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Está claramente mais frio em Genebra. Estamos em maio. Em Portugal, já se sente o clima de verão, mas na Suíça ainda estamos longe disso. O Rui está a caminho de um hotel no centro da cidade. Está seguro, tem um salvo-conduto e, apesar de ter desviado um avião com dezenas de reféns, com este documento está livre de perigo. Na mochila tem US$ 10 milhões. Dinheiro não falta pra pagar o táxi esta dia. O Piratinha sabe que não pode voltar pra Portugal, mas está tudo planeado. Vai fazer com que os pais venham ter com ele à Suíça. Na recepção, reserva um quarto para os dias seguintes e pede uma ligação telefónica para casa. O Rui pede também que lhe seja servida uma refeição enquanto espera pela chamada. Da janela, tem vista pra cidade de Genebra. Olha pro plano que escreveu há meses. Correu tudo exatamente como imaginou. Está rico e pronto pra mudar de vida. Chegou a altura de falar novamente pro Feijão. Os pais estão em lágrimas, mas o Rui explica tudo o que fez e tudo o que quer que façam. É preciso pagar o que falta do empréstimo da casa e comprar a parte do táxi que pertence ao sócio do pai. Explica que vai depositar o dinheiro numa conta e que, a partir daí, vai comprar os bilhetes de avião. Alexandre e Idalina Rodrigues têm que aguardar por um novo telefonema com indicações sobre o dia e hora em que devem embarcar rumo à Suíça. Rui promete esperar pelos dois no aeroporto, mas precisa também que tragam algumas coisas: documentos e cartões que estão guardados no armário da roupa na despensa, a mala que está no roupeiro do quarto da mãe e fotografias da família. Os pais concordam com tudo. O Rui pode finalmente dormir. Estava tudo planeado ao detalhe, tudo escrito à mão num caderninho de linhas, mas nada disto aconteceu. O plano saiu furado e o Piratinha nunca chegou a Genebra. As noites do Rui são agora bem diferentes daquilo que imaginou. Com apenas 16 anos, em vez de estar num hotel suíço, está preso ao lado dos criminosos mais temidos do país. Há muito pouco tempo, estava no Feijó a sonhar com OVNIs e a brincar com os amigos. Agora, está atrás das grades e pode ficar preso por 20 anos. O juiz tem a certeza de que o Piratinha se considera um herói. Só que o advogado sabe que cada dia que o Rui passa na cadeia pode comprometer o futuro deste miúdo. A vida de rico na Suíça tornou-se uma miragem. Mesmo assim, nem tudo vai correr mal ao Rui, mas as coisas ainda vão piorar muito antes de começarem a melhorar. Este é o "Piratinha do Ar", uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Margarida Vila Nova, e a banda sonora original é de David Fonseca. Episódio seis: A vida de sonho. Esta é uma história real e é o conhecimento da história que guia a Honda em direção a um futuro melhor. Vamos continuar este percurso juntos, porque a Honda tem muito para contar, mas também tem muita vontade de ouvir. Nesta viagem, os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis. Quando o filme passou na televisão naquela noite de julho, os prisioneiros não conseguiam parar de rir. Os guardas não percebiam por quê. Em "A Grande Evasão", um grupo de prisioneiros aliados consegue escapar de uma prisão nazi durante a Segunda Guerra Mundial. Como? Escavam um túnel por onde passam dezenas de detidos. Bem se podem estar a rir, pensam os guardas. Isso do filme nunca vai acontecer na prisão de Vale de Judeus, em Alcoentre. É a prisão mais segura do país Mas aqueles prisioneiros sabem que, dias mais tarde, os guardas já não se vão rir assim. Naquela altura, sem que nenhum guarda soubesse, os presos de Vale de Judeus tinham escavado um túnel. Tem 35 metros de comprimento, mas de diâmetro só se contam 80 centímetros. Foi preciso quase um mês para fazer tudo isto, depois de roubar as ferramentas da oficina.
A partir do momento que entro dentro de uma cadeia, a minha cabeça só trabalha para fugir. Só me ocupo precisamente de fuga, não me ocupo de absolutamente mais nada, isto mentalmente. Acontece que entrei e pensei que tinha que fugir.
