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Segunda-feira, cá estamos. Dia de distribuir sugestões com quem percebe do assunto. Por falar nisso, Joana Stickini Vilela, tu que estás por aqui estes dias.

Olá.

E muito bem. Queres começar por Joan Didion? É isto?

Por um livro póstumo.

"Pelu" livro.

"Pelu" livro. Foi uma coisa que eu aprendi quando fui estagiar, depois de tirar o curso: estava a sonorizar peças na televisão e eu dizia "pelo". E diziam: "Não, não é pelo, é plu".

Plu.

Porque "pelo" tinha acento circunflexo. E agora não sei como é que isto ficou.

Acho que agora não tem.

Não sei.

Não sei, também não sei.

Mas pronto, é plu.

Mas a gente põe: "A autora escreve segundo a antiga ortografia".

Fala.

Fala, exatamente. Muito bem.

A Joan Didion, em 1999, começou a ir a um psicoterapeuta por causa de um problema muito grave que a filha tinha, que era o alcoolismo. Tinha um problema muito grave de alcoolismo, que durava há muitos anos e estava a destruir a vida de toda a gente. E durante esse período, foi escrevendo uns textos no computador, que eram notas para o marido, o John. E ela nunca publicou isto, foram descobertas no computador dela e resolveram publicá-las. É um livro póstumo, saiu na primavera no resto do mundo, nos Estados Unidos, e em Portugal neste verão. Eu li-o há relativamente pouco tempo. E o livro foi muito criticado por algumas pessoas por dizerem que era uma devassa da vida privada, que ela nunca tinha querido publicar aquelas cartas. Outras pessoas louvaram-no enquanto objeto literário e pela sua qualidade. Tendo a Joan Didion escrito livros tão íntimos como "O Ano do Pensamento Mágico", que é sobre a vida dela depois da morte do marido, e o "Noites Azuis", que é sobre a vida dela depois da morte da filha, eu estou mais com estes últimos. Ou seja, as cartas não têm nada de mal, não me parecem uma coisa intrusiva. São muito honestas e permitem perceber, para quem tenha lido os outros dois livros e que tenha lido outros livros da Joan Didion, o que é que passava pela cabeça daquela mulher, que acaba por ter umas últimas décadas de vida muito trágicas com as mortes da filha e do marido. Mas esta dificuldade de lidar com uma filha que é alcoólica, a impotência que ela sente. Ainda por cima, a filha dela era adotada, portanto, há aqui um sonho que é completamente desfeito. E a Joan Didion era conhecida, e ela depara-se nestas sessões de análise pela sua obsessão pelo controle. E portanto, é uma pessoa que tem vivido e sobrevivido à custa de controlar tudo, que de repente percebe que não tem qualquer tipo de controle sobre a filha. E isto é muito transparente nas cartas e é muito interessante para qualquer pai ou mãe e para qualquer filho ou filha, porque acaba por ser um espelho, seja um espelho estragado, mas um espelho onde vemos sempre reflexos de várias partes das nossas vidas, seja enquanto filhos, seja enquanto pais, no caso daqueles que são pais. E a chave para isto, para uma pessoa tão controladora, é deixar de se tentar controlar e dar espaço à filha para fazer o que quer que seja. Não sabes se vai correr bem, se vai correr mal. E é uma leitura bastante dolorosa, mas que tem um nível de honestidade e de verdade que os livros dela têm, em geral. "O Ano do Pensamento Mágico" é absolutamente extraordinário. Eu recomendo que leiam no original, porque a escolha de palavras, a contenção, o controle para falar sobre uma coisa tão difícil como um luto, neste caso do marido, uma coisa assim muito de repente, de um casal que era completamente fusional. É um livro muito difícil e este é um complemento. Tenho outra sugestão.

Duas, aliás.

