidamente possível. És mais gira porque és inteligente ou és mais inteligente por seres gira?
Sou mais gira porque sou inteligente.
Comenta a seguinte afirmação: as pessoas não querem ouvir três gajas a falar.
Bullshit.
Esse lápis todo nos olhos é para não vermos que tens sentimentos?
Acho que até se vê mais. É aquela coisa muito clichê, os olhos são a janela da alma.
Mas se os pintares de uma cor mais escura que eles...
Chamam mais, é mais chamativo.
Qual é o problema do dinheiro?
Não é nenhum. Quer dizer, depois o problema do dinheiro é quando é monopolizado.
Por que roubaste o tom de falar à Mariana Mortágua?
Não roubei nada. Não roubei nada. A Mariana fala de uma forma completamente diferente.
Eu refiro-me ao tom.
Mas o tom não é nada. É o tom? Mas por quê? Que ela tem um tom. Sabes o que é? Eu acho que é sempre que as mulheres não falam assim, de repente são todas iguais.
Alguma vez usas sutiã?
Não. Só se for uma coisa assim, mas mesmo em coisas hiperformais não adoro. Não adoro, não gosto, não preciso e é um bocado restritivo.
Qual foi a última vez que fumaste um charro?
Tinha 19, 20.
Não achas que as mulheres terem igualdade de oportunidades pode levar à extinção da profissão de educadora de infância?
Acho que não, para isso teria que ser não só igualdade de oportunidades, teria que ser uma remodelação da sociedade.
Queres vir comigo a uma naked party? Tu vais nua, eu vou vestida, mas tu levas-me por uma trela.
Não, mas é naked party, tem que ir toda a gente nua.
Mas isto é no caminho para lá.
E depois desces. Não, mas imagina, eu vou nua.
Tu podes me despir, eu não me vou despir de livre vontade.
Mas eu vou nua para a naked party.
A caminho lá de si.
A caminho? Já estou nua.
Mas eu vou a cão.
Sim.
Quem é que está pior?
Tu, claramente. Isso parece aqueles fever dreams um bocado esquisitos.
Eu quero que me respondas se aceitas esta proposta ou não.
Não, eu gosto de igualdade de starting point, ou seja, o starting point tem que ser igual.
Vamos as duas a cão ou vamos as duas nuas?
Quando eu era pequena queria ser um cão
Eu acho que podem ir as duas até ao limite.
Sabem que eu sei ladrar? Eu não vou ladrar, mas eu sei ladrar muito bem e sei mudar de tom e de porte de animal.
E não queres agora fazer? Querias só dizer.
Queria só te dizer, isto é um flex. Não posso fazer porque o microfone é sensível.
É um flex também para alimentar este meu desejo, não é?
Sim.
Eu trago aqui a proposta de cão e a Maria acrescenta.
Nós podemos ser as duas um cão. Eu adoro.
Eu não sei ladrar, eu só uivo.
Não, mas eu ensino-te a ladrar.
Tenho que ainda te dizer, a Maria ensina-te a ladrar.
Ok, primeiro temos uma aula e depois vamos.
Exato.
Ok.
És tu que lavas a loiça lá em casa?
Eu vivo sozinha, portanto, tenho que lavar a minha loiça.
Maria, fuck, marry, kill: Ramalho Eanes, Álvaro Cunhal, Mário Soares.
Fuck, marry, kill. Tipo fuck mesmo ou dá um beijinho?
Não, fuck mesmo.
Todos homens? Álvaro Cunhal, Ramalho Eanes.
Ou Mário Soares.
Bem, dois deles já não estão cá.
É, pronto.
É no imaginário, é tipo no top 10. O Álvaro Cunhal era lindo de morrer, portanto fuck Álvaro Cunhal, mas fuck sem falar. Marry Mário Soares. Kill Ramalho Eanes, mas eu gosto do Ramalho Eanes, mas gosto mais do Mário Soares e entre estes três, o Álvaro Cunhal é bastante mais giro para usar só como objeto.