Manuel Pedro Ramalho Dias, mais conhecido como Manuel Alentejano. É um dos criminosos mais temidos do país e ainda só tem 27 anos, mas não está sozinho. O Zé da Tarada, o Isidro, o Dedé, o Muleta Negra e o Dragão também estão metidos nisto. De frente para o túnel, ficam orgulhosos do que conseguiram. Até instalaram iluminação e uma ventoinha. É tempo de fugir. Depois de vários minutos a rastejar dentro do túnel, conseguem finalmente a liberdade e correm para bem longe. Os outros reclusos descobrem o plano e querem aproveitar. Em vez dos seis cabecilhas, acabam por escapar 124 prisioneiros. Os guardas só deram por isso na contagem do turno das 22h30, quando se depararam com celas vazias. A fuga de Alcoentre em 1978 ainda hoje é considerada uma das mais espetaculares em toda a Europa. Mas a liberdade não durou muito. Os prisioneiros acabam por ser capturados mais tarde e em 1980, alguns deles estão na penitenciária de Lisboa quando lá chega um miúdo de 16 anos que está por toda a parte nas notícias por ter desviado um avião.
E o próprio Manuel Alentejano fala dele, estou com aqui no diário dele: "O pirata está aqui, o pirata".
Jorge Trabulu Marques é jornalista e nos anos 80 entrevistou alguns dos reclusos mais perigosos do país. Um deles foi Manuel Alentejano.
Entrevistei-o, foi uma entrevista de uma hora e tal, tive à vontade com ele. Eu disse: "Então, você é o Manuel, consta aí na cadeia que você é extremamente perigoso". "Sim, eu tenho sempre uma faca da cozinha comigo, mas você parece-me simpático, vamos conversar e eu precisava era de pessoas como você para falarmos". Falamos à vontade e comecei a lhe colocar muitas questões e fiz-lhe uma grande entrevista.
Alto, loiro, inteligente. Manuel Alentejano é um homem carismático. A entrevista publicada no semanário Tal&Qual tem como título "Confissões de um assassino". No primeiro parágrafo, uma frase deste recluso: "Quando mato alguém, fico um bocado deprimido".
Eu sou um indivíduo muito nervoso, quer dizer, não aceito que as pessoas direta ou indiretamente me tentem humilhar. Portanto, quando eu vejo que as pessoas estão a querer entrar ou me humilhar, já não digo humilhar, mas estão a querer mesquinhar-me, eu tenho que explodir de qualquer maneira e eu então perco o respeito pela pessoa e portanto só não me envolvo com ela se a coisa não chegar a isso, porque se for necessário eu lido com ela à necessidade, que seja um capitão, como seja um coronel, como seja um soldado.
O som que ouvimos é dessa entrevista de Jorge Trabulu Marques a Manuel Alentejano. Foi gravada em 1984, dentro da cela. Nesta conversa, o recluso condenado a 23 anos de prisão por três homicídios e vários assaltos e fugas, critica o sistema prisional português. Fala sobre arrependimento e entrega os diários em que descreve a chegada do Rui.
Chamam-no o piratazinho, mas há outros piratas lá fora pior do que ele. Ele é inofensivo, já conversamos com ele. Ele parece-me um bom rapaz, é simpático. Agora, vão prender o miúdo. Temos aqui grandes piratas, eu também sou até um pirata, está aqui junto comigo.
O Rui está numa pequena cela no estabelecimento penitenciário de Lisboa. Depois de quase três semanas na Polícia Judiciária, agora está na maior cadeia do país. O advogado considera que esta transferência simboliza ao mesmo tempo uma vitória e uma derrota. Uma vitória porque o Rui deixa de estar num isolamento agressivo e deprimente. Uma derrota, porque mesmo com o fim da investigação na Judiciária, o juiz recusa-se a pô-lo em liberdade até à data do julgamento. A mãe vê a transferência como uma prova de que a prisão do filho vai continuar por muito mais tempo. Só nas curtas visitas é que o Rui consegue ter contacto com os familiares e com o advogado.
Eu era bastante novo, mas tinha suficiente maturidade emocional para perceber que o Rui Rodrigues precisava muito de uma assistência regular da minha parte. E eu, no mínimo, visitei uma vez por semana, talvez mais do que isso.
Nestas visitas, Agostinho Pereira de Miranda encontra um jovem muito ansioso.
Uma coisa é muito clara para mim ainda hoje: ele não estava nada calmo, pelo contrário, e ele estava num processo de perturbação cada vez mais acentuado.