Sim, outra é só uma coisa muito rápida. Falo já dessa coisa muito rápida, que é: eu só cheguei agora a uma banda que de repente passei a ouvir muito, que se chama Black Country New Road, que é uma banda inglesa, e descobri-os só com o terceiro álbum. Acho que é o terceiro álbum, que saiu ano passado, que se chama "Forever How Long". E embora, depois de ouvir com mais atenção, gosto mais dos primeiros, do "For the First Time" e o "Ants From Up There". São uma banda inglesa que entra naquela categoria do indie, mas eles têm ali umas características: começam por ser sete, depois são seis, não sei quantos instrumentos, não sei quantas vozes, é uma mistura de punk com folk, com experimental, com uma loucura em palco e muito imprevisível, que é uma coisa rara hoje, e estamos a ouvir e às vezes há ali uma coisa de catarse, de loucura. Esta era uma sugestão assim em geral, e eles vêm cá a Paredes de Coura este verão. Portanto, pelo menos tem este pontozinho de atualidade. Mas a sugestão que eu trazia é o Beverly Glenn-Copeland, que é um artista, um cantor canadiano, que eu só descobri há uns anos por causa de um tema que me apareceu naquelas coisas do Spotify, que é o "Ever New" E eu fiquei um pouco obcecada por aquilo e ouvia muito, sem pensar muito no assunto. Era uma coisa quase de relação com uma transcendência qualquer, com uma voz que não se percebia bem que tipo de voz era, depois com uns sintetizadores, mas entre o futurista e o vintage, com uma intensidade, uma coisa muito bonita que eu ouvi muitas vezes. Mas sabia muito pouco sobre ele e depois fui googlar e percebi que isto é daqueles artistas de culto que lançaram um álbum que passou completamente despercebido, chamado Keyboard Fantasies, e que depois foi redescoberto nos anos 80 por um colecionador japonês. O que seria de nós sem os colecionadores japoneses? Que foi ter com ele e relançou a carreira dele e trouxe-lhe algum sucesso em vida. Entretanto, ele foi fazendo outras coisas e lançou agora, ele tem 81 anos, um álbum que se chama Laughter in Summer e é capaz de ser o álbum menos interessante dele, mas tem uma história que é, além de permitir às pessoas entrar em contacto com o trabalho dele e com este disco Keyboard Fantasies, que é extraordinário, é mesmo uma coisa que parece quase fora deste mundo, e pensar que foi feito há quase 40 e tal anos. É ele com a mulher que fazem este Laughter in Summer, que saiu agora no início de fevereiro. E por que este álbum sai agora e se chama Laughter in Summer, ou seja, rir no verão? É que ele está com uma demência. É uma coisa parecida com o Alzheimer, encefalopatia TDP-43. E quando foi ao médico, disseram: "Faça palavras cruzadas para não se ir abaixo, para não perder capacidades". E ele às tantas vira-se para a mulher e diz: "Eu odeio fazer palavras cruzadas, eu devia era estar a aproveitar estes anos para fazer música, para fazer digressões e para ganhar dinheiro, que precisamos de dinheiro, e coisas que nós gostamos de fazer". Ele neste momento não é capaz de guiar um carro, não é capaz de preencher papelada, não é capaz de nada disso, mas criou este álbum, que esteve em digressão em Londres, ainda vai voltar a Londres, teve umas datas no Canadá. A voz dele nota-se que está muito mais frágil, ou seja, não é um álbum só por si, muito interessante, mas é interessante por todo este contexto. Acresce a isto tudo, e eu deixo para o fim de propósito, um facto que se eu te tivesse dito no início ia-

Estragar isto tudo.

Não é estragar, mas ia influenciar toda a apreciação que as pessoas podem ter sobre a música dele, e eu fiquei muito contente de não ter sabido disto antes de ouvir, que é: ele é um homem trans. E eu não fazia a mais pequena ideia. Na minha apreciação disto, só poderá fazer diferença se o tema vier à baila. É tudo muito único e este álbum tem a característica de, além de se sentir esta voz mais frágil, de se sentir um ambiente muito íntimo, uma coisa muito pessoal, ter sido tudo gravado ao primeiro take, ou seja, eles atuaram.

Puseram a gravar e vamos em frente.

E já está! 81 anos, cá está ele.

Muito bem. Por falar em gravar ao primeiro take, Bruno Vieira Amaral. Não sei por onde começar. Queres começar pelo cinema que tens aqui para sugerir às pessoas?

É repetir uma sugestão que o Pedro-

Não é não quer repetir, meu amigo. É reforçar.

É reforçar. Tens toda a razão, como sempre, ou como habitualmente.

Ora bem.

