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Este é um podcast da Rádio Observador. Pode ouvir a rádio também em 98.7, na Grande Lisboa, e 98.4, no Grande Porto. Está na hora do Pet Radio. Já está conosco o médico veterinário Nuno Paixão. Nuno, bem-vindo.
Olá.
Olá. Então?
Alguma teatralidade no arranque desta rubrica.
Muito bom. Olhe, Nuno-
Temos que aliviar.
Sim, temos, porque hoje vamos falar de um assunto muito sério, que está obviamente a marcar a atualidade. Vamos falar do coronavírus, que também afeta animais. Já há um cão que deu positivo, não é?
Exatamente. Mas antes de falarmos sobre esse nosso amigo que deu positivo, nós temos que falar que coronavírus é como se fosse chamar-se Silva, ou chamar-se Santos, ou o que seja. É uma família que tem vários elementos e nós não podemos achar que todos os Nunos Silva são os responsáveis por tudo isso que está a acontecer. De uma forma geral, nós conhecemos, pelo menos, nos coronavírus, o alfas, o betas, temos os gamas e os deltas, que são ramos da família, e que os alfas e os betas é que apanham ou afetam mamíferos. Isso é um dos pontos importantes que a gente deve ter em conta. Agora, há uma coisa importantíssima, é que o SARS-CoV-2, aquele que está a afetar os humanos, é um vírus, é um da família, que é um betavírus, não é um alfavírus, que são aqueles que causam doenças em cães e gatos. A coronavirose em cães, de uma forma geral, pode levar a alterações gastrointestinais. Nos gatos, podem causar uma doença, que é uma doença gravíssima, que é a peritonite infecciosa felina dos gatos, que realmente tem levado a uma taxa de mortalidade muito grande, mas nenhum destes coronavírus se passa para humanos. Portanto, a infecção que vem do coronavírus entérico, ou seja, intestinal dos cães, e o coronavírus da peritonite infecciosa felina dos gatos, não passa para humanos. E isto é um ponto importante, apesar de eles todos chamarem coronavírus, são ramos de família diferentes.
Não são todos iguais.
Não são todos iguais.
E já vamos falar também das teorias da conspiração mais à frente.
Sim, um pouquinho mais para a frente.
Porque há muitas, muitas. Mas vamos falar então desse caso do cão?
O cão que em Hong Kong deu positivo, e o seu relatório está publicado, foi no dia 26 de fevereiro, deu fracamente positivo e ele não tinha qualquer sintomatologia. E deu positivo de colheitas de amostra de nariz e da boca dele, e ele não tinha qualquer sintoma. Fez-se o teste porque o seu dono, o seu tutor, era positivo, estava de quarentena, e ele deu fracamente positivo. Isto quer dizer que, e não vamos estar aqui a aprofundar muito esta coisa da biomolecularidade, mas se tiver que ser, é mais fácil os nossos animais serem eles infectados de nós para eles, do que eles para nós, por características biomoleculares. Mas mesmo assim, não há qualquer evidência. Hoje em dia, todos os grandes estudos, e estão a ser feitos milhares, como podem compreender, não têm vindo a demonstrar esta relação. É óbvio que a saúde é única, portanto, a saúde é para humanos e é para animais. É óbvio que nós partilhamos tudo hoje em dia, nós estamos muito próximos. As multidões, hoje em dia, têm vários tipos de animais e há humanos e outros lá no meio, e isso faz com que a gente partilhe muitas doenças, muitos micro-organismos, muitos seres que normalmente não pensamos neles. Mas não vamos mais do que isso neste momento. Inclusivamente, quando se fala da origem vir de certos animais, é complicado de localizarmos qual foi o animal, já se chamou vários, já foram os morcegos, já foi o pangolim, coitado, que causou isso tudo. Há uma série de animais que foram culpados. Uma coisa é certa, nós somos muitos, nós somos muitos humanos, e estes seres, estes vírus, que são seres fascinantes, vão se mudando para sobreviver. Agora, a evidência de que os cães e os gatos consigam transmitir, até agora, tem sido demonstrado o contrário. Eles podem é servir, e por aí pode ser, e porque a saúde é única, nós podemos é monitorizar se um cão ou um gato possa ter este vírus, o SARS-CoV-2, por uma questão de monitorização, para avisar o dono, diga assim: "Olhe, vá fazer o teste." E isso aí é uma coisa que nós, em Portugal, vamos, em princípio, numa semana, vamos ter disponíveis os testes de SARS-CoV-2 para cães e gatos, não porque eles possam desenvolver a doença, e isto é muito importante, mas que possam servir de monitor para as pessoas que convivem com eles, e não mais do que isso, porque não há qualquer outra evidência. Existe a vacinação da coronavirose intestinal para cães, que não serve para a coronavirose respiratória.