Boa. Fuck, marry, kill: Mariana Mortágua, Isabel Moreira, Paula Lobo Antunes.
Coitada. Eu conheço essas todas. Não posso fazer isso, eu conheço as pessoas.
É um jogo. Alguém vai dizer: "Maria, não posso acreditar. Would you fuck me, Maria?" Vai dizer-te a Mariana Mortágua.
Não, kill Mariana, até porque eles ultimamente têm dado alguns tiros nos pés. Portanto, kill Mariana. Marry Isabel Moreira, porque ícone feminista, independentemente de afiliações partidárias, porque foi super importante para nós estarmos aqui e termos um bocado mais de liberdade.
Fuck Paula.
Fuck Paula Lobo Antunes.
Muito bem dito.
Mas é por exclusão de fartos.
Não é porque tens vontade?
Não.
Nunca terias?
Não, eu gosto muito dela e respeito. Não sou um anel, percebes? Eu sou muito seletiva.
Certo. Maria, não te levam a sério na política porque respondes a caixinhas de perguntas no Instagram?
Não, não me levam a sério na política porque sou jovem e, portanto, por consequência, respondo a caixinhas de perguntas.
Não nos podes dizer em que partido é que votas?
Usaria. Espera tu ficaste com ela.
E então?
Quais as últimas variações?
Entre o centro.
Claro, PSD, podes dizer.
Não, por acaso, entre PS, PSD, já votei IL, claro, mas eu depois saí da IL.
Também não fica nada bem dizer AD, não é? É sempre preciso dizer PSD, mesmo que seja coligação.
Ya, eu não votei no PPM.
Mas votaste?
Não.
Maria, pessoas que dizem: "Sou socialmente de esquerda e economicamente direita" são só pessoas de direita com vergonha de admitir?
Não. Quer dizer, são pessoas que estão a tentar que as pessoas entendam uma visão liberal das coisas nas caixinhas bullshit da política de direita e esquerda. Isto é, és liberal em tudo, basicamente, mas as pessoas não percebem muito bem o que isso quer dizer. Então quer dizer, eu sou mais à direita, estou a dizer eu no abstrato, sou mais à direita economicamente, isto quer dizer, sou mais a favor de uma liberdade de circulação de mercado, de atuação privada dos privados, e sou mais à esquerda socialmente, isto é, também sou a favor de mais liberdade.
Mas tu não vês nenhuma hipocrisia a dizer isso, a dizer "sou economicamente direita e socialmente esquerda," são as pessoas de direita é que...
Porque a maior parte está à esquerda economicamente também. Mas as pessoas de direita também não te dizem. Vai lá perguntar à AD.
Não é, são as pessoas que têm uma filiação partidária, é pessoas comuns.
Não, se essas pessoas normalmente são liberais, por isso é que eu acho que faltam partidos verdadeiramente liberais, não só libertários. É verdade, tipo os Lib Dems no UK.
Então a conversa já está a dar uma seca.
Pois é, ganda seca.
É secador, não é?
Vamos então fazer essa outra pergunta, Maria, esta não é flash, é só perguntas.
Esquece que os jovens não querem saber de política.
Sim.
E eu já não vou para jovem, mas por isso já estou mesmo mais para cima.
Tu és a mais velha deste grupo de três, desta tripla.
Eu tenho 27.
Nós representamos aqui os anos 97, 98 e 99. Tu és de 99?
Eu sou de 99.
Exatamente, eu sou de 98 e a Titi é de 97.
Final de século.
Velhas.
É verdade, tu aqui respeito, é o que eu tenho para te pedir é respeito aos mais velhos. Essa tua rebeldia que tu gostas de afirmar, acalma hoje aqui na nossa presença.
Então os jovens e os que vão para velhos que não se interessam por política.
Nem por política, nem por jovens.
Nem por política, nem por jovens. É o nosso país. Por acaso vocês são bastante representativas, apesar de diminutivos betos.
Eu interesso-me por jovens só no sentido sexual. Ok?