Vou reforçar aqui uma sugestão do Pedro da semana passada, o ciclo Ingmar Bergman, que está a decorrer. Hoje, segunda-feira, há o Sonata de Outono, está a decorrer no NIMAS.

Tu és fã?

Do Bergman?

Sim.

Quer dizer, eu não conheço toda a filmografia do Bergman. Os meus realizadores preferidos eu conheço substancialmente a filmografia. E do Bergman eu devo ter visto uns cinco ou seis filmes. Não conheço a filmografia completa, porque ele tem uma obra muito extensa.

Sim.

Portanto, há que fazer essa ressalva. E por isso mesmo, esta é uma boa oportunidade de ver em cinema. Hoje o Sonata de Outono, com outra Bergman, mas sem nenhuma relação. A Ingrid. Na quarta-feira, às 21h45, há A Máscara, não com o Jim Carrey.

Não confundir.

E no dia 1 de março, há Lágrimas e Suspiros. Também podem fazer o vosso ciclo Bergman em casa.

Épa!

No Filmin.

Serviço público. Vamos embora.

É verdade. Estão muitos filmes do Bergman.

Estão, sim, senhor.

Eu vi há poucos dias o Morangos Silvestres, um dos que nunca tinha visto e é um dos mais importantes na carreira do Ingmar Bergman. Portanto, podem fazer isso também. E a Filmin permite mesmo isso, porque tem um grande acervo de filmes de grandes realizadores, filmes clássicos, ao contrário do que acontece nas outras plataformas. Algumas até têm, mas é mais difícil, não é tão intuitivo chegar lá. Portanto, esta é a minha sugestão. Vejam-no no cinema, sempre preferível, mas nem toda a gente que nos está a ouvir vive em Lisboa e tem possibilidades de se deslocar a Lisboa para ver um filme do Ingmar Bergman. Portanto, podem também fazer o vosso ciclo caseiro e organizam à vossa vontade. No Teatro da Trindade.

Mais clássicos. Isso é só clássicos.

Clássicos. Eu aposto sempre nos clássicos. Até dia 5 de abril está a peça Gaivota, de Tchekhov, com encenação de Diogo Infante, com Alexandra Lencastre nos papéis principais Esta peça, fui pesquisar um pouquinho sobre a história dela e tem um-

Ainda vamos acabar de descobrir hoje que o Bruno Vieira Amaral também fez teatro.

Não cheguei a fazer teatro, mas participei num grupo em que fizemos algumas coisas parecidas. Enfim, agora não vou explicar.

Muito bem, depois falamos.

Esta peça foi encenada pela primeira vez em 1896 e foi um rotundo fracasso.

Pois é.

E depois foi levada à cena dois anos depois. Por quem? Constantin Stanislavski, o pai do método.

Exatamente.

O pai do método. E foi um grande sucesso, isto em Moscovo. Na altura em que Moscovo era um sítio mais simpático para as artes do que é agora. E essa história é uma das peças centrais de Tchekhov e também aponta muitos caminhos para a dramaturgia moderna. Muda um pouco as coisas, é um game changer.

Muito bem. Sim, também é um clássico à sua maneira.

Um game changer. Por último, duas sugestões de livros. Outro clássico. Desculpem.

Não, eu acho que estás muito bem.