Rui é consultado várias vezes por um psicólogo. Os relatórios médicos são também encaminhados para o tribunal. Agostinho Pereira de Miranda defende que a prisão traz consequências graves. Está preocupado com a estabilidade mental do Rui. O próprio Ministério Público sugere a reintegração familiar e social imediata para evitar uma rutura antissocial e uma eventual carreira criminosa, mas o Piratinha permanece detido. O país divide-se sobre o caso. A aventura do Rui continua a merecer cobertura na imprensa. Há quem defenda que deve aguardar julgamento em prisão domiciliária, outros pedem mão pesada para prevenir casos semelhantes. A notícia chega mesmo à imprensa internacional. A revista Time publica um artigo onde o tratam por pirata do ar tímido. É um curto texto que descreve o sequestro do avião da TAP por um jovem que pediu desculpa e que perguntou se 10 milhões de dólares de resgate seria um valor muito alto. Por esta altura, José Correia Guedes já voltou ao trabalho. Está de novo a pilotar aviões da TAP, mas mantém o sequestro na memória e um dia recebe uma visita inesperada.
Apareceu o pai dele lá em casa. Não sei como é que ele descobriu o endereço, mas descobriu e foi lá ter. E então, por um lado, a agradecer muito a intervenção, a ajuda, aquelas coisas do costume. E ele queria muito falar com o senhor.
Queria muito falar comigo?
Queria muito falar: se o senhor fosse vê-lo lá onde ele está. Toda a estrutura da TAP foi consultada, pensaram: isto é um balão de ensaio, ninguém é suficientemente maluco para fazer uma coisa desta. Isto é um balão de ensaio, é capaz de haver qualquer coisa mais séria por trás disto. Vai falar com o rapaz, vai ver o que é que ele te quer dizer. Ele tem qualquer coisa para te dizer e nós queremos saber o que é que ele te quer dizer.
A TAP suspeita de algo. Será que o sequestro não foi um ato isolado? José Correia Guedes tem uma nova missão: visitar o Rui na cadeia e descobrir mais sobre tudo o que se passou. O piloto compra um livro para oferecer ao Piratinha, escreve uma dedicatória e segue para a prisão. Encontra-se com o Rui na cela, oferece-lhe o livro e quer saber como tem sido tratado. Depois de alguns minutos de conversa, José Correia Guedes lança a pergunta que traz encomendada.
Então o que é que me queres? "Queria te agradecer muito, muito obrigado". "Queria me dar um abraço". "Só isso, não tens mais nada para me dizer?" "Não, queria te agradecer muito, foste muito generoso, muito bom, fico grato para o resto da vida". Lá ficamos outra vez de lágrima no olho.
O piloto passa a mensagem à TAP: caso encerrado. É mesmo apenas um miúdo que quis desviar um avião. As semanas passam e o Rui continua detido. Em julho, faz 17 anos na prisão. Os prisioneiros e os guardas organizam uma pequena festa para o Piratinha. Durante os dias na cadeia, o Rui convive com os outros reclusos. Joga pingue-pongue com o Manuel Alem e com o Dragão e, de vez em quando, até os deixam ver alguns filmes.
Eu lembro desta imagem dele contar: estavam a ver um filme, não sei se havia lá cinema, se era ver algum momento de cinema, não sei, e que apareceu um concerto da Blondie e que a malta na prisão fez barulho, tudo a mandar bocas.
O amigo Renato Ventosa sabe pouco sobre o que foi a vida do Rui na prisão, mas a verdade é que o Piratinha até tem um emprego. Trabalha na tipografia da cadeia. Desta forma, consegue aproximar-se daquilo que é a sua profissão de sonho: jornalista. O caso continua a gerar interesse. Enquanto está preso, o Rui é convidado para escrever um livro sobre esta história. E imaginem, até recebe uma proposta de uma editora discográfica que o convida para gravar uma canção com música de Rui Veloso. Nada disso foi para a frente. Por duas razões: primeiro, porque o Rui não quer ser visto como um herói, com medo de que isso jogue contra ele no julgamento e segundo, porque o que quer mesmo é ser repórter. No dia 28 de outubro, Idalina Rodrigues abre a porta de casa e sente-se mal À frente dela está o Rui. Tinha sido libertado depois de quase seis meses na prisão, mas não contou nada a ninguém. Naquele dia, um guarda prisional chamou o Rui e pediu que arrumasse as suas coisas. O Piratinha perguntou-lhe para que cadeia ia ser transferido. Responderam-lhe que ia para casa. Meia hora depois, sai em liberdade. Sem avisar os pais nem o advogado, apanha um táxi diretamente para o Feijó. Aquele miúdo que há seis meses saiu com um plano rumo ao aeroporto de Lisboa, que parou em Madrid, voltou a Portugal e que esteve preso, agora está novamente em casa. Foi um dia de festa com a família e os amigos. Renato Ventosa não se esquece desse momento.