Portanto, são coisas diferentes.
São coisas totalmente diferentes. Nós temos que esclarecer, porque isto é totalmente diferente. E volto a dizer, mesmo a coronavirose mais fatal que existe nos gatos, não se transmite aos humanos. Portanto, eu acredito que a gente vai se prejudicar mais nós, os cães e os gatos, do que eles nos prejudicam a nós. Pelo contrário, eles podem nos ajudar.
Falando das teorias da conspiração, isto em relação à origem do vírus, enfim, têm surgido várias teorias nas últimas semanas. É sobre isso que quer falar.
É, porque isto é um ponto interessantíssimo, que eu não posso deixar de falar sobre ele. O ano passado, na medicina felina, houve um zunzum gigante, porque apareceu um medicamento que vinha da China, era um medicamento que não tinha qualquer controle de qualidade, não tinha sido aprovado na Europa, nem nos Estados Unidos, e apareceu um medicamento que combatia e conseguia salvar os gatos com peritonite infecciosa felina, uma coronavirose. Houve vários estudos, entre aspas, feitos de forma individual, em que as pessoas compravam esse medicamento, que vinha pela internet, e era administrado aos gatos. Alguns deles, teoricamente, salvaram-se, ficavam bons. E é estranho, porque é um coronavírus. E se tínhamos o ano passado alguém a trazer medicamentos que matavam coronavírus de uma doença que era fatal em gatos, agora temos um coronavírus que está a infectar humanos. Porque coronavírus é coronavírus. Muito mais, e naquele local, temos um laboratório que tem muito conhecimento sobre coronavírus e desenvolve muitos medicamentos, muitas vacinas para a coronavirose Portanto, a minha teoria da conspiração é relacionar os gatos com os humanos e toda a gente sabe que os gatos estão a tentar dominar o mundo, não é?
Sim, claramente.
Claro. E talvez eles estejam envolvidos. Isto é mais uma teoria da conspiração dos felinos para tomarem conta do mundo. Colocar máscaras em gatos e cães também é capaz de não resultar. Não, eles não vão achar muita piada e mesmo que achem muita piada, reparem, nós temos uma coisa que os nossos cães e os nossos gatos são extremamente educados. Quando é que vocês viram um cão ou um gato a cuspir, por exemplo? Ou a tossir para cima de nós. É raro que tossiram para cima de nós. Normalmente, eles até se afastam para tossir. Portanto, eles são muito mais educados, eles não cospem, eles não deitam as secreções cá para fora, eles engolem tudo. Ainda assim, também não custa nada, se estivermos em contacto com os nossos animais de estimação, lavar sempre as mãos. Sempre. Independentemente de haver ou não coronavírus. Isto vai acontecer, estes surtos vão acontecer cada vez mais frequentes. Nós sabemos que os micro-organismos estão a ser resistentes e a mudarem completamente. Nós sabemos que a partir de 2025, já foi determinado que não haverá antibióticos capazes de matar todos os micro-organismos que causam doenças no mundo. A taxa de mortalidade maior no mundo inteiro vai ser por doenças infectocontagiosas, por micro-organismos que causam a morte. Portanto, isto vai ser cada vez mais frequente. E eu penso que nós temos é que ter uma educação higiênica, aquela parte da higiene social, talvez um pouco mais apertada, e vamos ter que aprender a lidar com isto, porque não é o fim do mundo. Doenças graves vão aparecer sempre e vão cada vez mais existir. Temos é que aprender a ter alguns cuidados, a lavar as mãos, que é uma coisa tão simples, mas que faz tanta coisa. Não estarmos a tossir para cima dos outros, que é outra coisa que também não é muito indicado. Aquilo que as nossas avós já nos diziam, é aquilo que a gente tem que fazer agora para conseguirmos combater algo que é tão novo.
O Nuno Paixão é médico veterinário, junta-se a nós sempre à sexta-feira depois das notícias das 19h. Nuno, obrigada, até para a semana.
Até para a semana. Obrigado, Nuno.