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Bem-vindos a mais um "Pop-Up", o programa que ainda não aparece em nenhum inquérito sobre práticas culturais, mas quem sabe um dia chegamos lá. É também por isso que todas as semanas juntamos estes intelectos singulares: Maria Ramos Silva, Bruno Vieira Amaral e Pedro Boucherie Mendes. Esta semana vamos tentar perceber o que se passa com o sexo no cinema, se é que se passa alguma coisa. Já lá vamos. Antes, vamos falar sobre o estudo, a propósito das práticas culturais em Portugal, que foi publicado esta semana. Tudo na boa dica. 63% dos inquiridos não leram um livro em 12 meses, 90% ligam a televisão todos os dias e o consumo cultural continua a ser muito determinado pela capacidade financeira, pela formação e pela idade. São alguns dos principais resultados de um estudo feito pelo Instituto de Ciências Sociais para a Fundação Gulbenkian, resultados que foram apresentados esta quarta-feira. A nós, cabe-nos a análise que você, querido ouvinte, estima e aprecia. Bruno Vieira Amaral, por falar em apreciar, vamos começar por ti. Surpreendem-te estes resultados ou, em particular, se algum resultado, algum número te surpreende? Ou já nada nesta vida te surpreende?

Nada me surpreende.

Eu vi logo.

Sobretudo ao nível dos consumos culturais em Portugal. Mas interessa-me sim falar mais dos livros. Eu não sei se é 61 ou 63.

Vamos corrigir, porque se calhar fui eu que me enganei. Portanto, vamos já resolver este problema.

Eu não tenho a certeza. Números também não é a minha área. Digamos que são 61%.

São 61%. Ótima correção. Afinal, surpreendi-te.

Não pegaram no livro no ano passado.

Não foi no ano passado.

Não tocaram mesmo.

Exato. Mas não foi no ano passado, isto é relativo a 2020.

É 2020.

Mas nos 12 meses anteriores ao questionário.

Ao inquérito. Pronto. Ok.

Exatamente.

À partida, parece um número assustador. Pessoas que nem leram um livro. Mas depois vendo bem a coisa, é só deprimente. Porque temos de nos lembrar que dos 39% que leram e que se afirmam leitores, e que leram coisas no ano anterior, muitos leram subprodutos literários, outros leram livros técnicos. E no fundo, isto é o que é. É o resultado de um país pobre, não só economicamente, mas também economicamente pobre, periférico, de tradições católicas, de uma alfabetização tardia, também, em que nunca houve uma cultura individualista, de se pensar pela própria cabeça, que aliás, é a única maneira de se pensar. Pensar pela cabeça dos outros não é pensar. E neste país, com estas condições de base que já não são muito favoráveis à leitura, surgiram de repente, não só no nosso país, mas no nosso país também, outras e múltiplas formas de entretenimento, que são muito menos exigentes do que a leitura. E o livro, que nunca foi cultivado em Portugal, de repente passa para o lugar onde sempre esteve, que é no fim da lista das prioridades.

Só para entendermos, resumindo, não te surpreende, mas ficas contente por ter um número mais concreto, é isso?

Eu acho que sim, mas acho que qualquer pessoa que trabalhe na área do livro, que tenha algum contacto com o setor do livro, setor económico do livro, seja como livreiro, seja como autor, seja como paginador, tradutor, já percebeu que o retrato seria mais ou menos este. Se não pior. Se calhar aqui ainda temos das pessoas que leem, pessoas que leem muito. E isso talvez acabe por disfarçar um pouco as coisas. Agora, são números terríveis. São números terríveis, por exemplo, para o Plano Nacional de Leitura, que é um fracasso completo. É preciso dizer isto, que o Plano Nacional de Leitura, neste momento, está reduzido à colagem de uns autocolantes nos livros, que os autores todos contentes depois exibem quando o livro entra para o Plano Nacional de Leitura, mas que depois não têm efeito nenhum. Ou quer dizer, é o que diz este estudo. Pelo menos é isto que o estudo dá a entender, é que o Plano Nacional de Leitura, que existe desde 2006, não tem qualquer efeito, porque as gerações mais jovens dizem que não retiram qualquer prazer do ato de leitura. Esta é uma das razões, todas estas condições de base. Mas eu acho que a maioria das pessoas até leria alguma coisa se sentisse, mesmo não retirando qualquer prazer da leitura, se sentisse que daí lhe adviria algum benefício social, profissional ou intelectual. E não sentem que os livros lhes trazem isso, porque estão rodeadas de pessoas que também não leem, também não valorizam os livros. Eu creio que uma das conclusões do estudo é que só as pessoas de um determinado nível socioeconómico é que usufruem de certos bens culturais. Mas eu tenho a impressão, é só a impressão, e acho que o estudo não foca esse ponto. Eu tenho a impressão de que uma parte dessas pessoas que usufruem de certos bens culturais, também ascendeu a um determinado nível Socioeconómico e cultural, graças ao consumo desses bens culturais. Mas provavelmente para a maioria das pessoas as coisas não funcionam assim, ou as pessoas sentem que não funcionam assim e que não vale a pena ler. Não há nenhum benefício, nenhuma vantagem em ler. Por isso não lê.