Eu tenho uma rolha de uma garrafa de champanhe em que registei a data do dia em que ele foi libertado. Foi um alívio nós sabermos que o nosso amigo tinha sido libertado. Para já ele estava eufórico por se ter libertado. Acho que vinha normal. Cheio de ideias para continuar a fazer coisas, claramente.
É só depois de celebrar, já no dia seguinte, que o Rui liga ao advogado. Agostinho Pereira de Miranda, surpreendido, pede ao Piratinha que espere por ele. A notícia não pode circular antes de serem vistos juntos. No dia 30 de outubro, comparecem no tribunal para serem oficialmente notificados da decisão do juiz.
Eu vim para Lisboa e fiz questão de sair com o Rui Rodrigues do juiz de instrução criminal, e eu saí daquele edifício com ele e foi um momento mediático interessante.
Agostinho Pereira de Miranda não podia perder este momento. O espaço é curto para tantos jornalistas. O Piratinha acaba por responder aos repórteres.
Procurava chamar a atenção, não considerei que fosse o mais eficiente, mas na altura era o único e proporcionou-se. Talvez devido ao meu espírito de aventura, mas hoje não teria feito aquilo porque não teria tanta coragem.
O Rui explica como conseguiu desviar o avião e como foi a vida na prisão. No fim, deixa uma mensagem de arrependimento.
Passei seis meses numa cadeia ao pé de delinquentes, assassinos, violadores. Há lá muitos jovens da minha idade e o crime, como se costuma dizer, não compensa.
José Correia Guedes não dá pela notícia de que o Piratinha foi libertado. Está em casa em Carcavelos. Por esta altura, o piloto da TAP tem voado pouco e aproveita para tirar um curso de jornalismo. É num destes dias, enquanto estuda com um colega, que é surpreendido pela campainha.
Tocam à porta, plim plom, e vai-se ver e é ele.
O Piratinha está de novo com o piloto. É uma das primeiras coisas que o Rui faz depois de conseguir a liberdade.
Pedir montes de desculpas à minha mulher, como ela era professora e habituada a lidar com meninos mal-educados, que era o caso, deu-lhe um raspanete. "Tu não sabes o que eu sofri, mais isto, mais aquilo, isso não se faz". E o meu colega, que estava comigo a estudar, que não tinha nada a ver com este filme, estava de boca aberta. Mas que é isto do sequestrador entrar em casa do sequestrado?
O colega de José Correia Guedes já acha tudo isto estranho, mas fica ainda mais surpreendido com o que acontece a seguir.
Como era o fim da tarde, eu perguntei: "Já jantaste?" "Não". "Então, jantas aqui conosco". Havia jantar. Foi então que esse colega, o Jorge Soares, disse assim: "Isto é mentira. Isto não é possível. Vamos jantar aqui todos, o sequestrador e o sequestrado. Vamos, vamos jantar à vontade".
Depois deste encontro, o Rui começa a organizar a sua nova vida. Ele não quer voltar para a escola. Tem 17 anos e sente-se preparado para começar a trabalhar. Tem várias propostas de jornais e de rádios, e é por aí que começa. Neste período, recebe um convite inusitado. Uma produtora de cinema dos Estados Unidos convida o Rui a participar num filme em Hollywood para contar a aventura como Piratinha do Ar. Recusa. O filme nunca vai para frente. Nos primeiros tempos ainda dá algumas entrevistas. Explica que quer mostrar que aprendeu com os erros, que é um jovem comum, que quer trabalhar, que está pronto para ir à tropa, que gosta de passar tempo com os amigos e de ouvir música. Banda favorita? Heróis do Mar. A relação com os pais também melhora. Tudo corre bem na vida do Piratinha. Em 1983, Rui já deixou o jornalismo e trabalha numa produtora de filmes. Em setembro de 1984, vai à tropa, é recruta em Beja. Trabalha no Centro de Audiovisuais do Exército. Em 1985, pede a namorada em casamento. Está noivo. Tudo corre bem, mas não se esqueçam de uma coisa. O Rui está em liberdade, só que não foi julgado. Ainda pode ser condenado a uma pena que pode chegar aos 20 anos de prisão. Sim, já nesta época a justiça era lenta em Portugal. O desvio do avião acontece em maio de 1980, mas o julgamento só tem início cinco anos depois. Rui tem agora 22 anos. Passou tanto tempo que por esta altura Agostinho Pereira de Miranda vive nos Estados Unidos e o Rui tem o caso entregue a outro advogado, Vítor Miragaia. O juiz José António Rodrigues Simão nunca teve um caso assim.