Um ensaio, "Um Quarto Só Para Si", de Virginia Woolf. É um clássico, mas agora vem numa nova tradução, numa nova edição. A tradução é do João Pedro Vala, colaborador também regular do Observador, e é uma edição da Bertrand. Este livro foi originalmente publicado, o ensaio, em 1929, e resulta de duas conferências proferidas pela Virginia Woolf sobre o tema "Mulheres e a Ficção". E ela hesita sobre o tema que vai escolher. Por exemplo, podia ser "Mulheres que Escreveram Ficção", "Ficção Escrita sobre Mulheres". E vai nos levando num estilo muito literário. A quantidade de metáforas que se vão sucedendo e as descrições são puramente literárias. Ou seja, não é um ensaio daqueles secos para provar uma tese, mas leva-nos ao que ela diz, que é o objetivo dela: levar à verdade. Ou seja, existem os factos e depois existe a verdade. O que ela procura neste ensaio é chegar a essa verdade, porque não é uma coisa em que ela vá despejando toneladas de informação para fazer valer o seu argumento ou para validar o seu argumento. O que faz é levar-nos pela mão por outros caminhos, mais subtis, para chegarmos a essa conclusão, que é uma conclusão que hoje, nos nossos tempos, já nos parece um pouco mais natural, mas que não era assim tão natural na altura em que Virginia Woolf escreveu, ainda que já fosse uma ideia em transformação, que é: para alguém escrever, e para as mulheres escreverem naquela altura, era necessária, era fundamental a independência financeira. Independência financeira que depois está cristalizada ou simbolizada no quarto só para si. O quarto só para si significa não só um espaço físico onde a mulher se pode afastar de todo o rumor, de todo o ruído da vida familiar, da vida doméstica, para criar, coisa que era uma raridade e que, em certo sentido, ainda continua a ser. Mas não só esse espaço físico, também um espaço de independência emocional, de independência mental e de independência financeira. A Virginia Woolf fala da importância que teve pra ela a herança que uma tia lhe deixou, de 500 libras por mês. A tia morreu e deixou-lhe em testamento 500 libras, que lhe permitiam viver muito desafogadamente para o resto da vida. E ela diz que sentiu a diferença, porque até aí dependia de pequenos trabalhos, de biscates, de artigos que escrevia para jornais e revistas. E ela disse: "A partir dali, eu não tive de bajular mais nenhum homem, não tive de me submeter e pude ter o meu espaço." E ela, ao mesmo tempo que vai desenvolvendo este argumento, também vai buscar exemplos do passado, que são sempre exceções. E ela diz: "Estamos sempre a falar, quando falamos deste assunto, vamos parar sempre à Jane Austen, às irmãs Brontë, à George Eliot, e não saímos muito daqui." E isso tem que ver com o fato de o mundo tal como existia, a sociedade tal como existia, não prever um lugar de participação na esfera cívica, intelectual, criativa, para a mulher. Não havia. Ou seja, havia muito talento. Ela dá o exemplo de se Shakespeare tivesse uma irmã, o que é que teria sido o destino dessa Judith Shakespeare?

Então, tens a história da irmã do Mozart, por exemplo.

O que é que lhe teria acontecido? Ela faz essa questão e, no fundo, está a dizer que é preciso muito mais do que talento para alguém se tornar escritor. E, neste caso, até por maioria de razão, para se tornar escritora. É preciso muito mais do que um talento inato. São precisas condições que a sociedade, pela forma como se organizava, não dava às mulheres. Então ela faz a crônica dessa transformação e também a apontar para aquilo que é necessário para que essa independência se concretize. Ainda dentro do mesmo registro, mas de uma feminista já de uma geração seguinte, eu trouxe aqui um livro que veio comigo do México: "Por Qué Algunos Hombres Odian a las Mujeres".

Muito bem.

Da Vivian Gornick, uma feminista norte-americana, jornalista também. E este livro é um conjunto de reportagens, ensaios. Abre logo com um maravilhoso capítulo, que é dedicado a um salão de cabeleireiro Em Nova Iorque, o Salão do Bobby. Isto dava quase para adaptar esta reportagem para teatro, porque ela vai contando como o cabeleireiro funciona como uma espécie de pivô, que vai permitindo que estas mulheres que se juntam ali falem das coisas mais triviais, mas ao mesmo tempo dos assuntos mais profundos que têm a ver com a sua experiência enquanto mulheres. Por um lado, nas relações conjugais, familiares e por outro, também na sua participação no espaço público. É uma reportagem, um ensaio maravilhoso, mas depois também tem uma adversativa, que serve apenas para dizer que este é um pouquinho diferente, que é uma espécie de libelo contra a misoginia de autores como Philip Roth, Norman Mailer ou Saul Bellow. Também é um interessante argumento. Só para dizer, os homens não se devem assustar com estas coisas, com estes livros, e acho que continuam a assustar-se muito noutras áreas. Mas aqui a Virginia Woolf dá o exemplo de um escritor que leu um livro de uma escritora em que ela fazia uma referência, fazia uma crítica a um livro dessa pessoa, ou de um livro de outro homem. E que ele, por essa crítica, tinha dito logo que aquele era um livro de uma feminista obstinada. Às vezes nós temos de olhar para as coisas com mais leveza. Deixar só as coisas fluírem e não ver tudo como um ataque entre sexos, ou às vezes até entre classes sociais. Relaxar, ler e aproveitar aquilo que os autores têm para dar.