Eu gosto do silêncio a seguir.
Podes continuar.
Não, eu achei o silêncio importante.
Há poucas coisas. O que eu observei que a Titi disse esta frase, mas não conseguiu bem dizer, ela também a olhar para ti.
Não.
"Eu gosto de jovens no sentido sexual."
Pronto, e só olho para ti porque é mais seguro, percebes? Sim, porque pronto, eu podia estar mesmo a falar de ti, Maria. Eu vou continuar a só olhar para ti.
Não olhes para mim agora o resto do programa.
Maria, muitas vezes nós criamos um programa, um podcast, o que for, com o intuito que seja E muitas vezes acontece só as pessoas que já concordavam mais ou menos conosco ou com as nossas ideias é que nos ouvem. E nós queríamos perceber se vocês, no "Lei da Paridade" e que em breve terão dois espetáculos ao vivo, dois episódios ao vivo do "Lei da Paridade". A segunda data, bilhetes à venda.
O primeiro esgotou muito rápido.
Incrível, parabéns.
Foi muito estranho.
A sério, parabéns mesmo. É muito bom quando conseguem. Quando mulheres esgotam salas, a sério.
Não, olha, parabéns mesmo. Imagina.
Parabéns mesmo, mas Maria-
Mais parabéns
...vocês pensam o que podiam fazer para chegar a um público que também não seria o vosso ou não? Ou estão só a fazer o que querem fazer e acham que deve ser feito e pronto, e só vai ouvir-vos quem já acha que jovens, mulheres e política devem ter lugar na sociedade?
É um efeito muito engraçado hoje em dia com a internet e com a polarização, que é, eu não tenho que me esforçar para as pessoas que não concordam comigo me ouvirem, porque as pessoas já vão ouvir só para-
Se calhar ouvem um excerto no Instagram fora de contexto e não vão ouvir o vosso podcast inteiro.
Mas isso já é mais do que elas ouviriam de uma opinião diversa, normalmente. Já consegues sair do echo chamber. Mas o nosso podcast é feito mesmo para ter pessoas muito diferentes a ouvir. Ou seja, a Leonor é obviamente do Bloco de Esquerda e, portanto, há imensas pessoas que concordam com ela, muito mais do que comigo. À partida, se concordam muito com ela, discordam muito de mim ou da Adriana. Isso é fixe, porque estás igual para pessoas que têm tendências mais centristas ou mais centro-direita, etc. Pois a única coisa que sai daqui é a direita mais radical, mas a direita mais radical, por muito que eu tente chegar lá, eu só vou chegar lá mesmo para eles ouvirem se disser coisas.
Sobre eles.
Ou se eu começasse no podcast a dizer: "Na verdade, as mulheres..." Pronto. Aí é: "Ah, sim".
Certo. Podes dizer isso neste podcast. É um lugar seguro para fazer tudo isso.
Fazer isso só para eles ouvirem.
Sim. Se bem que também não é bem o público que nós queremos atrair. É mais por ti do que por nós, isto. É mais altruísmo.
Altruístas?
Sim.
A esta hora?
Sim.
Brutal!
Nós somos incríveis e altruístas. São palavras que nos definem. Maria, tu trouxeste um tema para conversar conosco.
Eu trouxe um tema para conversar convosco. Na verdade, trouxe dois. Vou aqui escolher muito rapidamente na minha cabeça. É uma coisa que eu estou sempre a dizer, mas o tema é, e acho que vai um bocado de encontro aos vossos temas normais de falar aqui, portanto, acho que vão estar bastante confortáveis, que é para eu não começar a falar do pós-verdade.
Atrevo-te a usar um termo, ponho-te uma trilhinha, vais ver se não resolves. Se não começas a ladrar.
Não, mas primeiro tens que aprender a ladrar.
Ladras tu, Maria.
Primeiro tens mesmo que aprender a ladrar, senão não dá.
Eu só consigo aprender a ladrar quando tiver uma aula contigo.
Não.
Sim.