Achei um caso absolutamente insólito. Uma coisa um bocado estranha. Foi isso que me lembra, desta estupefação.
Como tudo nesta história, também o julgamento vai ser diferente. O juiz aceitou o pedido dos advogados de defesa para que o julgamento se realize com júri. Sabem que este é um caso mediático e que grande parte do país defende a liberdade do Rui. Uma decisão através de um júri pode beneficiar o Piratinha. O julgamento está marcado para o Tribunal da Boa Hora. A primeira sessão acontece a 5 de dezembro de 1985 e a sala de audiência está cheia. Para além da família, há vários amigos e antigos colegas de tropa do Piratinha. Rui é o primeiro a ser ouvido em tribunal.
Lembra-me de uma pessoa, um rapaz novo e tal, bem-apresentado, com boa apresentação, com boa dicção, com presença.
O Piratinha explica tudo o que aconteceu na noite de 6 de maio de 1980 e confessa que o desvio do avião foi preparado ao detalhe durante os quatro meses anteriores. Refere que os conhecimentos que tinha sobre OVNIs ajudaram durante a preparação. O juiz pergunta-lhe se ainda tem interesse por fenômenos extraterrestres. Rui responde que hoje em dia é mais terra a terra, mais racional. Quanto às motivações, volta a evocar problemas familiares. Explica que o desvio do avião servia para conseguir o dinheiro que poderia ajudar a resolver todos os problemas da família. O juiz aponta para a quantidade de vidas que estiveram em causa neste sequestro: 83 passageiros e sete tripulantes. Rui explica que nunca admitiu a hipótese de magoar alguém, porque sempre pensou que a operação seria um sucesso. José António Rodrigues Simão pergunta ao Piratinha se alguma vez tentou contactar a TAP para pagar os prejuízos causados, 780 contos. Rui diz que nunca pensou em fazer isso, até porque não tem dinheiro. Mas o juiz ainda tem um ponto por esclarecer. Rui tornou-se no mais jovem pirata do ar. Não se sente uma espécie de herói? O Piratinha garante que não, que fez o que fez apenas para tentar resolver os problemas familiares. Por fim, o juiz pergunta se o Piratinha sentiu que gozava de uma certa impunidade por ter terminado o sequestro sem grandes sobressaltos. A resposta é clara: como poderia eu ter sentido essa impunidade se com a idade de 16 anos fui preso e passei seis meses na cadeia? O juiz nota arrependimento nas palavras do Piratinha.
Sim, acho que sim. Estava arrependido.
José Correia Guedes, o copiloto, testemunha a favor do Piratinha. Aliás, quase todos os depoimentos são nesse sentido.
Toda a gente atestava a alta qualidade moral, educacional, a inteligência, bom filho, bom amigo, bom aluno, bom tudo.
Estava cumprida a promessa. Cinco anos antes, o copiloto tinha garantido ao Rui que todos iam testemunhar a favor dele se desistisse do sequestro. Agora tudo se estava a confirmar. Mas o tribunal dá como provados factos que são graves. Um deles é a premeditação. Rui passou quatro meses a planear tudo isto ao pormenor. Ficou provado que tinha uma arma e oito balas e que ameaçou a tripulação para conseguir os seus objetivos: 10 milhões de dólares e um salvo-conduto para a Suíça. A utilização da arma era o maior problema para o Piratinha.
Em abstrato, é gravíssimo. A primeira reação terá sido que era extremamente perigoso, uma pessoa armada
Dentro do avião e a ordenar isto e ordenar aquilo, e faça assim. Isto é extremamente perigoso.
Rui é acusado de pirataria aérea, roubo tentado e posse ilegal de arma. A leitura da sentença acontece apenas a 8 de janeiro de 1986. Rui acaba condenado a dois anos de pena suspensa. Fica em liberdade. A idade, o arrependimento e o fato de já ter estado preso seis meses serviram como atenuante.