Mas temos sol. Portanto, também não vamos estar com-

E peixinho grelhado e bom vinho branco.

Bom vinho. Tem aqui alguém no estúdio a fazer sinal, não vou dizer. Pedro Bochinche Mendes, quero saber a tua opinião cuidada sobre esta minha dúvida, que é: por um lado, por que razão é que nunca se terá feito um estudo destes e até que ponto basta termos um estudo feito para chegar a alguma conclusão? Não bastará um estudo para traçar uma tendência. Terá que ser um trabalho continuado, eventualmente, não te parece?

Como diz um filósofo contemporâneo: "Vamos lá ver."

Você tem graça.

A conclusão é que os portugueses leem pouco.

Uma das.

Pronto. Portanto, olhando para o número, vemos que leem pouco. Mas depois, estas mesmas pessoas que leem pouco são elogiadas por serem amorosas, calorosas, saberem receber, fazerem bom vinho, etc. Somos nós. E também estamos na cauda da tabela, muito cá embaixo, acho que somos mesmo os piores no ranking da literacia financeira. Mas depois somos os mesmos que criamos a escola pública e o SNS. Andamos de elogio e de drama, elogio dramático, somos péssimos numas coisas, e depois é difícil discernir o que é importante ou não. A leitura, como outras coisas, é um hábito, é como habituar os miúdos a comer legumes. Quem tem filhos pequenos sabe bem e até se gaba disso: "Os meus filhos comem sempre salada, porque desde pequeno que demos salada aos miúdos" ou o que for. E um dos problemas do livro em Portugal, certamente terá vários, é a sacralização do objeto. Um livro em Portugal é quase sempre uma coisa boa, enquanto, por exemplo, um programa de televisão é quase sempre uma coisa má. Porque aqui neste estudo também dizem que 90% dos portugueses, e devem ser mais, veem televisão todos os dias. Mas se calhar é melhor ver um documentário sobre o Eça de Queiroz na televisão do que ler um livro de autoajuda. Talvez as coisas não sejam tão graves como se pensa. Talvez o acesso que as pessoas têm à chamada cultura ou conhecimento, a forma como satisfazem a sua curiosidade, esteja a mudar. Muita gente está na internet e estando na internet temos que ler. Nós para lermos os posts no Facebook ou o que for, temos que ler.

Confesso.

Exercitar esse músculo. E talvez a indústria livreira e os próprios autores não estejam bem sintonizados com o que o público pretende ou com o que o público quer, porque aqui o drama maior parece ser os portugueses não leem os livros que os mandarins acham que esses portugueses deveriam ler, porque parece que o Raul Minhál, se é assim que se chama, e o Pedro Chagas Freitas ou o José Rodrigues dos Santos, não se queixam tanto como outros autores. Não estou de todo a dizer que uns livros são melhores que outros ou piores, ou que deviam ser assim ou assado. Estou apenas a dizer que às vezes quando manifestamos alguma mágoa ou alguma depressão por qualquer coisa, às vezes temos que saber como é que estamos a colocar a questão.

Pedro, mas isto não é uma questão de autores. Estás a olhar para números que dizem que 61% dos portugueses não pegaram num livro. Não tem a ver com autores, não tem nada a ver com essa ideia dos intelectuais que queriam que os portugueses lessem estes livros.

Mas a verdade é que queriam e querem.

Que lessem todos os livros que quisessem, mas que fossem 90% dos portugueses a ler.

Mas não havendo o hábito, como tu disseste e bem, e não se criando o hábito.

Não se lê nada. A questão é que não se lê nada, estás a perceber?

Sim, estou a perceber perfeitamente. A questão é se isso é bom ou mau. Pessoalmente, eu acho que é mau, mas não tenho bem a certeza de que seja assim tão mau. Acho que é o que é, nós somos o que somos. Somos bons numas coisas, a grelhar peixe, e somos maus noutras coisas. Não me parece é que existam políticas públicas e exista um interesse por parte do Estado, vamos dizer assim, de quem governa, seja que partido for, em promover a leitura, além desse plano nacional de leitura, do que tu falavas, ou além de algumas organizações que fazem com que as pessoas se sintam melhor. O papel das bibliotecas é importantíssimo, por exemplo, e há muita gente que vai à biblioteca, outras pessoas não irão. Mas eu acho que tem muito a ver com a relação que temos com o livro, embora, cada um sabe de si, não temos que impor nada uns aos outros.