Não tens um cão? Não tens cães?
Tenho, mas se eu ladrar, ele fica todo nervoso.
Não fica nada, mas ele vai te ladrar e ensina.
Ele está assim . Isto é o que eu sei. Já fiz. Eu só consigo fazer isso.
Mas vocês têm que fazer do peito.
Faz lá, Maria.
É tipo assim.
Foi perfeito, é verdade.
Vocês agora vão fazer uma coisa e vão pôr em todo lado que eu ladrei. Mas é uma coisa da qual eu me orgulho. Amo cá isto.
E então, o teu tema?
O meu tema é que o fato de as mulheres serem mais difíceis umas com as outras, às vezes, e é ver aquele ditado quase popular de: "as gajas são ainda mais lixadas umas com as outras do que os homens", ou as próprias mulheres acreditarem nisso, é porque é verdade até um certo ponto, mas isso vem de uma estrutura que foi montada há imenso tempo e que é muito difícil desmontar. Tu no início ou a meio da Idade Média, notas uma coisa que as pessoas que conhecem inglês, começam a dizer que as parteiras, as mulheres que iam falar umas com as outras na taberna, porque em 1100 e não sei o quê era permitido, ao passo que uns anos depois já não era, iam falar umas com as outras, essas mulheres eram as "godsibs", ou seja, eram as irmãs em Deus ou irmãs de Deus. E era uma coisa muito boa e era bem vista pela sociedade, as mulheres que eram fortes. Claro que estou a generalizar, mas isto nota-se muito em Inglaterra e em França, mas particularmente em Inglaterra, por causa da linguagem. Tens essa coisa de "godsib". E essa palavra começa a tornar-se gossip. O gossip, durante imenso tempo, é bem visto. Tal como as mulheres serem mais fortes que os maridos, às vezes tinhas uma coisa que era a luta pelas calças na Idade Média, era assim uma coisa muito fixe. Ou seja, que o marido e a mulher lutavam e se ela derrotasse.
Lutavam fisicamente?
Fisicamente. Só que ele tinha qualquer coisa.
Mais restrições, mais limites do que podia fazer.
Um bocadinho mais de restrições, mas era a luta pelas calças. E havia imensas músicas quase a celebrar as mulheres que derrotavam os homens na cultura popular, feitas por homens. Era uma coisa mais igualitária, apesar de claro, que existia sempre uma opressão e uma desigualdade grande, mas era mais igualitário do que depois, durante o Iluminismo, que supostamente é a idade da razão, que depois nos vem dizer que a Idade Média é uma grande porcaria. E começas a ver uma diferença da utilização da palavra gossip, quanto mais te aproximas do Iluminismo, para veres o gossip de repente a ser usado como uma coisa má, pejorativa, de mexericos. E no século XIX tens inclusivamente o manual de boas maneiras das mulheres, em que diz: "As mulheres não devem ser amigas umas das outras porque vão gossip, e isso quer dizer que vão desafiar os maridos."
Pois, Gossip Girl não ajudou nada para esta causa.
Não ajudou.
Mesmo.
Sabem que eu já não me lembro do Gossip Girl, mas há uma irmandade ou sororidade, que é daí que vem.
Soror Mariana?
Exato, as cartas da Soror Mariana, por exemplo.
Como vês, nós também temos referências, se tu queres a jogada das referências.
Soror Mariana e Gossip Girl. Mas eu trouxe este tema por causa disso, que é muito difícil. Que é para vos ajudar.
E até tu és uma das três Marias.
Exato.
Das famosas.
Quem me dera. Três cartas. Das novas cartas portuguesas. As novas cartas portuguesas fazem isso.
Tu és das novas.
Das novas três Marias.
Tu não és da soror.
Mas a soror é antes.
E tu?
Isso é mais antigo, Nana. Espera, vou fazer, que é para perceberes, vou "dumb it down".
Tens de te concentrar.
Tu vais ter as três Marias, um bocadinho antes do 25 de Abril, que tentam fazer uma grande revolução sexual das mulheres.