Muito bem, rapidamente, só para ficarem a saber que o nosso ouvinte Rui Vítor Costa fez questão de insistir e dizer-nos que há muita coisa boa a acontecer na RTP 2, caso não saibam. Ele enviou aqui uma série de sugestões e eu fui ver. Por exemplo, esta semana está a passar às quartas-feiras uma série documental sobre Dante, que se chama "Dante: do Inferno ao Paraíso". Julgo que são quatro episódios. Esta semana passa o segundo. Esta segunda-feira, dia 23, podem ver o documentário "Aqueles que Ficaram", que é sobre os familiares dos resistentes na altura do Estado Novo. Resistentes que se exilaram, que foram presos, que foram mortos, etc. E no dia 25, portanto quarta-feira também, ainda que a hora possa ser complexa, depois é sempre possível ver na RTP Play, à 00:35, um documentário que se chama "O que é um nome?", que é um documentário sobre António Pinho Vargas. Coisas inesperadas e muito interessantes andam por aqui. E depois, só duas dicas: dois filmes nomeados para os Oscars, que um deles é possível voltar a ver no cinema, que é o "Agente Secreto", que está reposto em algumas salas antes da cerimônia. Eu fui ver, ainda não tinha visto e posso garantir que saí bastante desiludido face ao que já tinha ouvido. Fica a nota. E outro que está na Netflix e que eu acho que já aqui falámos, que é o "Train Dreams: Sonhos e Comboios", ou "Sonhos no Comboio", não me lembro, e que até metade promete que pode vir a ser um bom filme e depois descarrila. Não sei se gostaram desta piada. Pedro Bochinim Mendes, vamos em frente. Tens pelo menos duas séries para sugerir.

Primeiro dizer quem viu "Sentimental Value", a cena inicial da atriz que não consegue entrar em palco.

Sim.

É com esta gaivota que o Bruno falou. É esta a peça de teatro. Está tudo ligado.

É verdade.

Depois, recomendar hiper, mega, super, top. Recomendar o podcast sobre a Bíblia estreado aqui no Observador há muito pouco tempo. Eu creio que ontem, domingo, foi o segundo episódio.

Segundo episódio. "As Histórias da Bíblia" é o título.

Não sei se não será o melhor podcast português que alguma vez ouvi, e ainda só ouvi um episódio. Além de ser uma boa ideia, porque fala do livro onde assenta a civilização judaico-cristã, que é a nossa, a civilização ocidental. É uma espécie de manual de instruções, sobretudo ao nível de como as pessoas se devem relacionar umas com as outras e com a comunidade. E parece um podcast sobre uma série, ou seja, aquilo é feito por dois padres, um jesuíta e um jornalista.

João Francisco Gomes, jornalista aqui do Observador.

E o jornalista, sim. Eles conseguem ir falando de várias situações. O primeiro episódio é mais genérico, mais geral. Por exemplo, explicando se aquilo foi escrito ou de uma vez, se não foi. E parecem perguntas de aluno de primeiro ano. E de facto são essas as perguntas mais difíceis de colocar, porque nós temos sempre medo de parecer ignorantes, e as mais difíceis de responder, porque normalmente não têm uma resposta precisa, óbvia, evidente, e a resposta até satisfatória que nós gostaríamos. Depois, é interessante ver como nós levamos uma vida inteira a associar os padres ao sotaque da Beira. Estes dois padres não falam assim.

Ou o diácono Rémedios.

Sim, que é inspirado nesses

nessas espadas. E a coisa, de fato, tem efeito de não ser aquela voz do senhor antigo, como que moderniza o acesso que nós temos a este tipo de conhecimento, que pessoalmente eu acho que devia ser muito mais presente no nosso ensino, não do ponto de vista religioso ou da fé, de nós acharmos que há qualquer coisa que nos transcende e que é superior a nós, mas no sentido de compreender como é que a nossa civilização é o que é, e as outras não são. Pois há quem considere que a civilização ocidental será superior ou não. Isso é uma discussão, que se fosse há uns anos, eu diria rapidamente o que acho e que agora, tendo juízo, vou guardar para mim.

Mas pode sempre dizer Karling.