Maria Ramos Silva, pegando aqui na deixa do Pedro e falando de coisas que eventualmente poderão estar na origem deste nosso comportamento coletivo. Nós entrevistávamos um dos coordenadores deste estudo, que nos lembrava, por exemplo, que muito pouca gente é habituada em pequeno a ir na companhia de familiares a uma livraria ou uma biblioteca. Quase ninguém vai. E depois dizia também que na educação, nas pedagogias escolares, que a cultura e as artes tendem a ser sempre secundarizadas ou colocadas sempre à parte face a qualquer outro tipo de matéria, seja científica.

Sim, é que há várias questões.

Desculpa, como a educação física também.

Sim, mas como aqui a questão era a cultura.

Certo.

Sim, o Pedro falava da questão do livro. De facto, se calhar é um formato que também está em transição, mas a questão é que mesmo nos consumos de internet, e este estudo mostra que os jovens leem mais online do que nós líamos, como é evidente, por razões óbvias de meio, de formato.

Os jovens mais do que nós? O que este estudo quer dizer?

Mais do que nós temos jovens, Tiago. Reconheçamos que já não somos assim tão jovens.

Em frente.

Em frente. Mas o fato é que, ainda assim, em termos de consumo de internet, nós continuamos atrás da média europeia e, portanto, manifestamente continuamos a não ser o país materialmente mais próspero e disponível para consumir isto tudo.

Por exemplo, uma comparação, se não estou em erro, este número de 61% que não leram um livro em 12 meses, em Espanha correspondia a 38% dos inquiridos.

Não é preciso ir muito longe para perceber que há aqui uma diferença material.

É a inversão dos números.

É, basicamente.

Bastante significativa. Aliás, eu dou sempre este exemplo, nem é preciso chegar à cultura, pegando num parente que normalmente é menos pobre que a cultura, que é o desporto, até é bastante acarinhado entre nós. Só se pode explicar pelo fato de sermos um país muito periférico em programar a sua própria ambição e nas suas próprias condições materiais, quando lembramos que temos 800 km de costa e que o surf, por exemplo, ou outro desporto náutico, não é o nosso desporto nacional. Nós jogamos futebol. Ainda bem que jogamos futebol, jogamos alguma coisa. Há obviamente ali uma série de necessidades a suprir do ponto de vista mais interior. As pessoas também têm direito, legitimamente, a aspirar a praticar algum desporto que não seja tão elitista.

Mas basicamente quer dizer que não faz sentido.

Não, não faz sentido, porque em qualquer país civilizado e com condições, esse seria uma escolha muito mais óbvia.

Com 800 km de costa.

Altamente potenciada do ponto de vista do turismo.

Em que as crianças não aprendem a nadar na escola.

Por exemplo.

Dizem que somos um país de marinheiros, é normal, não temos que saber nadar porque temos os barcos.

Morremos todos na praia, porque não vamos mais além.

Temos os barcos, portanto, não é preciso saber nadar.

Sim.

Agora, isso também é um sintoma, é um sinal do fracasso de políticas educativas que não se limitam. O Pedro estava a falar da educação física. A formação não se limita aos livros, uma formação livresca.

Evidente.

É uma formação que estamos a pensar globalmente, mas tudo isto depois vai dar ao mesmo. Que é a fraca formação dos portugueses nas mais diferentes áreas.

É tudo. Sim, está tudo muito interligado. Eu costumo pensar que, de facto, estes nossos caminhos do consumo da cultura são meio insondáveis, porque o Pedro dava aquela analogia da salada e eu percebo, obviamente, faz imenso sentido. Por outro lado, eu acho que os pais também sabem que podem ter dois, três, quatro filhos, educá-los todos da mesma maneira, estimulá-los ou querer estimulá-los com livros e com música.

E vão ter resultados diferentes.

E vão ter resultados diferentes. Eu tenho esse exemplo em casa e certamente muitos pais vão ouvir isto e vão rever-se.

Com os seus cinco filhos?