Tu não disseste que só tinhas nascido em 1999?
Eu, na verdade, sou uma time traveler.
Por isso é que tens essas botas.
Ya.
Ok, então tu estás aqui também para revolucionar o mundo.
Estas botas são para fazer sororidade com o corte de cabelo da Nana.
Que é dos anos 80, sim. Com orgulho mesmo, orgulho disso.
Está-te a safiar.
Porque a Maria não me consegue resistir, é o que acontece normalmente a todas as convidadas, mas com a Maria é muito mais óbvio do que com outras que vieram antes. E isso faz parte da nossa sororidade também. E então tu vens como soror Maria tentar pensarmos outra vez um bocadinho no gossip, não é? E se calhar, está na altura de podermos dar outra vez a volta ao gossip.
Mas é mesmo importante porque o gossip, aspas, aspas, ou seja, a partilha de informação entre mulheres, é importante porque depois as mulheres começam a perceber que há certas experiências que são partilhadas. Há uma coisa que se chama violência epistémica ou injustiça epistémica, que parte de um caso nos anos 80 de assédio no local de trabalho. E esta mulher em particular só percebe o que é assédio porque não havia palavra para isso. Ela não tinha, epistemologicamente, capacidade de perceber o que lhe estava a acontecer com o homem, até que começou a falar com outras mulheres dentro do local de trabalho e elas todas começaram a perceber que tinham experiências parecidas, que essas experiências não eram ok, que não estava só na cabeça delas e que havia um nome, e que lhe podiam dar um nome. É quase como se eu vos disser: "Descrevam um elefante", mas não dá para dizer elefante, nem tromba, nem grande, nem patas, nem nada. Não conseguem descrever, é impossível, porque as palavras, a linguagem, é super importante para a nossa interação com o mundo. Se tirares tudo, se tirares a linguagem, se tirares a partilha, tiras a capacidade das mulheres compreenderem elas próprias. E portanto, há muito mais facilidade de te circunscreveres só à casa, por exemplo.
Eu acho que posso ter este problema um bocado aqui.
Da casa?
Não, eu acho que há coisas que acontecem aqui às vezes no podcast que eu depois não tenho capacidade de dizer.
De contar.
Porque não tenho as palavras.
Porque te falta léxico e talvez gramática.
Muitas vezes gramática.
Mas também pode ser de mais. As conversinhas entre mulheres.
Por quê?
Porque pode levar a uma revolução de mulheres.
O que é uma revolução?
Uma revolução? Cabeças rolarem. E cabeças rolarem pode ser perigoso, inclusivamente para a tua e para a minha. Perguntaste o que é uma revolução? E eu estou te a responder, é cabeças rolarem.
Mas de onde é que vem essa tua definição?
É só o que eu sei.
Há coisas que tu só sabes de onde é que vêm.
Tu achas que o 25 de Abril foi uma revolução?
Não.
Por quê?
Não rolaram tantas cabeças quanto deviam.
Não rolaram cabeças, pronto.
Meia mentira, também rolaram.
Então o 25 de Abril não foi uma revolução, foi o quê?
Uma brincadeirazinha.
Foi arte.
Arte?
A quantidade de pinturas que o 25 de Abril originou, a quantidade de música que originou, as peças de teatro que ainda hoje são feitas a propósito do 25 de Abril. O 25 de Abril foi acima de tudo arte.
Não param de acontecer espetáculos sobre o 25 de Abril.
Então a história toda da humanidade é acima de tudo arte.
Podes ir para a história toda, mas eu acho que se rolarem cabeças afasta-se da arte.
Ok. A não ser que sejam ilustrativas. Se for desenhado, não rolaram mesmo cabeças. Portanto, os quadros podem ter cabeças a rolar.
Ok.
Mas são metáforas. E depois tu pensas: quem é que dá origem à imagem que nós temos hoje em dia do 25 de Abril, dos cravos, nós e no mundo todo, é disso que se fala, é quem? É uma mulher. Eu pergunto se não pode ser perigoso isso, percebes?