É sempre importante a forma como se assumem os factos, como se assume a culpabilidade. E ele assumiu isso e mostrou-se arrependido. E era muito jovem.
A família e os amigos do Rui não escondem a felicidade com a sentença. José Correia Guedes vê confirmada a promessa que fez durante o sequestro de que tudo iria correr bem. Elogia a decisão do tribunal.
Um bom exemplo de boa justiça, porque a justiça não é só para punir, é para educar. Eu acho que, na altura, a própria justiça sai dignificada deste caso, porque em vez de o punir severamente, dá-lhe uma oportunidade.
Os advogados do Rui queriam mais. Pediam a absolvição. Ainda assim, Agostinho Pereira de Miranda fala numa vitória. Mais de 40 anos depois do sequestro, o advogado confessa agora que nunca acreditou completamente na justificação apontada pelo Piratinha.
Se o Rui Rodrigues me estiver a ouvir, ele certamente perdoar-me-á, mas eu não sou muito sensível a esse argumento, porque os pais, como eu vim a testemunhar pessoalmente, tinham uma relação normalíssima para um casal daquela idade e vivendo nas circunstâncias em que viviam, sem nenhum tipo de violência. Não creio que tenha sido mais do que uma justificação de boa-fé dada por uma criança, se me é permitida a expressão, mimada, inteligente e que tem um especial talento para justificar as suas falhas por recurso a argumentos de natureza ética que sejam aprovados por quem o ouve. Não era seguramente para se divertir. Isso posso afirmar sem nenhuma hesitação, mas poderia ser para ver até onde chegava o seu poder, uma espécie de testar os seus limites.
Rui era apenas um jovem pacato de 16 anos do Feijó, antes de desviar um avião da TAP e aparecer nas notícias. Ficou famoso de um dia para o outro, mas depois do julgamento, desapareceu. Manuel Ramos Soares, que também passou a juventude no Feijó, recorda como deixou de o ver.
Tenho ideia que depois de ele ser libertado, devo ter visto por ali duas ou três vezes. Eu também estou convencido, embora sem estar certo, que ele, se ficou ali, passou a não sair de casa para passar discreto.
O clube de OVNIs que tinha com os amigos acabou de forma natural. Os miúdos cresceram, os interesses passaram a ser outros e com o tempo, até Renato Ventosa perdeu contacto com o Rui.
Eu acabei o 12º ano, fui para o técnico e passei a envolver-me bastante no curso que estava a tirar e com as pessoas do meu meio estudantil da altura. Os meus amigos de infância fomo-nos afastando de forma natural, em função das circunstâncias da vida.
Anos depois do sequestro, Luís Filipe Castro Mendes, que em 1980 era o secretário da embaixada em Madrid, que esteve na torre de controle a participar nas negociações, apanhou um táxi em Lisboa. Ficou surpreendido quando o taxista o reconheceu.
E o taxista olhou para mim e disse: "O senhor não esteve em Madrid?" Estive, fui secretário da embaixada em Madrid. Ele calou-se e depois no fim disse assim: "Olhe, eu não lhe levo nada". Eu disse: "Mas por quê?" "Não, eu sou pai do rapazinho que cometeu aquele ato de desvio de um avião e sei que os senhores, o embaixador, a embaixada, enfim, todos vocês da equipe da embaixada, salvaram a vida do meu filho".
Há poucos anos, Vítor Azevedo, que estava a bordo do voo 131 da TAP e que esteve sentado ao lado do Piratinha, conseguiu o número de telefone do Rui e ligou ao sequestrador.
Era uma espetada de jantar, falámos um bocadinho os dois, mas depois aconteceu alguma coisa e acabámos por não ir. Quis lhe ligar porque acho que é uma situação interessante conhecer agora um homem que quando tinha 16 anos se sentou na mala e teve aquela atitude, a diferença entre uma coisa e outra. Portanto, é agradável falar um bocadinho, porque repare, não é todos os dias que nós somos sequestrados, não é todos os dias que o sequestrador vai ao nosso lado, ainda menos. Portanto, isto marca
Agostinho Pereira de Miranda continuou a ser advogado do Rui em outras ocasiões. Quando aceitou o caso do desvio do avião da TAP sem receber nada em troca, era um advogado praticamente desconhecido de Vila Franca de Xira. Hoje, é um dos advogados mais famosos do país. Especializou-se na área de energia e divide-se entre Portugal e os Estados Unidos. A única pessoa daquele tempo que ainda mantém contato regular com o Rui é José Correia Guedes, o copiloto que teve uma arma apontada e que acabou por salvar a vida do Piratinha. Depois de se reformar em 2017, o piloto escreveu um livro com todas as aventuras que viveu e, claro, o sequestro é uma das histórias em destaque.