Com os meus cinco filhos, não, mas com o meu irmão, neste caso. E vão rever-se e sabem que não conseguem sentar o miúdo num banco e dizer: "Agora vais ler, vais ser obrigado a ler", porque também não é a forma mais pedagógica de conseguir resultados. E portanto, diria que sim, há essa conjugação que tem que acontecer naturalmente entre o papel decisivo que vem de casa, mas depois das escolas. Eu não sei como é que é essa iniciação hoje feita nas escolas, se é que é feita para lá desse tal autocolante vistoso na capa dos livros do Plano Nacional de Leitura. Mas eu recordo-me de ter uma professora primária incrível, daquelas, como se diz, à moda antiga, uma senhora de bata, muito rígida, muito rigorosa, que pela terceira, quarta classe nos desafiou todos a levar um livrinho para a escola para iniciarmos uma espécie de clube de leitura, que nós plastificamos, porque aquilo, de facto, era para usar, estragar e consumir à séria. E tenho a certeza que isso fez toda a diferença. E também sei que o meu irmão não teve essa sorte com os resultados depois que se viriam a revelar anos mais tarde. E, portanto, acredito que para haver essa tempestade perfeita, e aqui no sentido positivo, temos que conseguir tentar conjugar estas variáveis todas.

Temos que ver a leitura como um hábito, como outra coisa qualquer, como aprender a nadar.

Sim, nós estamos aqui muito focados na cultura, mas eu acho que se há outra coisa muito interessante que sai deste estudo, e o coordenador fala disso nesta entrevista ao Observador, é que desse último capítulo que é feito por Miguel Lobantuno, há um detalhe muito interessante. A nossa vida social também mudou. E portanto, nós hoje, quando falamos daquela experiência mais convivial de ir ao cinema ou ir ao teatro, as pessoas vivem mais sozinhas ou desacompanhadas, não só em virtude da pandemia, mas também porque a nossa vida mudou. Aliás, já se fala que os amigos são a nova família e por aí fora. E ele levanta questões tão simples e talvez tão interessantes quanto, da mesma maneira que nós temos o bilhete de família, por que nós não temos um bilhete de amigos? Algo que te permita mudar a experiência de consumo cultural.

Pegando nessa ideia, e temos muito pouco tempo, um minuto, digo eu, com sorte. E na parte dos espetáculos, há outra dado importante e que reflete um dos grandes fatores decisivos no consumo ou não de cultura, que é, além da formação, tem a ver com o rendimento e capacidade financeira.

Obviamente, sim. E nós também nos tornamos mais preguiçosos. A cultura veio até nós e passou a vir até nós de uma forma muito mais massiva. E portanto, nós quando pensamos, por exemplo, que temos um filme, que é o mesmo filme disponível na Netflix e que entretanto vai estrear no cinema.

Já pagámos a assinatura.

Já pagámos a assinatura, não vamos ter que sair de casa, se calhar até está a chover, vamos chegar tarde. E portanto, tudo isto pesa, obviamente, na nossa decisão final.

Isso se formos dois ou três.

De todas as maneiras, há algum moralismo neste tipo de estudos. Não discuto a boa intenção dos seus promotores, obviamente, mas há algum moralismo, isso parece-me inequívoco. Mas volto a dizer que é também uma questão de política pública e nós não podemos estar sempre a elogiar a escola pública e depois ter que conviver com estes números de leitura miseráveis. Há alguma coisa aqui que não bate certo. Não digo que não se deva elogiar a escola pública ou o que for, mas então não podemos refilar com os números da leitura.

Eu sou apologista que podemos refilar com tudo e eu vou refilar com vocês que esticaram o tempo. Vamos ter que guardar as sugestões da semana para o início da segunda parte. Fazemos agora um curto intervalo, voltamos já a seguir. Estamos de volta para a segunda parte do "Pop Up". Maria Ramos Silva, Bruno Vieira Amaral e Pedro Boucher Mendes, recuperados ou mais ou menos das contas que fizemos à cultura em Portugal na primeira metade do programa, o que ainda não fizemos foi deixar as sugestões da semana. Vamos a isso e vamos começar pela Maria Ramos Silva, que essa semana traz três sugestões.

É o pijaminha, como tu dizes, o pijaminha de cultura. Para que não nos falte cultura. Um livro, chamado "As Telefónicas".

Uma matriosca.

Uma matriosca, exatamente. Um livro, primeiro, chamado "As Telefónicas", um conjunto de contos do chileno Roberto Bolaño, que a Quetzal acaba de lançar. Depois trago-vos banda sonora com os Miramar. Melhor que uma guitarra, só duas guitarras. Neste caso, conseguimos isso. Temos o Frankie Chavez com o Peixe, que entretanto tem um álbum novo, o Miramar 2, e que vão ter agora uma série de concertos. E por fim, uma série, que é um thriller da Showtime.

Que você queria muito ver.

Que eu queria muito. Eu pensava que isto ia ficar lá só pela Showtime.

Isto estreou quando?

E tu não soubeste de nada?

Ainda não estreou.

Tu não sabias sequer se ia estrear.

Vamos ter que aguardar.