Mas espera.
A Celeste.
Mas antes disso, a Celeste que morreu recentemente em Los Angeles. Mas antes disso, tu estavas a dizer que uma revolução podia dar uma revolução e era perigosa. Então, e se der uma espécie de arte também, ou seja, não rolam cabeças? Porque tu achas que o 25 de Abril foi bom, porque foi arte.
Sim. Não se questiona, isso é impossível questionar.
Sim, eu também não ia questionar. Revolução má? Revolução má?
Sim.
Porque rolam cabeças.
25 de Abril bom.
Bom, porque produz arte.
Sim. Produz anos e depois. Ele todo é arte em si. É através da arte que ele acontece.
Se a libertação das mulheres
Através da fala e da partilha, etc. Se não fizer rolar cabeças, não é revolução na tua conceção? Logo, não é mau, é bom.
Sim.
Pode produzir. Então?
Mas agora...
Por que é mau?
Desculpa, este é o nosso timer escolhido para ti.
É ótimo esse timer para acordar, porque o meu é horrível.
Sim.
Não acordo.
A minha única questão é que podemos ir longe demais. As mulheres podem ter de ser um bocadinho controladas.
Por quê?
Porque tu achas que isso é uma coisa boa. Estás a achar que isso é uma coisa boa, elas estarem todas livres e tu és muito pró-liberdade e pós-liberdade e coisas assim.
No meu caso, verdade, pós-liberdade.
É bom. Há uma contenção que é boa. Não podes garantir que elas não vão à cozinha que lhes pertence e pegam numa faca e começam a cortar cabeças na rua.
Porque as mulheres são irracionais?
E cada uma tem a sua cozinha.
Porque são emotivas?
Sim, eu sou muito emotiva. Eu não posso falar pelas outras mulheres, mas tenho aqui a dizer-te que se me derem uma cozinha que não é minha e uma faca, cabeças vão rolar.
Vais cortar cabeças. Pois, portanto, vai ser sempre uma revolução.
Sim. Liderada por mulheres é difícil. A guerra é muito disso.
Dá para ver o estado do mundo.
Atrás de um grande homem há sempre uma grande mulher.
Não, exato. Sim, toda a violência na história é sempre com mulheres, os homens nunca fizeram violência nenhuma.
Sim, eu acho que pode vir daí. Ou seja, as mulheres desses homens vão para os cafés, estão a cospolhar, estão tipo: "Amanhã o meu homem vai sair e vai..."
A Helena de Troia. A tragédia toda de Troia foi por quê? Por causa de Helena.
É sempre.
É sempre.
Mesmo no amor, quando os homens se matam, é porque uma mulher portou-se mal.
Espera, mas os homens podem se matar, então são emotivos também. Ou o suicídio é racional?
O que os move é outra coisa.
O suicídio é racional?
Nos homens? Não sei se é racional ou não.
Sim, Maria.
Mas o que os move é outro. É um tema que nós não abordamos aqui.
É um tema que não abordamos aqui. A saúde mental é um tema seríssimo. Então?
Suicídio não falamos, desculpa.
Mas vocês é que disseram que os homens se matavam por causa das mulheres. Uns aos outros.
Não, a si próprios. Não dão um tiro na cabeça.
Não dão?
É na cabeça do outro.
Portanto, o Shakespeare vai ao ar.
O Shakespeare, se calhar, são várias pessoas. Se calhar, até é uma mulher, Maria.
Mas tu não gostas da arte, do que produz arte?
Adoro.
Então? Não defines as narrativas pela arte?
Mas é mais de um ponto de vista.
Ou seja, o Shakespeare interessa ser várias pessoas ou não? Não, na tua conceção.
Não, não interessa para nada.
Então, exato.
Até, olha, é uma memória que eu vou apagar da minha cabeça neste momento.
Vais fazer assim, click.
Aquele autor que estávamos agora a falar de um autor e eu já não sei. Maria, temos o momento final para ti, que é: nós gostamos de criar aqui um clickbait consentido, porque muitas vezes os meios de comunicação social partilham excertos de podcasts e títulos e as pessoas ficam meio lixadas, porque agora aquela frase está fora de contexto.
Vocês já têm o "Eu sei ladrar".
Mas acho que as palavras mais fortes.
É a piada pai.
É, porque o título, ainda assim, ou seja, aqui é para escolhermos um título e o título tem que dar vontade de carregar. Eu não sei se Maria Castelo Branco, "Eu sei ladrar".
Pode ser divertido, há pessoas que podem ter essa curiosidade, até uma curiosidade estranha.
Se for, eu ando à trela.
Tu lembraste-me, então corta. Vocês vão só, o ladrar foi só para vocês.
Eu lembrei-te o quê?
Lembraste-me que pode haver curiosidades estranhas sobre isso.
Claro, se calhar até pode estar na cabecinha das pessoas. Na cabeça das pessoas pode tudo. Não podes entrar por aí, Maria, é esse o limite.
É o quê?
Na cabeça das pessoas podem tudo, lá dentro. Não podem é dizer nem fazer.
Tu tens pensamentos muito estranhos sobre outras pessoas. O que é muito estranhos? Não tem que ser só sexuais.
Tipo ires nua pegar uma trela.
Não, tu impuseste esse pensamento. E eu quis remodelá-lo para não há nudez, não há trela, somos as duas cães, foi muito mais inocente.
Eu prefiro as duas nuas a ir até lá.
Tu queres me dizer alguma coisa? Engoli seco.
Pronto, a ideia da trela tu não gostas, eu já percebi, passamos essa à frente. O ladrar também te vou dizer que acho...
Achas cringe.
Acho chocho. Temos a ideia do feminismo, um tema que tu falas todos os dias. Não sei se é propriamente o que dá vontade de carregar. A não ser que digas: o gossip...
É uma arte de resistência.
O gossip é arte.
Pode ser.
Só assim.
Eu acho que pode ser mais interessante.
O gossip é arte.
O gossip é arte.
Está assinado por baixo, não é?
Está assinado por baixo, está consentido.
Antes de terminarmos o episódio, queremos muito agradecer à Bruá, que continua a receber-nos aqui nos estúdios maravilhosos, agradecer ao Observador e recomendar que hoje são todos os podcasts, a rádio, no YouTube, no Spotify, no Apple Podcast, no site.
Muitos podcasts interessantes.
Notícias, tanta coisa que o Observador tem para oferecer.
Metam o vosso like e comentem a dizer: "I like it so much. Goodbye, XOXO."
Vou tomar a liberdade de fazer a minha reivindicação.
Para fazeres o nosso jingle. Pequenas reivindicações de liberdade. Pronto, acho que podem dizer o que vocês quiserem.
Nunca mais te fazer contar novamente.
Agora está aqui escrito.
Pequenas reivindicações.
Bem-vindos ao Pequenas Reivindicações de Liberdade.
De liberdade.
Pessoas incríveis.
Maria, muito obrigada por teres vindo.
Obrigada.
Obrigada eu.
És linda.
És linda. Vocês são lindas.
Estás a ver? Sororidade.
Como a Maria infantilizou nós sermos lindas.
Eu até tentei, não fui muito instrutora, falhei, mas tentei ser. E eu achei que era uma coisa de sororidade.
Não.
Já estamos com esse sororidade.
És linda.
Isso agora foi tipo um Saco do Norte, que é um bocadinho de conceptuos.
Foi.
É um bocadinho conceptuoso.
Mas às vezes escapa-me, sabes por quê?
Foi um bocado, tipo: és linda.
Não, era só para ser. Então, és linda.
Isso agora foi creep.
Pronto, Maria. Não és, se calhar. Tu adoras o Thom Yorke.
Ya, como é que sabes isso?
Tu partilhas demasiadas coisas nas redes sociais, Maria.
Como é que tu sabes isso?