Exato. Vou guardar para mim a minha opiniãozinha. Mas aconselho vivamente este documentário que se chama Histórias da Bíblia.

Podcast.

Podcast, desculpem. Histórias da Bíblia aqui no Observador.

Serão 12 episódios. Número dos apóstolos.

Não sei se é essa a razão. Se calhar é.

Uma fácil ideia.

Uma fácil ideia. O Asterix também era 12 trabalhos.

E os 12 débitos.

Os Asterix são inspirados nisso.

12 é um dos números presentes na Bíblia. E os cavaleiros da Távola Redonda?

Também eram 12. Se calhar é inspirado no Hércules. Duas séries muito curiosas e francamente boas. Primeiro, Wonder Man, na Disney Plus.

Vale a pena?

Uma série do universo Marvel. Os super-heróis. Eu também não gosto. Ou também já não tenho idade. Mas eu vi alguns trechos, alguns num elogio a esta série e como pessoa com o tempo que eu sou, com a minha vida imensamente aborrecida e cheia de momentos destinados à procura de ocupar a minha cabeça, fui espreitar e é de fato uma série francamente boa. Não sei se não é a melhor série que eu vi até agora este ano. Estamos em fevereiro de 2023.

Mesmo assim é uma corajosa afirmação.

Sim, eu vou no terceiro, quarto episódio e ainda não há grandes coisas de super-heróis. É um ator negro, é um jovem negro em Los Angeles que quer ser ator e que se cruza com um tipo que é o Ben Kingsley, o ator, que o ajuda, que também é ator. E depois nós percebemos a dada altura que há ali uma conspiração qualquer, mas não percebemos bem quais são ainda os poderes do Wonder Man, nem onde é que isto vai dar. Só que o companheirismo e a camaradagem entre um ator jovem e até inocente, mas completamente obcecado com o seu trabalho e o velho, mais cínico e mais iludido com a vida, mais deprimido, aquilo resulta numa composição. Os episódios têm cerca de meia hora. É uma daquelas séries que nós damos por nós a ver e não sabemos bem por quê, mas estamos a gostar na mesma. Aconselho vivamente o "Wonder Man" na Disney Plus. E aconselho também "Unfamiliar", uma série alemã na Netflix, sobre um casal de espiões alemão que está reformado e está retirado, e depois, claro, no meio do primeiro episódio tem que voltar ao ativo. E tem todas as suas skills, sabem caratê, usar armas, fazer venenos, computadores. Portanto, tem aquela vibração de: "ah, não, mais uma série de espiões e depois vamos ter muito humor". Mas não, esta série, o argumento fica mais complicado, a história, e é interessante observar como, muito provavelmente, esta é uma série de propaganda alemã, da Alemanha contemporânea. Ainda vou investigar isso. Ou seja, muito provavelmente, os alemães, o Estado alemão, autorizaram o acesso à espionagem alemã verdadeira, digamos assim. Portanto, esta série decorre nos serviços secretos alemães, que eu agora não me lembro como é que se chamam, o SIS alemão. No fundo, é para o espetador alemão, creio eu, poder perceber que o seu país é suficientemente sofisticado militarmente. Como sabemos, a Alemanha, por Constituição, tem um acesso limitado ao poder militar, como o Japão, na condição de derrotados na Segunda Guerra Mundial. Esses acordos ainda vigoram de alguma forma. Mas eu fiquei impressionado com a capacidade dos serviços secretos alemães. Aliás, já tinha acontecido noutra série, no "The Agency", sobre os serviços secretos ingleses. Ou seja, os países ocidentais europeus, através da ficção, estão a explanar o seu poder, poderio, ou pelo menos a sua propaganda, ao espetador. Esta série vale bem a pena porque, além desta parte mais política, que pode interessar a alguns, está bem feita, a atriz, a protagonista é ótima, bastante atlética no bom sentido, ou seja, sem nunca perder a feminilidade, que é sempre o problema dos personagens femininos que são espiões e sabem lutar caratê, correr. E aconselho vivamente. São seis episódios na Netflix, "Unfamiliar".

Sim, senhor. Sugestões aqui estão entregues e estão sempre disponíveis em podcast. Sigam-nos para não perderem nenhum episódio. Nós voltamos na quinta-feira. Até lá.