Estávamos aqui neste impasse, mas por fim, sim, temos "Yellowjackets", um dos grandes sucessos do ano, dizem, que finalmente chegou à HBO. E eu acho que promete agarrar-nos aos olhos. Já comecei a ver e que pelo menos medo mete, vai meter-me bastante medo.

Vamos fazer o resumo da história em 15 segundos, 20.

Sim. Os mais novos já não se vão recordar disto.

Os mais novos és tu, sacanas.

Este programa hoje está estranho, de facto.

Jovens.

Mas certamente aquest painel se recorda desse célebre acidente de avião com uma equipa que foi parar no Uruguai. Salvo erro, foi algures no Uruguai.

Foi Uruguai.

Exatamente.

Pensei que ias falar do "Lost".

É parecido.

Vamos lá ter.

Envolve alusões ao "Lost". Aquilo com um desfecho bastante sinistro, não vou entrar muito por aí, mas com alguns sobreviventes. Neste caso, pisca muito o olho ao caso. É uma equipa de futebol de miúdas nos anos 90.

Futebol.

Futebol mesmo.

Nos Estados Unidos?

Futebol europeu, como eu conhecemos.

Soccer.

Soccer, exatamente. E que também se metem no avião e a coisa não corre muito bem. Algumas sobrevivem, outras não. E 25 anos depois andam a fazer um ajuste de contas com o passado.

O que é que afinal aconteceu.

E vamos percebendo que têm ali todas elas almas bastante sombrias e histórias bastante macabras.

Convém dizer que essa parte da história acontece nos anos 90.

Exatamente. E depois esta chega a 2021.

Cerca de 90% da banda sonora é música dos anos 90. Vale o que vale, meus amigos. Pedro Boucher Mendes, tens mais televisão para nós.

Sim, é também da HBO, "The Gilded Age". É a série que o criador de "Downton Abbey" fez e que foi para a HBO depois de ter sido planeada para outro canal. É sobre o tempo dos cowboys nos Estados Unidos, a expansão do caminho de ferro, só que esta passa-se em Nova Iorque, naquela Nova Iorque do final do século XIX. E é interessante para vermos como era a dinâmica. Foi na altura em que os Estados Unidos ultrapassaram a Inglaterra como centro do mundo, como nação mais rica, mais próspera, com mais ciência. E desse ponto de vista, é uma série onde se pode aprender. Em vez de lermos um livro sobre essa altura, podemos ver a série.

Toma. Bruno Vieira Amaral, o homem que é o verdadeiro Plano Nacional de Leitura. Traz-nos um livro.

É verdade, mas olha, depois daquilo que nós falámos, já não tenho vontade nenhuma de recomendar nada.

Não faças isso.

Vamos a isso.

Muito menos livros.

Então recomenda um prato.

Eu, neste momento, vou não recomendar um livro que é o "Mortal e Rosa", de Francisco Umbral.

Ele não vai recomendar, mas leiam.

Olhem para ele.

Eu estou a não recomendar este livro.

Ok.

Saiu agora pela Tinta da China, com tradução e prefácio do Carlos Reis Marques. É um livro de um escritor espanhol, o Umbral, que morreu em 2007, se não estou em erro, e que foi uma figura muito polêmica no meio literário espanhol e cujo livro mais conhecido, também mais íntimo, mais profundo, é este "Mortal e Rosa", que é um livro de divagações, de memórias, de especulações e também uma reflexão sobre a perda, neste caso, a perda de um filho. O filho do Umbral morreu aos seis anos de leucemia. E ele já estava a escrever este livro e acabou por introduzir esse tema e essa perda dolorosa pessoal no livro, e o livro acaba por ser uma reflexão sobre esse sentimento de perda. Também é um livro de prosa poética, mas eu não recomendo. Eu estou a dizer, não leiam. Já que não leem, continuem sem ler, não comprem livros, não leiam.

Não me chateiem.

Não façam nada. Vão ver a Netflix, que eu também vejo. E pronto.

Nós se calhar se tornássemos os livros ilegais, proibidos, se calhar as pessoas iam ler. Pode ser uma desculpa.

Acho que sim, vamos proibir. Tive aí uma ideia, vai correr-nos tão bem esta ideia. Ora, peço-vos que atentem no trocadilho que se segue. Agora que despachámos os preliminares, podemos ir ao prato principal desta semana e servimos sexo no cinema, no Pop de Arroz. Peço desculpa. Já tínhamos feito referência a esta questão em programas anteriores. Agora temos desculpas mais concretas para lançar o tema na mesa. No final do ano passado, o realizador Paul Verhoeven, que é um dos melhores amigos do nosso Bruno Vieira Amaral, como toda a gente sabe, e que fez, por exemplo, "Instinto Fatal", disse que o cinema está a tender para o puritanismo Há poucos dias, a revista "New Yorker" juntou críticos à volta da questão: para onde foi o sexo no cinema? Que é uma questão que também nos apoquenta e é mais ou menos por aí que vamos seguir conversa. Pedro Buchinho Mendes, o cinema está puritano, como disse Paul Verhoeven, daquilo que tens visto? Ou está a caminhar para algum tipo de puritanismo?

Havia tanto para dizer.

Vamos a isso.

O apetite pelo picante diminuiu porque a população mundial tem acesso à internet e, portanto, a internet está cheia de pornografia. Aliás, a pornografia foi o grande motor da internet, como já tinha sido do vídeo e depois do DVD. E, portanto, o apetite por cenas mais calientes no cinema e nas séries diminuiu um pouco.

Porque estão muito mais acessíveis, é mais fácil lá chegar.

Sim, as pessoas, no fundo, governam-se noutro sítio.

É uma boa forma de colocar a questão.

Antigamente, o filme, se tinha um pouco mais de picante. Eu lembro-me quando era miúdo, eu não, mas os meus amigos arrastavam-me.

Claro.

Eu só lia livros.

Tu conheces pessoas que faziam isso, claro.

Quando os meus amigos e eu suspeitávamos que havia uma cena mais quente num filme, corríamos a ver o filme, independentemente dos seus méritos.

Naturalmente.

Dos atores, dos seus realizadores, etc. Hoje será diferente. Bem ou mal, será diferente. Parece que até pode ser uma questão de saúde pública, não sei bem se é esta a terminologia, porque os jovens viverão a sexualidade de uma forma diferente, porque muitos consomem pornografia, do que as pessoas que não consumiam pornografia daquela forma a viveram. Não estou a dizer qual é que é melhor, não faço a menor ideia, não sou especialista. Isto não é o assunto de hoje. Mas eu acho que sim, acho que o cinema, muito por causa da televisão. O meio televisão aproximou-se muito, em termos de orçamento, de ambição artística e de meios daquilo que era o cinema, e o cinema está a ter alguma dificuldade, parece-me. E essa será só mais uma questão. No nosso tempo, todos os filmes europeus, sobretudo os franceses, tinham sempre uma mulher nua, pelo menos da cintura para cima. E agora, nem esses. Vi noutro dia um filme francês onde não havia nada disso. Fiquei um pouco desiludido, tenho que dizer.

Maria Ries, não sabes se estás a dizer.

Este momento foi ótimo.

Maria, já que estás aí, tu tens uma teoria muito mais densa e filosófica.

É complexa.

Do que, e citando Pedro Buchinho Mendes, as pessoas governam-se de outra maneira. Falávamos disso há pouco tempo e tu dizias que eventualmente haverá uma tentativa consciente, ou vontade consciente de: se vou ao cinema, vou evitar a vida real, vou ver outra coisa. E, como bem sabemos, o sexo faz parte da vida real.

É mais do que isso, porque nós temos números.

Sinto que é um pouco estranho, porque o sexo é, em princípio, aquela parte da vida real que importa não evitar.

Por exemplo, sim. Mas a questão é que nós, para além dessa eventual tentação, desse escapismo, que depois acabas por escapar tanto, que também escapa-te o sexo.

Sim.

Temos números muito concretos de estudos relativamente recentes que dizem que hoje se faz menos sexo do que se fazia em outras gerações, outra altura. E, portanto, se nós acreditamos que o cinema, de alguma maneira, vai mimetizando a vida real.

Que é o chamado: uma coisa leva à outra.

Acompanhando as tendências, é o chamado uma coisa leva à outra. Alguém comentava neste artigo da New Yorker, e eu identifico-me um pouco com isto, acho que faz sentido. Essa ideia, essa marvelização da ficção, que até há algum tempo seriam conteúdos mais adolescentes ou mais para miúdos ou jovens adultos, e que hoje é também por eleição dos adultos. Portanto, de alguma forma é como se já não houvesse conteúdos, de facto, para adultos, porque também já não há adultos. E quando eu digo conteúdos para adultos, não são os conteúdos com bolinha vermelha no canto, são conteúdos maduros para pessoas que estão numa fase da vida, que estariam, à partida, interessados nesses conteúdos. O problema é que as pessoas também são adultas mais tarde, creio eu, e portanto, essa eterna adolescência que se prolonga também se reflete depois nos seus consumos e naquilo que provavelmente encontram nos conteúdos. O Pedro falava dessa questão de que eventualmente a pornografia matou, de alguma forma, as cenas de sexo mais óbvias no cinema. Eu compreendo isso e acho que sim, por um lado, mas por outro, o outro comentário também abordava um lado interessante, que é: ao mesmo tempo, o espectador, por exemplo, de um filme ou de uma série, tem uma expectativa de que a cena de sexo seja verosímel, mas não seja excessivamente realista, ou seja, que haja ali uma espécie de película artística a cobrir aquilo.

Até porque a pessoa vai ao cinema, não quer ver o sexo que eventualmente tem em casa.

Exatamente. Está à espera de um artifício. E portanto, quando esse artifício também não existe, escapa à identificação.

O sexo no deste deviam levar as pessoas ao cinema. Certo?

Claro, mas lá está, quando não tinhas excessivamente disponível. Tu hoje consegues ter acesso a ele sem ir ao cinema.

Pronto, exatamente. Mas muitas cenas mais picantes em muitos filmes são um isco.

Sim. E não só, e era aí que eu queria concluir, é que tu tens filmes como, por exemplo, fenômenos como o "Blue is the Warmest Colour", que tem várias cenas de sexo explícito e que na altura várias delas, e isso foi notícia, acabaram em sites de pornografia. Portanto, há aqui uma espécie de transferência de conteúdos.

Onde é que começa uma coisa e acaba outra.

Onde é que começa uma coisa e, na verdade, tu pensas que as pessoas já estão excessivamente preparadas para o conteúdo, mas continuam a excitar-se com aquilo, portanto, aquilo continua a fazer o seu caminho para sites mais obscuros. Não é, de facto, simples pensar onde é que isto termina e acaba.

Quais são as fronteiras?

Sim, agora, depois também há outro dado aqui muito relevante, é que nós estamos a falar de um mundo pós #MeToo, em que se introduziu a figura do coordenador de intimidade nas grandes produções. A Kate Winslet, por exemplo, fala muito disso. Ela que já fez uma série de cenas de sexo em fases temporais muito distintas e passou por esse pré e já tem passado agora por este pós, e é totalmente diferente. Quer dizer, quando tu tens pessoas a editar a intimidade e a proximidade entre pessoas e o tipo de cena de sexo que tu podes ou não ter.

Algo se transforma inevitavelmente.

Algo se transforma e, portanto, aquilo que nós vamos ver também será necessariamente diferente.

Exato. Bruno Vera Amaral, acho que o Pedro abordou aqui este tema. Será que o sexo e a vida real, de forma mais abrangente, passaram mais para as séries? Será que há uma espécie de acordo não oficial em que no cinema escapamos mais da vida real e nas séries, então na televisão, vamos por esse caminho?

Não parece que isso aconteça. No caso do sexo, especificamente, não acho que haja essa transferência. O que acho é que houve, de facto, um desaparecimento de várias categorias, como o filme erótico, o thriller erótico. Até aquela categoria que chegou quase a ser uma categoria de cinema intelectual, do filme erótico. Desapareceu quase por completo.

Dá-me exemplos.

Não tens os filmes, por exemplo, quem é o Buñuel? Até o Bergman, que se calhar não tinha assim tantas cenas de nudez, se calhar alguns dos filmes eram quase eróticos sem mostrar nada. E esse tipo de cinema, de facto, um cinema para adultos, no sentido intelectual do termo, desapareceu por completo. E as cenas de sexo naqueles filmes mais normais de Hollywood, também desapareceram. Tu tinhas nos filmes policiais as cenas de perseguição, tinhas tiroteios e tinhas a cena de sexo, e a cena de sexo hoje desapareceu por completo do cinema mainstream. Claro que havia uma exploração, em certos casos, exagerada, sobretudo do corpo feminino, e que hoje já não é possível. Mas, ao mesmo tempo, desapareceu por completo o sexo enquanto coisa importante. É verdade que a América, e isso se calhar nós também enquanto consumidores consumimos mais coisas vindas da América, pode ser mais puritana, mas também é mais mercantilista, as duas coisas ao mesmo tempo. Portanto, se uma coisa vender nos Estados Unidos, mesmo que isso escandalize os puritanos, os americanos vão vendê-la. E isso é que me leva a acreditar que as pessoas, o público atual, não está interessado em ver sexo no cinema, nem sexo de forma em geral, a não ser, lá está, aquilo também que o Pedro dizia, no caso da pornografia. Porque eu ainda sou do tempo, e vocês também são.

Mesmo que digam que não.

Em que o Playboy, aquela série passava na SIC às sextas-feiras à noite, à 00:17 para ser mais preciso.

Cá está.

E aquilo era uma coisa do outro mundo. E as pessoas viam, havia uma curiosidade para se ver a nudez, que hoje, com a pornografia acessível na internet.

Parece uma brincadeira.

Agora vais ver um filme em que tens duplos dos atores em movimentos coreografados e com iluminação de bom gosto.

Não brinque comigo.

Mas claro. O que é que vais fazer? Vais ver tipos a simular. Isso deixou de ser um atrativo para o público. Mas depois há a própria reflexão sobre o corpo, sobre o sexo, e aí eu tenho pena que este clima atual não seja propício, de facto, ao aparecimento de realizadores como o Paul Verhoeven e como o David Cronenberg, que mais do que cineastas do sexo, são dois grandes cineastas do corpo. E que nós somos herdeiros.

Parece, de facto, que não vem aí sucessor, não é? De nenhum deles.

Não há.

Sim, quando falamos do fim do sexo, também falamos em última instância da tensão sexual. Porque às vezes tu não precisas de chegar a esse ponto.

Não tem que estar à tua frente.

Sim, eu recordo, por exemplo, o célebre descruzar de pernas da Sharon Stone, que é um momento que vale no cinema por 10 cenas de sexo.

E no próprio filme teve muito mais impacto do que qualquer cena de sexo que aparece no filme.

Sim, portanto, quando o Bruno falava bem dessa história que é da arte do corpo, mais do que até da arte do sexo.

E o Verhoeven é o exemplo disso. Claro que ele depois leva as coisas também para a questão do sexo, que continua a ser mais chocante. A violência é muito mais tolerada do que o sexo. Dou um exemplo: nós somos herdeiros de uma cultura que, na verdade, celebra o corpo flagelado de um homem. Crucificado e flagelado. E nesse sentido, eu acho que o filme "A Paixão de Cristo", se calhar, é dos últimos grandes filmes sobre o corpo e que só terá passado, precisamente por causa da associação religiosa. Mas eu gostava de filmes como os filmes do Verhoeven e do Cronenberg. "A Mosca", estou a pensar, por exemplo, n'"A Mosca" ou "Videodrome". Outros filmes deles, que eram filmes que hoje em dia eu acho que não seriam feitos, e acho que não há interesse das pessoas e muito menos interesse nessa questão do sexo, do debate do sexo enquanto coisa importante. Já não apenas o sexo para estar ali a atrair alguns espetadores pelas cenas mais picantes.

Mas como elemento fundamental na narrativa.

Mas o debate sobre a importância do sexo.

Muito bem. Eu sei que vocês queriam mais. Desculpem lá, agora também era escusado este trocadilho. Portanto, vamos avançar e antes do final do programa, viajamos no tempo, porque isso é que era bom. Este sábado, Jeff Daniels faz 67 anos e vai daí, eu pergunto-vos qual o vosso filme favorito com o ator americano. Maria Ramos Silva.

Vou escolher dois.

Pode escolher uma série.

Não, vou ficar só com dois. O mais sério, "Lula e a Baleia".

"Lula e a Baleia", que é realizado por aquele senhor chamado Noah Baumbach. Que ninguém sabe dizer.

E um título bastante mais palerma, o "Doidos à Solta" com o Jim Carrey.

"Dumb and Dumber". Esse clássico que divide o mundo entre quem gosta dele e quem não gosta.

Há quem não goste?

O Pedro gosta. Claro que há sempre alguém.

Era esse o filme que eu ia dizer. Acho que o Jeff Daniels recebeu um cachê ridiculamente baixo, enquanto que o Jim Carrey recebeu um cachê ridiculamente alto. Sim, é o meu filme favorito dele e recomendo também uma série, que eu acho que está numa das plataformas, chamada "The Looming Tower", onde o Jeff Daniels faz um papelasso. É um ator de que gosto, é um daqueles atores que nós ficamos contentes quando percebemos que está num filme ou numa série.

E Bruno Vieira Amaral, qual é a tua escolha?

Eu nunca gostei do Jeff Daniels.

Ora, cá está.

Gostei muito quando ele levou um balázio na perna no "Speed". Fiquei muito contente. E escolho dois filmes: "A Rosa Púrpura do Caire", do Woody Allen, e o "Aracnofobia".

Adoro o "Aracnofobia".

Quem é que não adora?

Porque provavelmente, se calhar, o filme é péssimo, porque eu já não o vejo há muitos anos.

Mas sempre que calças os chinelos, sprintas para lá para dentro para ver se não está lá uma aranha.

Ainda hoje penso naquilo. Nunca fui amigo de aranhas. Adoro, acho aquilo fantástico. Vocês não querem saber, mas eu vou continuar a contar esta história. Eu lembro de ver aquilo em garoto e eu estava realmente em pânico com aquilo, mas vi o filme até ao fim.

Pois claro.

Várias vezes.

E também ficaste em pânico quando viste o "Instinto Fatal".

Em pânico total e absurdo.

Meu Deus!

Meu Deus, o que é que se passa aqui?

Não vamos por aí.

Muito bem. Final de mais um "Pop-Up". Prometemos voltar na próxima semana. Até lá.