Antes do lançamento do livro reativamos mais a relação, para ele saber que ia escrever sobre o assunto e que ia contar a história e combinamos um jantar com as nossas mulheres. Fizemos um jantar a quatro, fiquei a conhecer a mulher dele, as histórias dos filhos, ele ficou a conhecer as nossas. E agora de vez em quando temos um telefonema, pelo menos todos os anos, vamos mantendo contato. Temos uma relação de mútuo respeito enorme, ele por mim e eu por ele. E penso que também temos orgulho um no outro. Eu tenho orgulho na carreira que ele teve. Espero que ele tenha orgulho também na minha carreira pós aviões.
Por esta altura, já devem estar a perguntar-se: o que é feito do Rui? Queria ser jornalista e foi, mas por pouco tempo. Acabou por fazer carreira nos media, mas mudou para a área comercial. Passou pela TSF, Rádio Comercial, RTP e TVI. Seguiu pelo mundo da publicidade, casou mais do que uma vez e tem dois filhos. Desde a decisão em tribunal, nunca mais quis falar sobre o que aconteceu. Não dá entrevistas e evita o assunto. Ao Observador, diz apenas que é uma coisa do passado, que compreende a importância desta história, mas prefere continuar em silêncio. O Piratinha cresceu. Quando desviou o avião, tinha 16 anos. Neste mês de julho, faz 60. A vida não lhe correu mal, mas é muito diferente da que sonhou quando escreveu o plano da Operação TAP. Querem saber como seria? Isso posso contar-vos, porque o Rui escreveu tudo no caderninho de linhas. Fez uma lista de coisas que gostaria de ter na Suíça depois de receber os 10 milhões de dólares do resgate. Primeiro, uma casa, mas não era uma casa qualquer. Tinha que ter jardim, piscina, garagem, ginásio, campo de tênis e uma cavalariça. Uma casa destas precisava de um cofre e de um sistema de segurança, claro. Ia também comprar uma televisão a cores e uma boa aparelhagem. Rui queria continuar a estudar OVNIs e saber mais sobre ciência. Para isso, ia precisar de uma biblioteca, um escritório e um laboratório com telescópio, microscópio e um ampliador de fotografias. A lista de desejos que escreveu é interminável. Uma máquina de filmar, outra de fotografar, uma de escrever e um leitor de vídeo. Para se entreter ia comprar equipamento de pesca e de caça. O Rui não esqueceu o exercício físico e fez uma lista dos desportos que queria praticar. E não eram poucos: ginástica, atletismo, natação, futebol, basquetebol, tênis, surfe, voleibol, caratê, hipismo, ciclismo e tiro. Queria também três carros e uma pista de karting. Na vida que sonhou, havia espaço para duas motas e ainda um iate e um barco a motor. Depois de tudo isto, anotou no seu caderninho os cursos que queria tirar. Primeiro, línguas, francês e inglês. Ia também ter tempo para estudar datilografia, caça submarina, canto, dança, fotografia, cinema e ciências ocultas. Por fim, escreveu os três últimos desejos. Tinha de aprender a andar de moto. Tinha de aprender a conduzir um carro. E claro, o Piratinha do Ar tinha de aprender a pilotar um avião. O Piratinha do Ar é uma série para ouvir em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Margarida Vila Nova, e tem banda sonora original de David Fonseca. O guião e as entrevistas são de Miguel Cordeiro. A edição é de João Santos Duarte. A sonoplastia é de Beatriz Martel Garcia. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos um excerto do filme A Grande Evasão, de 1963, e ouvimos ainda as músicas Call Me, dos Blondie, e Amor, dos Heróis do Mar. As declarações de Rui Rodrigues pertencem ao arquivo da RTP. Os registros áudio da entrevista a Manuela Lentojano foram cedidos pelo jornalista Jorge Trabul Marques. Podcast Plus, do Observador. É mais do que um podcast. Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis
